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PARTE I COMPONENTE TEÓRICA

2.1 Enquadramento histórico-conceitual

No passado, as comunidades humanas abandonaram a vida nômade de caçador-coletor e estabeleceram assentamento em determinados locais que lhe permitiam o desenvolvimento da agricultura. Essa concentração espacial para produção de bens ocasionou o surgimento de uma organização social politizada - e muitas vezes hierarquizada - que permitiu avanços e desenvolvimento na defesa do território, construção de infraestruturas e concentração de riqueza. Para isso, como diz Carvalho e Rodrigues (2016, p. 11), “Surgiu a concepção de nação e de Estado, ideias que levariam todos os indivíduos a seguirem as mesmas leis, o mesmo código moral, a mesma religião, a mesma autoridade soberana. A cidade estava, enfim, formada”.

Mesmo antes da formação dos primeiros assentamentos urbanos, os grupos humanos já estavam organizados no que podia já ser considerado estruturas políticas. Afinal, “a vida política é em parte uma resposta necessária aos desafios da vida cotidiana e o reconhecimento de que a ação coletiva é quase sempre melhor que a individual” (Kelly et al., 2013, p. 12). Tensões e conflitos já existiam nos tempos de escassez nômade ou mesmo após a utilização da agricultura. Paul Kelly (idem) cita que “se todos pudessem ter o que quisessem na hora em que quisessem, não haveria aquilo que chamamos de política”. Por isso, a arte política de explicar, desafiar, contradizer, convencer e satisfazer surgiu como forma de resolver esses conflitos e direcionar as florescentes comunidades ao futuro. Aristóteles (como citado em Kelly et al., 2013, p. 12) definia a política como “a nobre atividade na qual os homens decidem as regras pelas quais viverão e os objetivos que querem buscar coletivamente”. Esses avanços deram um novo patamar de complexidade à humanidade.

Os conflitos e relações de poder definem o território (Souza, 2015, p. 374), caracterizado por uma localidade geográfica, concreta e abstrata que é frequente e permanentemente transformada pela ação coletiva do ser humano em interações sociais, econômicas, de poder e soberania, distinta de outros territórios com os quais se relaciona (Mota, 2013, pp. 147, 323).

Para manter a sociedade organizada, leis e normas foram estabelecidas para guiar a conduta cívica, por meio de direitos e deveres que evitariam o caos e resolveriam problemas. Ao ponto que “a intervenção crescente do Estado na vida dos habitantes tem se norteado por produzir um certo modelo de normalidade e saúde aos cidadãos” (Rolnik, 2012, p. 73) ou apenas como forma de manter as classes inferiores subjugadas na estrutura hierárquica criada. “Lembremos que o sistema jurídico facilmente se torna uma ferramenta a serviço da manutenção e ampliação do modo de produção vigente em determinada época” (Carvalho & Rodrigues, 2016, p. 29). Dessa maneira, é importante perceber que o sistema legal e normativo costuma também apresentar uma natureza elitista e excludente que não necessariamente trabalha para um ambiente justo e ideal, mas um que reflita e garanta as características do modelo dominante (Carvalho & Rodrigues, 2016, p. 29).

Uma das estruturas organizacionais mais interessantes - e que faz parte da base de desenvolvimento deste trabalho - é a democracia. Surgida na Grécia há mais de dois milênios, esse é o sistema caracterizado pelo poder exercido pela população (do grego, demos e kratos

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significam povo e poder, respectivamente)4, mas isso engloba uma grande variedade de possibilidades a partir do quão envolvida cada população é, desde o envolvimento mínimo de eleger governantes a cada período eleitoral temporalmente determinado até modelos autonomistas em que cada grupo populacional se autogere através do respeito mútuo e da resolução de conflitos por meio do debate. Entretanto, geralmente, a maioria de nós tem envolvimento mínimo e pouca confiança em nossas democracias ou políticos (Espinosa & Walker, 2011, p. 224).

Os governos democráticos têm proliferado ao redor do mundo desde fins do século XVIII a partir das movimentações geradas pelo Iluminismo e o combate ao absolutismo. No entanto, mais ou menos na mesma época, um novo sistema surgia, sócio-econômico e de constante interação com a esfera política. O capitalismo, surgido durante a Revolução Industrial, tem como objetivo maximizar eficiência, produtividade e lucros, mas “(…) capitalism is not just about efficiency and profits; it is a class system based just as much on power and exploitation as productivity and growth” (Walker, 2016, p. 169). Entretanto, apesar de exploratório e altamente agressivo nas áreas exploradas, o capitalismo é bastante resiliente, com grande capacidade de adaptação em busca do lucro de curto e médio prazo, alheio às consequências ambientais e sociais provocadas. Caso esses fatores sejam levados em consideração, os resultados financeiros ficam prejudicados ao curto prazo e outras empresas baseadas na “livre” – e agressiva - concorrência logo as superariam (Carvalho & Rodrigues, 2016, p. 16). Nesse sistema, a ordem jurídica tem como fundamentos “A proteção ao sujeito detentor de posses, o instituto da propriedade privada e a segurança da relação contratual” (Ibidem, p.26).

Já no século XIX, devido aos avanços da revolução industrial, uma grande parte da população dos campos se transferiu para as cidades em busca de oportunidades de crescimento pessoal. Para melhor ordenar o crescimento urbano, surge o urbanismo como ciência dos estudos e planejamento dos ambientes citadinos. Não que não cidades não fossem planejadas anteriormente, mas a disciplina não havia sido doutrinada e estabelecida como tal. Era, devido a isso, exercida por outros profissionais, como arquitetos e engenheiros. Logo, foi concebida a atividade e profissão de planejamento do território com foco na resolução dos problemas territoriais, enquanto antes a prioridade era a busca pelo desenho urbano morfologia ideal.

O planejamento do território é entendido como a atividade desenvolvida por um ator promotor público estatal que, em defesa do interesse coletivo e em contextos específicos, define objetivos para um determinado objeto alcançar um futuro desejado, com identificação das ações e métodos necessários e a mobilização dos atores para alcança-lo (Mota, 2013, pp. 147, 209). Miraftab (2016, p. 375) acrescenta que o planejamento reconhece os múltiplos centros de poder, meios de ação e linguagens em um campo de disputa. Souza (2015, p. 40) define o objetivo do planejamento como “o desenvolvimento urbano, ou a mudança social positiva da e na cidade” e estabelece quatro atividades fundamentais do planejamento, a partir de vagas modificações de Cullingworth (1997, p. 6, como citado em Souza, 2015, p. 34). São elas: “pensamento orientado para o futuro / escolha entre alternativas / consideração de limites, restrições e potencialidades; consideração de prejuízos e benefícios / Possibilidade de diferentes cursos de ação, os quais dependem de condições e circunstâncias variáveis”. Faz-se de grande importância diferenciar “planejamento urbano” e “gestão urbana”, que, embora complementares, se distinguem por o primeiro remeter ao futuro, enquanto a segunda é uma atividade do presente, de administração de situações imediatas e/ou de curto prazo (Silva, 2009, p. 127).

Já no século XX, após a II Guerra Mundial houve um período de paz – apesar de conflitos localizados – e intenso desenvolvimento socioeconômico mundial nunca antes experimentado.

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Com o advento de novas tecnologias, o mundo passou pelo que é considerada a “Grande Aceleração” em que a produção e exploração de recursos aumentaram exponencialmente. O impacto disso no meio ambiente logo foi sentido com aumento de poluição aérea, formação de ilhas de plástico no oceano, extinção de espécies e o aparecimento de um buraco na camada de ozônio que permitia os raios ultravioletas solares nos afetarem com maior intensidade. Com vistas a isso, a Organização das Nações Unidas – ONU – publicou o documento “Nosso Futuro Comum” da Comissão Brundtland em 1987 que explicitava o termo desenvolvimento sustentável. Nele, o desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento que encontra as necessidades atuais sem comprometer a habilidade das futuras gerações de atender suas próprias necessidades (Brundtland, 1987, p. 41). A partir dessa primeira definição o conceito foi aprofundado por diversos autores, como “interdependências entre três dimensões onde a dimensão ambiental é o quadro (no sentido de limites absolutos), a dimensão econômica os meios e a dimensão social os objetivos do desenvolvimento sustentável” (HUR2050, 2006 como citado em Polk, 2011, p. 195) ou como “‘Sustainable’ development’ has become a widely used concept expressing the potential for creating a positive-sum strategy combining economic, environmental, and social objectives in their spatial manifestation” (Albrechts, 2004, p. 748). Surgiram, inclusive, novos termos derivados, como a “resiliência”, que define “a capacidade de um sistema ou de um indivíduo lidar com a mudança e simultaneamente continuar a desenvolver-se” (GRAID, 2016).

A partir de meados da década de 1980, surge o neoliberalismo, uma nova ideologia política relacionada ao capitalismo, fortalecida nos governos de Margaret Tatcher no Reino Unido e de Ronald Reagan nos Estados Unidos da América. Com os objetivos de defender o livre mercado, a livre concorrência e reduzir o papel regulador (e desenvolvedor) do Estado (que caberia então ao mercado e sua atuação), essa ideologia trouxe enfrentamento à prática de planejamento, pois, para ela, “o planeamento impunha à sociedade uma visão parcial dos interesses colectivos, definida por um grupo socioprofissional restrito e, portanto, de legitimidade controversa” (Pires, como citado em Mota, 2013, p. 235). Graças à globalização e à grande conexão difundida por novas tecnologias, esse pensamento se disseminou e foi aplicado a boa parte do planeta. No entanto, graves problemas surgiram em decorrência de sua aplicação, inclusive aumento das desigualdades socioeconômicas. Consequentemente, muitos críticos se manifestam quanto às políticas neoliberais e seus resultados, “eles afirmam que as escolhas de mercado nem sempre são tão livres quanto parecem. E afirmam também que certos bens e práticas sociais são corrompidos ou degradados se implicarem alguma transação com dinheiro”. (Sandel, 2014, p. 99). A possibilidade de corrupção por meio do dinheiro é grandemente influenciada pela desigualdade econômica, pois “Evidentemente não existe uma sociedade perfeitamente igualitária. Assim, o risco de coerção paira sempre sobre as escolhas feitas pelo indivíduo no mercado de trabalho.” (Sandel, 2014, p.109).

Como forma de aprimorar os resultados governamentais, se fala bastante atualmente em governança. A ONU considera que “A boa governança promove a igualdade, a participação, o pluralismo, a transparência, a responsabilidade e o Estado de Direito, de forma efetiva, eficiente e duradoura”5. Outros veem o fenômeno da governança como uma resposta ao processo de globalização e a forças de mercado excessivamente neoliberais que reduzem a capacidade de gerenciamento das economias dos estados-nações, além de ocasionar fragmentação política e maior difusão de agentes influentes sobre os governos, com diferentes interesses e identidades que dificultam a coordenação da sociedade contemporânea (Taylor, 2007). Algumas características da teoria da governança são as novas combinações de mercados, hierarquias e redes. A abertura do processo decisório à maior participação; a governança multinível; a descentralização. O conceito também é associado com a comunidade, o capital social e a

5https://nacoesunidas.org/acao/governanca/

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sociedade civil como forças integradas em redes baseadas em confiança (Taylor, 2007, p. 299), de forma a melhorar serviços e as políticas elaboradas em localidades onde o ato de governar já se destacou do Estado e é então exercido por uma gama de alianças e lugares para além do estado (Taylor, 2007). Assim, “Governing has thus become a domain of strategies, techniques and procedures through which different forces and groups attempt to render their programme operable” (Rose & Miller, 1992, como citado em Taylor, 2007, p.300).