O pensamento bakhtiniano se distingue da perspectiva marxista no trata- mento da ideologia. Enquanto para determinada corrente do marxismo oficial (que Bakhtin considerava mecanicista) a ideologia era vista como falsa consciência – vol- tada para o ocultamento da realidade social por parte da classe dominante, no intuito de se manter a ordem das coisas –, para Bakhtin e o Círculo a ideologia se manifes- ta em outros termos, como já foi abordado no início deste capítulo. Em primeiro lu- gar, ela não é algo a priori, não é dada pronta e acabada e nem habita apenas na consciência individual do homem. Ideologia, para o pensamento bakhtiniano, tem relação com o que há de intersubjetivo na construção de sentidos comuns a uma coletividade. Ela leva em conta que os signos sociais são sempre interindividuais, carregam em si sentidos que não são dados por um único ser, mas por esse ser em contato com outros. Se os signos, sociais, são ideológicos, então a discussão sobre o que é ideológico ou não ganha outros contornos, ampliando-se. O ideológico não é – tal qual compreende certa tradição marxista – o falso, mas o embate entre diferen- tes sujeitos, ou grupos de sujeitos, como classes sociais, por exemplo, que utilizam os mesmos signos para se comunicar, sejam eles quais forem. Nesse aspecto, a palavra, signo ideológico por excelência, assume caráter crucial, haja vista a sua ubiquidade nas relações sociais.
A palavra não está apenas na base material de produção e reprodução da vida (infraestrutura) ou, apenas, nas manifestações políticas, jurídicas, intelectuais,
religiosas, etc. (superestruturas). Ela habita todos esses espaços sociais e, por meio do embate dialógico entre sujeitos diferentes, no meio deles assume os mais diver- sos sentidos. O signo não apenas reflete, mas refrata a realidade (ver item 2.1). A realidade concreta insta o sujeito a falar sobre ela. Objetificada, apresenta informa- ções sobre si para o sujeito, mas ele, repleto de mediações, de falas de outrem, ca- racterizado por uma posição particular no mundo (de classe, gênero, idade, inten- ção, etc), envia para o objeto outras definições, que podem mudá-lo, refratá-lo. Por isso é que, para Bakhtin e o Círculo, a infraestrutura não determina, unilateralmente, as superestruturas, como preconiza certo pensamento marxista do qual Bakh- tin/Voloshinov (2014) discordam no livro Marxismo e Filosofia da Linguagem. Pelo contrário, desse mirante, infraestrutura e superestruturas são inseparáveis. O que acontece na primeira pode trazer reflexos para a outra, sim, mas o pensamento bakhtiniano admite também o caminho inverso. Há reflexos e refrações em ambas as direções.
Bakhtin e o Círculo vislumbram a coexistência de dois tipos de ideologia. A primeira, e mais visível, pode ser classificada como oficial, e, via de regra, caracteri- za-se por ser o conjunto de ideias relativamente dominantes em dado sistema social. A outra é a ideologia do cotidiano, que leva a marca da comunicação social na vida cotidiana, um tipo de interação “extraordinariamente rico e importante” (BAKH- TIN/VOLOSHINOV, 2014, p. 37). Esta comunicação não se vincula a uma esfera ideológica particular: está diretamente ligada aos processos de produção e, ao mesmo tempo, diz respeito às esferas das diversas ideologias especializadas e for- malizadas. Em outros termos, a ideologia do cotidiano tem relações tanto com a infra quanto com as superestruturas e, nesses dois campos, produz sentidos que ora re- produzem a realidade material e ora interferem nela. Disso decorre que não há hie- rarquia entre os diferentes tipos de ideologia. A ideologia da classe dominante, ape- nas por ser dominante, não oblitera completa ou eternamente o pensamento das classes dominadas. Construídas por consciências individuais formadas na coletivi- dade por meio de material semiótico – “se privarmos a consciência de seu conteúdo semiótico e ideológico, não sobra nada” (BAKHTIN/VOLOSHINOV, 2013, p. 36) – ambas as ideologias não estão fechadas, imunes a mudanças, mas em transforma- ção.
Classe social e comunidade semiótica não se confundem. Pelo segundo termo entendemos a comunidade que utiliza um único e mesmo código ide- ológico de comunicação. Assim, classes sociais diferentes servem-se de uma e só língua. Consequentemente, em todo signo ideológico confrontam- se índices de valor contraditórios. O signo se torna a arena onde se desen- volve a luta de classes. Esta plurivalência social do signo ideológico é um traço de maior importância. Na verdade, é este entrecruzamento dos índices de valor que torna o signo vivo e móvel, capaz de evoluir. O signo, se sub- traído às tensões da luta social, se posto à margem da luta de classes, irá infalivelmente debilitar-se, degenerará em alegoria, tornar-se-á objeto de es- tudo dos filólogos e não será mais um instrumento racional e vivo para a so- ciedade (BAKHTIN/VOLOSHINOV, 2014, p. 47).
Dessa forma, não há como compreender ideologia como falsa consciência ou simplesmente como a expressão de uma ideia, mas como expressão de uma to- mada de posição determinada. Assim, ao ressaltar o caráter interindividual de cons- trução do signo e, consequentemente, da ideologia, o pensamento bakhtiniano se afasta dos determinismos, apontando para uma relação tensa entre ideologias for- malizadas e a ideologia que é construída diariamente no fluxo da vida cotidiana, nas conversas informais, corredores, ruas, rodas de amigos, escolas, bares, igrejas. Ide- ologia oficial e ideologia do cotidiano, como em um diálogo interpessoal, estão em embate, refletindo e se refratando mutuamente.
Tal dinâmica é perceptível também no corpus desta pesquisa. Há um emba- te entre duas ideologias relativamente formalizadas. A maioria dos veículos de co- municação analisados apresenta o conjunto de medidas liberalizantes como a solu- ção dos problemas de produtividade, convertidos na chave de todos os problemas nacionais. Esta visão é o contraponto ao pensamento e às práticas macroeconômi- cas defendidas pelo governo, que até então apostava em uma visão política antagô- nica, que pressupunha a intervenção na economia, a regulação de setores conside- rados fundamentais à dinâmica econômica, o investimento social como forma de manter o crescimento, reduzir desigualdades sociais, gerar empregos, entre outras medidas de cunho keynesiano. Se, por um lado, há o embate entre essas duas ideo- logias formalizadas (neoliberalismo e keynesianismo/petismo), há, nas duas, a atua- ção de outras forças que acabam por modificá-las. No campo de existência da vida concreta e imediata, das relações casuais e fortuitas, da vida cotidiana, nasce esse outro sistema de referência, que pode refletir a vida de todo dia, mas também alterá- la.
Os meios de comunicação, como veremos a seguir, estão imersos em am- bos os campos ideológicos (oficial e do cotidiano). Defendem determinada ideologia
oficial, bebem da sua fonte, existem, aliás, por sua causa, mas também se alimen- tam da ideologia do cotidiano, que, por sua vez, cotidianamente, por eles também é modificada. Se a palavra é o signo ideológico por excelência, o fruto do trabalho dos meios de comunicação, a palavra contextualizada, dialogicamente posicionada, é uma amostra das tensões de um diálogo ainda inconcluso: também um campo de batalha das lutas entre e no interior das classes sociais.