Ficou com a impressão da abundância de nitro em muitas zonas daquela serra, porém era-lhe impossível uma exacta quantificação, dado que infinitos quadrúpedes e aves comiam daquela terra no rigor da seca. Considerava ainda que, a confirmarem-se as suas suspeitas da abundância de nitro na serra, se deveriam esquecer as salinas agrestes, onde, a existir, deveria vir acompanhado de matérias heterogéneas.
O mesmo Professor e pela mesma altura, extraiu ferro dos "productos marciaes"
semelhantes aos que havia descoberto em Goiás. Caetano Pinto considerou a
descoberta "utilíssima para estas minas"
4e, por isso, em Janeiro de 1799,
providenciaria no sentido de conseguir "mestre de o fabricar".
1 A.H.U.,Mato Grasso, Doc.42, cx.34; Doe. 45, cx.34 2 A.H.U.,Mato Grosso, Doc.59, cx.31
3 A.H.U.,.Moto Grosso, Doc.59, cx.31 4 A.H.U., Mato Grosso, Doc.59, cx.31
Em 1 de Dezembro de 18001, podia já enviar para o reino, via Pará, caixotes contendo, além dos diamantes para o Erário Régio, produtos naturais para o Real Museu.
Em Junho de 18002, Caetano Pinto de Miranda Montenegro preocupava-se em cumprir a ordem, recebida por aviso de 19 de Novembro de 1798, de mandar estabelecer um Jardim Botânico, com "a menor despem que jbrpossível" e "semelhante ao que o Governador e Capitão general do Estado do Pard firmou naquella cidade". Mostrou-se empenhado "em hum tão util estabelecimento", mas considerava da maior necessidade o envio de um "Naturalista de profissão" para a Capitania, aonde não havia nenhum a quem se pudesse incumbir este e outros aspectos que exigissem conhecimentos específicos.
O documento de 21 de Abril de 18003 exprime as preocupações do 6o governador de Mato Grosso quanto ao estado do ensino na Capitania. Caetano Pinto explica a "rudeza e ignorância" que encontrara na Capitania de Mato Grosso pela falta de escolas. À sua chegada a Vila Bela não achara Khuã só escola, nem
publica, fiem particular, nem ainda de 1er e escrever". Estabeleceu, por isso, uma "Escola das Primeiras Lettras", lançando as bases de um ensino público "de tão longínqua e ignorante mocidade", a fim de que não fosse crescendo "sem os primeiros rudimentos da educação civil". Os honorários dos professores seriam satisfeitos com o rendimento do subsídio literário, sempre insuficiente4.
Nesta conjuntura, considerava tarefa extremamente difícil escolher sete moços que seriam enviados, em 1801, para o reino para frequentarem a Universidade de Coimbra ou a Academia da Marinha de Lisboa e, de cujas pensões alimentares se encarregaria a Câmara para o que lançaria um imposto aos donos de engenho de fabricar aguardente de cana, "pagando por cada frasqueira meia oitava de ouro de toda a safra que fizer no decurso de hum anno", arbitrando 110.000 réis para cada um dos estudantes. O senado de Cuiabá entraria, em cada ano, com a pensão estipulada para o cofre da Provedoria Geral, a fim de se remeter, dali, para o Erário Régio que mandaria prover a alimentação dos estudantes.
1 A.H.U., Mato Grosso, Doc.1, cx.32 2 A.H.U.,Mato Grosso, Doc.24, cx.33 3 A.H.U., Mato Grosso, Doc.25, cx.33 4 A.H.U., Mato Grosso, Doc.4, cx.34
De uma relação de catorze moços (seis brancos, sete mulatos e um bastardo ou mameluco, conforme designação dada nas capitanias da beira mar), ao Governador de Mato Grosso incumbiria escolher os sete "mais hábeis" para virem "ao
depois servir de topógrafos, hidráulicos, de contadores, de medicos e cirurgiões'* . Os estudantes
escolhidos desceram para a cidade do Pará, rumo ao reino, em Janeiro de 1801. Esperaram por transporte durante dezoito meses.
4.2.2.2. EXPLORAÇÃO DE OURO E DIAMANTES
Se a descoberta e exploração de produtos naturais foi uma das preocupações da administração de Caetano Pinto, neste âmbito, há a referir, igualmente, a do ouro e diamantes. A sua abundância explicou a génese da Capitania de Mato Grosso e, em finais do século XVIII princípios do século XIX, apesar da forte quebra na extracção e rarefacção dos jazigos, era, ainda, a principal e praticamente a única riqueza que Mato Grosso podia ostentar, ainda que as suas quantidades fossem insuficientes para cobrir as enormes necessidades da Capitania.
Com cerca de ano e meio de governo, Caetano Pinto refere, em carta de 6 de Julho de 1798 a D. Rodrigo de Souza Coutinho2 , a depauperante realidade
económica da Capitania que nada exporta "da sua industria ou cultura", quer pela imensa distância que a separa dos portos marítimos, quer pela dificuldade de transporte, obstáculos que impediriam a concorrência. Evidencia, então, a necessidade de se incrementar a exploração da sua primeira e principal riqueza,
porque "o ouro das suas minas hé todo o seu recurso. Por elle hade trocar todas as couzas de que
carece, já para a defeza desta importante Fronteira, já para os uzos e commodidades da vida, e por consequência este hé o primeiro e principal objectivo, a que julgo se deve aqui attender".
Reconhecida a importância do ouro para a economia e comércio mato- grossenses,
que diligências tomou o 6o Governador e Capitão general para fomentar a sua exploração?
1 A.H.U., Mato Grosso, Doc.24, cx.33 2 A.H.U.,Mato Grosso, Doc.6, cx.34
qual o estado das minas em Mato Grosso, durante a administração de Caetano Tinto de Miranda Montenegro ?
Começo por responder a esta questão.
Na década de oitenta e, durante o governo de Luís de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, tinham sido descobertas minas de ouro na Serra dos Guarajús e nas proximidades de Vila Bela e de Cuiabá.
Em 1797, na sua Descripção Geographica da Província de Mamo Grosso1, Ricardo
Franco de Almeida Serra fala de rios auríferos como o das Mortes, o Arinos e o Cabaçal e, em documento de 6 de Março de 17992, Caetano Pinto referia-se a um dos braços do rio Madeira, o Ribeirão, que, segundo as tradições dos antigos sertanistas, era aurífero. Daí, justificar-se o desejo de fundar um estabelecimento na cachoeira desse rio o que facilitaria, também, a navegação e comércio entre Mato Grosso e o Pará. Os rios Coxipó e Paraguai, considerados os mais ricos na abundância de metal amarelo, tinham, desde há anos, interdita a sua exploração.
Quanto à primeira questão, reconhecendo o ouro como primeira e principal riqueza de Mato Grosso, Caetano Pinto tomou medidas no sentido de incrementar a exploração das minas e conhecer a sua verdadeira potencialidade.
As dos rios Coxipó e Paraguai estavam proibidas por se suspeitar da existência de diamantes nas suas cabeceiras. O primeiro achava-se vedado à exploração desde o governo do 1o general da Capitania, mas, em 6 de Julho de 17983, Caetano Pinto pede a D. Rodrigo de Souza Coutinho que seja levantada a interdição fazendo-se porta-voz da suplica que os habitantes de Cuiabá lhe dirigiram, quando passou por aquela Vila, antes da tomada de posse, em Vila Bela. Tal pedido já havia sido requerido pelo 3o governador e capitão general, Luiz Pinto de Souza Coutinho, sem que obtivesse resposta. Sobre o motivo da proibição da exploração do rio (a possibilidade de existência de diamantes) garante que todos
clamam "que alli nunca se acharão semelhantes pedras e que nem este rio tem aquelles signaes externos, que se costumão encontrar nos que são Diamantinos". Sugeriram-lhe que
mandasse fazer ahum exame publico e legal", porque desta sorte ou cessariam os
referidos clamores ou uma proibição, que a existir sem causa, tinha sido funesta
1 J.I.H.G.B., Tomo VI, 2o ed., Rio de Janeiro, 1865, pp.156-160 2 A.H.U., Mato Grosso, Doc.48, cx.31
3 A.H.U., Mato Grosso, Doc.6, cx.34
para a Capitania, visto ser o rio Coxipó um dos mais ricos em ouro do distrito de
Cuiabá e nele "todo aquellepovo tem depozitadas as maiores esperanças".
Em carta de 11 de Abril de 1799 do Ministro e Secretário de Estado ao Marquês Mordomo-Mor1, D. Rodrigo de Souza Coutinho considerava útil que, pelo Erário Régio fossem expedidas as convenientes ordens para a abertura das minas do Coxipó, conforme sugestões do governador de Mato Grosso. Recomendava que se estabelecessem normas para a compra dos diamantes, se se viessem a achar, o que evitaria todo o extravio. Insistia na urgência da aplicação dessas ordens que
"podem logo ou menos em breve tempo, mudar a face da Capitania de Mano Grosso".
Em 30 do mesmo mês e ano2, D. Rodrigo de Souza Coutinho comunicava a Caetano Pinto a abertura das minas do rio Coxipó, bem como as do Paraguai, estas interditas desde a ordem régia de 16 de Novembro de 1770. Recomendavam-se, contudo, todas as precauções para que no caso de se acharem diamantes, "sejão logo
comprados pela Fazenda Real por uma tarifa certa epara que se evite o extravio quepossâo ter".
O governador de Mato Grosso pôs em prática esta recomendação, mandando, em 5 de Novembro de 18003, ao escrivão interino da Intendência dos Diamantes do rio Coxipó-Mirim, António Gomes da Costa, que mandasse passar uma certidão "por
onde conste a quantidade, e o pezo dos ditos Diamantes que se entrão no Cofre, com individuação das Pedras notáveis".
As diligências levadas a cabo e as expectativas que se criaram à volta das riquezas auríferas não duraram por muito tempo. Em 20 de Fevereiro de 18014, Caetano Pinto comunicava a D. Rodrigo de Souza Coutinho que o rio Coxipó não correspondeu às esperanças depositadas, embora não se tivesse concluído o seu exame por, entretanto, ter chegado o tempo das chuvas, ficando adiada a continuação dos trabalhos para a seca do mesmo ano.
A partilha e exploração do rio Paraguai, onde "era certo e constante" haver diamantes, seria feita a partir do ano de 1800. Para isso, Caetano Pinto tinha incentivado alguns roceiros a fazerem as suas roças nos matos circunvizinhos, para se não experimentar nem falta nem carestia de mantimentos. No documento
referido5, o governador considerava que "o Paragoay hé o mais protnpto recurso para
1 A.H.U.,Mato Grosso, Doc.6, cx.34
A.H.U., Mato Grosso, Doc.6, cx.34
3 A.H.U., Mato Grosso, Doc.6, cx.34 4 A.HV.,Mato Grosso, Doc.6, cx.34 5 A.H.U., Mato Grosso, Doc.6, cx.34