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Para Bakhtin e o Círculo, praticamente tudo o que é comunicado está emol- durado em estruturas discursivas previamente caracterizadas e relativamente está- veis que não são propriamente formas da língua, mas configurações típicas de enunciados. Cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os chamados

gêneros do discurso. “A riqueza e a diversidade dos gêneros do discurso são infini- tas porque são inesgotáveis as possibilidades da multiforme atividade humana e porque em cada campo dessa atividade é integral o repertório de gêneros do discur- so [...]” (BAKHTIN, 2011, pp. 262). Assim, à medida que um campo da linguagem se desenvolve, os gêneros do discurso se aperfeiçoam e se multiplicam, complexifica- ção dialógica que origina novas formas de manifestação humana (novos enunciados e gêneros).

Entre os gêneros do discurso, há estabilidade, o que possibilita a comunica- ção, pois não há a criação de “idioletos” subjetivos a cada intervenção discursiva, mas há também instabilidade, visto que na comunicação real e concreta ocorrem deslocamentos, mudanças e “carnavalizações” das configurações discursivas está- veis.

Bakhtin (Ibid.) ressalta a existência de uma diferença essencial entre gêne- ros primários (simples) e secundários (complexos). Os secundários, romances, dra- mas, pesquisas científicas, gêneros publicísticos, entre outros, “surgem nas condi- ções de um convívio cultural mais complexo e relativamente muito desenvolvido e organizado” (Ibid, pp. 263). Eles incorporam os primários, que, por sua, vez, são formados a partir da comunicação interpessoal imediata (diálogo cotidiano).

Tipos relativamente estáveis de enunciados, os conteúdos jornalísticos são, então, gêneros discursivos secundários, que, dialógica e ideologicamente, refletem e refratam aspectos da vida cotidiana. O corpus desta pesquisa é composto por dois diferentes tipos de textos jornalísticos, a reportagem e o editorial. A primeira pode ser descrita como "o relato ampliado de um acontecimento que já repercutiu no or- ganismo social e produziu alterações que são percebidas pela instituição jornalística" (MELO, 2003), enquanto o outro é conhecido popularmente como o “emissário da opinião do dono do veículo de comunicação” (Ibid.).

Partindo do trabalho de outros pesquisadores de comunicação, Melo (2003. p. 65) propõe a classificação dos gêneros jornalísticos em dois grupos: jornalismo informativo (como a nota, notícia e a entrevista) e jornalismo opinativo (comentário, artigo, coluna, entre outros). Por essa lógica, a reportagem seria considerada um gênero informativo enquanto o editorial seria opinativo. Como o próprio autor obser- va, no entanto, a taxonomia tem função predominantemente didática, haja vista que, por exemplo, como ocorre no próprio corpus desta pesquisa, aliás, há reportagens que opinam – The Economist opina e muito – e editoriais que informam.

De qualquer forma, caracteriza a reportagem o aprofundamento de um fato ou aspecto da realidade cotidiana, com a inserção de vozes e dados de diferentes fontes, com vistas à interpretação do tema abordado. Considerando apenas a forma, “50 anos de soneca” (THE ECONOMIST, 2014 a) pode ser classificada como uma reportagem (jornalismo informativo), mas quando se leva em conta conteúdo e posi- cionamento axiológico o texto se aproxima ao que Melo (2003) e outros pesquisado- res de gêneros jornalísticos classificam como jornalismo opinativo.

Do ponto de vista da orientação teórico-metodológica desta pesquisa, uma taxinomia precisa do seu corpus não é prioritária, pois sendo a palavra o signo ideo- lógico por excelência, e sendo os discursos compostos por enunciados que refletem e ao mesmo tempo refratam a realidade material, qualquer intervenção jornalística sobre a realidade é um ato ideológico, no sentido de que o ideológico é o embate semiótico por meio do qual os sentidos, que são sempre sociais (interindividuais), são adquiridos, percebidos, modificados ou emitidos. Para o Círculo, todo ato comu- nicativo é uma posição axiológica, ou seja, não é neutro.

É preciso reconhecer, entretanto, que, principalmente no que diz respeito ao editorial enquanto gênero jornalístico relativamente estável há uma tradição teórica e também pragmática (do cotidiano laboral dos jornalistas) que define sua forma, con- teúdo e função e, assim, influencia a maneira como o público leitor o recebe. Para a maioria das pessoas, e esta pesquisa leva em conta esta ideia, editorial é o gênero que expressa a opinião oficial, institucionalizada, da instituição jornalística enquanto empresa capitalista que se pronuncia a respeito dos fatos e aspectos relevantes da realidade.

[...] nas sociedades capitalistas, o editorial reflete não exatamente a opinião dos seus proprietários nominais, mas o consenso das opiniões que emanam dos diferentes núcleos que participam da propriedade da organização. Além dos acionistas majoritários, há financiadores que subsidiam a operação das empresas, existem anunciantes que carreiam recursos regulares para os cofres da organização através da compra de espaço, além de braços do aparelho burocrático do Estado que exerce grande influência sobre o pro- cesso jornalístico pelos controles que exerce no âmbito fiscal, previdenciá- rio, financeiro (PRADA,1977, apud MELO, 2003, p.104).

O editorial é, por excelência, um espaço de afirmações e contradições, no qual as empresas manifestam articulações políticas, e que tem a vocação de apre- ender e conciliar os diferentes interesses que perpassam a operação cotidiana da

empresa jornalística (MELO, 2003). Voltado ao público geral, a opinião contida em um editorial “constitui um indicador que pretende orientar a opinião pública” (Ibid.).

Historicamente, no Brasil, os editoriais têm elegido o Poder Público como in- terlocutor preferencial, no sentido de que as instituições jornalísticas procuram dizer aos dirigentes do aparelho burocrático do Estado como gostariam de orientar os as- suntos públicos (MELO, 2003, p. 105):

E não se trata de uma atitude voltada para perceber as reivindicações da coletividade e expressá-las a quem de direito. Significa muito mais um tra- balho de "coação" ao Estado para a defesa de interesses dos segmentos empresariais e financeiros que representam. Esta é a nossa percepção do editorial na imprensa brasileira.

Normalmente, os editoriais são escritos por funcionários previamente seleci- onados para exercer uma função de confiança, que exige o conhecimento da linha discursiva do veículo. Não é algo meramente técnico, mas eminentemente político. O editorialista conta com o apoio dos colegas de redação e também com fontes ex- ternas, que podem ser acionadas para o esclarecimento ou aprofundamento de um tema. Embora a rotina laboral e o ritmo de trabalho de um jornal ou de qualquer ou- tro veículo de comunicação seja um fator impeditivo para um controle mais próximo do produto editorial, em casos importantes a própria diretoria pode emitir a palavra final sobre um texto como esses. De qualquer forma, o discurso da empresa, neste gênero especialmente, opera de forma marcante sobre as enunciações do profissio- nal editorialista. Não há, então, que se falar em censura, pois este sabe os limites aos quais o seu discurso precisa estar restrito. Assim, resulta desse processo produ- tivo um conteúdo que, se não defende o posicionamento da empresa jornalística, minimamente, também não lhe contraria, muito menos a outros segmentos caros à manutenção do negócio jornalístico.

Outro aspecto marcante é que, por representarem a posição institucional, os editoriais não são assinados pelo profissional que traduziu e materializou a opinião da empresa.

Já quanto à aparência, os editoriais se assemelham ao gênero ensaio, po- rém são embebidos de um senso de oportunidade, diferindo o editorial do seu primo literário pela brevidade e por insistir em sua natureza contemporânea (BOND, 1962, p. 228 apud MELO, 2003, p. 107).

Em síntese, e isto torna este estudo peculiar, os quatro conteúdos a serem aqui analisados dialogicamente demonstram de forma nítida a posição político- ideológica dos seus respectivos grupos de mídia, não apenas no que tange ao tema abordado – a produtividade do trabalhador brasileiro – mas também às suas posi- ções axiológicas, ou seja, o lugar de onde falam, o que costumam falar, para quem e também os porquês. São todos textos que emitem opiniões e que, portanto, expres- sam os valores e interesses das instituições jornalísticas enquanto empresas capita- listas.

2.9 CONCEPÇÕES DE TRABALHO E TRABALHADOR NO CORPUS DA PESQUI-