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1.1. Tendências assinaladas recentemente na dinâmica movimentalista latino-

1.1.2. Movimentos sociais, territorialidade e outras espacialidades

A apropriação do território na dinâmica das ações coletivas é uma das características mais ressaltadas ultimamente em análises de movimentos sociais na região, principalmente na análise daqueles que estiveram bastante ativos no ciclo de conflitividade social. Para Maristella Svampa (2008b, p. 33), a territorialidade teria se tornado uma das “principais dimensões dos movimentos sociais na América Latina”, e o território se revelaria como “o principal lócus dos conflitos sociais atuais e de construção do poder”.

O território apareceria, tanto para movimentos sociais urbanos, como para movimentos sociais rurais ou campesinos, como “espaço de resistência”, como “lugar de ressignificação e criação de novas relações”, compreendido muitas vezes como espaço de “auto-organização comunitária” (SVAMPA, 2008, p. 77). Podendo aparecer também como apropriação ou reapropriação de determinados espaços nos quais se desenvolvem formas de lutas e de protesto como as ocupações de terra, de prédios públicos, de estradas, de vilarejos, etc. Ou como espaços nos quais se desenvolvem “experiências de auto-gestão produtiva, de resolução coletiva de necessidades sociais (por exemplo, no terreno da educação e saúde) e de formas coletivas não estatais de gestão dos assuntos públicos” (SEOANE; TADDEI; ALGRANATI, 2006, p. 240).

Muitas experiências movimentalistas recentes são ilustrativas desse processo de apropriação do território, indo desde a proposta dos zapatistas dos chamados Caracole e dos municípios autônomos em Chiapas, no México, às experiências dos chamados piqueteros na

Argentina, passando pela experiência auto-organizativa de juntas vicinais em bairros e vilas da cidade de El Alto, na Bolívia; além das experiências levadas a cabo em áreas de acampamento e de assentamento de reforma agrária organizadas pelo MST, no Brasil, entre outras.

Raul Zibechi (2005; 2009) é um dos autores latino-americanos que mais tem se empenhado na discussão sobre a questão da “territorialização dos movimentos” como um processo que consiste na

resposta estratégica dos pobres à crise da velha territorialidade da fábrica e da fazenda, e à reformulação dos velhos modos de dominação executada pelo capital. A desterritorialização produtiva (trazida pelas ditaduras e pelas contra-reformas neoliberais) fez com que os velhos movimentos entrassem em crise, fragilizando sujeitos que viram as territorialidades nas quais tinham ganhado poder e sentido evaporar-se diante de seus olhos. Após a derrota, iniciou-se um período, ainda não concluído, de reacomodação que resultou, entre outras coisas, na reconfiguração do espaço físico. Como resultado, em todos os países ocorreu uma relocalização ativa dos setores populares em novos territórios localizados frequentemente na periferia das cidades e das zonas de produção rural intensiva; com diferentes intensidades, características e ritmos. Esta estratégia, originada no meio rural, começou a impor-se entre as camadas de desempregados urbanos: os excluídos criaram assentamentos nas periferias das grandes cidades, mediante a tomada e ocupação de prédios (ZIBECHI, 2005, p. 200).

A dimensão do território adquiriu preeminência na configuração de muitos movimentos sociais, como resposta a importância estratégica que alguns territórios, antes não valorizados, passaram a ter dentro das novas modalidades de expansão do capital adotadas no capitalismo contemporâneo na América Latina, das novas formas de ocupação desses territórios, associadas à ofensiva de empresas transacionais (do agronegócio, por exemplo) sobre os recursos naturais, com base num modelo extrativo-exportador desses recursos. De tal modo, forja-se o que Wahren (2011, p. 45) chama de uma nova territorialidade de caráter “neoliberal/transnacional” que reterritorializa esses territórios numa ofensiva que “não só questiona a territorialidade do Estado Nação”, mas também põe em cheque “outras formas de habitar e praticar o território que se encontram soterradas”. É nesse sentido que o modelo de reprimarização da economia, as medidas de reestruturação agrária de corte neoliberal, a privatização e exploração intensiva dos recursos naturais, são aspectos que trazem como contrapartida, a organização de movimentos sociais de base territorial.

O espaço do território passa assim a ser entendido como constituído por práticas espaciais dos movimentos sociais, como um “espaço político, como manifestação de experiência e sentido, como marcos formais e informais dentro dos quais se formam as interações sociais quotidianas”. Essa maior visibilidade do lugar está associada ao processo de

globalização que com “seus movimentos contraditórios deixou mais a vista lugares antes ocultos”. Há uma nova interpretação da “política do lugar, que é visto não como um cenário estático”, mas como “campo político e ideológico, aberto e híbrido, sempre provisório, onde se expressam relações sociais e de poder, mais também se reage a elas” (BRINGEL; ECHART, 2008, p. 458-459).

Processos de organização e luta de movimentos sociais se conformariam, assim, atravessados por distintas territorialidades que podem se encontrar invisibilizadas, mas não desterradas de um espaço geográfico determinado. Ante a ofensiva neoliberal na América Latina se desencadearam processos de reterritorialização em disputa

habilitando a ressignificação de velhas identidades e a conformação de outras novas se conformando assim como um ‘território heterogêneo’ que contêm, em conflitividade permanente, diferentes atores sociais que praticam e habitam de modo diferenciado – e em muitos casos de maneira mutuamente excludente – esses territórios heterogêneos, atravessados por conflitos, negociações, onde existem modos hegemônicos e modos subalternos de habitar e praticar os mesmos (WAHREN, 2011, p. 45).

De tal modo, nesses espaços ocorrem processos contínuos de territorialização, desterritorialização e reterritorialização de atores diversos com “suas próprias formas de significar e utilizar esses territórios, conformando um entretecido complexo de territorialidades justapostas que expressam diferentes formas de habitá-lo”. Os territórios se encontrariam atravessados por formas de regulação capitalista e, ao mesmo tempo, por “outras formas de habitá-lo e praticá-lo” que se encontram “de maneira subalterna ao esquema hegemônico da territorialização”, e que podem ser entendidas como uma territorialização campesina, indígena ou desdobrada por trabalhadores desempregados. Nesse sentido, os diferentes modos de habitar não seriam fixos para os movimentos sociais, mas estariam em “permanente mudança e adaptação a partir de diferentes estratégias de negociação e conflito com a territorialidade hegemônica”. De tal modo, em alguns casos, “os movimentos conseguem desdobrar processos de reterritorialização onde se plasmam as práticas e significações subalternas para reconfigurar o território de forma preponderante por parte dos movimentos sociais” (WAHREN, 2011, p. 46).

Sendo território uma dimensão espacial referida ao lugar, de um ponto de vista mais analítico, uma pergunta básica pode ser: qual a importância do espaço e do lugar no estudo da ação coletiva de movimentos sociais? O que a dimensão do lugar e do território aporta ao entendimento das dinâmicas dos movimentos sociais? Na América Latina (e em particular no Brasil), estudos vêm sendo realizados desde a década de 1990 abordando tanto “a dimensão

espacial das lutas como os processos de territorialização dos movimentos sociais”. Para todo caso, o espaço é entendido não como “mero contexto de ação coletiva, mas como campo de disputa e luta. A alteração dos lugares e a criação de novas territorialidades podem mudar as relações de poder, então a luta dos movimentos sociais é também (...) por novas formas de apropriar-se e representar o espaço” (BRINGEL, 2011, p. 196).

Configurações assumidas recentemente por movimentos sociais latino-americanos, ao revelar como uma de suas dimensões centrais o processo de territorialização de suas práticas, adicionam elementos importantes ao debate sobre espacialização das práticas dos movimentos sociais, de maneira aproximada a forma como essa questão vem sendo discutida no plano global para a interpretação, especialmente, das articulações dos “movimentos antiglobalização” ou altermundistas. É nesse sentido que se torna imprescindível, do ponto de vista analítico, a preocupação de Bringel (2011, p. 197) em destacar “a importância de pensar as complexas espacialidades contemporâneas, múltiplas e imbricadas, que não podem ser entendidas somente com uma visão territorial do lugar”. Nesse sentido, o autor propõe uma leitura na qual possamos analiticamente discernir, de um lado, uma concepção de espaço na qual a ênfase recai na “coesão estrutural das relações sociais em lugares particulares”; de outro, uma concepção dirigida ao entendimento das “interações contingentes de diferentes atores sociais”.

Essa última concepção nos remete ao item anterior, à questão das práticas convergentes de atores em movimento diversos e plurais, e à sua dimensão espacial que transcende o nível do lugar e se projeta, através de demandas e formas organizativas mais ou menos duradouras, no cenário nacional, regional e global. Processos de convergência regional e internacional, envolvendo uma pluralidade de atores, se constituíram, “por sua amplitude e inserção geográfica e seu nível de convocatória em termos de movimentos e coletivos sociais, numa experiência sem precedentes no continente”, dentro do ciclo de conflitividade social. Com a “irrupção nos cenários políticos nacionais de processos de magnitude continental (entre outros, por exemplo, os chamados acordos de livre comércio)”, surge o aparecimento e afirmação de experiências de coordenação hemisférica, em que confluem movimentos sindicais, organizações de mulheres, juvenis, ONGs, partidos políticos, agrupações de defesa do meio ambiente e, com bastante destaque, organizações campesinas. A Campanha Continental contra a Área de Livre Comércio das Américas constitui certamente o exemplo mais destacado. Faz parte também desse processo de convergência, a organização dos Fóruns Sociais Mundiais (SEOANE; TADDEI; ALGRANATI, 2006, p. 337).