3.5 ETAPAS DA APLICAÇÃO EMPÍRICA DA METODOLOGIA
4.1.2 Enquadramento dos “executivos de carreira”
Número de matérias: 20
Porcentagem em relação ao total de matérias: 19%
Dispositivos encontrados e respectivas variáveis mais recorrentes:
• Exemplos: passagens da trajetória do líder enquanto executivo em diferentes empresas (83%)
• Atribuição de responsabilidade: implementação de nova estratégia para aumentar performance e ganhar mercado (83%)
• Imagem visual: líder pousa para foto com traje completo, terno e gravata, estilo formal (72%)
• Exemplos: mudanças nos processos da empresa para ganhar agilidade, aumentar produtividade, reduzir custos, melhorar a performance (67%)
• Representações: expressões, metáforas e slogans relacionadas à atuação do líder em relação a modificações de processos na empresa (61%)
• Exemplos: relacionados à relação líder e liderados, com reestruturação de equipes, modificação no recrutamento e seleção, treinamento, plano de cargos e salários (61%)
• Representações: adjetivações e expressões relacionadas à atuação no trabalho (44%)
O segundo enquadramento mais frequente identificado foi denominado “executivos de carreira”. Esse grupo é caracterizado por líderes que assumem o comando após experiências prévias como executivos em outras empresas. São profissionais que trilharam uma carreira de executivos, galgando posições progressivas em diferentes companhias. O trecho a seguir, da matéria “A segunda vida da Embraer” (EXAME, ed. 655, p. 98), que descreve as conquistas de Maurício Botelho após assumir a empresa, exemplifica esse perfil:
Para um executivo que sempre atuara mais no conforto de gabinetes refrigerados, foi uma novidade. Até então, o engenheiro mecânico Botelho trabalhara como diretor da Odebrecht e do grupo Bozano-Simonsen, onde acompanhava os investimentos do grupo em São Paulo [...] até ser indicado para a Embraer.
Esse enquadramento também se caracteriza por exemplos da atuação dos líderes ao promoverem mudanças a fim de ganhar agilidade, aumentar a produtividade, reduzir os custos, reorganizar processos e pessoas, modificar o marketing, melhorando a performance da empresa no mercado. O executivo Agustin Vilaplana, ao assumir o Crefisul, foi assim descrito por Exame (ed. 470, p. 58):
Para colocar a cozinha em ordem, ele traçou o Plano Estratégico de Operações e Tecnologia, em que serão investidos 2 milhões de dólares, em cinco anos. Nos primeiros oito meses, os resultados começaram a aparecer a partir das propostas de grupos de funcionários do setor de operações. Os custos operacionais caíram 20%, segundo Vilaplana, e a meta é manter uma redução progressiva de 10 a 15% ao ano até 1994. O investimento em qualidade foi precedido de um corte drástico no quadro de pessoal, em todos os setores.
Para enquadrar os líderes nesses processos de mudança e reestruturação, Exame faz uso de diferentes representações, adotando expressões, metáforas ou slogans como: “foi como começar uma empresa do zero”, “mestre-cuca responsável por toda essa mudança”, “qualidade total é o nosso lema”, “não temos medo de mudanças”, “o que há de mais progressistas são as mudanças”, “mudanças radicais”, “através de uma brutal reestruturação, virou o jogo”.
As imagens escolhidas por Exame para retratar os líderes que protagonizam as matérias tendem à formalidade: 72% dos empresários pousam para foto com traje completo (terno e gravata) e 28% com camisa e gravata. Diferentemente de todos os outros enquadramentos, neste grupo não aparece nenhuma matéria em que o líder é ilustrado em fotografia de modo informal. Isso faz supor que a revista associe ao executivo de carreira uma imagem de sobriedade e seriedade, que justifiquem o estilo de atuação dos profissionais diante das situações enfrentadas.
Os temas principais das matérias deste enquadramento foram a expansão da marca no Brasil, estratégias da empresa diante de oportunidades de mercado e estratégias da empresa diante de problemas. Diante desses desafios, a responsabilidade mais recorrente atribuída ao líder por Exame foi de planejar e implementar uma nova estratégia para aumentar a performance e ganhar mercado, como ilustram alguns títulos e linhas finas a seguir:
Será que desta vez vai dar certo? A Philip Morris jamais ganhou dinheiro com cigarros no Brasil. Para virar o jogo, trouxe o homem que tornou agressivo o negócio na Argentina (EXAME, ed. 654, p. 40).
O Crefisul coloca ordem na cozinha. O banco põe em marcha um plano de cinco anos para melhorar a produtividade e a qualidade dos seus serviços (EXAME, ed. 470, p. 58).
Mudou. E deu certo. Thais Marca, da DHL Express, apostou numa nova frente para a empresa. O faturamento aumentou 30% (EXAME, ed. 837, p. 68). A Braun quer uma parcela maior do mercado. Para isso, mudou a diretoria, nacionalizou a produção e está lançando novos produtos (EXAME, ed. 122, p. 42).
Em relação ao estilo de comportamento do líder com os seus liderados e da sua forma de atuação em relação ao contexto, neste grupo de matérias predominaram exemplos de reestruturação de equipes, modificação no recrutamento e seleção, ações de treinamento e mudanças nos planos de cargos e salários. O texto a seguir, extraído da matéria que retrata a reorganização realizada pela executiva Thais Marca na DHL ilustra essa postura:
Durante quatro meses, ela se dedicou a estudar as pessoas, fazer substituições e convocar reuniões para explicar o desafio. Nesse período, demitiu quase 20%
dos funcionários do departamento de vendas da companhia – a alma da empresa. Em seguida, começou o processo de treinamento dos que ficaram e dos novos funcionários. [...] Foi importante também conquistar o respeito da equipe com um “pacote de bondades”. Thaís fez alterações em duas frentes. Ela aliviou o ritmo de trabalho e melhorou o sistema de bonificações (EXAME, ed. 2005, p. 68).
Resgatando os diferentes estilos de liderança apresentados no segundo capítulo, identificou-se neste enquadramento uma maior presença da estrutura de iniciação, descrita por Dubrin (2006), na qual o líder busca definir as atividades e designar tarefas e procedimentos, priorizando o planejamento e a organização do trabalho dos liderados. Nesse estilo de liderança centrado na produção e nas tarefas, o líder foca no esclarecimento de rotinas, responsabilidades e métodos, com o objetivo de estabelecer padrões e aumentar os resultados.
Levando em consideração o contexto do líder, as matérias deste agrupamento tendem a descrever o líder adotando o estilo “determinar (definindo as funções, responsabilidades e processos, orientando e supervisionando a execução) ou “persuadir” (assumindo um comportamento diretivo em relação à tarefa, porém mantendo o apoio para reforçar a disposição e o entusiasmo do grupo). Conforme acenamos anteriormente, esses modos de atuação em geral são adotados diante de equipes com um baixo a moderado grau de maturidade em relação à empresa ou a novos processos implementados (VIEIRA, 2011). Essa postura é coerente com as situações empresariais apresentadas pelas matérias, em que novos colaboradores são contratados ou mudanças substanciais são implementadas pelas empresas frente às oportunidades ou desafios que encontram.
As figuras 9, 10 e 11 ilustram matérias que formaram este agrupamento, de diferentes edições de Exame.
Figura 9 - Exemplo de matéria do enquadramento “executivos de carreira”: “O Crefisul coloca ordem na cozinha”
Fonte: Exame, 1991, ed. 470, p. 58-59.
Figura 10 - Exemplo de matéria do enquadramento “executivos de carreira”: “A segunda vida da Embraer”
Figura 11 - Exemplo de matéria do enquadramento “executivos de carreira”: “Seja flexível e paciente”
Fonte: Exame, 2012, ed. 1011, p. 48-49.
Essas 3 imagens retratam a forma com que os líderes foram enquadrados neste agrupamento: executivos de carreira que assumiram o controle da organização após experiências prévias em outras empresas. São profissionais que, ao assumirem o comando, implementaram mudanças a fim de aumentar a performance da organização, reestruturando processos, sistemas e pessoas, como ocorreu nesses exemplos da Crefisul, Embraer e GE.