5 DIÁLOGOS AUTO(TRANS)FORMATIVOS COM AS COAUTORAS E O
5.1 EM RODA, NA RODA EM CONSTANTE MOVIMENTO
5.1.3 Emersão de Temáticas da existência do assombro da
O Berço e o Terremoto Os versos, em geral, são versos de embalar, como eu às vezes os tenho feito, não sei se por simples complacência...
ou pura piedade. Contudo, os verdadeiros versos não são para embalar - mas para abalar. Mesmo a mais simples canção, quando a canta um Camela Lorca, desperta-te a alma para um mundo de espanto
Nos Círculos Dialógicos, a Emersão de Temáticas se deu naquilo que Quintana poetisa ―os verdadeiros versos não são para embalar – mas para abalar‖; assim nos víamos em nossos encontros, em nossas rodas, abalados pela conjuntura funesta de opressão político-social em que professores, em constante luta por seus direitos e dignidade, não suportam mais os ―versos de embalar‖, seja do governo seja da sociedade e da própria escola institucionalizada. Na Pedagogia do Oprimido (2011), Paulo Freire salienta que ―Será a partir da situação presente, existencial, concreta, refletindo o conjunto de aspirações do povo, que poderemos organizar o conteúdo programático da educação ou da ação política‖ (FREIRE, 2011, p. 100).
Desta forma, a Emersão das Temáticas aflorará a reflexão sobre como a existência nos remete a conflitos históricos-sociais que nos instauram no mundo, uma vez que nos constituímos seres históricos inacabados que, conscientes dessa incompletude, podemos promover a transformação da nossa própria vida. Em Por uma Pedagogia da Pergunta (1985)
A existência humana é, porque se fez perguntando, à raiz da transformação do mundo. Há uma radicalidade na existência, que é a radicalidade do ato de perguntar. Exatamente, quando uma pessoa perde a capacidade de assombrar-se, se burocratiza. Me parece importante observar como há uma relação indubitável entre assombro e pergunta, risco e existência. Radicalmente, a existência humana implica assombro, pergunta e risco. E, por, tudo isso, implica ação, transformação. A burocratização implica a adaptação, portanto, com um mínimo de risco, com nenhum assombro e sem perguntas. Então a pedagogia da resposta é uma pedagogia da adaptação e não da criatividade. Não estimula o risco da invenção e da reinvenção. Para mim, negar o risco é a melhor maneira que se tem de negar a própria existência humana (FREIRE; FAUNDEZ, 1985, p. 24). Essa radicalidade, na existência que transforma o mundo, de assombrar-se, da capacidade de não banalização dos quefazeres, das perspectivas, do estar sendo no mundo, essa urgente capacidade de ação de transformação se dará na constituição de possibilidades abertas à pergunta, ao diálogo, ao assombro. Com essa perspectiva, o devir para o esperançar se faz e refaz em cada momento de troca, de busca pela palavra minha, nossa, do outro em comunhão para um ser escola melhor, um ser homem/mulher melhor, porque - como canta Thiago de Mello -‖ o nosso trabalho não é pena paga por ser homem mas o modo de amar e de ajudar o mundo a ser melhor‖ (MELLO, 1965).
Diante disso, novamente nos remetemos a esperança, esta que fecunda o amor e a fé sem os quais o esperançar perderia qualquer potência, deixando de ser força criadora e tornando-se mera omissão pelo esperar. O amor, a amorosidade –
muitas vezes vistos com desdém nas constituições cientificistas da academia – ganha força e coragem pela ação de homens subversivos a exemplo de Paulo Freire que, com fraternidade, entoa: ―Não há, também, diálogo, se não há uma imensa fé nos homens. Fé no seu fazer e refazer. De criar e recriar. Fé na sua vocação de Ser Mais, que não é privilegio de alguns eleitos, mas direito dos homens‖ (FREIRE, 1983, p. 95).
Sendo assim, nos círculos dialógicos, a Emersão de Temáticas, junto aos docentes do Ensino Médio Noturno, deu-se na perspectiva de compreendermos ―quem somos nós‖ (MELUCCI, 2004) inseridos neste universo tanto da educação quanto de sujeitos no mundo, naquilo que diz respeito à falta de possibilidades para a escola pública como transformadora ativa/viva de sujeitos-gente e na esperança como refúgio possível. Isso se reflete na fala dos coautores da pesquisa.
Edemir: Eu não diria sobreviver, mas eu acho que a gente tem que
reinventar o lugar, o lugar (escola) ele precisa ser reinventado, eu diria assim que aqui nós precisamos fazer uma autocrítica de repente, porque nós estamos com esse comportamento nesse lugar, nós já vivemos coisas até piores, mas esse lugar de desunião, eu acho um absurdo a gente se atrapalhar para ter um tempo para pensar as coisas da nossa formação.
Marlene: É um absurdo!
Edemir: É um lugar que não só se faz coisas por fazer, para cumprir, mas é
experiência de vida, eu acho que nós, como escola, estamos vazios e não é só opinião minha, têm muitas pessoas dizendo que estamos vazios, porque um grupo não se alimenta só de sala de aula, um grupo se alimenta de esperança.
Marlize: Do afeto.
Edemir: A gente se perdeu, a gente está muito desgastado nesse sentido e
aí a gente fica desesperançado, a gente fica frágil, a gente fica desolado, se vocês pegarem... analisem a questão, o que a gente fez para abrilhantar a nossa resistência? O que a gente fez? De resistência como grupo assim.
Sandrinha: Para se fortalecer.
Edemir: O que a gente fez para se fortalecer? Nada! Perguntem outra coisa
que eu não perguntei. Nada, a gente fez uma greve assim e ali nos destruiu, ali a gente desistiu, voltou.
Percebemos que o grupo de professores encontra na escola a falta de união e engajamento para que se fortaleça alguma ação coletiva dada pela resistência. Esse isolamento provoca o sentimento de vazio que busca na esperança o alimento que a sustente. Unidos em nossas vozes, por vezes silenciadas, por vezes aos gritos, nós existimos e resistimos como profissionais que somos no Ensino Médio Noturno para que sejamos reconhecidos como GENTE.