CAPÍTULO V JOVENS FILHOS DE AGRICULTORES FAMILIARES E
5.2 Expectativas de estabelecer-se no meio rural 153
Acresce-se a esses dados o fato de que dos jovens sujeitos da pesquisa, 24% já vivem na cidade, e mesmo mantendo vínculos com o espaço rural, poucos falam do desejo de voltar. Dos que vivem na zona rural, muitos acreditam que mais cedo ou mais tarde terão de ir para a cidade. A tensão de fundo é a procura por emprego, pelo trabalho remunerado, uma vez que, na agricultura familiar, as relações de trabalho não são regidas pelo esquema salarial. Um dos entrevistados prefere permanecer no trabalho agrícola: “Eu não pretendo ir para cidade, eu prefiro ir sempre à cidade, mas quero sobreviver é na agricultura, morei na cidade só até conseguir meu pedaço de terra” (REGINALDO).
Mesmo quem ainda vive com os pais no trabalho familiar agrícola, já estuda na cidade, como José, pretende morar na cidade e nela engajar-se profissionalmente: “Ah, se for da vontade de Deus, agora eu terminando o ensino fundamental quero ir para a cidade, porque lá vou ter mais oportunidades de ter um futuro bom e estudar muito”. Mariza também se vê na mesma situação:
Eu, por exemplo, pretendo ir para a cidade para arrumar um emprego para eu ajudar meu esposo e para eu pagar meus estudos. Porque eu tenho vontade de
fazer faculdade na área de medicina, tenho vontade de fazer faculdade de nutricionista, psicologia ou fisioterapia. Mas eu não tenho condições, por isso eu queria arrumar um emprego para eu conseguir pagar uma faculdade e ajudar o meu esposo.
Fábio, nos seus 18 anos, vê-se encurralado: vai ter que ir para a cidade para obter trabalho, mas situa-se entre os que alimentam a possibilidade de fixação na agricultura com a posse de um pedaço de terra para desenvolver a atividade agrícola: “Talvez vai ser preciso mudar para a cidade, para poder trabalhar. Mas se Deus quiser, eu pretendo comprar uma terrinha um dia, espero que Deus me ajude a conseguir alcançar meu sonho”. Seus projetos de escolarização, de continuar estudando, de fazer faculdade, revelam que nem todos os jovens pretendem reproduzir o trabalho dos pais, mesmo se o avaliaram positivamente. Eles têm seus próprios sonhos, dos quais não abrem mão, como afirma Rosa:
Ah, eu tenho que ir para a cidade. Porque indo para cidade fica mais fácil para estudar, realizar meus sonhos e poder ajudar meus pais que não querem sair daqui. Lá nas cidades é que tem as facilidades para fazer um curso, trabalhar, porque fica muito difícil para meu pai me buscar todos os dias na cidade Os únicos pontos mais difíceis é deixar meus pais. Mas é por uma boa causa, é para melhorar a minha vida, e quem sabe se um dia eu for uma profissional, quem sabe melhoraria o nosso futuro.
José, dezesseis anos, um dos mais jovens entrevistados, não vê possibilidade de se realizar profissionalmente na agricultura familiar. Para ele, os estudos, a faculdade e a possibilidade de trabalho condicionam sua opção pela cidade. A característica da agricultura familiar, sem remuneração, é, portanto, outro fator que impede os jovens agricultores familiares de reproduzirem a atividade agrícola no grupo familiar:
Eu vou ter que ir para cidade, pois pretendo fazer faculdade e me formar. Pois é na cidade que tem maior facilidade para trabalhar, arrumar emprego e também para ir pra escola. Aqui é melhor pra tudo da vida, mas num tem emprego nem escola, nem faculdade, tudo pro futuro da gente tá na cidade, fazer o que? Quem quer estudar e arrumar emprego tem que ir para a cidade, aqui não tem futuro não (JOSÉ).
Além da preocupação com a inserção no mercado de trabalho, sobressai também o desejo de continuar os estudos como motivação para a transferência para a cidade. De um modo ou outro, os jovens acabam afirmando que não haverá outra saída a não ser ir para a cidade. Nesse sentido, a frequência à escola na cidade exerce grande influência na opção
dos jovens rurais em migrar para a cidade, seja pelo desejo em continuar os estudos, seja pelo fato de que, frequentando a escola na cidade, poderem construir um bom relacionamento com os jovens e as realidades do meio urbano pelo qual se sentem atraídos.
Os jovens filhos de agricultores familiares pesquisados encontram-se, assim, envolvidos nos processos de reprodução social da agricultura familiar, mas não se pode negar que fatores externos a eles mesmos podem estimulá-los a voltar os olhares e projetos para oportunidades de trabalho e autonomia em outros campos. Eles gostam do trabalho na agricultura familiar, avaliam positivamente o modo de vida dos pais, mas ao mesmo tempo em que veem poucas possibilidades no meio rural, se encontram atraídos para a cidade e para o exercício de atividades não agrícolas.
Os jovens vivem o dilema entre permanecer no meio rural e na agricultura e partir de vez para a cidade (Rubiataba ou outros centros urbanos). Eles não querem romper com o trabalho agrícola realizado pelos pais, mas visualizam maiores possibilidades de realização pessoal e profissional em outras atividades. Se, de um lado, a diluição das fronteiras entre o rural e o urbano favorece a integração dos dois espaços mediante a convivência dos jovens do campo com os jovens da cidade, de outro, afeta-os profundamente e os motiva a romper com suas origens. Segundo Castro (2006, p. 1),
a juventude rural é constantemente associada ao problema da “migração do campo para a cidade”. Contudo, “ficar” ou “sair” do meio rural envolve múltiplas questões, onde a categoria jovem é construída e seus significados disputados. A própria imagem de um jovem desinteressado pelo meio rural contribui para a invisibilidade da categoria como formadora de identidades sociais e, portanto, de demandas sociais (grifos da autora).
Percebe-se, observando os jovens filhos de agricultores familiares da região de Baixa Verde, que não é mais possível esconder o dilema que estão vivendo nesse momento de suas vidas, entre as possibilidades de permanecerem no campo e na atividade agrícola, ou acompanhar o movimento de migração para a cidade que já agrega muitos de seus companheiros. A ideia de que a alternativa mais viável é a partida para os espaços urbanos, no entanto, é construída conforme a perspectiva urbana e dos mecanismos de descaracterização ou subestimação da vida no campo, e seu consequente esvaziamento.
Ficar no campo ou transferir-se para a cidade é questão social que envolve muitos fatores e sugere o empenho dos movimentos sociais, de instituições governamentais e não governamentais. É um dilema que afeta toda a sociedade e precisa ser considerado para
que se busquem iniciativas diversas em favor de soluções para o problema. Conforme Ferreira e Alves (2009, p. 245),
a transferência de jovens para as cidades, mais do que parte do movimento demográfico geral do processo de urbanização das sociedades industrializadas contemporâneas, tem sido vista como um problema, na medida em que não só contribui para o esvaziamento do campo, mas também pressagia o fim do mundo rural (grifo dos autores).
Não é suficiente atribuir ao processo de escolarização na cidade a causa principal desse dilema, pois em épocas recentes, quando havia, no município de Rubiataba, 35 escolas ditas rurais, o êxodo rural era ainda mais intenso porque havia mais pessoas morando no campo e migrando para a cidade, independentemente da educação escolar na cidade ou no meio rural em que habitavam. Atualmente, as possibilidades de reprodução da agricultura familiar se fecham mais também pelo fato de que as famílias são pouco numerosas.
Assim, “ficar e sair do campo é mais complexo que a leitura da atração pela cidade, e nos remete à análise de juventude rural como uma categoria social chave pressionada pelas mudanças e crises da realidade do campo” (CASTRO, 2006, p. 11), (grifos da autora). Não se pode, portanto, de maneira antecipada, responsabilizar somente os atrativos da cidade pelo movimento migratório dos jovens para a cidade.
Há um processo de estabelecimento das famílias na agricultura familiar que vem de longa data, mas que está em crise e sem perspectivas de prolongar-se às novas gerações, de acordo com a opinião dos jovens pesquisados. O depoimento de Letícia, no entanto, confirma o apreço por morar no campo:
Desde que nasci, sempre morei na roça. Morar no campo sempre foi uma descendência de meus familiares, pois meus avós paternos e maternos sempre viveram da agricultura. Nossa raiz na agricultura vem de longe. Penso que seja por falta de oportunidade no campo que a tendência é irem todos para a cidade, tentando manter a propriedade e o trabalho na agricultura.
Porém, manter essa tradição é problemático, tendo em vista as dificuldades que se impõem à manutenção da atividade agrícola no modelo familiar. No depoimento de Letícia fica manifesto que a transferência para a cidade é uma tendência que não pode ser camuflada, mesmo havendo a perspectiva de morarem na cidade e continuarem com a
propriedade e o trabalho na agricultura, a reprodução do trabalho familiar agrícola vive um momento de impasse.