3. Dimensões do eu: o zoomórfico e a dessubjetivação em Maus e Memória de elefante
3.3 Encaixes: as narrativas dentro das narrativas
As histórias são, de fato, recontadas de diferentes maneiras, através de novos materiais e em diversos espaços culturais [...]
E as mais aptas fazem mais do que sobreviver, elas florescem. Linda Hutcheon
Segundo Todorov, o encaixe é:
a explicitação da propriedade mais profunda de toda narrativa. Pois a narrativa encaixante é a narrativa de uma narrativa(grifo do autor). Contando a história de uma outra narrativa, a primeira atinge seu tema essencial e, ao mesmo tempo, se reflete nesta imagem de si mesma; a narrativa encaixada é ao mesmo tempo a imagem dessa grande narrativa abstrata da qual todas as outras são apenas partes ínfimas, e também da narrativa encaixante, que a precede diretamente. Ser a narrativa de uma narrativa é o destino de toda narrativa que se realiza através do encaixe (1982, p. 126).
Essa citação enseja uma reflexão sobre os diferentes planos advindos da narrativa composta por sujeitos que vivem, narram e escrevem a trajetória de um eu que já não cabe em si. Com o objetivo de demonstrar como os encaixes constituem uma forma de intercruzamento desses planos, comentaremos alguns excertos de narrativas encaixadas nas duas autobiografias do corpus.
Maus e Memória de elefante fazem largo uso de narrativas subordinadas, que
como afluentes, vão se incorporando a uma narrativa principal. Essas autobiografias se desenvolvem em diversos planos espaço-temporais, abrindo até mesmo, como vimos no item 3.1.2, a possibilidade de agregar mais de uma voz à autoescritura.
Em Maus, há passagens em que a imagem mistura o passado relatado com o presente do relato, como nas páginas 239 e 248 < Figura 39 >. Na p. 239, a imagem do carro que trafega por uma estrada arborizada conecta-se com a dos pés dos enforcados do episódio de revolta narrado por Vladek a seu filho e sua nora no interior do veículo. Efeito similar ocorre na p. 248, em que o carro apresenta-se quase como uma sequência visual do trem representado no quadro contíguo anterior, que traz o relato de Vladek sobre o comboio ferroviário que conduzia os judeus ao campo de concentração. Ambas as representações criam uma ligação visual entre o passado e o presente, entre o vivido e o narrado.
A página 102 de Maus < Figura 40 > apresenta mais um encaixe, toda uma digressão em traço diferente e perturbado, intitulada “Prisioneiro do planeta inferno”, um quadrinho já publicado anteriormente por Art Spiegelman. Nessa digressão, que narra o suicídio de sua mãe, ao representar-se com um uniforme listrado, Art faz uma
57 referência visual a si mesmo como o prisioneiro do título. Fazendo uso de um recurso metalinguístico, esta página exibe a mão do autor-narrador, gesto que se repete na mão que segura a fotografia de Art na infância com sua mãe. “Prisioneiro do planeta inferno”, deixa claro o fato de ser uma história dentro de outras duas: a do suicídio da mãe, dentro do relato de sobrevivência do pai dentro da narrativa do filho. È interessante, ainda, observar que ao publicar essa fotografia, o autor cria um contraste com a representação gráfica e mostra um vínculo com a realidade vivida, reafirmando os pactos autobiográfico e referencial, bem como a duplicidade real-ficção.
Todorov nos fala, de “homens-narrativa” equiparando o narrar ao viver, pois “se todas as personagens não cessam de contar histórias, é que esse ato recebeu uma suprema consagração: contar é igual a viver” (1982, p. 127). Em um trecho da página 161 de sua autobiografia, Art também equipara o valor dos diários de sua mãe ao valor da vida, ao acusar o pai de assassinato por tê-los destruído.
Por fim, é na página 296 < Figura 41 >, que Spiegelman narra o término do relato de seu pai. No primeiro quadro deste excerto, que trata do reencontro de Vladek com Anja, tanto a porta quanto a parede listradas podem ser constituir em referências às grades do confinamento ao qual ambos conseguiram sobreviver. O abraço deles, no segundo quadro, é representado em frente a um círculo, um foco luz - uma lua talvez – que ofusca todo o entorno. De volta ao presente da narrativa, no terceiro e quarto quadros, Art se despede derradeiramente do pai, que o confunde com Richieu, o primeiro filho, morto durante a guerra. Nesta sequência, é utilizado o recurso que denominamos “condensação seletiva", pois na “sarjeta” entre o quarto quadro e a lápide do casal Spiegelman, fica para o leitor a conclusão da morte de Vladek.
Art Spiegelman encerra sua autobiografia conjugada à de seus ascendentes datando a obra e assinando de próprio punho sob a imagem da lápide do túmulo dos pais, eles que sobreviveram, ele que sobreviveu para narrar. Neste ponto, o processo de encaixe chega a seu apogeu com o auto-encaixe, isto é, quando a história encaixante, após ramificar-se em alguns níveis, se encontra com ela mesma (Todorov, 1982, p. 125). Pelas datas informadas do falecimento de Vladek (1982) e de feitura de Maus (1978-1991), observamos que foram necessários mais de três anos de tomada de depoimento e mais de uma década para (re)constituição dessas vidas.
Quanto a Memória de elefante, lembremos que a obra parte de uma narrativa principal no presente, com narrativas encaixadas nas quais se alternam o passado recente e a infância/adolescência do autobiógrafo, reencaixando-se e retornando à
58 narrativa principal, a partir do sexto e sétimo capítulos. Em sua constituição não linear, o ritmo irregular é pautado pelos piores momentos de decadência, que vão dando ensejo às digressões. Assim, são as situações de dificuldades, abandono e marginalidade que introduzem os encaixes na narrativa principal. Por exemplo, o desagrado de Caeto em relação aos galeristas homossexuais que organizam uma exposição das pinturas que ele vende na rua deflagra, na p. 43 < Figura 42 >, uma digressão sobre a descoberta, quando garoto, da homossexualidade do próprio pai. No terceiro quadro, o pacote de laranjas derrubado por ele quando garoto, ao invés de um close na expressão de seu rosto, dá a dimensão do choque.
Na página 123, a digressão final se encontra com a narrativa principal encaixante, iniciada no prólogo da p. 8. Em ambas as páginas, 8 e 123 < Figura 43 >, o autor trabalha com a estrutura de apenas três quadrinhos, sendo que o principal deles tem o quádruplo do tamanho dos menores, marcando graficamente o encaixeÉ a partir de então, quando a situação de Caeto começa a melhorar e retoma-se o presente no qual ele inicia a autobiografia, que a história se volta mais fortemente para sua problemática relação com o pai.
Se a estrutura lacunar é uma das principais marcas da sintaxe das histórias em quadrinhos, é na (des)continuidade que o eu dos quadrinhos autobiográficos se (re)constrói. Assim, é a partir do ir e vir espaço-temporal das narrativas encaixadas, somado à fragmentação seletiva dos sequenciamentos mais representativos para o desenvolvimento do enredo, que se depreende a perspectiva ex-centrica tanto do criador, presente em sua ausência, quanto do cocriador de sentidos, o leitor, ao visitar os (não)lugares do escritor.