2.3. Teoria do processo político
2.3.2. Enquadramento interpretativo
O conceito de enquadramento interpretativo, no esquema conceitual da TPP, resulta de uma reintrodução da dimensão da cultura, das ideias e dos fatores culturais na compreensão da mobilização dos participantes de movimentos sociais e na estruturação de oportunidades políticas, representando, como atenta Tarrow (2009, p.36), uma “reação contra a mobilização de recursos” e a formulação de um “paradigma substancialmente novo”.
Descontentamentos, valores e ideologia são reintroduzidos na análise da ação coletiva no sentido de entender a identidade coletiva de grupos e a interação com sua cultura. Nesse sentido, a TPP se aproximou das teorias europeias dos “novos movimentos sociais”, mas o fez a partir do trabalho interacionista de Irving Goffman recuperado como produtivo para “o entendimento das escolhas e opções dos grupos sociais, dentro de uma trama de relações sociais e contextos de oportunidades políticas” (GOHN, 2002, p. 73-74). Autores como David Snow, Robert Benford e seus colaboradores retrabalharam vários postulados do interacionismo tentando readequá-los à “análise estrutural-política”, trazendo para um primeiro plano a força de argumentos psicossociais. Buscando elucidar os aspectos cognitivos da ação coletiva adaptaram a análise de marcos de referência de Goffman para ilustrar a forma como membros de movimentos sociais conferem sentido aos seus “mundos sociais” (HUNT; BENFORD; SNOW, 2001).
O problema é colocado, então, de tal maneira que introduz elementos de continuidade de certa tradição estadunidense. A dimensão da cultura é reintroduzida através do conceito de enquadramento interpretativo com um enfoque estratégico. Esse conceito seria “mais adequado à natureza interativa dos movimentos sociais”, na medida em que permite “relacionar o texto ao contexto, a gramática da cultura à semântica da luta”. As mudanças “no simbolismo de um movimento nem são derivadas diretamente da cultura nem totalmente construídas só de ideologia, mas são [o] resultado de sua interação estratégica em seus cenários variados e sempre em mudança” (TARROW, 2009, p. 143).
Snow e Benford adotam o conceito de marco de referência de Goffman em relação à ação coletiva, como “uma categoria especial de entendimento cognitivo - os quadros interpretativos das ações coletivas - que se refere a como os movimentos sociais constroem significados para a ação” (TARROW, 2009, p. 143). De acordo com Snow e Benford, um marco de referência seria um “esquema interpretativo que simplifica e condensa o ‘mundo exterior’, salientando e codificando seletivamente objetos, situações, acontecimentos,
experiências e sequências de ações num ambiente presente e passado de cada indivíduo” (SNOW; BENFORD apud HUNT; BENFORD; SNOW, 2001, p. 228). Consistem em dispositivos que enfatizam e “adornam a gravidade e a injustiça de uma condição social ou redefine como injusto ou imoral o que era visto anteriormente” como tolerável. Envolvem “profundamente um trabalho de ‘nomear’ descontentamentos” “que farão sentido para as predisposições culturais de uma população e enviarão uma mensagem uniforme para os detentores de poder e outros” (TARROW, 2009, p. 143).
Os marcos de referência da ação coletiva não apenas destacam certos aspectos da realidade, mas também atuam como base para a atribuição e articulação de significados. Eles “concentram a atenção em uma situação particular considerada como problemática, produzem uma atribuição de sua responsabilidade a determinadas pessoas ou fatos e articulam propostas alternativas, entre as quais se inclui aquilo que os atores do movimento devem fazer para conseguir as mudanças desejadas”. Nesse sentido, Snow e Benford sugeriram que existem três dimensões fundamentais no processo de construção de marcos de referências, assinalando seu caráter estratégico:
- Criação de marcos diagnósticos: estes identificam alguns acontecimentos ou situações como problemáticas e ao mesmo tempo a necessidade de mudanças, bem como assinalam certos agentes sociais como responsáveis pela situação (seja como “causadores” ou como exacerbadores da situação), ao quais são atribuídas determinadas características e motivos. Esse tipo de marco, então, imputa características a um conjunto destacado de atores no âmbito de atuação de um movimento social. Características que permitem situar esses atores como oponentes, culpáveis pela situação enfrentada, como adversários, etc.
- Criação de marcos prognósticos: nesses marcos se estabelecem planos para “corrigir essa situação problemática, especificando para isso o que se deveria fazer e quem teria que fazê-lo, ou seja: os objetivos específicos, as táticas e estratégias a seguir”.
- Criação de marcos de motivação: consiste num marco gerador de motivação, isto é, num “conjunto de razões prementes e irresistíveis” que atua no sentido vincular, efetivamente, as pessoas à ação. Estabelece “um vocabulário de motivos adequados ou as razões que justificam a ação em favor de uma causa”, implicando “um processo de construção social e o reconhecimento dos motivos e identidades dos protagonistas” do movimento (HUNT; BENFORD; SNOW, 2001, p. 228-229).
Essa concepção, segundo Mayer Zald (1999, p. 371) rompe de maneira definitiva com concepções anteriores relativas ao “papel desempenhado pelas ideias no seio dos movimentos
sociais”, muito vinculadas “à formulação comunitária de valores e, além disso, como algo que ia tomando forma lentamente”. No processo de construção de marcos interpretativos, como bem nota Alonso (2009, p. 78), o conflito social passa para “o plano da definição da realidade, isto é, disputas políticas são apresentadas como eminentemente simbólicas”. Na mesma direção, Zald (1999, p. 377) argumenta que a “estruturação real da injustiça e dos objetivos políticos descansa, quase sempre, sobre definições sociais de relações, dos direitos e das responsabilidades, que são as que permitem assinalar os defeitos da ordenação social atual e sugerir a direção que deve adotar a mudança”. De tal maneira,
A cultura é vista como terreno de litígio, perpassada por relações de poder. A ênfase está na intencionalidade dos agentes e em sua capacidade de recorrer seletivamente a repositórios passados de significados para moldar estratégias de ação (...). A cultura seria uma caixa de ferramentas, composta por símbolos, rituais, visões de mundo que só adquirem sentido pelo uso, isto é, quando mobilizados para orientar ações. A cultura [assim] se relaciona com a política em chave pragmática: como estruturadora de processos de seleção, interpretação, reinvenção e uso intencional de significados por uns agentes contra os outros (ALONSO, 2009, p. 79).
Os organizadores de movimentos sociais recorrem então a “stocks culturais” de onde extraem “imagens que lhes permitem definir o que é uma injustiça” (ZALD, 1999, p. 377), num processo através do qual “orientam os quadros interpretativos para a ação em contextos particulares e os amoldam à intersecção entre um alvo da cultura da população e seus próprios valores e objetivos”, o que Snow e seus colaboradores chamaram de alinhamento de marcos interpretativos (frame alignment), processo através do qual os movimentos “formulam suas mensagens em relação à cultura existente”. Isto é, “os movimentos conectam quadros culturais existentes a uma questão ou problema particular, esclarecem e revigoram um quadro interpretativo que se relaciona a uma questão específica e expandem os limites do quadro primário do movimento para incluir interesses ou pontos de vista mais amplos” (TARROW, 2009, p. 144). Dessa forma, o conceito de alinhamento de marco interpretativo teria sido criado para
descrever os esforços através quais os organizadores de um movimento tratam de vincular as orientações cognitivas dos indivíduos com as das organizações dos movimentos sociais. O objetivo é criar uma visão do mundo que legitime e motive o protesto, e parte de seu êxito depende da ressonância cultural dos marcos de
referência promovidos pelos organizadores. Seus esforços, nesse sentido, para criar
um marco adequado podem ser considerados como atos de apropriação cultural, nos quais os lideres dos movimentos tratam de associar suas reivindicações a controvérsias públicas de grande ressonância na sociedade em geral (ou em uma subcultura particular) para ativar o protesto (McADAM, 2001, p. 45).
Cabe destacar o papel dos organizadores de movimentos nos processo de alinhamento do quadro interpretativo. Tarrow (2009) esclarece aspectos decisivos desse processo: “líderes dos movimentos competem com líderes de outros movimentos, com os agentes da mídia e com o Estado pela supremacia cultural - competidores que têm recursos culturais imensamente poderosos a sua disposição”, no sentido de assegurar o “poder de oposição” de “seus apoiadores mais militantes”. Partindo do pressuposto de que “pessoas comuns” frequentemente fazem “leituras” dos acontecimentos, “que diferem daquelas feitas por seus líderes e frequentemente assimilam a interpretação que as elites dão a seus fracassos”, é muitas vezes necessário “um esforço considerável de mobilização cognitiva para acabar com esse modo de pensar das pessoas comuns”. E nesse sentido, dois tipos de apelos são comumente utilizados para assegurar a mobilização: injustiça e emotividade.
Segundo Tarrow (2009, p. 114-115), um tipo recorrente de discurso no confronto político é elaborado em torno do chamado “quadro interpretativo de injustiça”, conceito formulado por Gamson. O argumento central é o de que as pessoas precisam, de forma coletiva, definir suas situações como injustas antes de se lançarem numa ação coletiva, como defende Doug McAdam. Isto é, os “organizadores de movimentos” trabalham no sentido de inserir os descontentamentos em quadros interpretativos que identificam uma injustiça, responsabilizar outros por ela e propor soluções. O esforço de mobilizar pessoas contra injustiças que experimentam nas suas vidas diárias, persuadi-las de que a responsabilidade por seus problemas pode ser atribuída a “algum agente e de que as ações empreendidas coletivamente podem mudar aquela condição” não é, por sua vez, tarefa simples. E é nesse sentido que entra em jogo o papel das emoções associadas aos alinhamentos de quadros interpretativos.
A emotividade pode se mobilizada em sentidos diversos, produzindo efeitos inclusive contrastantes na ativação de ações coletivas e confrontos políticos. “Emoções diferentes podem ser estimuladas através da percepção de desigualdades - cinismo, ironia confusa, resignação” (GAMSON apud TARROW, 2009, p. 145). E para que se desenvolva a ação coletiva dos desafiantes potenciais é necessário que haja a adoção coletiva de um mesmo quadro interpretativo de injustiça, de maneira que seja publicamente compartilhado por estes (TARROW, 2009).
Se a maior parte do trabalho de construção de quadros interpretativos é cognitiva, “isto é, ele identifica descontentamentos e os traduz em reivindicações mais amplas dirigidas a outros que sejam significativos”. Ele não se reduz “a cogitações estéreis de ideólogos”,
necessita de um investimento emocional, uma vez que “nenhuma transformação significativa de reivindicações em ações pode ocorrer sem que se estimule ou se crie energia emocional” (TARROW, 2009, p. 145).
De tal maneira, Tarrow propõe que algumas emoções são o que chama de “vitalizadoras”, como, por exemplo, a raiva. Será mais provável que estas “estejam presentes na deflagração de atos de resistência, enquanto que outras, como a resignação e a repressão, são ‘desvitalizadoras’ e existem, mais provavelmente, nas fases de desmobilização”. Diz ainda que os
pontos altos do confronto geram eixos emocionais em torno dos quais gira a futura direção do movimento. Com o passar do tempo, os empreendedores do movimento se esforçarão para evocar esses eixos emocionais através da retórica, rituais e reuniões nos lugares em que ocorreram a injustiça ou vitórias passadas (TARROW, 2009, p. 145-146).
Religião e nacionalismo seriam duas fontes geradoras de emoções recorrentes para o enquadramento interpretativo de movimentos sociais. “A religião fornece símbolos, rituais e solidariedades já prontos e que podem ser acessados e apropriados pelos líderes dos movimentos” (Tarrow, 2009, p. 146).
Diante disso, conclui Tarrow que a
cultura da ação coletiva é feita de quadros interpretativos e de emoções que visam tirar as pessoas da submissão, mobilizando-as para a ação em cenários conflituosos. Os símbolos são extraídos seletivamente de um reservatório cultural pelos líderes do movimento e combinados a crenças orientadas para a ação, de modo a navegar estrategicamente em meio a um paralelogramo de atores, que vai desde estados e oponentes na sociedade até militantes e população-alvo. O mais importante é que a eles é dada uma valência emocional que visa converter a passividade em ação (TARROW, 2009, p. 146-147).