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Enquadramento da RNCCI no SNS

2 Cuidados integrados

2.3 Enquadramento da RNCCI no SNS

A RNCCI interage com o hospital, nomeadamente com as unidades de internamento e convalescença (média e longa duração) e com os centros de saúde ao nível dos cuidados primários. A temática do terceiro nível de cuidados, que os cuidados integrados pressupõem, situa-se neste ponto, pois além da ligação Centro de Saúde/Hospital os cuidados continuados integrados pretendem ir mais além e apoiar os doentes também no seu domicílio. Desta forma, está-se a promover a autonomia e o bem- estar do doente/família, pois ele já não tem de se deslocar constantemente aos serviços de saúde. Teoricamente, o utente ganha importância e centralidade, pois os profissionais podem ir até ele, consoante o seu nível de dependência. A figura 3 permite uma melhor compreensão da posição do utente no seio dos três níveis de cuidados.

Figura 3: O utente no centro dos três níveis de cuidados de saúde (adaptado de (Augusto & Carvalho, 2002))

Este terceiro nível de cuidados facilita uma maior e melhor racionalização dos recursos a mais níveis. Por um lado, ao nível dos recursos humanos, através das equipas multidisciplinares, que são formadas por profissionais capacitados para prestar os cuidados continuados junto dos doentes no seu domicílio ou nos centros/lares criados e adaptados para receber pessoas que exijam respostas integradas (ex. acamados com doenças

CUIDADOS INTEGRADOS – 3.º nível

- pós-alta - Centralidade do utente

- Apoio ao domicílio - Equipas capacitadas aos vários níveis e

necessidades de dependência - Cuidados de maior/melhor qualidade e +

acessíveis quer ao utente/família - Flexibilidade aos vários meios

CENTRO DE SAÙDE – 1.º nível

- Vigilância da saúde - Cuidados técnicos - Visita domiciliária - Adaptação de ensino ao domicilio

- Adaptação habitacional - Avalia satisfação dos profissionais

HOSPITAL – 2.º nível - Cuidados diferenciados - Planeamento da alta - Envolvimento da família - Instrução - Apoio social

- Cedência de dispositivos técnicos

terminais). Por outro lado, ao nível dos recursos físicos, pois estes têm de ser adaptados e reajustados às necessidades dos doentes que carecem deste tipo de cuidados. Para garantir a continuidade dos cuidados prestados e uma eficaz e ágil utilização dos recursos, as equipas devem, desde cedo, identificar as necessidades de cuidados dos utentes após a alta, de forma a minimizar possíveis complicações. Um outro ponto característico deste terceiro nível de cuidados é a capacidade de adaptação aos vários meios sobre os quais as equipas actuam. A capacidade de controlo e sistematização das novas intervenções também se revela um requisito deste nível de cuidados, isto porque as respostas integradas requerem uma maior superintendência, verificação e metodização por parte dos profissionais, características em que os hospitais e os centros de saúde por vezes falham. Este tipo de cuidados foi criado exactamente para apoiar e melhorar o nível de vida do doente. O doente é o centro dos cuidados. Há que torná-lo mais autónomo, ao mesmo tempo que é reabilitado e reintegrado socialmente.

O Centro de Saúde tem um papel importante no âmbito da integração de cuidados. É a entidade do SNS mais próxima da população, à qual o utente recorre quando necessita de vigilância, cuidados técnicos ou até mesmo para requerer uma visita domiciliária. Dispõe de uma equipa de cuidados integrados, responsável por acompanhar os casos de utentes em dependência, bem como detectar casos de dependência a encaminhar para a Equipa Coordenadora Local (ECL) de que estão dependentes.

Conforme se verifica na Figura 4, para garantir o desenvolvimento da RNCCI foi criado um circuito de referenciação. Este circuito inicia-se no Hospital através da Equipa de Gestão da Alta (EGA) ou no Centro de Saúde através da ECL. As ECL validam a referenciação das EGA, fazem a pesquisa local de vaga e admissão na unidade, bem como a obtenção do consentimento informado junto do utente. Quando a ECL não consegue encontrar vaga para o doente, encaminha o processo para as Equipas de Coordenação Regional (ECR), a quem compete a pesquisa regional de vaga e a coordenação regional de todo o processo de referenciação (RNCCI, 2007).

Cabe ainda ao Centro de Saúde, no âmbito da RNCCI, providenciar cuidados de saúde na comunidade, ou seja, em casa do doente. No entanto, apesar de os centros de saúde, no âmbito da sua actuação, fazerem visitas domiciliárias aos utentes que delas necessitam, na impossibilidade destes se deslocarem ao Centro de Saúde (ou porque são

idosos ou porque estão numa situação pós-operatório e necessitam tratamento), no âmbito da RNCCI esta prestação de cuidados no domicílio ainda não foi implementada.

Figura 4: Circuito de referenciação do utente na RNCCI (adaptado de (RNCCI, 2007)

A interacção de todas estas entidades origina transições de cuidado, que são críticas em termos de segurança do doente, qualidade de serviço, saturação e utilização de recursos. A constante preocupação com a qualidade e a eficiência dos cuidados de saúde aumentou a necessidade de apurar os resultados dos cuidados de saúde prestados a longo prazo, ao longo dos vários tipos de cenários, pois desta forma valoriza–se a integridade física do doente, aquando duma transição de cuidado, bem como a continuidade de cuidados de um doente após a alta. Analisar os processos inerentes a uma transição de cuidado afigura-se de extrema importância para o sucesso de qualquer organização, para que possíveis faltas de comunicação entre serviços de saúde não provoquem uma descontinuidade no tratamento prestado ao doente.

No capítulo seguinte aborda-se a temática das transições de cuidado entre entidades de saúde.