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6.2 GESTÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS NO ESTADO DO AMAZONAS

6.2.2 Enquadramento dos corpos de água em classes

O enquadramento dos corpos de água em classes é instrumento de gestão hídrica

contemplado tanto pela Lei Federal nº 9.433/97 quanto pelo art. 13 da Lei Estadual nº

3.167/2007.

No entanto, na mesma linha que se apresenta o déficit de efetividade quanto à grande

parte das normas ambientais, este relevante instrumento de enquadramento dos corpos de

água também padece de aplicabilidade em muitas regiões do Brasil, sobretudo, na Amazônia.

Conforme ventilado no decurso da fundamentação, percebe-se que a ausência de

efetividade deste instrumento de gestão pode perpassar por interesses políticos de gestão

pública, os quais não necessariamente dizem respeito ao cumprimento da norma por

diferentes motivos, sobretudo, considerando que uma vez produzido o enquadramento em

classes, obrigatoriamente, ele deverá ser implementado, por força da própria lei.

No cenário da dimensão da bacia hidrográfica amazônica, o contexto em relação ao

enquadramento dos corpos de água em classes constitui tarefa ainda mais complexa, pois uma

das características da região consiste na significativa diversidade de ambientes aquáticos

compostos por diferentes estruturas geológicas com propriedades físicas e químicas que as

tornam diferentes de outras águas das diversas regiões do país.

Relevante ferramenta de informação quanto à complexidade do cumprimento da

norma relativa ao enquadramento e classificação dos corpos hídricos no âmbito da bacia

hidrográfica amazônica, constitui o material científico publicado na Revista do “Ciência para

Todos”, editada pelo INPA– Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - , de autoria da

pesquisadora Josiane Santos (2013, p. 33-41). Em pesquisa de campo realizada por

pesquisadores e cientistas do INPA, entre os anos de 2009 e 2011, foram coletadas 306

(trezentas e seis) amostras de águas em 49 (quarenta e nove) afluentes, nos períodos de cheia,

precipitações e estiagem, em 29 (vinte e nove) locais, com o propósito de identificar as

características das águas do Rio Amazonas e seus tributários para o fim de adaptação à

Resolução CONAMA 357.

Desenvolvida esta árdua pesquisa, composta por diversos pesquisadores e cientistas

altamente capacitados, o resultado do estudo concluiu que em decorrência das acentuadas

diferenças quanto à composição bioquímica (PH) das diferentes águas (pretas, claras e

brancas) e da baixa densidade demográfica, e ainda considerando que no Estado do Amazonas

não existe enquadramento dos corpos de água, classificando-se, portanto, em classe 2 como

referência, conforme estabelece o art. 44 da Resolução CONAMA 357, os critérios

estabelecidos pela referida norma são incondizentes às peculiaridades da região amazônica,

pois não obstante em alguns rios os valores de PH encontrem-se abaixo de 5,5 (águas ácidas),

ou seja, fora dos padrões para classe 2, inconcebível aceitar que nesta região não existam

ambientes aquáticos com condições melhores que a classe 2, a qual não admite dentre outras

tantas atividades, a pesca e as atividades de embarcações, o que é um contra-senso à vocação

cultural e econômica da Amazônia.

Em meio a esta discussão e, atualmente, inexistindo enquadramento de classes em

corpos de água no Estado do Amazonas, a parte que mais sofre com a omissão dos poderes

públicos são os corpos hídricos, uma vez que desprovidos de qualquer regulação protetiva em

relação aos efeitos das atividades antrópicas, o que, inegavelmente, mais cedo ou mais tarde,

certamente, produzirá nefastas consequências, seja à sociedade e aos diferentes atores que

usam as águas, seja ao próprio bioma da região.

A pesquisadora Maria do Socorro, em entrevista à Revista “Ciência para Todos” do

INPA (2013, p. 38), discorrendo sobre as conclusões da pesquisa, afirma:

A população ainda não está preparada para perceber as ameaças que podem comprometer suas futuras gerações. São raras as vezes em que as comunidades se organizam voluntariamente para se defender contra atividades que ameaçam ao seu sustento (a guerra do peixe é a mais famosa). Normalmente, a população é induzida a cuidar de sua máquina de produção (a natureza), até perceber que isto lhe traz benefício – exemplo a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

[...].

É necessário, portanto, uma intervenção do poder público para que seja iniciado um processo visando obter enquadramento, ainda que provisório, de nossas águas, a fim de poder controlar as atividades econômicas existentes ou que venham a se instalar na região.

Por fim, a pesquisadora Josiane Santos, responsável pela matéria científica veiculada,

acentua que (2013, p. 39):

Segundo exemplos citados pela pesquisadora, atividades como mineração, extração e refino de hidrocarboneto – têm sido mais vigiadas nos dias atuais, embora tenham causado danos no passado. O enquadramento destas águas facilitaria bem mais a vigilância destas e de outras atividades que venham a se instalar. Por isso a pesquisadora afirma a urgência de começar a trabalhar para ter o mais breve possível estas águas enquadradas, ainda que implique adequações ou até mesmo em mudanças das legislações.

Dito tudo isto, permite-se conceber que o enquadramento da classificação dos corpos

de água em classes constitui um significativo instrumento de gestão dos recursos hídricos,

porém, na forma que foi concebido pela Resolução CONAMA 357, a sua efetividade se

encontra comprometida por diversas razões políticas, econômicas, culturais, etc., sendo que

dentre delas, destaca-se, inclusive, a sua incompatibilidade de adaptação em algumas regiões

hidrográficas, como no caso do Estado do Amazonas, pois não parece cientificamente correto

depreender que a ausência de enquadramento de corpos hídricos venha a produzir um

resultado semelhante em todas as diferentes regiões do país, ou seja, colocando tudo no

mesmo “pacote” sem considerar as peculiaridades ambientais, sociais, culturais,

demográficas, econômicas e hidrográficas de cada região, até mesmo porque inconcebível

exigir da natureza que ela venha a se adaptar à lei dos homens – mais fácil (e lógico) é o

homem se adaptar às leis da natureza - , o que exige repensar o modelo deste relevante

instrumento de gestão para compatibilizá-lo ao contexto da Amazônia.

6.2.2.3 Outorga

A água é um bem de domínio público de uso comum do povo, o que justifica a

intervenção estatal. Enquanto instrumento da gestão hídrica, a outorga do direito de uso da

água é a ferramenta pela qual o Poder Público atribui ao interessado, público ou privado, o

direito de utilizar privativamente o recurso hídrico. São inúmeras as atividades sujeitas à

outorga, desde a captação de água até o lançamento de efluentes nos corpos hídricos,

conforme preconiza o ordenamento hidrojurídico federal e estadual.

Embora o art. 14 da Lei nº 3.167/2007 estabelecer a outorga do Poder Público para

efeito do uso da água, atualmente, no Estado do Amazonas não existe processo de outorga. O

único mecanismo de controle existente no Estado diz respeito às licenças para perfuração de

poços no âmbito do IPAAM.

Com a reforma administrativa feita pelo Governo do Estado em 2015, o IPAAM não

mais exerce tal atribuição acerca do procedimento de outorga, na forma contemplada pelo art.

49 e seguintes do Decreto nº 28.678 de 16 de junho de 2009; portanto, inexistindo no Estado

do Amazonas qualquer controle qualitativo ou quantitativo acerca dos usos da água quanto à

derivação ou captação de água, lançamentos de esgotos ou efluentes líquidos, etc.

6.2.2.4 Cobrança

A cobrança pelo uso da água tem diversas funções, sobretudo, a de fomentar a

cultura quanto à racionalidade hídrica, em homenagem ao princípio de que a água constitui

um bem finito e dotado de valor econômico.

Embora previsto no art. 24 da Lei nº 3.167/2007, não existe cobrança pelo uso da

água no Estado, salientando que a cobrança existente pelo uso da água nos centros urbanos

diz respeito aos serviços de tratamento e distribuição. Nem mesmo as indústrias que

constituem os polos industriais, as quais utilizam quantidades expressivas de água para a

execução dos seus processos industriais, seja por meio da captação, seja pelo lançamentos de

efluentes, são cobradas por usarem tais recursos hídricos.

Muito embora a população do Estado padeça com a falta de serviços básicos de água

tratada e saneamento básico, as atividades industriais e econômicas que demandam pelo uso

intenso dos recursos hídricos não pagam pela água, o que descortina uma realidade hídrica

perversa na região, sobretudo, contra o povo do Estado do Amazonas que vive sobre a

constante ameaça da contaminação das águas subterrâneas, as quais são as mais usuais fontes

de acesso à água por meio da perfuração de poços.

Cumpre destacar que para ser viabilizada a cobrança pela água a lei exige que seja

observado todo um procedimento legal, a iniciar pelas deliberações dos Comitês de Bacia, os

quais deverão orientar os critérios para a cobrança.

Todavia, como os Comitês de Bacia não gozam de estrutura para exercerem as suas

atribuições no Estado, sobretudo, diante das suas dificuldades financeiras, a ausência de

cobrança pela água constitui uma das consequências mais perversas deste modelo de gestão: a

inviabilidade econômica do próprio sistema, pois obstruem a possibilidade da geração de

recursos financeiros por meio das receitas oriundas da cobrança, e assim tornando-se um

circulo vicioso que compromete a eficiência do sistema hidrojurídico.

6.2.2.5 Sistema Estadual de Informações sobre Recursos Hídricos

Pautado pelos princípios da participação e informação, a veiculação de informações

sobre o meio ambiente constitui premissa jurídica, não sendo diferente na órbita da gestão dos

recursos hídricos. Discorrendo sobre o princípio da participação e a sua relação com a

divulgação das informações acerca da gestão hídrica, oportuno se apresenta o entendimento

de Dourado Júnior (2014, p. 91), quando averba:

[...] a criação do Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos reforça o princípio da participação e, em especial, o princípio da informação, pois é a partir deste instrumento que a sociedade poderá ter condições de conhecer as ações e decisões relacionadas à gestão dos recursos hídricos.

Outrossim, discorrendo sobre os objetivos do sistema de informações, Braga (et. all.

REBOUÇAS, 2006, p. 649) explica que: “o ´sistema de informações` tem como objetivo

principal produzir, sistematizar e disponibilizar dados e informações que caracterizam as

condições hídricas da bacia em termos de quantidade e qualidade da água nos diversos usos”.

Conforme preceitua o art. 37 da Lei 3.137/2007, o Sistema Estadual de Informações

sobre Recursos Hídricos representa um instrumento que deverá ser integrado ao Sistema

Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos previsto pela Lei 9.433/97, constituindo

uma base de dados informatizada formada pela coleta, tratamento, armazenamento,

recuperação e disseminação de informações sobre recursos hídricos, sendo a Secretaria de

Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SDS) o órgão gestor do sistema.

Ainda, conforme estabelece a norma, o Sistema Estadual de Informações sobre Recursos

Hídricos operará de modo descentralizado, sendo acessível a todos os interessados, sendo que

os dados gerados pelos órgãos integrantes do SEGRH deverão ser incorporados ao sistema de

informações, e que que no âmbito deste sistema deverão ser integradas todas as informações

dos diversos órgãos federais e estaduais. Os princípios da descentralização da obtenção e

produção de dados e informações, bem como o do acesso público às informações são

expressamente destacados pelo art. 39 da PERH.

Na forma do art. 40 da Lei 3.167/2007, o SEIRH tem como objetivos reunir, dar

consistência e divulgar os dados e informações sobre a situação qualitativa e quantitativa dos

recursos hídricos, atualizar informações, fornecer subsídios para a elaboração do Plano de

Recursos Hídricos e apoiar as atividades de gerenciamento de recursos hídricos.

Todavia, as informações sobre recursos hídricos no Estado do Amazonas são

inacessíveis. Não existe sistema unificado de informações. As informações são pulverizadas e

diluídas entre diversos órgãos.

A tímida intervenção do Poder Público não apenas no sentido de fomentar a

participação na gestão dos recursos hídricos, mas também em não divulgar por meio de

veiculação pública as informações acerca desta temática depõe contra o próprio ente público

ao produzir uma imagem com falta de transparência.

Por derradeiro, sobretudo, quanto à disponibilidade e acesso de informações sobre os

recursos hídricos no Estado do Amazonas, permite-se, categoricamente, afirmá-la como

deficiente e insatisfatória, devidamente comprovada pela dificuldade na obtenção pública de

tais informações através dos meios eletrônicos na forma experimentada pela presente

pesquisa, o que alimenta o sentimento de falta de transparência e ineficácia, em que pese o

sistema de informações de recursos hídricos esteja preconizado pelo ordenamento

hidrojurídico federal e estadual.

6.2.2.6 Fundo Estadual de Recursos Hídricos (FERH)

Enquanto instrumento para a efetivação da PERH, o Fundo Estadual de Recursos

Hídricos está previsto no art. 32 da Lei 3.167/2007, consistindo em mecanismo de fomento

econômico para as ações do SEGRH, sendo a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e

Desenvolvimento Sustentável (SDS) o seu órgão gestor e que aplicará os recursos seguindo as

diretrizes fixadas no plano.

Segundo preconiza o art. 34, as receitas do FERH são oriundas das transferências dos

entes governamentais destinadas à execução dos planos e programas, das compensações

financeiras, da cobrança pelo uso, dos empréstimos e outras contribuições financeiras

nacionais e internacionais, da cooperação internacional, das multas cobradas dos infratores à

legislação hídrica, da compensação financeira que o Estado receber com relação aos

aproveitamentos energéticos, das contribuições de melhorias, das doações, e dos recursos para

financiamento e intervenções contempladas nos planos das bacias hidrográficas. Conforme

estabelece a norma, estes recursos deverão ser aplicados para a realização de serviços e obras

destinadas à gestão dos recursos hídricos, para a realização de programas de desenvolvimento,

estudos, pesquisas tecnológicas, capacitação de recursos humanos, execução de obras de

saneamento e tratamento de esgoto, e custeio de pessoal. Outrossim, a norma destaca algumas

condições quanto à destinação dos recursos do FERH, salientando que os valores da cobrança

deverão ser aplicados prioritariamente na bacia hidrográfica em que forem arrecadados, e

ainda em projetos e obras de interesse coletivo, sendo vedada a utilização dos recursos para

pagamento de salários aos servidores públicos e empregados, salvo aqueles que se dediquem

às atividades de monitoramento e fiscalização quanto ao uso dos recursos hídricos.

Ocorre que segundo o modelo adotado pelo Estado do Amazonas, os recursos

recebidos de fontes diversas, como o repassado pela ANEEL, que deveriam compor o FERH,

na verdade, quando recebidos pelo Estado, ingressam no caixa único e, não raramente, tomam

outro destino, ou seja, não são remetidos diretamente para a aplicação na gestão dos recursos

hídricos, conforme preconiza a lei, o que alimenta a falta de recursos públicos para serem

investidos na gestão hídrica.

A legislação hídrica do Estado do Amazonas é uma das mais avançadas do Brasil em

termos técnicos e jurídicos. Todavia existe um distanciamento abismal entre a legislação

hídrica e a sua efetividade prática. Não obstante o conteúdo detalhado quanto ao modelo de

gestão, a falta de cumprimento dos seus instrumentos está a obstruir o avanço da gestão

hídrica no Estado.

Em decorrência da ausência de aplicabilidade dos instrumentos legais, o Estado do

Amazonas não dispõe de recursos para fomentar as atividades de gestão, ou seja, os entraves

políticos e burocráticos no âmbito estadual impedem que sejam produzidos os investimentos

na gestão dos seus recursos hídricos. Atualmente, os recursos financeiros para a viabilização

das atividades de gestão dos recursos hídricos no Estado do Amazonas são fomentados pela

Agência Nacional de Águas (ANA), a qual repassa recursos federais que são condicionados

ao cumprimento de metas. Esta é a principal fonte de receitas para o manejo da gestão dos

recursos hídricos no Estado do Amazonas.