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1.1 – O encontro com o outro arcaico: o papel das angústias e das defesas

Capítulo III – A singularidade dos modos de identificação nos estados limites: o recurso

III. 1.1 – O encontro com o outro arcaico: o papel das angústias e das defesas

Ao descrever as relações com os primeiros objetos Klein (1975; 1946) privilegia a importância dos aspectos de negação e onipotência na construção do aparelho psíquico e sublinha sua articulação com os movimentos introjetivos e projetivos, assim como sugeriu Freud em 1915. Nestes termos, tanto a projeção quanto a introjeção são entendidos como processos universais, que estariam a serviço de todos os seres humanos nos primórdios da vida psíquica. São de vital importância para o desenvolvimento normal dos limites entre o dentro e o fora, entre ego e não ego, como também apresentam importante papel nas relações objetais anormais e patológicas.

No artigo “Sobre a Identificação” (1975), Klein afirma que a relação com o outro arcaico é mediada predominantemente pelos recursos defensivos da cisão, da introjeção, da projeção e da identificação. Tais defesas são utilizadas como soluções diante das angústias de aniquilamento e perseguição, típicas desse período da vida. A

qualidade do primeiro encontro com o objeto tem papel fundamental nos desdobramentos subsequentes da relação com o outro.

O seio – como primeiro objeto – é tomado pelo bebê na situação inicial como cindido, e suas partes se apresentam inter-relacionadas. Por um lado encontramos um seio bom gratificador que é investido de amor e, por outro, um seio mau frustrador que é investido de impulsos mortíferos e de ódio. Esta cisão inicial do objeto só pode ser considerada se levarmos em conta que subjacente a ela há igual divisão interna. Para Melanie Klein (1946) o ego inicial também é cindido, e a expressão dessa divisão é apresentada através da suposta separação interna dos impulsos de amor e de ódio.

A situação em que o ego e o objeto se encontram fragmentados pressupõe que o primeiro sinta seus impulsos destrutivos – oriundos da pulsão de morte – como fonte de ameaça de autodestruição e autoaniquilamento. Diante da angústia que esta ameaça representa, ocorre movimento projetivo de uma parte dos impulsos mortíferos para fora de si. O desvio para fora tem como objetivo ajudar o eu infantil a se livrar da ameaça que colocaria em perigo a própria possibilidade de existência psíquica.

O impulso destrutivo, quando projetado, se exprime no psiquismo infantil como fantasia de ataque ao exterior. Tal ataque, ao mesmo tempo em que é direcionado ao objeto que não responde às necessidades infantis, o elabora como tal. Quando o eu investe uma quota de seus impulsos mortíferos no outro, se estabelece um primeiro limite de diferenciação, e o objeto começa a ser percebido e constituído como separado. O movimento projetivo exerce importante papel nessa diferenciação inicial que se estabelece entre ego e não ego. Além disso, favorece a negação de uma realidade psíquica de ameaça e de desamparo interno, aliada à igual negação da parte destruidora e mortífera do ego (Id., ibid.).

Os componentes agressivos e destruidores quando investidos no outro se tornam assim a fonte da fantasia e da angústia de perseguição. Situando seus elementos maus do lado de fora, o ego oferece ao objeto a posse de sua quota pulsional mortífera. Dessa forma o objeto investido por esse pulsional exibe um poder de retaliação ao ataque do qual foi vítima, tomando o eu infantil como alvo privilegiado de sua fúria.

Com relação ao destino da outra parcela pulsional – a referente às pulsões de vida – é posto em ação um distinto modelo de relação com o outro. Ao investir o seio com os impulsos de vida o psiquismo infantil cria para si um objeto-seio bom e

gratificador. A partir deste investimento o seio se torna um objeto valioso que merece proteção contra o perigo dos impulsos de ódio. Com a finalidade de protegê-lo dos perigos pulsionais, o seio bom será introjetado no ego que, a partir daí, passará a ser o seu guardião, interiorizando-o. Este tipo de investimento permite constituir um objeto- seio bom que, ao ser introjetado, se tornará um núcleo fundamental do ego e desempenhará papel especial no sentimento de onipotência infantil e nas relações objetais subsequentes. (KLEIN, 1946, op. cit.)

A introjeção do seio bom garante a possibilidade de gratificação alucinatória, além de permitir a instauração de uma conjuração onipotente do objeto e situações ideais, oferecendo ao ego o substrato pulsional, narcísico e objetal para a metabolização da situação dolorosa que o encontro com o outro estabelece.

Esta posição parece estar em consonância com o que é apresentado em “Instintos e suas vicissitudes” (FREUD, 1915/1976). No que concerne à diferenciação entre o que é interno e o que é externo, a situação psíquica primordial apresenta a seguinte característica: um movimento psíquico carrega o que é agradável e prazeroso para o plano interno e o que é desagradável e desprazeroso para o plano externo. Uma vez que os objetos são fonte de prazer e satisfação, instala-se uma ânsia de tomá-los pra si e de os introjetar. Por outro lado, o que é fonte de desprazer e de tensão interna é expelido e projetado para fora do ego, coincidindo e constituindo – ao mesmo tempo – o mundo externo.

Se por algum motivo a relação com o objeto fica marcada pelo incremento dos aspectos pulsionais mortíferos – que Melanie Klein relaciona a um distúrbio inato da pulsão e/ou à concomitante fraqueza inata do ego, posição que não compartilhamos e voltaremos a discutir – se estabelece uma fixação ao tipo de relação narcísica mediada pela ejeção de si no outro. Isto implicará fortes consequências nos processos identificatórios posteriores.

Quando os mecanismos de projeção, introjeção, cisão, idealização e negação não conseguem dominar os impulsos pulsionais, e estes invadem o ego, pode então ocorrer a desintegração do eu como medida última de defesa. O ego se cinde a fim de evitar o encontro com o terror da experiência da invasão pulsional mortífera. Tal defesa aparece combinada com o incremento de um tipo especifico de identificação que coloca em jogo

uma situação onde as partes fragmentadas do eu passam a ser vivenciadas no outro. (SEGAL, 1966)

Uma fixação a este modo de relação debilita o ego de maneira considerável, pois os componentes pulsionais do sujeito ficam investidos no objeto. O ego usurpado de seus componentes pulsionais terá como destino seguir um caminho que garanta minimamente a possibilidade de sua existência: aderindo sua vivência a um objeto situado fora de si.

Assim, as fantasias agressivas oriundas das relações mais primitivas com o seio da mãe – constitutivas e universais – são desdobradas na fantasia de entrar “dentro” do corpo da mãe, seja para adquirir à força seus elementos bons, seja para despejar nela os conteúdos maus, buscando imperativamente equilíbrio na balança de investimentos que se rompeu pelo excesso pulsional não metabolizado. Diante do incremento do pulsional mortífero o bebê vai experienciar de maneira simultânea os impulsos e fantasias de invasão e projeção (KLEIN, 1975).

Quando há uma situação de fixação não só as partes más do ego são expulsas e projetadas: as partes boas também o são. Havendo aumento considerável dos impulsos destrutivos dentro do sujeito – que retornaram de fora pela via do objeto perseguidor ou que permaneceram do lado de dentro – o objeto bom interiorizado, que supomos ser um núcleo fundamental do ego, se encontrará internamente ameaçado. Por conta da ameaça interna o bom objeto, juntamente com a parte boa do ego, será ejetado e colocado no outro como medida extrema de proteção e continuidade de existência. Tanto as partes más quanto as partes boas serão investidas no objeto e poderão ser sentidas como perdidas e aprisionadas nele.

Laplanche e Pontalis (1987/2004) destacam o caráter de fantasia de intrusão de si, ou de partes de si, no interior do objeto na identificação projetiva. Seja com o intuito de lesá-lo, dominá-lo ou controlá-lo, o que se encontra em jogo é a fragmentação dos limites de diferenciação e a situação de dependência ao outro para existir. Os autores sublinham que se trata de um modelo prototípico de relação com o objeto regida por uma posição narcísica, e investida principalmente pelos impulsos agressivos e de ódio.

Só a partir desta condição de fixação a uma fase em que o ego se encontra mal delimitado e dependente do outro para existir é que podemos contextualizar o movimento da identificação projetiva. Sua principal consequência é a estruturação de

um ego completamente preso e aberto a intensa dependência a estes representantes externos. A relação com o outro permanece regida e controlada por um tipo de funcionamento narcísico – pois a diferença encontra-se comprometida – e permanece mediada predominantemente pelo aspecto destruidor da pulsão.

Hanna Segal (1966, op. cit.) afirma que diante da fixação ao modelo narcísico de relação com o outro o mecanismo da identificação projetiva envolve-se à projeção inicial da pulsão de morte. Como medida desesperada de proteção contra a desintegração, parte de si e dos objetos internos são destacadas e projetadas no objeto externo que, por conta desta operação, se encontra com elas identificado e intensamente investido. Este é o movimento básico da inédita concepção de identificação projetiva, tal como é apresentada por Melanie Klein em “Notas sobre alguns mecanismos esquizóides” (1946, op. cit.).

Ao definir a identificação projetiva Melanie Klein (1975, op. cit.; 1946, op. cit.) descreve uma situação em que o encontro com o outro é regido por uma mediação narcísica. O movimento de deslocar algo de si para a alteridade – identificando por conta disso o objeto como o si mesmo – torna-se o elemento fundamental, a marca central de uma relação com o outro baseada na intensa dependência diante dele. Este ponto se caracteriza como elemento precioso na defesa de nossa hipótese acerca do problema da identificação nos estados limites.

Entendemos que a face narcísica da identificação projetiva se apresenta como um desdobramento do que é definido como identificação narcísica por supor em sua base uma escolha narcísica de objeto. Para Brusset (1999, op. cit.) a identificação projetiva recupera a noção freudiana de identificação primária como primeira forma de relação de objeto, implicando um espaço psíquico pluridimensional e limites suscetíveis de ser abolidos e/ou deslocados entre o sujeito e o objeto. A relação com o outro é mediada por um modelo fusional e afetivo primário, onde o outro só pode representar o próprio sujeito, o que ele foi um dia, o que ele gostaria de ser ou aquilo que um dia foi parte integrante dele (FREUD, 1914/1976, op. cit.).

Antes de avançarmos com nossa reflexão precisamos comentar a posição kleiniana acerca do ego e das defesas arcaicas. Alguns pontos-chaves destacados por essa autora se distanciam da nossa perspectiva de constituição subjetiva e egoica.

Ao supor que as operações defensivas arcaicas “ajudariam” o ego a se livrar de situação embaraçosa, Klein aposta na ideia de um ego arcaico e presente desde os primórdios, que recorre a uma ajuda quando se vê confrontado ao perigo. Perguntamo- nos se esta noção de ego precoce e inato não iria contra as formulações freudianas a respeito do narcisismo, que pressupõe uma ação psíquica fundadora da unidade egoica e que, portanto, não se encontra presente desde o início. Não concordamos com a ideia do ego precoce e inato tal como é proposto por Klein, e neste sentido estamos muito mais próximos da posição defendida por Freud. Porém, aceitamos a concepção kleiniana de que no início há uma situação de não integração.

Além desta ressalva, encontramo-nos com a necessidade de delimitar de forma sistemática o que se compreende como a projeção propriamente dita e a identificação projetiva. Tomamos o problema da identificação projetiva como uma encruzilhada conceitual, pois circunscreve além do aspecto projetivo, o caráter identificatório do movimento da projeção. Acreditamos que não se trata apenas de um problema terminológico, mas antes de um problema teórico redutível a uma reflexão. Por isso, teremos que recuar a nossa atenção para a projeção, no intuito de compreender seu papel na composição de uma identificação do tipo projetivo.

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