ANEXO I – Letras das músicas do Natal dos Insetos e da Missa de Encerramento
CAPÍTULO 5: ANÁLISE DE DADOS
5.2 Aquele que pode ser chamado de mestre: amor pela profissão
5.2.2 Ensinando com amor (o “bom professor”)
“O bom educador é aquele que ensina mais do que sabe, e através do ensino, aprende mais do que ensinou" (Zoltán Kodály)50.
Acredita-se que um dos principais motivos que levaram ambos os professores falarem sobre o amor que sentem em relação à música e ao ensino da mesma é o fato de eles terem se reconhecido, como reflete Fazenda (1995), de eles terem descoberto do que gostavam e diante disso terem feito a escolha pela profissão de educadores musicais.
Tal fato pode se aplicar aos professores Éder e Karina. Quando foi perguntado, sobre o tempo de profissão, o professor Éder respondeu: “Eu sou educador de música há vinte e oito anos” (Éder, 2009, p. 1). É muito belo perceber que mesmo após tantos anos exercendo a mesma profissão, este professor continua sendo “apaixonado” pelo que faz e verdadeiramente comprometido com o ensino da música para as crianças: “Eu amo o que eu faço! E é uma coisa interessante porque é ensinar... passar uma vivência musical para eles” (Éder, 2009, p. 2).
A professora Karina também trabalha como professora de música há muitos anos, e mesmo sendo mais jovem que o outro professor, ministra aulas de música há cerca de dezesseis anos, como citado acima, e é musicoterapeuta há nove anos. E da mesma forma como disse Éder, ela é apaixonada pelas suas profissões, o que pode ser percebido quando a mesma, ao ser questionada se gostava do que fazia atualmente, respondeu com um sorriso no rosto: “Muito! Gosto muito!” (Karina, 2009, p. 1).
O professor Éder ainda completou:
[...] É diferente de você fazer aula de música, ou dar aula de música para quem gosta de música. Aqui eu pego todo mundo, quem gosta, quem não gosta, quem acha a música folclórica uma bobagem, os pais que adoram cantar e fazer os espetáculos no final do ano. Então tudo isso pra gente é uma somatória, né?! Eu amo aquilo que eu faço! Vou me aposentar, relutando com a aposentadoria [risos], mas eu vou parar... Isso já tá colocado na cabeça (Éder, 2009, p. 2).
Segundo este professor, essa é uma das tarefas do educador, ensinar aqueles que gostam e aqueles que não gostam da disciplina, ensinar-lhes a gostar do que estão fazendo, ou pelo menos que façam com dedicação e comprometimento com o seu próprio futuro.
O “bom professor”, segundo Fazenda (1995), é aquele que é mestre, que troca experiências, sabe ouvir, ensina e é condutor do processo de ensino- aprendizagem. Um novo cientista que, através da comunicação, utiliza todo o seu passado para a construção de um futuro humanizador – voltado ao desenvolvimento global do aluno. O “bom professor” é aquele que incentiva, que se permite ousar nas técnicas de ensino, envolvido com cada ato, cada momento, cada educando...
o professor seja mestre, aquele que sabe aprender com os mais novos, porque mais criativos, mais inovadores, porém não com a sabedoria que os anos de vida vividos outorgam ao mestre. Conduzir sim, eis a tarefa do mestre. O professor precisa ser o condutor do processo, mas é necessário adquirir a sabedoria da espera, o saber ver no educando aquilo que nem o próprio educando havia lido nele mesmo, ou em suas produções. A alegria, o afeto, o aconchego, a troca, próprios de uma relação primal, urobórica não podem pedir demissão da escola; sua ausência poderia criar um mundo sem colorido, sem brinquedo, sem lúdico, sem criança, sem felicidade (FAZENDA, 1995, p. 45).
A professora Karina resumiu em poucas palavras exatamente o que se está tentando dizer com o ser “bom professor”, ser mestre: “[...] eu não olho a criança mais só como um aluno de música, eu olho para ele como um ser humano que tem sentimentos, que traz alguma coisa” (Karina, 2009, p. 5).
Pensando em tudo que os professores criam nas suas aulas, foi perguntado se eles estavam contentes com o que dão em sala de aula e se mudariam alguma coisa. O professor Éder respondeu que estava muito contente, e com relação à mudança, afirmou:
[...] Não, mudar não dá. Não adianta eu falar só de mínima51 e semínima e tocar flautinha. Não dá; o aluno necessita de mais. Uma vez uma pessoa
51 Semibreve, Mínima, Semínima, Colcheia, Semi-colcheia, Fusa e Semifusa são as nomenclaturas das notas musicais utilizadas nas partituras (Figura 17). Elas são chamadas também de figuras de som. (JUNIOR, s/d).
falou ‘Ah, eu achei que dar aula de música era só cantar’, ai eu falei ‘Não, vai além disso’ (Éder, 2009, p. 15).
Figura 17 - Notas e suas respectivas pausas
Já a professora Karina, mesmo amando o que faz, e gostando das aulas que ministra e da forma como as realiza, tem um pensamento um pouco diferente, já que a mesma acredita que um trabalho sempre pode melhorar:
[...] a gente nunca pode estar contente com aquilo que a gente faz, porque se não a gente nunca aprende mais. Quando eu cheguei aqui, por exemplo, que eu conheci a Vanessa, eu já dava aula há muito tempo e eu aprendi um monte de coisa diferente com ela, talvez porque a gente nunca parou para pensar, porque a gente não viu em outro lugar ou não leu, né?! Eu acredito assim: ‘Tá legal?’, ‘Tá legal!’, mas pode melhorar, sempre pode. Eu acho que sempre pode. Não é que a gente tem que ser perfeita, né?!, porque isso não existe (Karina, 2009, p. 8).
Para entender melhor o que a professora falou, foi solicitado que a mesma citasse um exemplo que demonstrasse essa questão da mudança, ou da auto- avaliação em relação as suas aulas:
[...] Por exemplo, hoje, vou falar da turma que acabou de sair [...] 4° ano/ 3ª série. Hoje a atividade que a gente fez foi de divisão: nos dividimos em grupos, a gente já tinha trabalhado a música na semana anterior, para eles conhecerem um pouco da música [refere-se a uma música do álbum ‘Pé com Pé’ do Palavra Cantada52], do que ela tá falando. [...] Então eles já tinham uma prévia da música. E ai nos dividimos, tinha um líder em cada grupo, e ai eles fizeram e formaram. Eu gostaria de ter falado, por exemplo, um pouco mais: ‘Líder, você poderia ter trabalhado isso daqui melhor’. [...] Hoje eu poderia ter interferido mais, por exemplo [...] porque eles têm capacidade, mas ainda não entenderam muito bem como tocar aquele tambor, de que forma, eles só falam um jeito. Então essas coisas, às vezes... não é tanto, não é uma diferença enorme, mas já ajudaria muito (Karina, 2009, p. 8).
Além de todas as características citadas acima, mestre é aquele que além de amar o que faz, sabe a hora de parar:
Mas eu acho assim, enquanto você tiver condições de buscar para você crescer, você vai poder dar para o seu aluno, ainda que seja trabalhoso, você tem que fazer isso, se não está na hora de você parar de trabalhar (Éder, 2009, p. 4).
Após ver várias características de um “bom professor”, faz-se necessária a explanação de quais foram as metodologias utilizadas em aula, pelos dois professores colaboradores, que puderam passar, para a pesquisadora em questão, a sensação de os mesmos serem bons mestres.