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ensino de música no componente curricular Arte

4 PRÁTICAS MUSICAIS NO IFBA – ANÁLISE DOS DADOS RECOLHIDOS

4.2 Organização do componente curricular Arte e projetos de extensão em

4.2.1 ensino de música no componente curricular Arte

Arte é um componente curricular que pertence as disciplinas do núcleo comum, oferecido como disciplina obrigatória no 1º ano de todos os cursos do Ensino Integrado, com carga horária de 60 horas, distribuída em duas aulas semanais. Desde a implementação da Lei 9.394/96 (BRASIL, 1996), arte visual, dança, música e teatro, são linguagens artísticas que devem ser trabalhadas no componente curricular Arte. Considerando os dados obtidos por meio dos questionários aplicados com os diretores de ensino dos campi, assunto já analisado no capítulo introdutório (vide Figura 2), a escolha da linguagem artística trabalhada no componente curricular Arte no IFBA, ocorreu por diversos razões, tais como (a) decisão da comissão que elaborou os projetos dos cursos, 6,25%; (b) professores transferidos de outras instituições, 6,25; (c) formação dos professores aprovados nos concursos, 12,5%; ou (d) determinação da Reitoria, 37,5%, que se materializou na organização dos editais dos concursos. O mesmo percentual foi registrado para aqueles Diretores que não souberam responder.

À exceção do campus Simões Filho, onde relatou-se que um único professor trabalhava com artes visuais e teatro, todos os demais campi localizados no interior do Estado ministravam somente uma linguagem artística, e o ensino de música estava presente em apenas três deles. Somente no campus Salvador, capital do estado, registrou-se a presença de professores para as quatro linguagens artísticas; consequentemente, os estudantes daquele campus tiveram contato com as quatro linguagens, cada uma durante uma unidade escolar. O ensino de música em Salvador, portanto, era ministrado em aproximadamente dois meses, variando entre oito e doze encontros.

Como esse sistema de rodízio das quatro linguagens artísticas que ocorria em Salvador, é um projeto pedagógico ímpar no âmbito do IFBA, averiguamos a opinião dos professores de música daquele campus e concluímos que o trabalho desenvolvido em apenas uma unidade acadêmica tem como objetivo apresentar os elementos da disciplina e motivar os estudantes para que se envolvam em um dos projetos musicais disponíveis no campus.

Um dos docentes alerta que o fazer musical desenvolvido em apenas uma unidade acadêmica, dois meses aproximadamente, pode não despertar no estudante suas potencialidades, sobretudo se o estudante não se interessar por continuar estudando música em um dos projetos de extensão oferecidos:

Seria necessário fazermos experiências diferentes, para termos outros resultados. Por exemplo, há estudantes que já chegam gostando de música, então para estes estudantes, os dois meses serão suficientes e eles irão se engajar em algum projeto que lhe permita aprofundar os conhecimentos em música. Mas, para os estudantes que não tem muito contato, que apenas ouvem música, não tendo uma experiência maior, provavelmente dois meses não serão suficientes para que eles gostem tanto ou percebam que é possível que eles aprendam a tocar ou a cantar melhor, ou fazer música (APÊNDICE A - Questão 3.5. Docente 1).

O outro docente de música do mesmo campus faz uma defesa do projeto pedagógico adotado e é mais enfático em relação aos objetivos, tanto para o sistema de rodízio, quanto para o ensino de música no campus:

Quando o aluno começa a compreender um pouco ele já passa para outra linguagem. Porque nossa intenção não é torná-los musicistas, é o despertar. Criou-se o modelo das quatro linguagens como produtos para fortalecimento cultural das suas atividades e isto tem trazido um benefício muito grande para todos os alunos, que usam de todas essas linguagens e creditam a eles possibilidades de fortalecimento cultural, fazerem banda, etc. (APÊNDICE A - Questão 3.4. Docente 2).

Contraditoriamente, ao responder a questão seguinte, que averiguava se a organização didática atendia ou não as necessidades pedagógicas da disciplina, o mesmo docente emite uma opinião diferente. Sua resposta sugere que em apenas uma unidade acadêmica não se poderia desenvolver uma proposta de educação musical e devolve ao Instituto a responsabilidade da questão:

Especificamente falando sobre a proposta pedagógica das 4 linguagens, não estou satisfeito, principalmente voltando para a educação musical. Eu acredito que a escola tem uma responsabilidade muito grande para potencializar este nível de entendimento para que o professor possa ser um educador musical (APÊNDICE A - Questão 3.5. Docente 2).

Dada a diversidade de opiniões do depoente, julgamos pertinente averiguar quando se iniciou o sistema de rodízio no campus Salvador. A seguir descreve-se parte do diálogo do pesquisador com o docente 2:

Lá em 1987, o ensino de música acontecia em projetos de oficinas, como se fossem mestres de ofício. Mas, a música ensinada mesmo, tal como teoria, harmonia, como todo processo de música, não havia. [...]

Pesquisador: Hoje, em seu campus os estudantes passam pelas quatro linguagens. Em que época isto começou?

Entrevistado: Começou com os fundamentos da Leis de Diretrizes e Bases da Educação, que previa em seus artigos que deveria se ensinar música e dava mecanismos de como se ensinar música. [...] Pesquisador: Você deve estar se reportando a LDB 9.394 de 1996. Mas, sabe em que época o ensino de música passou para sala de aula aqui no IFBA, como existe hoje?

Aí começamos a ensinar música, precisamente, pra você que quer ser mais específico, a partir de 2009, 2010, por aí.

Pesquisador: 2009? Então a música na sala de aula só começou a partir de 2009?

Entrevistado: a música com esse mecanismo de interação, de conteúdos programáticos.

Pesquisador: Como funciona hoje? O aluno passa por quatro linguagens durante o ano, não é isto? Então ele tem uma unidade de música, uma unidade de artes visuais, outra de dança e outra de teatro. Este modelo que a gente está falando, que existe hoje, você lembra quando ele foi implantado?

Entrevistado: Desde 1987. Desde que entrei. Sempre assim. Agora, veja bem, a sua pergunta me remete a um questionamento muito maior: ensina-se música? Ou ensina-se a cantar?

Pesquisador: Isto é um outro aspecto. Eu estou falando de modelo educacional. O modelo que existe hoje, do aluno passar pelas quatro linguagens, como acontece em seu campus... Entrevistado: Desde 1987. Se ensina educação musical. (Questão 3.4; Docente 2).

Longe de esclarecer efetivamente sobre a época que o componente curricular Arte passou a trabalhar com o ensino das quatro linguagens, o diálogo aponta uma outra questão, a respeito do conceito de educação musical. Sugere uma comparação das práticas atuais com aquelas desenvolvidas há quase vinte anos e faz juízo de valores privilegiando o ensino de música do passado, o qual era especificamente voltado para o canto coral. Tal posicionamento confirma-se na narrativa a seguir: “Naquela época, com adolescentes cantando Lua, lua, lua (de pés no chão), fazendo um trabalho muito bonito. E nesta época eu era muito feliz. Porque eu via o ensino da

educação musical fortalecido por um resultado satisfatório. E hoje eu não vejo” (APÊNDICE A - Questão 3.4. Docente 2).

Mesmo docentes que trabalham exclusivamente com a linguagem musical durante todo o ano letivo, consideram que a carga horária ainda não seria o ideal. Um dos docentes nos fornece informações sobre a dinâmica adotada e apresenta algumas justificativas:

Eu sempre faço muitas alterações nos programas de um ano para outro. Porque eu acho a carga horária baixa. 60 horas por ano, com turmas com até 40 alunos, não dá para fazer um atendimento que eu acho mais profundo. [...] Bem, eu acabo variando algumas atividades de um ano para outro, até porque a gente pega turmas muito diversas. Há turmas que tem alunos que já tocam, que tem algum conhecimento musical, e que tem demandas por um tipo de conhecimento. Mas, já tive alunos que não conheciam nem os nomes das notas - falando de um ponto de vista de um conhecimento mais cognitivo, das habilidades musicais específicas, da questão subjetiva da música, da audição, etc. (APÊNDICE A - Questão 3.5. Docente 3).

No campus Seabra trabalhou-se com artes visuais até 2013, e o ensino de música iniciou-se em 2014, permanecendo até o término da pesquisa. Diferentemente, desde que o campus Santo Amaro foi criado, em 2007, e até o término da pesquisa, em maio de 2016, somente a linguagem musical foi trabalhada naquele campus. No campus Vitória da Conquista, criado em 1994, o ensino de artes visuais teve início em 1996, sendo esta linguagem trabalhada até 2004. O ensino de música começou em 2005 e esteve presente ininterruptamente até 2014. Com o afastamento do professor efetivo de música em 2013 e também com a saída do professor substituto no fim do ano letivo de 2014, assumiu as turmas em 2015 um professor de artes visuais e este quadro permaneceu até o fim da pesquisa.

Além do Ensino Integrado, alguns campi do IFBA oferecem o Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (Proeja), destinado a maiores de 18 anos de idade, oferecido no turno noturno. Somente o campus Seabra não oferecia cursos noturnos, justificando-se a dificuldade de acesso ao campus. Durante a pesquisa o Proeja deixou de ser oferecido no campus Vitória da Conquista. O Quadro 6 mostra a presença/ausência do Proeja nos quatro campi onde há ensino de música.

Quadro 6 – Presença do Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a

Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (Proeja) nos campi do

IFBA selecionados para pesquisa de campo em 2016

Sim Não

Campus Salvador X

Campos Santo Amaro X

Campos Seabra X

Campus Vitória da Conquista X

Fonte: Dados coletados pelo pesquisador

Não é raro encontrar no Proeja estudantes que têm como objetivo o prosseguimento dos estudos em nível superior. Entretanto, considerando tratar-se de uma formação destinada a maiores de dezoito anos de idade, muitos deles já se encontram inseridos no mercado de trabalho e são raros os que têm disponibilidade de tempo para frequentar as atividades musicais oferecidas nos campi. Por outro lado, a carga horária destinada à Arte, nos cursos do Proeja, é menor do que a oferecida no Ensino Integrado. Por estas razões, e também pelo baixo percentual de oferta de cursos associados ao Proeja, nos quatro campi pesquisados, optou-se por excluir este grupo de estudantes do campo empírico.