Quando se fala em escola, professor, trabalho docente, está implícita a idéia de ensino. O aluno está na escola com uma única finalidade: aprender; e esse momento escolar do aluno, aos olhos da sociedade, significa uma preparação para situações de desafio que surgirão ao longo de sua vida. É preciso destacar que, para que haja ensino, é necessário que ocorra aprendizagem; o binômio ensino-aprendizagem é indissociável de fatores externos que atuam no ambiente escolar onde este fenômeno ocorre ou, pelo menos, deveria ocorrer.
Para falar em ensino, é necessário que a aprendizagem seja um fato consumado, e é nesse campo de complexidades que o trabalho docente é analisado e discutido.
Ao definir trabalho, é muito comum encontrarmos afirmações do tipo: trabalhar é utilizar meios para se atingir um fim. Amigues (2004, p.37), discutindo o trabalho docente sob este olhar, afirma que os meios utilizados pelo professor, no exercício do seu trabalho, são os programas, as metodologias de trabalho, a metodologia didática, que possibilitam ao aluno o aprendizado: ler, escrever, resolver determinados tipos de situação problema, entre outros.
Entretanto, a discussão sobre o trabalho do professor, sob este aspecto, causa um distanciamento acentuado do que realmente acontece no exercício dessa atividade. Analisando de forma mais criteriosa o trabalho do professor, é possível perceber que sua
tarefa não é direcionada apenas aos alunos, mas também à escola onde é exercida, aos familiares e também a outros profissionais. O trabalho do professor é a atividade central da escola, visto que cada instituição de ensino possui uma identidade com seu trabalho e com a comunidade para a qual trabalha. Outro fator diretamente ligado à atividade docente é a possibilidade de construir a sua historiografia, em virtude de esta atividade encontrar-se sempre ligada ao momento histórico do qual ela faz parte.
No trabalho docente, o que fazer e a forma como fazer são de fundamental importância; entretanto, percebe-se, em alguns momentos, uma falta de clareza quanto aos objetivos a serem alcançados. Para Amigues (2004, p.42):
O trabalho do professor inscreve-se em uma organização com prescrições vagas, que levam os professores a redefinir para si mesmos as tarefas que lhes são prescritas, de modo a definir as tarefas que eles vão, por sua vez, prescrever aos alunos. Assim a relação entre a prescrição inicial e sua realização junto aos alunos não é direta, mas mediada por um trabalho de concepção e de organização de um meio que geralmente apresenta formas coletivas.
Em virtude de a matéria-prima não ser inerte, as dificuldades desse trabalho são mais complexas. Analisando sob a forma de atividades prescritas, para que estas se desenvolvam é necessário que os alunos se mobilizem e construam relações com outros alunos, com o professor, com os mecanismos de como fazer e o que fazer, não deixando de destacar a própria história da classe, no universo da escola. Assim, o grande desafio do professor é conseguir uma estrutura única, formada pelos alunos e pelo meio onde as atividades se desenvolvem, o que se constituirá, então, num ambiente de trabalho. Vale lembrar que nada acontecerá, se não houver uma predisposição por parte dos alunos em engajar-se na ação ou, como diz Charlot (2005), uma mobilização frente ao saber — objeto de trabalho do professor.
No interior da sala de aula, o professor é gestor do seu trabalho, na busca de seus objetivos; ele tem a incumbência de organizar e regular a tarefa dos alunos, prever soluções para situações futuras, que surgirão em conseqüência da ação conjunta desenvolvida por ele e pelos alunos.
Numa análise mais detalhada, percebe-se claramente que o trabalho docente está vinculado a procedimentos ou legislações estabelecidos por outros, oriundos de uma hierarquia de âmbito nacional, estadual ou municipal, como, por exemplo, a Lei de
Diretrizes Básicas e os Parâmetros Curriculares Nacionais — neste caso, ambos de âmbito nacional.
Desde a sua gênese até os dias atuais, a profissão docente não conseguiu estabelecer para si uma autonomia no que diz respeito ao que deve ser trabalhado e como deve ser trabalhado; as diretrizes do trabalho docente sempre foram determinadas por órgãos externos ao mundo da escola.
A própria estrutura da escola, construída ao longo dos anos, continua a mesma de séculos atrás e é facilmente reconhecida pela disposição das carteiras dos alunos e pela posição do professor na sala de aula. São traços marcantes que ainda não foram modificados.
Analisando o fazer docente do professor, chama atenção a temporalidade da ação docente e o meio do trabalho; as atribuições impessoais a que estão submetidos os professores são por estes assimiladas e transmitidas aos alunos, não sem antes passar por uma análise desse profissional, o que faz com que, ao chegarem ao aluno, essas mesmas atribuições carreguem consigo um pouco da crença do professor no que diz respeito ao seu trabalho. Entretanto, é senso comum a idéia de que a tarefa prescrita aos alunos desencadeia instantaneamente o engajamento de cada um deles na tarefa. Esse pensamento não leva em conta que, mesmo que a tarefa seja realizada individualmente, é necessário um tempo mínimo para surgir uma definição do que será realizado e da maneira como será realizado.
Para Souza-e-Silva (2004, p.92), no universo de interações entre professor-aluno, o diálogo estabelecido entre o professor e a classe está vinculado ao trabalho que deverá ser feito. Todo esse processo de implantação do fazer docente no início de uma nova tarefa proporciona uma atividade coletiva entre professor e alunos, cujo objetivo é a normatização do processo de realização.
Cada escola apresenta suas características próprias, visto que a comunidade escolar é heterogênea, o que implica um tempo diferente de cada uma para a implantação do fazer docente.
A atividade docente que se desenvolve em sala de aula está intimamente ligada ao que já foi realizado e ao que será realizado; entretanto, é o desenvolvimento dessa atividade ao longo do tempo que dá significado ao trabalho, garantindo ao professor condições mínimas para enfrentar riscos eventuais e imprevistos.
Não obstante, em todo esse cenário de análises e discussões, é importante destacar que, para o professor de Ensino Fundamental, o ato de instruir — objetivo central de sua atividade — é imposto a alunos que não escolheram estar numa sala de aula, uma vez que a instrução dos 6 aos 14 anos é obrigatória por lei.
Comparando a atividade docente com outras profissões, uma diferença muito grande que não pode ser esquecida é a responsabilidade quanto ao sucesso ou insucesso do trabalho. Em outras profissões, o profissional é isento de responsabilidade, caso o cliente se recuse a seguir as instruções preestabelecidas; nos dias atuais, ao professor é atribuída toda a responsabilidade pelo fracasso dos alunos, independentemente de o “cliente” — neste caso, o aluno— ter contribuído ou não para o sucesso da atividade.
Em outras épocas, o insucesso na aprendizagem era visto como marca de qualidade de um sistema, de uma escola, de um professor: era a cultura da reprovação, em que toda responsabilidade pelo fracasso era atribuída ao aluno, que não tinha capacidade, interesse ou motivação para aprender.
Com o passar dos anos, esse insucesso deixou de ser responsabilidade do aluno e passou a ser atribuído a toda a comunidade escolar; passou a significar que a comunidade escolar não sabe motivar e ensinar e mostra-se inoperante no combate à evasão escolar. Assim, no quadro de responsabilidades do professor para com o seu aluno, pode-se acrescentar a responsabilidade de motivar e evitar a evasão.
Tais características do trabalho docente têm colocado no centro de discussões mais recentes o próprio status da profissão docente. Esta começa a ser questionada por diferentes teóricos, em diferentes campos de investigação.
Nos dias atuais, o desprestígio do professor é percebido tanto pela comunidade escolar como também pela própria sociedade: notícias responsabilizando o professor pelo insucesso dos alunos nos exames oficiais tornaram-se rotina na imprensa. Isso fortalece cada vez mais a descrença no trabalho do professor, fenômeno que, como já apontamos aqui, teve o seu início na década de 1970.
No contexto das discussões sobre os processos de profissionalização, entendemos ser necessária uma análise sobre os conceitos de profissão, sobre o que é ser profissional e sobre o processo de constituição de uma classe profissional.