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CAPÍTULO 2 ANÁLISE DO DISCURSO DE LINHA FRANCESA

1.3 ENSINO DA ESCRITA SOB A PERSPECTIVA DISCURSIVA:

Pode-se perceber que, frente à mobilidade e à complexidade de sujeitos inseridos

em contextos multiculturais, torna-se difícil para os estudos teóricos contemporâneos,

interessados em analisar o discurso, distanciar-se da análise da relação entre os sujeitos

que o enuncia e as situações as quais determinam o seu dizer. Isso porque, conforme

Pêcheux (1990), não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia de maneira

que o discurso é a materialização do dizer de um indivíduo interpelado em sujeito pela

ideologia, o que faz cair por terra o modelo de análise sustentada pela crença da plena

representação de subjetividades que cristalizava discursivamente o sujeito unívoco e

estável.

A busca por estratégias alternativas de construção do “eu” torna-se imperativa,

na medida em que se expande o interesse teórico-crítico em atribuir ao discurso um

valor político na visibilidade de subjetividades associadas a grupos minoritários. Nesse

sentido, ao tentar resgatar, nos discursos que se materializam em textos de cunho

autobiográficos, a construção de subjetividades daqueles grupos, evitar-se-iam as

antigas estratégias de análise que construíram a noção de sujeito unívoco, cartesiano e

estável e tornar-se-ia possível a concepção do sujeito heterogêneo, dialógico, marcado

pelas relações sociais, históricas e ideológicas que o determinam.

A autobiografia, segundo Uyeno (2006, p.207), foi inaugurada por Rousseau em

sua obra As Confissões, difundiu-se como gênero literário explorado por Goethe,

Wordsworth, Stendhal. A proposta de rousseauiana de comunicar verdades sobre o ser

humano, por meio de dispositivos como o relato autobiográfico, tem no filósofo e

teólogo cristão Santo Agostinho de Hipona seu mais ilustre seguidor.

Desse modo, pode-se conceber autobiografia como o relato de uma vida pelo

próprio autor, sendo ele, ao mesmo tempo, o destinatário e o personagem - objeto da

narração. A prática autobiográfica situa o tempo que procura exumar e reconstruir.

Segundo Mathias (1997, p.41), autobiografia é

a retrospectiva ordenada quase sempre em função de critérios

cronológicos, apresenta-se como um todo e com um todo pretende ser

considerada. Esta busca unidade constitui o mais específico da

exigência autobiográfica

Ainda, para Mathias (1997), o autobiógrafo propõe-se a tentar decifrar, por

detrás de um caminho que foi seu, a identidade que lhe subjaz, que o anima e determina

sua unidade, sem que ele disso se dê conta. É, portanto, um elemento de reinterpretarão

que falseia a própria essência no que pretende mostrar.

O gênero propriamente autobiográfico seria, de acordo com Lejeune (apud

Marques, 2004, p.3), “narrativa (récit) retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz

de sua própria existência enfatizando sua vida individual, em particular, a história de

sua personalidade.”.

Essa definição, segundo o autor, põe em jogo elementos de quatro categorias: 1)

quanto à forma de linguagem: a) uma narrativa e b) prosa; 2) quanto a seu assunto: uma

ida individual, a história de uma personalidade; 3) quanto à situação do autor:

identidade do autor (cujo nome remete a uma pessoa real) e do narrador; 4) quanto a

posição o narrador: a) a identidade do narrador e do personagem principal; b)

perspectiva retrospectiva da narrativa.

Conforme Larrosa (1994, apud UYENO, 2006, p.272),

considerando-se que a pessoa é constituída de um conjunto de relações

consigo mesma, e que a autobiografia é constituída pelo relato sobre

si, é constitutiva desse gênero a “experiência sobre si”, uma vez que

permite ao indivíduo aprender a se ver, a se dizer ou a se julgar que

nada mais significam do que “aprender a fabricar o próprio duplo”.

Não se trata, entretanto, de um duplo constituído da projeção

espontânea ou de uma espécie de reflexividade natural, mas

“constituído” ela colocarão em funcionamento e uma série de

mecanismos e de relação: os mecanismos óticos que determinam o

que se pode ver de si mesmo e como se pode se ver, os mecanismos

discursivos que estabelecem o que se pode dizer de si mesmo e como

se pode dizê-lo e os mecanismos jurídicos que dizem respeito ao como

se pode julgar-se e as ações que constroem o que de si pode ser

afetado por si mesmo e a forma dessa ação de afetar.

Falar ou escrever de si, conforme falou Foucault (1976), é um dispositivo crucial

da modernidade, uma necessidade cultural, já que a verdade é sempre prioritariamente

esperada do sujeito – subordinada a sua sinceridade.

No seu texto A escrita de Si (2004a, p.145-147), Foucault aborda o ato de falar

de si, traçando o caminho de textos escritos que se originaram, na cultura greco-romana,

e que revelaram, já naquela época, a escrita concebida como exercício de olhar para si,

de deparar-se com o eu, tomando como exemplo A Vita Antonii de Atanásio, que se

tratava de anotações monásticas das ações e pensamentos considerados elementos

Os hupomnemata e as correspondências já indicam um observar sobre si próprio,

mesmo sem a marca da reflexão, a partir do uso da memória e das situações cotidianas.

É um olhar sobre si que já começa a se delinear, não com o objetivo de uma "descrição

de si", mas com o de reunir o já dito, de agrupar o que foi ouvido e lido, e tudo isto com

o objetivo que nada mais é do que a construção do eu.

Foucault (2004a, p.147-152) ressalta que os hupomnemata não constituem uma

narrativa de si mesmo, não tendo, assim, caráter confessional. Ele os define como livros

de apontamentos, registros públicos, cadernos de anotações pessoais que serviam como

memória. Ele constituía uma memória material das coisas lidas, ouvidas ou pensadas

-um tesouro ac-umulado para ser relido e para meditação posterior. Também formava

uma matéria-prima sobre a qual tratados mais sistemáticos podiam ser escritos, onde

eram apresentados os argumentos e as formas de lutar contra algum defeito (tal como a

raiva, a inveja, a maledicência, a bajulação) ou de ultrapassar alguma situação difícil

(um luto, um exílio, uma depressão, uma desgraça).

Segundo Foucault (2004, p.149), o movimento que os hupomnemata procuram

realizar, não se trata

de buscar o indizível, não de revelar o oculto, não de dizer o não-dito,

mas de captar, pelo contrário, o já dito; reunir o que se pôde ouvir ou

ler, e isso com uma finalidade que nada mais é que a constituição de si

Desse modo, os hupomnemata constituem a escrita de si uma vez que pode levar

o autor a questionar-se, a refletir a respeito de si, pois essa escrita pode ter uma função

etho poiética, isto é, uma função estética e política de criação de si. Um compromisso

com a vida, com a potência criadora que habita em todos.

Por meio da mistura escrita/leitura, podem-se compor processos combinatórios

com a diversidade dos materiais de expressão trazidos pelas leituras. Foucault menciona

o se dobrar, o redobrar (-se) e o se desdobrar em múltiplas afirmações.

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