6.1 CONTEXTO HIDROSSOCIAL NO ESTADO DO AMAZONAS
6.1.1 Socioambientalismo e diversidade cultural
Não diferente da Amazônia, a grande extensão territorial do Estado do Amazonas se
encontra diretamente proporcional a sua complexidade sociocultural, caracterizada por
acentuadas diferenças, o que não pode ser explicado por apenas uma única concepção, mas
por um conjunto de fatores transdisciplinares, a iniciar pela análise do comportamento
humano em sua dimensão biológica com relação à sua adaptação ao clima de floresta tropical
úmida. A dinâmica da constituição do povo da Amazônia, que até meados do século XX era
composto por descendentes do processo de colonização europeu e da escravização do índio
combinados com a migração de nordestinos, e a partir de então passou a ser migrado por
brasileiros de outras regiões do Brasil, seguindo o mesmo processo ocorrido em outras regiões
do Brasil na formação da população brasileira. Neste sentido, revela-se oportuna a conclusão
de Batista (2006, p. 123) para efeito de esclarecer este fenômeno etnográfico:
Portanto, embora predominando o sangue índio, na população da Amazônia, podem ser considerados presentes elementos das três etnias (caucasoide, mongoloide e negróide) da mesma forma que na população brasileira, em geral.
E será isto um mal ? Decorrerá daí o atraso da Amazônia e a dificuldade de dominá-la, pela fixação do homem ?
Excluindo a concepção da superioridade das raças, que já levou a superdesenvolvida Alemanha a perder duas guerras, é preciso convir que há uma superioridade cultural de raças. O branco da Europa e da América do Norte é civilizado não por causa do pigmento da pele ou da conformação do crânio, e sim por ter atrás de si mais de um milênio de cultura, a que se incorporaram as heranças oriental, da Grécia, do Império Romano e do Cristianismo.
Desde o final do século XIX as teorias raciológicas tiveram influência na explicação
da sociedade brasileira e a Amazônia também sofreu o reflexo desse processo. A propalada
alegação de que a Amazônia era uma região atrasada em decorrência das características das
raças que constituem o seu povo é racista e expressão de um “darwinismo social”. A essência
étnica do povo da Amazônia é a mesma da formação mestiça brasileira.
Ainda nesta esteira, merece destaque a afirmação de Ortiz (2005, p. 13) quando
discorre sobre a formação de uma identidade nacional e as teorias raciais brasileiras do século
XIX: “A questão racial tal como foi colocada pelos precursores das Ciências Sociais no Brasil
adquire na verdade um contorno claramente racista, mas aponta, para além desta constatação,
um elemento que me parece significativo e constante na história da cultura brasileira: a
problemática da identidade nacional.” A questão da identidade sociocultural do homem da
Amazônia não pode ser concebida como unidade antropológica.
A essência etnográfica do povo da Amazônia é diferente do europeu ocidentalizado.
Embora sejam, não raras vezes, desprezados pela ciência, os conhecimentos tradicionais
produzidos são preciosos para se compreender diversos ciclos naturais de diversas áreas do
conhecimento. Além disso, a biodiviersidade existente Amazônia dispensa relevantes
contribuições no processo de sustentabilidade local, nacional e internacional. Discorrendo
sobre a biodiversdidade e destacando o entendimento de Sachs (2008) acerca da importância
dos etnoconhecimentos produzidos na Amazônia como legado para o mundo inteiro, todavia,
com elevado custo ao povo da Amazônia, sem a respectiva retribuição social, afirmam Lira,
Costa, Fraxe e Witkoski (Fraxe et all, 2011, p.65):
As suas características e propriedades, tais como ser a mais significativa fonte de biomassa renovável do mundo, o que levou Sachs (2008) a propor a ´invenção de uma moderna civilização da biomassa`, a mais importante bacia de água doce do
mundo, a mais expressiva de fonte de recursos ictiofaunístico, os seus incalculáveis recursos florestais, biotecnológicos e, fundamentalmente, o etnoconhecimento de suas populações tradicionais, entre outros atributos, é claro, representam riquezas inestimáveis para esses povos, para o Brasil e para o mundo inteiro.
Os processos de desenvolvimento na região, entrementes, andam na contramão dessa riqueza quando se trata de promoção de formas de desenvolvimento socialmente justa, economicamente viável e ambientalmente correta.