Anexo 2: Encontros
3. Encontro realizado em 12 de setembro de 2005
LIA Teve o concurso nesta semana.
LEA Eu peguei essa prova que nós fizemos há quinze anos atrás, o último concurso que nós passamos...
LIA Você ainda tem?
LEA Tenho, está lá guardadinha. A diferença é absurda, a outra é tão assim pontual, quando você lê, você tem certeza da resposta se você sabe. Você falava assim eu acho que é isso.
MEL Umas dez questões do começo eu deixei, depois eu voltei de novo, mas assim, o que eu achei ruim, a pergunta, enorme, aí as respostas, tudo apertadinho.
LEA Os textos, LIA, sete? Seis?
LIA Sete, oito textos.
LEA Sete textos que era assim: então os textos ficavam nessa página aqui, aí as perguntas ficavam nessa. Aí falava assim olha o sexto parágrafo do terceiro texto. Aí o que acontecia? A minha prova começou a desmanchar, a folha começou a sair, por quê? Eu ficava aqui, sexto parágrafo, não sei o quê, então tá.
BEL Não deu vontade de sair?
LEA BEL, eu tentei largar, mas aí eu fiquei preocupada se eu estava mesmo fazendo isso porque eu estava com raiva que a prova era mal formulada ou se é porque eu não estava sabendo muita coisa.
AN As questões foram sobre o quê?
LEA Progressão continuada, bastante.
MEL Umas quarenta questões, praticamente metade da prova, eram sobre progressão continuada. Não pôs nada de [sobreposição de vozes impede o entendimento do que se fala]
LEA As minhas colegas falavam que elas não estavam estudando nada. Eu ficava imaginando o nervoso que elas deviam estar. No meu caso, eu fiz só pra pontuação na minha carreira, mas eu fico imaginando as pessoas que estão fazendo pra ingressar mesmo, e fizeram cursos, e pagaram, e gastaram. Então eu ficava imaginando nossa!, essa pessoa estava assim doida, né? Aí eu comecei a perceber que os próximos, porque eu pretendo fazer, diz-se que vai ter concurso pra diretor o ano que vem. Nós temos, então, que fazer, né? Eu fiquei então
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MEL O meu cunhado disse que é uma prova política, né?, porque o pessoal falou tão mal da progressão continuada [inaudível]
LIA Mas tinha uma bibliografia tão diversificada...
MEL Imagina! Nada, só progressão continuada. Eu não consigo imaginar alguém que tenha estudado alguma coisa parecida com o que caiu. Aí eu fiquei mais assustada porque, tudo bem, no meu caso, concurso eu estava fazendo mais por fazer. O concurso que eu vou querer fazer é pra supervisor. E aí? Aí eu fiquei assim preocupadíssima, porque aí eu vou querer passar, né? Eu acho que quem não estudou se saiu melhor. [sobreposição de vozes impede o
entendimento do que se fala]
LEA Ficou certa a intenção deles de fazer essa prova?
MEL Eu acho que sim. Na campanha, principalmente de governador, o que os outros partidos fizeram? Meteram o pau na progressão continuada, colocaram pais na televisão. Então, quer dizer, a intenção deles foi fazer uma prova política mesmo.
LEA Ainda bem que você não foi, BEL, porque eu saí com uma frustração! Arrasada, acabou comigo, arrasadésima.
BEL Nossa! Ainda bem mesmo.
LEA Porque ela foi muito confusa, foi terrível e eu não sei também se eu fiquei mais abalada porque eu fui absolutamente péssima, e é difícil lidar com essa situação. Então, não sei, as duas coisas.
LIA Mas acho que concurso, assim, eu acho que é sorte.
LEA [sobreposição de vozes impede o entendimento do que se fala] Concurso é uma coisa que é assim: é bom senso na hora de responder que você deve ter, e também o fator sorte, tem alguma coisa de sorte, mas não sei, gente, eu fiquei muito frustrada, porque todos os concursos que eu fiz, alguma coisa eu falava isso aqui é isso aqui mesmo. Eu não estudei nada naquele concurso nosso. [sobreposição de vozes impede o entendimento do que se
fala] A última pergunta, que era dissertativa, você viu aquilo lá? Periodicidade. Gente, era
uma coisa tão doida, tão doida! Era pra falar sistema de numeração, o lado periódico da ação. Gente, era tão confuso! Era confuso e ao mesmo tempo eu não tinha subsídio pra lidar com aquilo lá, porque é assim, você pode não ter tanto subsídio, mas você ter uma idéia.
AN [sobreposição de vozes impede o entendimento do que se fala] Mesmo com tantas dificuldades, deu para pensar em algumas coisas, reconhecer algumas idéias...
LIA A linguagem, assim, você tinha que deduzir alguma coisa.
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fala] A linguagem não era de nível superior, era uma linguagem acadêmica mesmo, de tese,
de alguma coisa assim, só você vendo como é que era, era uma linguagem diferente, não tinha nada a ver, e aquilo eu acho que deve ter acabado com a auto-estima de todo mundo, né?
LEA Primeiro prepare os professores, né?, ofereça doutorado.
MEL É, porque gente, o que eu senti assim é uma linguagem que só mesmo quem tem mestrado. Vários artigos de intelectuais eu leio todos os dias no Estadão. É lógico que eu não consigo entender tudo o que eles estão falando. Tem alguma coisa da minha área.
LIA Mas sabe o que é um grande problema? Às vezes é o cansaço também, é o estresse, é aquela coisa, como se diz, né, é uma cobrança, pelo menos no meu caso, eu não sou efetiva, né? Então, é assim, o cansaço também; aí chega uma hora que você não consegue ir mais muito longe.
MEL Uma coisa que eu achei ruim foram as experiências dos professores. Deram cinco alternativas [sobreposição de vozes impede o entendimento do que se fala]
LEA De uma certa maneira você fala assim meu Deus, será que é exatamente isso que eles querem? Eu coloquei coisa bem simples, bem clássico.
AN O que deu para responder?
LEA Uma interessante que eles falavam que deve haver essa interação, esse trabalho que nós fazemos aqui, da comunidade, da escola.
LIA Era muita coisa pra você pensar e eu acho que o tempo não foi...
LEA O tempo não dava. Não era ler e responder, você tinha que ler, ler, ler e responder, entendeu? Uma interpretação assim... Foi um pouco cansativa.
MEL [sobreposição de vozes impede o entendimento do que se fala] Todo mundo que eu conversei era a mesma coisa, sabe?
AN É duro isso, porque vocês estão falando que têm tanta experiência de trabalho, e não reconheceram ali perguntas sobre o trabalho de vocês.
MEL Igual assim, o pessoal que elaborou a prova não nos reconhece, não sabem nada, é terra de ninguém.
LIA Eu fiquei lá, uma fila enorme pra comer, acabei comendo, acho que é isso, muito cansaço, levantei às cinco horas da manhã, acordo de três em três horas. Aí minha mãe falou assim LIA, você deveria ter dormido aqui em casa, que você teria uma noite de sono completa.
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LEA De tudo, tudo, tudo, eu acho que muitas perguntas. Cansa, gente. No começo você lê, interpreta; no final [sobreposição de vozes impede o entendimento do que se fala]
AN O que vocês acham que esperam dos professores que fizeram as provas?
MEL Eu acho que acadêmicos, sabe? Mas eu acho que essa prova foi uma prova política mesmo. Eu falei pro meu cunhado que praticamente eu coloquei as respostas ali... Às vezes não é a realidade que eles querem.
LEA O que eu achei ruim naquele que nós passamos, por exemplo, tinha assim questões de matemática, de história, de literatura. Gente, tem professor que não sabe... de geografia nada, sabe? Nós temos obrigação de saber. Política, com consulta, eu não sei se ali conseguiu realmente ver se algum professor tinha conhecimento mesmo de atualidade. Mas nada que dissesse pra eles olha, eu sei, participo, eu sei a parte de geografia, eu sei a parte de história.
MEL Mas eram muito confusas as respostas. Duas você eliminava. Até três você eliminava. Duas você não conseguia eliminar.
AN Agora, é interessante vocês terem falado que aquela questão sobre a integração comunidade e escola vocês tiraram de letra.
LEA Agora o Joel* deu uns panfletinhos pra gente pra fazer matrícula e aí nós pretendemos... porque a gente vai ficar sem escola, gente, vocês sabem disso. Por enquanto ninguém veio. Aí nós vamos, num dia da semana, entregar os folhetos da matrícula. [sobreposição de
vozes impede o entendimento do que se fala]
MEL Aí a Leandra, estava falando do chão, né?, olhou e falou está diferente a cor do chão, não sei o quê, eu não gostei dessa cor, tem buraco aqui, tem buraco ali.
LIA Sabe o que eu acho interessante? Fazer aqueles painéis na parede, colocar.
LEA Outra coisa que eu queria falar pra vocês, meninas, que nós arrumamos pra ir pro zoológico de São Paulo dia 22 de outubro, é num sábado. Não precisa levar nada, o Rotary dá tudo, lanche, almoço. A BIA não pode ir, a BEL também não pode. Então nós pedimos pras estagiárias de pedagogia que nós temos aqui, então essas meninas vão estar aqui pra quem não puder ir, né? Então é assim, vocês podem avisar pra classe de vocês que dia 22 de outubro...
LIA No ônibus cabe todo mundo?
LEA Três ônibus nós ganhamos. Por falta de um, nós ganhamos três. As crianças não precisam levar nada, elas vão ganhar tudo. Sai daqui com lanche, chega lá tem almoço, depois quando volta tem lanche também.
169 LEA O Rotary dá tudo
MEL E, falando nesse negócio de fazer desenho, o passeio de vocês é quando?
LEA Hoje.
MEL É hoje? Quanto é que nós temos de dinheiro, BEL?
BEL 83, 84, não lembro.
MEL Será que nós não podemos comprar tinta com esse dinheiro? E pintar um painel ali na frente? O que vocês acham?
LEA E poderia fazer alguma coisa na nossa classe, MEL, que a nossa classe é de primeira série.
LIA Sabe o que faltava ali? Um alfabeto pintado em cima da lousa.
MEL E aí, vamos comprar tinta? Você poderia comprar ou quer que alguém compre pra você? A BEL te dá o dinheiro e a gente resolve o problema já. Que você acha, LIA, concorda?
LIA Concordo.
MEL E aí, BEL, que você acha?
BEL Concordo.
LEA Vamos lá, aí nós fazemos um painel na frente da escola que vai ser chamativo, porque nós estamos pensando em fazer um café pro pessoal da creche, os pais vão mandar as crianças pra cá [sobreposição de vozes impede o entendimento do que se fala]
LIA A gente está cobrando uma coisa que é direito nosso.
LEA A gente escolheu a cor, um verde clarinho, não foi? Então vai pintar o chão? Vai. Sabe o que a gente descobriu? Que ele usou uma tinta que a gente ganhou de uma reforma passada, essa tinta já está estragada, já está vencida, venha dar uma olhada. Não trouxe a cor que a gente tinha combinado.
[sobreposição de vozes impede o entendimento do que se fala]
BEL Hoje, logo pela manhã, abri o portão da escola e fiquei ansiosa, porque eles foram dispensados sexta-feira na hora do recreio porque iam pintar o chão. Cheguei na porta e ele estragou a minha felicidade, o chão da sala estava pintado com uma cor desagradável, um trabalho malfeito, só de pisar a pintura saía.
LEA Pintura de chão tem um grande problema, onde nós pisamos a marca do sapato fica.
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quadriculado no chão. No encontro do risco eu mandei colocar uma lajota, em losango. Esses quadrados foram pintados, a minha casa foi reformada há sete anos, e é pintado de cinza, tenho retocado a cada ano e meio. Agora eu pintei uma garagem, entendeu?
BEL Quando eu passei pela minha sala, que eu vi, eu nem entrei, eu fui conversar com ela e eles estavam num rebuliço na sala. Aí eu escrevi na lousa, porque eu estou trabalhando notícias com eles, aí eles escreveram [sobreposição de vozes impede o entendimento do que se
fala]
LIA Sabe o que eu estou questionando? Nós estamos falando da bagunça, se as crianças saem na porta não tem ninguém vendo, concorda comigo? Tem uma cadeira quebrada. [inaudível] Eu fico assim muito chateada de ver.
LEA Esse cuidado nós temos que ter, porque nós cobramos bastante. [sobreposição de vozes
impede o entendimento do que se fala] Isso faz parte. Um aluno meu disse assim a gente
não vai poder usar computador? Porque a ansiedade deles [sobreposição de vozes impede
o entendimento do que se fala] A gente precisa cobrar a direção porque nós temos os
mobiliários, estão lá empilhados, por que não usar, não serem instalados? Sabe o que precisa ser feito, mas não está fazendo nada.
BEL Foi detonado todo o material que estava dentro do armário, um problema sério de sumir material, de chegar tudo assim rasgado, jogado, aí é duro. Se chegar na minha classe, onde eu dou aula, e estiver nesse estado é difícil, né?
LIA [sobreposição de vozes impede o entendimento do que se fala] ... a lousa era com rabiscado de criança, não era a professora, eram as crianças que estavam riscando toda a lousa, não que tinha sido o professor que tivesse usado, a letra do professor, não, você percebia que a criança ficava aqui e ficava escrevendo na lousa.
BEL Gente, eu acho assim também, tem material que pegam dentro do armário.
LEA Mas eu acho também uma coisa que a gente tem que saber aqui é saber estabelecer os espaços, né? O espaço, porque ele é comum a todos. Tem isso também. O espaço é comum? É e não é. Ele não é comum a todos [sobreposição de vozes impede o entendimento do
que se fala] ... e eu vejo assim, como ela está de manhã, os bilhetes só são pra turma da
tarde.
BEL Eu, sinceramente, acho que você entra numa sala assim, pensa bem, não, não, não.
LEA Já aconteceu de eu chegar aqui e fazer aula de usar o vídeo, não tinha condição, não tinha espaço.
AN [inaudível]
LEA Se fosse limitado, tem alguns pontos de espaço comum, porque é muito chato chegar aqui e não ter condição de espaço.
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MEL [sobreposição de vozes impede o entendimento do que se fala] ... um dos tópicos, um dos itens é NEE, necessidades educacionais especiais. Eu acho que está mal colocado pra nós. Inclusive eu tenho um aluno que tem 12 anos [sobreposição de vozes impede o
entendimento do que se fala]
LEA O questionário não veio dividido pra alunos com alunos com necessidades educacionais especiais separados e alunos com problemas mentais. Veio um questionário geral pra todos.
[sobreposição de vozes impede o entendimento do que se fala]
BEL A turma da tarde começa vinte pra meio-dia.
P.S. Onde lê-se AN = Pesquisadora Joel* = diretor da escola
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