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O Ensino Superior no Brasil: Acordo MEC/USAID e Reforma Universitária

No documento partícipes do processo de “formação de (páginas 170-175)

3 A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE GEOGRAFIA E HISTÓRIA NA FEFCL DE

4.2 A FORMAÇÃO DE PROFESSORES NO BRASIL NA DÉCADA DE 1960

4.2.3 O Ensino Superior no Brasil: Acordo MEC/USAID e Reforma Universitária

No período pós 2a Guerra, ocorre a ascensão dos Estados Unidos, quando esse país passou a investir no estreitamento de suas relações com os países

latino-americanos, estendendo sobre esses sua influência cultural e poder político-econômico.

Na década de 1960, segundo Figueiredo e Cowen,

[...] O Departamento de Estado Americano, através da Agência Americana de Desenvolvimento Internacional (USAID), reformulou sua política para a América Latina, particularmente em educação. Vários acordos foram assinados e a assistência técnica norte-americana aumentou. [...] As políticas e as estratégias governamentais eram fortemente baseadas no planejamento, notadamente do ensino superior, para o mercado de trabalho [...]. (In: BROCK; SCHWARTZMAN, 2005, p. 182).

Os vários acordos a que se referem os autores faziam parte do Convênio MEC/USAID134 (1965) para uma cooperação técnica e financeira da Agência Norte-Americana, para investimentos no ensino superior brasileiro, em fase de reorganização, com a implantação da primeira LDBEN/1961, já defasada devido ao longo período de tramitação no Congresso Nacional e aprovação da mesma.

Considera-se também o contexto político-econômico, marcado por uma instabilidade política do governo populista em decadência, e às vésperas do golpe militar que viria submeter o Brasil ao regime autoritário, da Ditadura Militar.

Em nível econômico, houve o desenvolvimento marcado pela urbanização e industrialização e a carência de mão de obra qualificada para assumir os novos empregos gerados. Essa situação de vulnerabilidade tornou o país um terreno fértil para os investimentos norte-americanos, em especial no ensino superior, visando ao direcionamento dos cursos para o mercado de trabalho.

Nesse sentido, foi aprovado o Convênio entre o MEC e a USAID para o planejamento do ensino superior, aprovado em 15/6/1965 pelo Parecer no 604/65 da Câmara de Planejamento do CFE, com os objetivos de promover:

[...]

a) o levantamento da situação em que se encontra o ensino superior no Brasil;

b) a apresentação de plano e projetos para a sua reestruturação;

c) o treinamento de técnicos brasileiros que virão a constituir uma equipe especializada em levantamentos e planos. [...] (CONSELHO Federal de Educação. Documenta 38, 1965, p. 56).

Os objetivos do Convênio estabelecido por cinco anos visava a formar uma equipe técnica especializada, a qual daria continuidade às ideias disseminadas no ensino superior, estendendo-se a todo o sistema educacional brasileiro, segundo as

134 Ministério de Educação e Cultura/United States Agency for Internacional Development.

quais “[...] a educação era conceituada como um instrumento para o desenvolvimento, e as escolas deveriam treinar a força de trabalho [...]”

(FIGUEIREDO; COWEN, in: BROCK;SCHWARTZMAN, 2005, p. 183). Por isso, uma educação baseada na técnica e nas novas tecnologias de ensino, difundindo-se uma concepção de educação tecnicista, presente na legislação educacional brasileira no final da década de 1960, na Lei 5.540/68 da Reforma Universitária, e na Lei 5.692/71 da Reforma do Ensino primário e Secundário.

Embora se tenha percebido que nas memórias docentes não há lembranças precisas sobre a legislação educacional, constatou-se que as lembranças sobre as mudanças ocorridas na FEFCL-PG e, especificamente, no curso de formação de professores de História, na década de 1960, referem-se às prescrições legais expressas nas duas leis que se confundem nas memórias docentes, quando comentam sobre a reforma. Sabe-se que a Reforma Universitária teve início com a implantação da LDBEN/61, a qual foi detalhada na Lei 5.540, de 28 de novembro de 1968, que “[...]. Fixa normas de organização e funcionamento do ensino superior e sua articulação com a escola média, e dá outras providências” (BRASIL, 1968).

Confere no Capítulo I dessa lei os objetivos do ensino superior, nos artigos:

[...]

Art. 1º O ensino superior tem por objetivo a pesquisa, o desenvolvimento das ciências, lêtras e artes e a formação de profissionais de nível universitário.

Art. 2º O ensino superior, indissociável da pesquisa, será ministrado em universidades e, excepcionalmente, em estabelecimentos isolados, organizados como instituições de direito público ou privado.[...] (BRASIL, 1968).

Estabelecendo-se uma comparação entre os artigos 66º da LDBEN/61 e o Art. 1º da lei aqui apresentada, há corroboração do objetivo do ensino superior, no Brasil. Quanto ao artigo seguinte, percebe-se que o Art. 67o da LDBEN/61 deixava margem de interpretação em relação ao desenvolvimento distinto das atividades de ensino, de pesquisa e de treinamento profissional, ao passo que o Art. 2º da Lei 5540/68 pretende clarificar que, nos cursos superiores, ensino e pesquisa são atividades indissociáveis.

Reconhece-se que tal proposta significou um salto qualitativo para o ensino superior, o qual preferencialmente deveria ser ministrado em universidades. O que consta no texto da mesma lei, no “[...] Art. 7º As universidades organizar-se-ão diretamente ou mediante a reunião de estabelecimentos já reconhecidos, sendo, no

primeiro caso, sujeitas à autorização e reconhecimento e, no segundo, apenas a reconhecimento. [...]” (BRASIL, 1968). Esse aspecto foi contemplado na proposta da LDBEN/61, segundo a qual a formação de uma universidade se daria pela reunião de faculdades, e entre essas deveria estar a Faculdade de Filosofia com, no mínimo, quatro cursos.

Nas memórias docentes permanecem vivas as lembranças quanto às mudanças, mesmo sem a clareza sobre a legislação ou a ordem cronológica dos acontecimentos. Dessa forma, as recordações constituem o “caráter factual da memória”, o qual, segundo Alberti, coloca em jogo “[...] as possibilidades oferecidas pela história oral no sentido de se investigar a memória lá onde ela não é apenas significado, mas também acontecimento, ação [...]. (2004. p. 37). O que se corrobora, ao analisar as lembranças do professor Aguiar, em cuja memória, são claros os acontecimentos, independente da legislação, pois quando questionado sobre a Reforma Universitária, não faz referência à legislação norteadora, mas enfatiza a ação docente, ao comentar:

[...] eu também fiz parte do Grupo que estudou e promoveu a adequação da Faculdade, a transformação em Universidade em 1973, então, “o que tem de bom e de ruim na UEPG” é do trabalho desse grupo [...], hoje só dois estão vivos – eu e o professor Wolfgang. Corajosos, né! [risos]. Eu defendia que o Reitor tinha que ser da cidade. [...] os que vinham de fora eram apenas ganhadores de dinheiro e se fosse daqui, ele já conhecia a comunidade e ia atendê-la. [...].[Profº Aguiar, entrevista em 07/08/2008].

Assim, percebe-se nesse depoimento, que mesmo trazendo elementos da memória oficial, o professor mantém a sua ótica sobre os fatos sociais, ratificando-se a memória individual como acontecimento. O docente lembra sobre sua participação na Comissão formada para os estudos sobre a Reforma Universitária, mas sem referência à lei e, também, não faz referência à sua posição como coordenador da

“Comissão de implantação da Lei 5.540/68 e criação da Universidade Estadual de Ponta Grossa” (PRÓ REITORIA de Recursos Humanos, in: UEPG, 2009-a), mas expressa, com orgulho, a coragem dos professores que assumiram essa Comissão, como fato marcante em sua memória.

A compreensão da memória como acontecimento exige o seu enquadramento, que consiste em privilegiar acontecimentos, datas, personagens, dentro de uma determinada perspectiva histórica, dada ao objeto em questão, segundo os parâmetros estabelecidos pelo pesquisador. Esses fatores não exercem

influência sobre as memórias individuais, cabendo então ao pesquisador ajustar o foco sobre o que a fonte oral documenta, ou seja, “[...] ir além da simples história do acontecimento, interessando-se também pela história da memória desse acontecimento [...] [o que] [...] reforça a idéia de que a memória é também fato, passível de ser objetivamente estudado [...].” (ALBERTI, 2004, p. 40).

Quanto às mudanças ocorridas, como a transformação da Faculdade em Universidade, verifica-se que a criação da UEPG deu-se como em cumprimento a Lei 5.540/68, em seu

[...] Art. 7º As universidades organizar-se-ão diretamente ou mediante a reunião de estabelecimentos já reconhecidos, sendo, no primeiro caso, sujeitas à autorização e reconhecimento e, no segundo, apenas a reconhecimento [...] (BRASIL, 1968).

A fundação da UEPG enquadrou-se no segundo caso, bastando apenas o reconhecimento da Instituição, com a reunião das faculdades existentes. Assim, segundo a Ata no 106 da Reunião da Congregação da FEFCL-PG, apresentou-se a [...] Lei no 6034, de 06/11/1969, que cria a Universidade Estadual de Ponta Grossa [...]. (FACULDADE de Filosofia, Ciências e Letras, in: UEPG, 1970) a qual passou pelo processo de instalação até o ano de 1972, e em 1973 entra em funcionamento a UEPG, como afirma o professor Aguiar, em seu depoimento.

Situando-se a criação da UEPG e as mudanças a que se referiu o depoente, projeta-se a história da formação de professores na história da educação brasileira, no contexto da década de 1960, quando se inicia o processo de modernização da educação com a LDBEN 4024/61, e com a Lei 5.540/68 se consolidam as mudanças no ensino superior, na década de 1970. Por isso , retoma-se as prescrições curriculares do Curso de Licenciatura em História para que se possa verificar como se deu a configuração curricular do curso, nas representações de seus sujeitos, os professores formadores.

4.3 PRESCRIÇÕES CURRICULARES DO CURSO DE LICENCIATURA EM

No documento partícipes do processo de “formação de (páginas 170-175)