APPLICAÇÕES THEMPEIMCAS DO ALCOOL
EMPREGO DO ALCOOL NO CURATIVO DAS FERIDAS
No vasto campo da cirurgia, é o tratamento das fe- ridas um dos assumptos que mais tem preoccupado o espirito dos práticos. Apesar de todos os esforços e nu- merosos ensaios postos em prática, os resultados obti- dos estão ainda longe de satisfazer as aspirações da sciencia, e os bálsamos de que nos faliam os poetas an- tigos, a serem realidade, excederiam em virtudes os agentes conhecidos na actualidade.
Segundo as différentes epochas porque vae atraves- sando a arte de curar, assim os différentes tópicos teem a sua voga e predomínio particular, até que uns cáhem em abandono para outros lhe virem supprir o emprego. No século xiv havia uns poucos de systemas princi- paes conforme as escolas seguidas. A escola de Salerno tratava pelo secco, isto é, cataplasmas e emollientes; a de Bologne usava do secco, cujo typo era o vinho; ou-
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tros, segundo o celebre prático Gruilhaume de Salicet, tratavam com óleos e corpos gordurosos.
Também havia quem fizesse particular emprego de licores e folhas de couves; emfim certa classe de gente, mais simplória, em todos os tempos esperou mais das promessas feitas aos santos do que da medicina.
Posteriormente entrou em voga o emprego do al- cool, como um dos melhores tópicos.
Arnaud de Villeneuve, Guy de Chauliac, Parecelse, Ambrósio Pareu, o nosso Francisco Correia do Ama- ral e outros empregaram o alcool no penso das feridas, quer fossem antigas, quer recentes.
É principalmente a Batailhé e Guillet a quem cabe a honra de levantar á altura que deve occupar entre os agentes curativos este importante liquido, o qual es- tava despresado e supplantado pela dominação despótica da escola physiologica.
Nelaton, Gaulejac, Chedevergne fizeram publicações importantes sobre o emprego do alcool em cirurgia, e depois d'estes muito se tem escripto sobre esta ma- teria.
Graças aos trabalhos d'estes auctores, o alcool é con- siderado hoje como um dos tópicos mais commodos e mais úteis para a cirurgia.
O curativo pelo alcool exerce a sua acção sobre o estado local da ferida, e sobre o estado geral do indi- viduo.
Acção geral.—Segundo Behier o alcool applicado ás feridas pôde ser em parte absorvido e ter uma influen- cia sobre toda a economia. Esta opinião está d'accordo com os factos de embriaguez citados por Chedevergne e Dubrueil, attribuidos a este processo de curativo.
O alcool, portanto, pódè calmar esta espécie de eré- thismo nervoso, que acompanha ás feridas e fazer des- apparecer a dôr que origina.
Todavia os effeitos resultantes da passagem do ál- cool na torrente circulatória raramente vão até a em- briaguez, mas traduzem-se por uma acção 'géràl tónica e estimulante. Em virtude d'esta dupla acção, o alcool combate vantajosamente o abatimento geral, a sideração nervosa, que acompanha as feridas graves, o desfale- cimento produzido pelos projectis de guerra; Sustenta as forças do doente, régularisa o jogo das funcçôes e colloca o organismo em condições favoráveis para o bom êxito dos phenomenos locaes.
Acção local.—Àpplicado a uma solução de continui- dade, coagula a albumina á sua superficie, formando uma camada impermeável, espécie dé verniz, que a abri- ga do contacto do ar.
A sua acção styptíca utilísada pêlos cirurgfôes da antiguidade tem sido exaltada por Schorock, LanzOni, Delius, etc.
Segundo as experiências de Guerin, este agente é o melhor hemostatico depois do perchlorureto de ferfO. Este insigne cirurgião tendo praticado duas feridas si- milhantes na orelha d'uni coelho, e tendo curado uma d'ellas com alcool e a outra com perchlorureto de fer- ro, observou que a hemorrhagia parou mais facilmente com o perchlorureto de ferro, mas que a cicatrisação da ferida, curada com alcool, foi muito mais rápida.
Esta acção anti-hemorrhagica do alcool deve ser at- tribuida á sua dupla acção physiologica: diminuição 'dò calibre dos vasos e coagulação do sangue.
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t> alcool presta Valiosos serviços no tratamento das fe- ridas.
Applicado a uma ferida recente determina uma ad- stricçãò dos tecidos, torna-os mais densos, è impede a inflammação de se produzir com tanta rapidez.
Applicado ás feridas antigás, modifica favoravel- mente a vitalidade das suas superficies, reprime as exu- berancias fungosas, atrophia as partes végétantes, di- minue a suppuração, oppõe-se ao mau cheiro e impede toda a fermentação pútrida.
Emfim a influencia que o alcool exerce sobre a <»- catrisaçâo o torna preferível a qualquer outro topitóo. Segundo que os bordos da solução de continuidade são em contacto ou afastados, e que por conseguinte dei- xam a descoberto uma superficie mais ou menos "ex- tensa, assim se observam phenomenos différentes. No primeiro caso a reunião immediata tem logar frequen- temente.
A influencia dó alcool sobre este resultado não pôde ser contestada. Segundo Gruérin a albumina coagulan- do-se debaixo da influencia do alcool envolve em si o soro do sangue, que nãó soffre alteração alguma, faci- litando-se assim a âdhesão dos bordos da ferida. Este auctor fallando das vantagens do curativo d'alcool so- bre este primeiro modo de eicatrisaçãó expressa-se do modo seguinte: «Nous avons obtenus, toujours la reunion
immediate 'dans leè vingts quatre heures. Nous ne com- ptons pas un seul insuccès. Allant plus loin, nous avons fait des amputations, des désarticulations; le plus sou-
vent nous avont obtenus la reunion immediate; encore dans ces cas il ni) a jamais eu de suppuration. »
Nos casos de feridas com perda de substancia, a ci- catrisaçãó pode operar-se de dous modos. Ou à alba-
mina se coagula e fórma uma ligeira camada á super- ficie da ferida, ou se combina com a parte mais fina dos fios empregados no apposito, formando uma espé- cie de couraça que protege a ferida e debaixo da qual se opéra a cicatrisação. E n'este caso uma ,verdadeira cicatrisação svb-crustacea.
Quando se levanta o apparelho exterior, observa-se um espaço coberto por uma substancia branca, molle, elástica, revestindo completamente a solução de conti- nuidade, e que depois de destacada deixa ver a ferida com aspecto mais satisfactorio. A sua superficie é re- gular, pois que o desenvolvimento das granulações se faz uniformemente; estas são pequenas, apertadas, có- nicas, d'uma côr rosada viva e caminham rapidamente para a cicatrisação. Os bordos da solução de continui- dade, em vez de serem espessos e tumefactos, de da- rem logar a accumulação de pus, são abatidos e delga- dos, e estão adhérentes e unidos á cicatriz formada. Demais, são constantemente attrahidos da circumferen- cia para o centro, de modo que, quando a ferida está completamente fechada, a pelle visinha cobre em grande parte a superficie, anteriormente a descoberto, e só dei- xa um pequeno espaço para o tecido de cicatriz.
Quanto á acção intima do alcool sobre o pus, Che- devergne affirma ter verificado com o microscópio, que a cellula purulenta em contacto com este liquido é des- truída, e que em seu logar se precipitam um certo nu- mero de granulações albumino-gordurosas.
Segundo Chedevergne o pus ficaria reduzido a uma espécie de emulsão, composta d'agua, substancias al- buminóides e gorduras, e d'esté modo perderia as pro- priedades nocivas, decompondo-se o seu elemento es- sencial.
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Esta indagação curiosa de Çhedevergne não tem a importância concedida, visto que o liquido purulento nem por isso deixa de persistir com as suas proprie- dades.
Para Guerin o álcool é considerado como um coa- gulante das substancias albuminóides do pus.
«Segundo este auctor, o pus torna-se fétido pela des- truição das substancias coaguláveis (albumina), que con- tém; destruídas estas substancias, sobrevem phenome- nos de dupla decomposição entre os saes d'origem mi- neral que unidos ás substancias orgânicas coaguláveis não podem reagir uns sobre os outros, em razão do po- der que tem estas substancias de os reter e fixar por combinação chimica.
«Quer esta alteração das substancias coaguláveis seja produzida por fermentos organisados, ou pela acção dos gazes em dissolução no sangue, resulta sempre a pro- ducção de ammoniaca, acido carbónico, decomposição de sulfatos e sulfuretos, que por seu turno, decompostos pelos ácidos, formam sulfidrato e carbonato de ammo- niaca, talvez o hydrogenio phosphorado e corpos gordu- rosos voláteis; depois a alteração secundaria dos leu- cocytes, e algumas vezes a sua destruição.
«O alcool, coagulando a albumina, fixando a agua e os sâes exhalados, retarda indefinidamente esta altera- ção, e previne assim todos os accidentes que podem re- sultar da alteração do pus á superficie da ferida.»
Esta explicação baseada na theoria de Eobim, so- bre os phenomenos Íntimos da suppuração, é a que nos parece mais rasoavel, e por isso a aceitamos na falta d'outra melhor.
Mas seja qual for a acção intima que o alcool exerce sobre a superficie d'uma ferida, a observação e a chi-
mica mostram-nos que os effeitos d'este liquido diffe- rent segundo se emprega concentrado ou diluído. Con- centrado, produz uma dor viva, forma uma membrana tenue á superficie da ferida, que a põe ao abrigo do contacto do ar, e é, seguida de pouca ou nenhuma sup- puração.
É pois coagulants e antiseptico.
Com esta indicação deve empregar-se nas feridas recentes que se pretende prevenir a suppuração e ob- ter a reunião immediata, e nas feridas antigas que sup- puram em abundância, e em certas ulceras fungosas que cicatrizam com dificuldade.
É igualmente concentrado que se tem applicado com vantagens contra os diversos accidentes das feridas: in- flammação, erysipela, podridão do hospital, infecção pu- rulenta, etc., vantagens que se devem attribuir á pouca suppuração das feridas, á coagulação do pus e á des- infecção produzida por este agente.
O alcool diluído, por exemplo a 21° c , determina uma simples picada que tem logar apenas na primeira ap- plicação e desapparece passados dous ou três minutos. As applicações seguintes são insensíveis.
Applicado a uma ferida recente, modifica vantajosa- mente a sua superficie, torna-a flexível, rosada, excita o desenvolvimento das granulações, activa a cicatrisa- ção, mas em menor gráo do que o alcool concentrado.
O alcool diluido actua principalmente como exci-
tante.
\ Com este fim emprega-se ainda com vantagens con-
tra certas feridas de má natureza, que ficam indolentes, não se modificando nem para bem nem para mal, e cuja cicatrisação se opéra lentamente; é util ainda em loções nas ulceras atonicas, assim como para limpar as anfra-
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ctuosidades das feridas, e para modificai* os, trajectos fistulosos.