3 OS DIREITOS HUMANOS DE ACESSIBILIDADE E LOCOMOÇÃO
3.1 ENFOQUE SOB O CONCEITO DOS DIREITOS HUMANOS
seguem.
3.1 ENFOQUE SOB O CONCEITO DOS DIREITOS HUMANOS
A acessibilidade e a locomoção, como carências ou necessidades existenciais, assim também aspirações a serem concretizadas em favor das pessoas acometidas de deficiências ou incapacidades ou em situação de desvantagem, encontram acolhimento entre os direitos humanos.
A expressão direitos humanos – igualmente no tocante às de direitos humanos fundamentais ou, abreviadamente, direitos fundamentais – representa uma conquista do feminismo, ao repudiar a terminologia direitos do homem, em virtude de considerá-la machista (FERREIRA FILHO, 2002, p. 14).
À guisa de sinônimas do que denomina de direitos fundamentais do Homem, Tavares (2000, p. 1) lista as seguintes expressões:
direitos naturais, direitos humanos, direitos do homem, direitos individuais, direitos públicos subjetivos, liberdades fundamentais, liberdades públicas e direitos fundamentais do homem, liberdades fundamentais do indivíduo, direitos do cidadão, direitos constitucionais, direitos históricos, direitos da pessoa.
Entende, ainda, que a expressão liberdades públicas é a acepção mais ampla dos direitos humanos fundamentais, como destaca Silva (2004, p. 20).
Historicamente, sob os acordes do pensamento cristão, os direitos humanos se inspiraram na máxima de que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus e que, portanto, é dotado de um valor próprio, não sendo, conseqüentemente, mero objeto ou instrumento18. Tem-se, dessarte, os primórdios da concepção do Direito natural ou jusnaturalista. A propósito disso, leve-se em conta a seguinte afirmação: “A fundamentação jusnaturalista [...] consiste na consideração dos ]direitos humanos como direitos naturais e deriva diretamente da crença no Direito Natural” (SILVA, F., 2002, p. 126).
Ainda no século XVIII, em consonância com a concepção jusnaturalista, levou-se em consideração tão somente a condição humana, para que a pessoa fosse
titular de direitos que devem ser reconhecidos pelo Estado e respeitados por seus semelhantes.
A seu tempo, Bobbio (1992, p. 16-17) critica essa corrente por ter procurado o fundamento em sentido absoluto dos direitos humanos na natureza humana, generosa e complacente, à qual subordinou diversos direitos, embora os considerasse irresistíveis ou inatos, o que, portanto, se revelou uma ilusão. Sua inteligência é a de que “os direitos do homem nascem como direitos naturais universais, desenvolvem-se como direitos positivos particulares, para finalmente encontrarem sua plena realização como direitos positivos universais” (BOBBIO, 1992, p. 30).
Segundo o jusnaturalismo, portanto, os direitos sob comento são os derivados da natureza humana, significando, em suma, que são naturais. A partir dessa concepção, devem ser respeitados por si mesmos. Ligam-se abstratamente ao homem. Independem de serem declarados. Reconhecidos pelo Estado, por este lhes é conferida a garantia inerente à ordem jurídica e, conseguintemente, ganham coercibilidade. Nas Cartas Políticas, são ostentados como direitos fundamentais do homem, na acepção designativa de humanidade (FERREIRA FILHO, 2002, p. 1-22).
No decorrer do século XX, instaurou-se um pensamento cristão e humanista, que recepcionou a idéia jusnaturalista, em uma fundamentação religiosa ou metafísica da dignidade da pessoa humana, como última forma de garantir esta contra a disponibilidade absoluta oposta pelo poder estatal e social.
Conforme se pode sintetizar da explicitação de Ramirez (1997, p. 23-25, 34- 36 ), os direitos humanos surgem ou emanam do Direito chamado natural, no sentido de fazer parte da própria natureza humana, atribuindo a esta o predicado de ser universal, compreendendo todos os homens, sem distinção de raça, sexo, condição social ou profissão religiosa. Acrescenta que o fundamento dos direitos humanos se encontra na natureza humana, porque somente esta é dotada de razão, destacando que a racionalidade confere excelência a essa natureza, porque “sollo ella puede ser autoconsciente” e “únicamente el carácter racional diferencia a esa naturaleza de la naturaleza animal”. Alude a uma lei natural emanada do interior do homem, do modo como a água brota diretamente de um manancial, sendo, pois uma realidade congênita ao homem, acentuando que a referida lei preside os direitos humanos. Entretanto,
segundo o mesmo autor, a teoria histórica enuncia que os direitos humanos, na sua maioria, são frutos das reivindicações de caráter social e do reconhecimento histórico posterior por parte das autoridades. Descortina-se da explicação do autor que ele se reporta à teoria jurídica, segundo a qual a base dos direitos humanos seria a sua codificação, resultante de consenso da vontade popular como fundamento desses direitos, em decorrência do exercício do poder soberano do povo por meio de seus representantes democraticamente eleitos.
A consecução de um entendimento mais substancial do que significam os direitos humanos tem como perspectiva a interligação das teorias jusnaturalista,
positivista e moralista ou de Perelman. É, deveras, o que se verifica. O jusnaturalismo proclama a fundamentação dos referidos direitos em uma ordem
superior e universal, que não pode ser mudada ou derrogada, não os atribuindo à criação de legisladores ou juristas. O positivismo, por sua guarda, entende que a existência dos direitos, com a adjetivação de humanos, se fundamenta na ordem normativa, como legítima manifestação da soberania e, por isso, seriam apenas os expressos no Direito positivo. A teoria moralista vaticina que os direitos humanos se fundamentam na experiência e consciência moral de um povo (espiritus razonables). Da interação dessas três correntes, malgrado as suas expressões conceituais diversificadas, se extrai a concepção desses direitos, isto é, como humanos, fundamentais e integrantes de um ordenamento jurídico (MORAES, 2003, p. 35).
O deslindamento acerca da essência dos direitos humanos encontra subsídios nas concepções idealistas, racionalista-positivas e crítico-materialistas, às quais se reporta Dornelles (2000, p. 56).
As concepções idealistas, cunhadas no modelo jusnaturalista e fundamentadas em uma visão abstrata e ideal, consideram os direitos humanos identificados com valores informados por uma ordem superior metafísica, transcendente, e que tem seu fundamento na razão natural do indivíduo, sendo preexistente à sociedade e ao Estado, vale dizer, são reconhecidos como direitos naturais, porque inerentes ao indivíduo (DORNELLES, 2000, p. 56).
As concepções racionalista-positivas concebem os direitos humanos como direitos fundamentais, distantes da noção de valores suprapositivos, desde que
reconhecidos pelo Estado ou deste emanados, por meio de suas leis (DORNELLES, 2000, p. 56).
As concepções crítico-materialistas preconizam que os direitos e as garantias foram reconhecidos mediante um processo histórico caracterizado por contingências políticas, econômicas e ideológicas (DORNELLES, 2000, p. 56).
Tomando como estipêndio essas três noções conceituais, podem-se assimilar os direitos humanos como decorrentes da essência humana, na dimensão de direitos naturais, e que evoluíram, passando a integrar as leis, na configuração de direitos positivos, passando a ser reconhecidos historicamente, de acordo com as circunstâncias decorrentes de injunções políticas, econômicas e ideológicas.
Conceituando os direitos humanos, no centro dos quais se posiciona a pessoa humana (GONÇALVES, 1996, p. 415), a Declaração de Viena, da Conferência Mundial de 1993, os enuncia como “universais, indivisíveis, interdependentes e inter- relacionados”. Cada um desses elementos tem seu significado19. Diz-se que são universais, porque “se mostram presentes em todos os domínios da atividade humana” e, em virtude disso, acarretam obrigações erga omnes. Em função de sua indivisibilidade, conglomeram todos os direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais, com ênfase de proteção aos socialmente excluídos, aos grupos mais carentes e vulneráveis da sociedade, valendo aqui a asserção de que, entre estes, se encontram as pessoas com necessidades especiais (acometidos de deficiências, incapacitados, em situações ambientalmente de desvantagem e idosos) (GONÇALVES, 1996, p. 414). São, de outra banda, interdependentes e inter-relacionados, em decorrência de sua interligação com a democracia e o desenvolvimento, para o fortalecimento das instituições nacionais que se destinam a dar-lhes vigência plena.
Acerca da indivisibilidade e interdependência desses direitos, não há qualquer dúvida, máxime depois da superação da dicotomia entre os direitos civis e políticos, de um lado, que eram tidos como de implementação imediata, e os direitos sócio-econômicos e culturais, do outro lado, até então considerados como passivos de aplicação apenas progressiva, o que foi dirimido na Conferência de Direitos Humanos
19 Conforme se depreende das assertivas de Antônio Augusto Cançado Trindade, ao fazer a apresentação da obra de
de Teerã de 1968 e, também, no âmbito da Assembléia Geral da ONU, ao editar a Resolução 32/130, de 1977, proclamando aqueles dois componentes conceituais dos aludidos direitos como imanentes a estes e, assim, esculpidos no texto constitucional de 1988 (TRINDADE, 1991, p. 40).
Consoante a emanação de Tobeñas (1976, p. 13 apud MORAES, 2003, p. 40), os direitos humanos correspondem à pessoa humana, em razão da natureza corpórea, espiritual e social desta e devem ser respeitados pelo ordenamento positivo, por todos os poderes e autoridades, cedendo apenas às exigências do bem comum.
Oportuna essa ideação, de vez que, se os direitos humanos se formulam em apreço aos conteúdos corpóreo e espiritual das pessoas, bem assim ao seu envolvimento no contexto social, como se pode depreender, então, é de concluir que os indivíduos que padeçam de deficiência, incapacidade ou enfrentem desvantagem devem ser considerados com base nesses seus conteúdos, para que recebam do ordenamento jurídico estatal e das autoridades públicas competentes o aparato indispensável e na proporcionalidade que a situação de cada um daqueles exija.
No dizer de Chinchilla Herrera (1997, p. 38-39), na atualidade,
los derechos humanos son considerados, ante todo, como derechos morales, es decir, como exigências éticas superiores que se proyetan sobre el mundo Del derecho y sirven como justificación de reclamos vehementes de algo (el objeto del derecho) frente a alguien.
Ora, sob esse prisma, considerando-se com status de exigências éticas superiores os direitos humanos, é óbvia a ilação de o serem os de acessibilidade e locomoção das pessoas com necessidades especiais.
Na enunciação de Perez Luño et al. (1979, p. 43), os direitos humanos são o “conjunto de faculdades e instituciones que [...] concretam as exigencias de la dignidad, la libertad y la igualdad humanas, las cuales deben ser reconocidas positivamente por los ordenamentos juridicos a nivel nacional e internacional”.
Segundo leciona Brito Filho (2004b, p. 33), os direitos humanos são o “conjunto mínimo de direitos que permitam ao homem viver com dignidade”.
De acordo com esses parâmetros, a acessibilidade e a locomoção das pessoas com necessidades especiais se colocam sob o pálio dos direitos humanos, no
sentido de garantir-se àquelas que, nos diversos ambientes de convivência social, sejam aceitas e se sintam em situação de dignidade, liberdade e igualdade.
Vale assinalar, de permeio, que dignidade, liberdade, igualdade e direitos humanos estão mencionados no texto da Constituição da República Federativa do Brasil: a dignidade da pessoa humana entre os fundamentos republicanos (art. 1º, III); a liberdade e a igualdade no elenco dos direitos individuais e coletivos (art. 5º, caput); e os direitos humanos, com sua prevalência, entre um dos princípios dessa República (art. 4º, II).
A alusão aos direitos humanos e fundamentais, dentre estes o de liberdade, faz com venha a lume a diferenciação entre esses três signos jurídicos empreendida por Haba, que, como traz a lume Dornelles (2000, p. 54-55), concebe os direitos humanos “como a expressão axiológica que serve como base para a sua positivação jurídica, ou seja, o direito como valor, como o conjunto de princípios norteadores da lei”, e entende os direitos fundamentais “como a expressão positivada, em textos legais, daquela dimensão valorativa original”, bem como as liberdades individuais “como uma categoria referente às liberdades que se concretizam nas relações sociais, a manifestação fática dos direitos previstos legalmente, o exercício prático dos direitos reconhecidos como fundamentais”.
Segundo ainda Dornelles (2000, p. 55), na concepção de Gregório Peces- Barba, sem fazer essa distinção tríplice e partindo de uma única definição de direitos fundamentais, “todos os direitos são humanos visto que apenas o ser humano é sujeito de direito capaz, portanto, de exercer a sua personalidade jurídica”.
Colhe-se de J. Silva (1997, p. 174 e 177), a assertiva de que a expressão
direitos fundamentais do homem lhe parece a mais adequada, porque enseja o
discernimento de que os direitos humanos são prerrogativas e instituições concretizadas, pelo Direito positivo, como garantias de que todas as pessoas tenham convivência digna, livre e igual.
Aludindo-se, assim, a direitos fundamentais, convém trazer à baila que, segundo Chinchilla Herrera (1997. p. 47-48), a expressão direito fundamental veio substituir os tradicionais verbetes direitos civis, liberdades públicas e outros, nos âmbitos da linguagem filosófica e de Direito comparado dos direitos humanos, e denota
uma positivação formal desses direitos nas Cartas Constitucionais e sua concreção em verdadeiros direitos subjetivos, significando algo mais que veementes exigências morais.
Também sob esse prisma, visível se torna a conotação de que são subjetivos os direitos de acessibilidade e locomoção das pessoas com necessidades especiais, podendo ser exigidos com base nas normas que os regulam, no plano do Direito positivo.
Arremate-se, conseqüentemente, que, pressupondo-os como sendo naturais e morais, os direitos de acessibilidade e locomoção, ou seja, o ir e o vir, preexistem ao próprio Estado, pois são inerentes ao ser humano pelo simples fato de nascer ou existir e, portanto, pertencem ao campo dos direitos humanos. Por estarem positivados, isto é, consubstanciados em normas jurídicas, do que são exemplos os arts. 227, § 2º, e 244 da Constituição Federal, e as corporificadas na Lei Federal nº 10.098, de 19.12.2000, que estabelece as regras gerais de acessibilidade e locomoção, devem igualmente ser respeitados como direitos humanos.
Ademais, com aporte nesses entendimentos, pode-se afirmar que os direitos humanos não são estritamente fulcrados na mera essência ou natureza do homem, como inerência sua, mas são os que, integrantes do ordenamento jurídico, devem guarnecer a dignidade, a liberdade e a igualdade dos seres que trazem, endogena e exogenamente, aquela essência, quer tenham, quer não, necessidades especiais, devendo, em relação a estes, servir de fundamento a que suas deficiências, incapacidades e desvantagens se superem, mediante a acessibilidade e a locomoção, como resultado da eliminação de barreiras físico-estruturais e de comunicação.