contemporâneo faz ao profissional de comunicação
2. Empreendedorismo como saída e suas justificativas
Embora as taxas de desemprego no Brasil costumem variar cerca de um ponto percentual, há alguns anos a população desempregada está em torno de dez milhões de pessoas8. Especificamente no mercado da comunicação, nos últi-
mos anos presenciamos expressivo número de pessoas sendo demitidas tanto de empresas antigas, como o grupo Abril e de iniciativas novas, como o Buzzfeed. Pa- ralelo a esse cenário, temos softwares, em diversas áreas, desempenhando tarefas que antes eram feitas exclusivamente por humanos. No jornalismo, por exemplo, existem softwares sendo usados para produzir informações e checar a veracidade de fatos9. Os últimos relatórios do Fórum Econômico Mundial (WEF, 2018) corro-
boram essa tendência e apontam a possibilidade de milhares de empregos serem 7 É uma rede internacional, reunindo representantes em mais de 20 países, que visa esti- mular as experiências de trabalho baseadas em valores como a horizontalidade e a colaboração. 8 Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2019-08/taxa-de-de- semprego-no-brasil-cai-para-118-em-julho-diz-ibge. Acesso em: 23 set. 2019.
9 Disponível em: https://brasil.estadao.com.br/blogs/em-foca/robos-no-jornalismo-o-fu- turo-da-comunicacao/. Acesso em: 23 set. 2019.
perdidos por conta da automação ao mesmo tempo em que muitos outros postos de trabalho podem ser criados.
Exemplo de funções laborais que estão surgindo são as pessoas que atuam para tornar os softwares mais inteligentes. Contudo, conforme demonstra repor- tagem do The New York Times, esses trabalhos não têm nada de futurista,são repetitivos e mal remunerados10. Eles têm sido chamados de microtrabalhadores,
isto é, pessoas que recebem por tarefa a ser cumprida, não tem direitos assegu- rados e, na maioria dos casos, desempenham tarefas que a inteligência artificial ainda não consegue, como limpar, transcrever, corrigir e categorizar conteúdo, fornecendo dados para auxiliar e aperfeiçoar algoritmos11. Dentre as plataformas
que mediam essas relações, de maneira semelhente ao Uber que coloca motoristas e passageiros em contato, estão Clickworker, Amazon Mechanical Turk, WitMart e Clixsense. Scholz (2016) sugere que serviços como esses, sob demanda, realizados por trabalhadores sem direitos garantidos, intensificam o lugar do mercado na vida de todos, configurando o que chama de “capitalismo de plataforma”12.
Nesse contexto o empreendedorismo emerge e se populariza, enquanto discurso e prática capaz de solucionar os problemas relacionados ao trabalho. Isso pode ser percebido no aumento da experiência empreendedora no país. A pesqui- sa Global Entrepreneurship Monitor, realizada em 2018, apresenta dados desse cenário: dois em cada cinco brasileiros entre 18 e 64 anos planejavam abrir ou já tinham algum empreendimento; as taxas de empreendedores “estabelecidos” su- perou os “iniciais”, o que permite inferir que em 2018 os empreendedores antigos puderam consolidar seus negócios já criados; e o empreendedorismo por oportuni- dade (quando as iniciativas são criadas a partir da perceção de uma oportunidade) teve o melhor resultado dos últimos quatro anos13. Por mais promissor que esse
cenário seja, é necessário considerar que a atividade empreendedora é arriscada e ainda que existam instituições dedicadas a orientar de diversas formas, como o Sebrae, ainda é um processo complexo que envolve diferentes dimensões do pro- cesso de constituição do sujeito. Ainda que o valor do indivíduo seja inflado neste cenário, as complexidades sociais e econômicas nas quais se legitima tal inflação passa ao largo de processos que buscam orientar esses possíveis empreendedores.
É importante reconhecer que todas essas mudanças – do lugar que ocu- pa hoje a educação formalizada e sedimentada por diplomas até a perspectiva 10 Disponível em: https://www.nytimes.com/2019/08/16/technology/ai-humans.html. Acesso em: 23 set. 2019.
11 Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-49234093. Acesso em: 08 set. 2019.
12 Diante disso, Scholz (2016) propõe o “cooperativismo de plataforma”, no qual a pro- priedade e a gestão devem ser dos trabalhadores e as pessoas envolvidas na plataforma poderiam deixar sua condição precária.
13 Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2019-02/brasil-teve- -2o-melhor-desempenho-em-empreendedorismo-em-2018. Acesso em: 23 set. 2019.
do empreendedorismo como solução econômica – organiza-se e ganha legiti- midade em um contexto no qual uma “gestão de si”, um “eu eficaz”, torna-se um negócio de responsabilidade completa de cada um nas sociedades contem- porâneas, traz para o centro da responsabilidade o próprio indivíduo. Quando o sujeito falha, nesse não tomar conta de si próprio, aparece um fantasma novo, tão ameaçador quanto os já conhecidos fantasmas das culpabilidades construí- dos e sedimentados desde o século XIX.
Quando a norma não é mais fundada sobre a disciplina e a cul- pa, e sim sob a responsabilidade e a iniciativa, aqueles que não conseguem ser responsáveis e ter iniciativa são considerados insuficientes. […] Deprimido e compulsivo: duas figuras intima- mente relacionadas a sociedades em que a iniciativa se tornou um valor maior e toda decisão uma experiência individual e solitária (SANT’ANNA, 2001, p. 26).
Valores contemporâneos como a autoestima e a felicidade ficam colados à uma série de práticas que levam em conta a performance que exigem do sujeito esforço, dores, dinheiro e tempo e cujo possível fracasso é creditando unicamente na conta do indivíduo, como se a ele só faltasse mais empenho, mais vontade, mais mentalização positiva, excluindo do jogo as regras do mercado e da economia, globais ou locais.
A figura do sujeito dono de si, cuja individualidade é mais coerente do que qualquer sentido de comunidade ou coletividade tem uma origem histórica, com o advento de uma sociedade de serviços que estimula sua aparente autonomia, enquanto os mercados e mobilidades se “aceleram”. Desde os anos de 1960 o cor- po é a expressão privilegiada da pessoa, era preciso encontrar sua personalidade que estava condensada na aparência. “O indivíduo e apenas ele, é hoje respon- sável por suas maneiras de ser, suas ‘imagens’. Ele ‘é sua aparência’ […]. Daí esse jogo de ‘mostrar’ levado mais longe: a ambição crescente de promover o visível” (VIGARELLO, 2006, p.181). Hoje, como o sujeito cuida de si, como promove sua aparência, é considerado um elemento de identificação de sua personalidade, mas a partir do final dos anos 1990, com a origem da psicologia positiva, trata-se de ir além da imagem – ainda que ela seja fundamental, não basta (e quase não impor- ta) ser, é preciso parecer ser – e trabalhar em “ajustes psicológicos” que trazem um novo discurso sobre a felicidade que “subscreve o agenciamento, a iniciativa e a autorresponsabilidade concebidas no quadro de referência da autonomia baseada no mercado” (BINKLEY, 2010, p.84). Ou seja, o novo imperativo da felicidade insi- nua “modalidades únicas de governar a si próprio” que são, afinal, modalidades de governo, que “reproduzem a lógica da conduta neoliberal” (BINKLEY, 2010, p. 84).
A busca do bem-estar e da felicidade produziu escravidões incômodas. O culto ao corpo e à beleza, por exemplo, é só uma delas. Vivemos uma “extrema per- sonalização”, uma “intensa personalização do parecer” que, argumenta Vigarello
(2006, p. 182), “se impôs como fenômeno de massa e também princípio imediato de valorização”. O autor nos diz que a explosão inesperada do embelezamento, por exemplo, sua extensão e variedade, não podem se explicar apenas pelas práticas de consumo. Há algo à mais que acompanha esse processo, uma mudança profun- da, “uma ruptura que diz respeito à identidade: investimento particular na imagem individual e seu sentido” (VIGARELLO, 2006, p.181).
Naturalmente, essa individualização e esse sentir-se bem consigo mesmo são absolutamente ilusórios. Há uma “individuação forçada” e uma coação de novos regimes, que parecem ainda mais cruéis por se vender como liberdade, por parecer que a convicção vem de dentro do sujeito. As obrigações de como devem ser os sujeitos para serem vitoriosos na “gestão de si” são incumbências rigorosas e generalizadas e, não obstante, não há nada individual e personalizado. A insis- tência na individualização é um mecanismo para nos fazer aderir às exigências das normas. O modelo da norma é coletivo, mas dominado pela ideia da individualida- de, das escolhas pessoais.
O princípio do bem-estar e da individualização. […]. É sobre essa dualidade pouco lembrada, mas no entanto aguçada, que reside a originalidade da cultura de hoje: tudo parece feito para que a escolha individual possa se sobressair até o fim […]. A fascinação da escolha é tão forte que se impõe ainda quando a norma parece mais premente e mais coletiva (VIGARELLO, 2006, p.188-189).
Vigarello concentra sua atenção na cultura estética marcada pela “escolha de vida”, pela “gestão de si”, pelo “eu eficaz” do qual falamos antes. Mas o apelo à força de vontade em mudar aquilo que nos desagrada não está mais circunscrito hoje à materialidade dos nossos corpos, chega à gestão do comportamento e do pensamento, em uma tarefa individual e também solitária: somente o indivíduo pode buscar sua felicidade. E essa busca “é sempre feita para um determinado indivíduo solitário que busca o máximo de retorno do investimento, saudado no espírito do empreendedorismo, do interesse pessoal e da responsabilização pela conduta individual” (BILKLEY, 2010, p. 93). O bem-estar individual impõe-se como último critério, como finalidade dominante, uma busca interminável e ininterrupta e vende-se como escolha, mas é absolutamente obrigatório. A norma é coletiva – e é econômica e política – , mas o apelo faz-se pelo indivíduo. Como a norma é severa, o mal-estar chega e instala-se, à revelia dos desejos.
3. Abundância, pares e confiança
Há, portanto, uma trama de contextos e sentidos que vão conformando um âmbito de práticas produtivas e econômicas que experimentamos hoje e, por sua vez, passam a exigir novos modos de aprendizado das profissões e mesmo do
entendimento dos usos e aplicações desses conhecimentos profissionais em um mundo que muda muito rapidamente. E em uma velocidade tão atordoante que, muitas vezes, não é possível repensar ou refletir sejam nas práticas, seja na socie- dade nas quais essas atuações profissionais serão exigidas, sejam nos sentidos que operam mudanças e demandas novas. Retomaremos agora, então, as reflexões do final do primeiro item sobre o fato da comunicação acontecer na diferença e sobre a necessidade de revisão dos valores que orientam a formação a partir de três fa- tores interdependentes: abundância de recursos, dinâmica entre pares e confiança entre desconhecidos (COSTA, 2018).
Um dos valores centrais que organiza nossa vida em sociedade é a escas- sez. Essa premissa está presente em um dos entendimentos contemporâneos (e ainda o mais aceito) de economia: essa ciência seria caracterizada pelo estudo das ações humanas resultantes da relação entre nossas ilimitadas necessidades e os recursos escassos da natureza (ROBBINS, 1945). No entanto, não se trata de algo presente apenas nas dinâmicas econômicas, mas em toda experiência humana: não existem vagas nas universidades públicas para todas as pessoas que querem; não existe o “melhor emprego” para todos; se todas tiverem um condicionador de ar em casa não teremos energia elétrica suficiente para alimentá-los, entre outros exemplos nos quais para um ter ou ganhar o outro precisa perder ou ficar sem.
Contudo, nos últimos anos, experimentamos o fim da escassez e o início da abundância quando se trata de bens imateriais. Com a digitalização dos sistemas de comunicação é possível ter a mesma música, filme ou livro que outra pessoa, por exemplo. Atualmente, começamos a ampliação da abundância para os chama- dos bens rivais. Isso não significa que um carro ou uma casa possam ser desmate- rializados, mas que a partir de outras formas de acessar esses bens é possível que eles também se tornem abundantes. O carro que só é utilizado três dias na semana ou que fica parado no estacionamento do trabalho durante oito horas por dia pode ser compartilhado/emprestado/alugado para um desconhecido que só precisa do veículo durante algumas horas ou dias14, da mesma forma como o quarto vazio dos
filhos que se mudaram de casa ou mesmo o sofá-cama do escritório podem servir para hospedar alguém15.
A abundância é como uma lente que permite ver utilidade onde antes haveria ociosidade por conta de outros modelos de gestão e de criação de va- lor baseados na priorização do acesso em detrimento da propriedade. Assim, a abundância tem relação com a emergência de outros vínculos sociais uma vez que as relações passam a ser encaradas de outra forma. Um elemento central da possibilidade da abundância são as tecnologias digitais de comunicação que fun- cionam como uma infraestrutura para relações mais baseadas no acesso e menos 14 Turo e Parpe são plataforma que permitem esse tipo de transação.
15 As plataformas de hospedagem mais conhecidas são o Airbnb, que envolve pagamento, e o Couchsurfing, gratuito.
na propriedade. Por exemplo, ao invés de comprar uma furadeira ou escada é pos- sível pegar uma emprestada com o(a) vizinho(a). Essa prática, muito antiga, teve uma diminuição por conta da configuração das grandes cidades marcadas, dentre outras coisas, pela aglomeração de pessoas, mas sem tempo para interagir e co- nhecer quem mora ao lado. O surgimento de plataformas como o “Tem Açúcar?” visam, exatamente, sanar esse problema conectando pessoas que vivem próximas umas das outras através de suas necessidades, contribuindo para um ecossistema baseado no acesso em detrimento da propriedade.
Mas esse ecossistema da abundância também está presente quando fa- lamos dos microtrabalhadores da Amazon Mechanical Turk, que podem acessar pequenas demandas de qualquer lugar em que estejam; nas pessoas que entregam comidas pelo Rappi e nos condutores de aplicativos como Uber. Por isso, quando se fala da mudança do paradigma da escassez para o da abundância não se trata de algo imperativamente bom ou ruim, mas de uma característica da sociedade contemporânea com a qual precisamos aprender a lidar.
O outro fator, que complementa e contribui com a existência da abundân- cia, enquanto valor para orientar os modos de vida, é a dinâmica entre pares, que indica o momento de conexão generalizada entre pessoas e objetos. A ideia de internet das coisas ilustra bem esse cenário:
A Internet das Coisas (IdC) irá conectar todas as coisas com todo o mundo numa rede global integrada. Pessoas, máquinas, recursos naturais, linhas de produção, hábitos de consumo, flu- xo de reciclagem e praticamente todo e qualquer aspecto da vida econômica e social estará conectado via sensores e sof- tware à plataforma IdC, alimentando continuamente cada nó – empresas, lares, veículos – com Big Data (megadados), minuto a minuto, em tempo real. (RIFKIN, 2016, p.290).
São as pulseiras que medem a frequência cardíaca, as câmeras de reconhe- cimento facial, o rastreamento e o armazenamento dos nossos dados pessoais, de “curtidas” a compras, por empresas privadas, que tanto permite a conexão entre pares para os modelos de negócios baseados na abundância quanto colocam a pri- vacidade no centro das preocupações contemporâneas. É nesse contexto também que se populariza a proliferação das chamadas fake news. Embora as informações falsas sempre tenham existido, o que se organiza atualmente é um cenário no qual qualquer pessoa é um potencial produtor de conteúdos ou mediador de in- formações produzidas por outros, ampliando (tornando abundante) a circulação de conteúdos dos mais diversos, verdadeiros ou falsos. O cenário se torna ainda mais complexo com o surgimento dos softwares que permitem manipular vídeos e imagens, permitindo que uma pessoa possa ser vista dizendo algo que ela não disse, as chamadas deepfakes.
fiança nas instituições tradicionais. O Índice de Confiança Social, medido anual- mente pelo IBOPE Inteligência, mostrou que em 2018 a confiança dos brasileiros nas instituições foi a menor desde 2009, quando o índice começou a ser medido (IBOPE INTELIGÊNCIA, 2018). Embora em 2019 a confiança tenha aumentado cer- ca de 10 pontos, está em torno de 50 pontos (de 100) na maioria das instituições (IBOPE INTELIGÊNCIA, 2019). O Trust Barometer, medido pela agência Edelman há 19 anos, também indica índices significativos de desconfiança. Em 2019, o gover- no (com 28% no nível de confiança) e a mídia (com 41%) são instituições com baixo índice de confiança (AGÊNCIA EDELMAN, 2019).
Nesse contexto emerge a confiança entre desconhecidos. Diante da perda da confiança nos mediadores tradicionais e da impossibilidade de inexistir em sociedade sem confiar, volta-se a confiança para os pares, conectados por meio das tecnologias digitais de comunicação, e construída por meio de comentários e classificações deixadas por outros desconhecidos. Estamos passando a confiar mais na reputação construída nas redes de conexão entre pares.
E a relação disso com os profissionais de comunicação? Uma reação ime- diata para a falta de confiança nas informações em circulação foi o surgimento das agências de checagem, que por mais eficientes que sejam não conseguirão dar conta de todas as informações falsas produzidas uma vez que trabalham na lógica da escassez enquanto a proliferação das informações falsas é da ordem da abundância.
Nesse cenário a franqueza e a transparência emergem como valores im- portantes a serem buscados. A limitação de tempo para as matérias televisivas e de caracteres para textos impressos, por exemplo, não servem mais para justificar abordagens pouco aprofundadas e sem diferentes versões dos fatos, uma vez que é possível complementar os conteúdos nas plataformas dos próprios veículos na internet. A priorização de conteúdos aprofundados e contextualizados, em detri- mento dos factuais, é uma tendência que se observa em diversos veículos que têm sido criados16. Outra tendência, diante da quantidade de informações, são os tra-
balhos de curadoria de conteúdos17. Hoje, as decisões editoriais, geralmente feitas
em reuniões de pauta com portas fechadas, podem ser transmitidas pela internet com baixíssimo custo financeiro, mas talvez com a possibilidade de agregar ex- pressivo valor ao veículo que se dispuser a ser transparente nesse nível.
A relação com a audiência/público se torna mais próxima não apenas por meio da participação em comentários e hashtags, mas também através dos mode- los de financiamento que estão sendo reinventados, especialmente diante das cri- ses nos modos tradicionais de geração de receita. A emergência do financiamento
16 Exemplo disso é o nexojornal.com.br e o vortex.media. 17 Exemplo: canalmeio.com.br.
coletivo18, isto é, pessoas que se comprometem a doar, mensalmente ou de manei-
ra pontual, para sustentar um veículo e dos micropagamentos, modelo no qual se paga pequenas quantias (centavos) para acessar conteúdos individuais, tornando desnecessário fazer a assinatura completa do veículo, são exemplos de modos de financiamento que já existem e podem começar a ganhar destaque.
No cerne dessas questões estão mudanças na forma como as sociedades e suas dinâmicas são percebidas. Intimamente relacionado à dinâmica entre pares, o convívio com o diferente amplia-se cada vez mais: diferentes modelos de família, relacionamento, religião, línguas, costumes, origens étnicas e geográficas, entre outras. Como defende Serres (2015, p.23): “por todo lugar se diz sobre o fim das ideologias, mas são as filiações que as criavam que se desfizeram”. “Dito isso, resta, então, inventar novos laços”. Os processos de vinculação, que caracterizam a expe- riência comunicacional, como vimos no início deste ensaio, se alteraram e outros sujeitos se reconfiguram. São mudanças como sempre existiu, mas que em alguns momentos, possivelmente como agora, ficam mais manifestas nos modos de vida.
Nesse contexto, o profissional precisa saber lidar com toda a cadeia pro- dutiva (produção, circulação e consumo). Isto significa que necessita compreender como o veículo funciona, incluindo todos os seus setores e dinâmicas, as formas de financiamento, como entregar o conteúdo ao público – e quando falamos em redes sociais isso só aumentou pois a questão, hoje, não é a divulgação, mas a criação de engajamento. Parece o profissional multitarefa já exaustivamente fa- lado, mas não. Não se trata só de saber escrever o texto e ter noções de designer ou produzir, editar e gravar vídeos e áudios, mas de cuidar da gestão e do finan- ciamento – aqueles conteúdos presentes nos currículos dos cursos com nomes de disciplinas como gestão e empreendedorismo, mas geralmente marginalizados, ministrados de qualquer forma e, não raro, por professores de outras áreas que não dominam as dinâmicas próprias da comunicação contemporaneamente.
O profissional precisa investir também em habilidades socio-emocionais. Trabalhar em grupo sempre foi uma necessidade, mas estamos vivendo em socie- dades mais diversas, o que tem nos impulsionado para nossas bolhas. No entanto, as bolhas estouram na sociedade da abundância e precisamos aprender a lidar com o diferente que esta cada vez mais contíguo (dinâmica entre pares). Nesse sentido emerge também a necessidade de confiarmos nesses desconhecidos que estão próximos e distantes ao mesmo tempo.
18 Um dos primeiros projetos de produção de conteúdo financiado coletivamente no Brasil foi o Cidade para Pessoas, com arrecadação por meio da plataforma Catarse. Atualmente, esse