• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO III PROCESSOS DE COMUNICAÇÃO E AS OPERADORAS DE

4.3. Promoção da saúde e empoderamento 139

4.3.2. Empoderamento, estratégias e o sistema de saúde brasileiro 146

Conforme o que foi exposto, é possível depreender que a

promoção da saúde se apoia na democratização das informações e num trabalho conjunto de toda a sociedade para a superação dos problemas, envolvendo a descentralização do poder e as ações multidisciplinares e intersetoriais, além da participação da população na formulação de políticas públicas e nos processos de decisões. Onde a criação de espaços para o

exercício da cidadania é um elemento essencial para o

empoderamento/libertação da população, faz-se necessário desenvolver processos participativos que promovam o desenvolvimento da capacidade dos indivíduos controlarem situações, a partir da conscientização dos determinantes dos problemas ou da formação do pensamento crítico (Martins et al., 2009, p. 682).

Sob ponto de vista parecido, S. R. Carvalho (2004) percebe que o entendimento sobre o empoderamento comunitário concorre para o fortalecimento de uma perspectiva que afirma a necessidade de que, perante o esgarçamento do tecido social brasileiro, se valorize a rede de prestação de serviços do SUS. Conjuntamente, deve-se busca a ampliação do sentido de suas ações, visando a consolidá-lo enquanto espaço privilegiado de sociabilidade e politização de usuários, trabalhadores e gestores.

Para ele,

Serviços de saúde que previnem a doença, que curam e que reabilitam devem, no Brasil, ter como objetivo contribuir para o aumento da capacidade reflexiva e de intervenção de diferentes sujeitos sobre o social. Ao contribuir para a constituição de cidadãos saudáveis, conscientes de seu direito e portadores do “direito a ter direitos”, esses serviços aumentam a possibilidade de ações sociais que incidam positivamente sobre os múltiplos determinantes do processo saúde/doença (Carvalho, 2004, p. 1094).

- 147 -

Já para P. C. Martins et al. (2009, p. 680), o PSF que poderia ser pensado como um

locus favorável para este exercício, já que a promoção da saúde no Brasil está associada

ao Sistema Único de Saúde (SUS), mas também “ao enfretamento de uma realidade de iniquidades históricas, que colocam desafios cotidianos não só ao setor saúde, mas a todos aqueles que constroem políticas públicas”.

Para confirmar sua hipótese, e apoiando em estudos como os J. B. Oliveira and Gusmão (2004) e de E. M. Souza and Grundy (2004), o autor afirma que, no PSF,

as atividades desenvolvidas pelas equipes podem levar a um maior envolvimento e articulação com a comunidade, induzindo o reconhecimento das capacidades criativas, propositivas e gerenciais das camadas populares que podem ser demonstradas continuamente, através de inúmeros movimentos e iniciativas próprias, que estimulem democraticamente a participação popular, remetendo ao conceito de empoderamento, que constitui um eixo central da promoção da saúde (Martins et al., 2009, p. 680).

Num ou noutro caso, o mais adequado para garantir o envolvimento e a participação da população nos programas de saúde é que estes sejam elaborados e aplicados juntamente com a população, e não de forma impositiva. Por sua vez, isso tende a um processo de diálogo e negociação, cuja situação deve ir mudando com propostas e programas desenhados pela população e executados pelo Estado. A consequência disso é que todo esse processo de participação aumentaria o sentido de responsabilidade, o que significaria a consciência e cumprimento de deveres e direitos. Mas esse é um papel que deve ser ocupado pelo PSF, como lugar favorável para o exercício da democracia e fortalecimento da promoção da saúde no Brasil, pensa P. C. Martins et al. (2009, p. 689).

As experiências nos dois programas, ao incidirem sobre a prática de promoção da saúde, ao mesmo tempo reabre o debate do papel das operadoras de saúde nesse sentido. É possível pensarmos que, a partir ambas as experiências, deva se situar nos SRSs, por intermédio das OPS, um possível lócus de promoção e empoderamento em saúde, tendo o acesso à informação como uma das bases de promoção.

- 148 -

A partir daí algumas estratégias de empoderamento podem ser utilizadas, mais ainda quando se pensa a questão de que indivíduo e grupo se conformam num processo de tensão dialética. No processo estratégico,

durante um período de tempo, muita ênfase foi dada ao grupo, ficando a importância do indivíduo secundarizada ou mesmo esquecida. Como ocorreu em outros processos políticos que buscaram a superação de desigualdades sociais, o indivíduo foi visto como a negação dos interesses e atividades de grupos sociais. Muitos exemplos existentes sobre empoderamento de grupos, em muitos países, têm-se mostrado efetivos e têm sido fundamentais para romper isolamentos e mudar a correlação de forças em favor dos excluídos. Contudo, as análises também mostram que o empoderamento deve levar a processos de mudança a nível individual, não apenas em termos de controle de recursos, mas também em termos de uma maior autonomia e autoridade sobre as decisões que têm influência sobre a própria vida (Iorio, 2002, p. 26).

Para Iorio (2002), a efetividade de estratégias de empoderamento para o combate à pobreza depende do grau em que as dimensões indivíduo e grupo se articulem na apreensão das causas que originam a pobreza, nos dois níveis, o individual e o coletivo. Enquanto de exclusão social, deve ser também capaz de enfrentar causas que dão origem à pobreza e à exclusão nos grupos sociais. Ora,

O empoderamento é uma perspectiva que coloca as pessoas no centro do processo de desenvolvimento. Pode parecer simples esta afirmação, mas ela muda radicalmente a perspectiva e a estrutura na qual o desenvolvimento costuma ser pensado. Apesar de ser uma questão em disputa, hoje prevalece uma compreensão que equaciona desenvolvimento como crescimento econômico e por este caminho se construíram análises, abordagens, políticas e programas. Recolocar as pessoas e os grupos vivendo na pobreza ou excluídos no centro do processo de desenvolvimento significa colocar as instituições econômicas (mercados) e políticas a serviço destes grupos (Iorio, 2002, p. 26).

Quando não se pode atuar diretamente nos fatores macro políticos da pobreza, é de se pensar maneiras de atuação que sejam pontos disseminadores de práticas que podem ajudar nisso. Para isso, cada estratégia de empoderamento tem pontos fortes e fracos. Vale ressaltar um ponto para o entendimento das possibilidades do setor da saúde suplementar.

O ponto de partida geral de uma estratégia de empoderamento é a existência de pessoas, grupos ou setores sociais que vivem em condições de pobreza ou

- 149 -

sofrem de exclusão e carecem de poder suficiente para conseguir uma situação melhor em seu contexto social. O ponto de chegada é uma situação em que esses grupos ou setores saíram da pobreza e da exclusão e se integraram na sociedade como agentes de desenvolvimento (Villacorta & Rodríguez, 2002, p. 48).

O desafio que deve enfrentar a estratégia de empoderamento é o que fazer para conseguir esta mudança, quais são os passos para gerar esse poder em termos de criação das capacidades das pessoas, grupos ou setores pobres e excluídos e de produzir as transformações necessárias no meio à sua volta, de modo que sua nova condição seja sustentável no tempo (Villacorta e Rodríguez, 2002).

As estratégias voltadas para promover ou facilitar o empoderamento devem ser orientadas a incidir em duas dimensões, sendo que a efetividade das estratégias de voltadas para o desenvolvimento dependerá do grau em que essas duas dimensões se desdobrem e se articulem: (1) o incremento das capacidades internas; e (2) a criação de condições a sua volta que favoreçam os processos de empoderamento (Villacorta & Rodríguez, 2002).

Já para fortalecer as capacidades internas dos grupos sociais, segundo os mesmo autores, pode se identificar pelo menos quatro eixos de ação:

1. O fortalecimento de suas organizações;

2. A criação de novos conhecimentos e habilidades; 3. O fortalecimento de sua autoestima e valores; e

4. A construção de vínculos e alianças com outros setores (Villacorta & Rodríguez, 2002).

Note-se que

as estratégias para a criação de um meio favorável ao empoderamento dos setores em desvantagem social não se encontram isoladas das orientadas a fortalecer suas capacidades internas, mas sim se inter-relacionam mutuamente. Isto significa que quanto maiores forem as capacidades internas dos setores em processo de empoderamento, tanto maiores serão suas possibilidades de influenciar o meio ao redor. Mas também o inverso é

- 150 -

verdadeiro: quanto mais favoráveis forem as condições do meio, tanto maiores serão as possibilidades de incrementar as capacidades internas destes setores (Villacorta e Rodríguez, 2002, p. 48).

De acordo com Villacorta e Rodríguez (2002), a experiência latino-americana dos últimos anos, mostra que as estratégias voltadas para modificar o meio, visam a promover:

1. A descentralização do Estado e o desenvolvimento local, 2. A participação cidadã e a atuação em rede,

3. A transparência e o acesso à informação compreensível, 4. A criação de serviços de apoio,

5. A geração de mudanças na cultura institucional, particularmente no Estado, e 6. A influência nas alocações orçamentárias do Estado.

Alguns aspectos dessas estratégias servem e outras não, quando se pensa o setor da saúde suplementar. O próximo passo é determinar se tais ações podem ser transpostas para situações aparentemente diversas. Isso será respondido, em parte, no próximo subcapítulo.