CAPÍTULO IV JOVENS FILHOS DE AGRICULTORES FAMILIARES E AS
4.1 Ensinar e aprender na agricultura familiar 123
Nas unidades domésticas de produção agrícola, os jovens vivenciam processos de formação para os relacionamentos e convivências. Mediante a interiorização dos princípios da alteridade, da necessidade do outro, aprendem a perceber suas diferenças, sua subjetividade, as características distintivas de cada sujeito. Essa formação acontece de um modo especial, em meio ao aprendizado do ser e do fazer na agricultura familiar. São muitos os saberes familiares da produção agrícola transmitidos e veiculados tão somente
em atividades cotidianas e como tarefa, em especial, da família, sobretudo em se tratando da família agrícola com suas atividades desenvolvidas primordialmente pelos membros do núcleo familiar. A esse respeito, um dos entrevistados declara:
Assim para a vida, para trabalhar, para enfrentar os problemas e gostar das coisas boas da vida, evitar as coisas erradas, eu aprendi mais foi com a minha família mesmo, a ficar trabalhador para ganhar a vida, organizar uma família, o tratamento da criação, o trabalho na terra, isso é na família, é com o exemplo e os apertos dos pais. Eu aprendi muito na escola e também na família, porque há coisas que se aprende na escola, mas outras aprendemos na convivência, dentro de nossas casas com nossos pais (REGINALDO).
A socialização na agricultura familiar cotidiana realiza-se no saber e ensinar e aprender fazer. Nesse sentido, diferencia-se da educação escolar, marcada por procedimentos formais de horário, dias letivos, planejamentos, etc. Na agricultura familiar, a prática social é o principal recurso no aprendizado da agricultura familiar. Aprende-se com os pais, com os mais velhos, a fazer fazendo ou vendo como se faz, como demonstrado na fala que se segue:
Porque o que se aprende na escola não é o mesmo da família, porque com a família aprendemos costumes, valores, respeito com os outros, trabalharem na agricultura; na escola aprendemos a ler e a escrever. Mas o trabalho aprendemos com a família, em casa, na roça, nos pastos, os primeiros serviços, as tarefas de cada dia, primeiro a gente faz com as ordens do pai ou da mãe, depois a gente já faz por si mesmo numa boa, mas as obrigações do lar, assim é a família quem nos ensina. (MARIZA).
Mariza, nos seus dezesseis anos, diferencia o que se ensina na família, no trabalho agrícola, dos conteúdos escolares. Para ela a tarefa da escola é ensinar para a inserção no mundo do trabalho, e a da família, para a vida: “A escola nos ensina assim para escolher uma profissão melhor para nós, as descobertas dos cientistas, as histórias da humanidade. Mas a família ensina as histórias próprias da nossa família”. Percebe-se em sua fala, que não reconhece a atividade familiar na agricultura como trabalho. Assim, pode ser que para ela trabalho profissional é toda atividade assalariada.
Fábio fala do papel da família na formação para a interiorização dos valores essenciais para a vida em família e em sociedade. É interessante perceber que o jovem afirma que, na família, aprendeu valores constituintes de sua singularidade e que, em relação à escola, tem expectativas de ser preparado para o mercado de trabalho. Na visão
do jovem, idealizada ou não, a função da escola consiste em adequá-lo para conseguir um bom emprego, como ele afirma:
Eu acho que a escola está me ensinando a ser um bom empregado, para arrumar um bom serviço, agora a minha família empregou em mim uma boa educação para tudo da vida, também me ensinou a ser um homem com respeito digno e muito humilde e honesto, acho que com tudo aprendi a ser um bom homem. Com minha família aprendi a trabalhar e também a ser feliz, sem dúvida alguma, quem me ensinou principalmente a trabalhar foi minha família, e tá ensinando ainda (FÁBIO).
Nesse sentido, de fato, na agricultura familiar, há muito mais espaço de veiculação de uma educação por meio de atitudes e palavras: “As coisas que a gente precisa para a vida, aprendi em casa, junto com a família, com o exemplo dos meus pais. Na verdade, minha família é uma escola e tanto” (AMANDA). Outra entrevistada, assim se manifesta:
Ah, eu no meu caso, as coisas melhores para ser feliz, eu aprendi mais foi com a minha família. Minha família me ensinou mais do que a escola, muitas coisas, por exemplo, a trabalhar todo dia, a rezar, a respeitar os outros, a evitar maus companheiros, a não mexer no que é dos outros, a não mexer com droga ou bebida alcoólica, a tratar bem os outros, os mais velhos, os mais pobres, a ir pra igreja, esse tipo de ensino é a minha família que mais me ensinou (ROSA).
Em seus depoimentos os jovens agricultores familiares são pródigos em destacar o papel da família como agência formadora de valores, relacionamentos e sociabilidade. A família é protagonista de uma educação mais abrangente na vida dos filhos, por isso mesmo, conforme os relatos dos jovens entrevistados, ela está na base também da educação escolar. Família e escola são duas agências educadoras que se complementam, mas cabe à família, também, dos jovens agricultores um protagonismo maior. Segundo Portes (2003, p. 67; grifos do autor),
o esforço contínuo para inculcação de uma ordem moral doméstica no filho, desde tenra idade, suficientemente forte para balizar os procedimentos sociais, como disposição [...] parece funcionar como um lastro para o conjunto de ações a serem empreendidas pelas famílias e pelos filhos. Trata-se de um esforço contínuo que não tem como alvo específico o sucesso escolar e, sim, uma
educação mais abrangente, uma educação para a vida.
Nesse sentido, tendo em conta o levantamento das dificuldades vividas pelos jovens entrevistados no processo de escolarização, pode-se constatar que, tanto na educação escolar como no processo educativo próprio da família agrícola, existe aquele ensinar e
aprender que se dá mediante o enfrentamento e superação das dificuldades. Vivendo solidariamente as dificuldades, recebendo apoio de colegas, familiares, professores, os jovens aprendem também, e muito, sobretudo a administrar situações complexas que não dependem da vontade ou decisão momentâneas do sujeito. Um depoimento é significativo:
Minhas expectativas em relação aos meus estudos são as melhores possíveis, pois procuro me esforçar e batalhar cada vez mais para um futuro brilhante. A escola teve, tem e terá um papel muito importante em minha vida, é a minha segunda casa, através dela adquiro conhecimentos científicos e culturais de grande valor. A escola também nos prepara para enfrentar a vida, a conquistar nossos sonhos, a conviver em sociedade, escola é um complemente ao que nossos pais nos ensinam (SÍLVIA).
A família tem muita influência na tarefa de interiorizar nos filhos o gosto pela escola, de tal modo que os jovens parecem ter uma imagem positiva da escola, em relação às suas expectativas: “Eu sempre gostei de estudar, minha mãe sempre falava bem da escola, por isso nunca achei difícil e confio que é a escola que vai ajudar a realizar o meu sonho de ser uma veterinária ou uma agrônoma” (MARIZA). Quando se referem aos aspectos negativos, os jovens lembram que os pais estudaram menos que eles e com maiores dificuldades:
Claro que a gente reclama do transporte, mas meu pai fala assim: ‘e se fosse como no meu tempo que era a pé?’ Por isso, eu não quero sair da escola, para um dia ter um bom salário e ajudar os meus velhos que lutaram mais que eu” (JOSÉ).