2.2 ENSINO SUPERIOR: SEUS OBJETIVOS E SUA RELAÇÃO COM AS POSSIBILIDADES DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL
Por que cursar o Ensino Superior? Por que investir tempo, dinheiro e esforços na formação de nível superior? As pessoas que escolhem cursar o Ensino Superior podem o fazer por diversos motivos: exercer atividades profissionais8, aumentar as chances de inserção no mercado de trabalho, obter status social em função do diploma, adquirir conhecimentos específicos de uma área, desenvolver a carreira de pesquisador, entre outros. Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) (BRASIL, 1996), normativa que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, a função do Ensino Superior não é, apenas, proporcionar formação profissional a seus alunos, pois tem por finalidade:
I - estimular a criação cultural e o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo;
II - formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua;
III - incentivar o trabalho de pesquisa e investigação científica, visando o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e da criação e difusão da cultura, e, desse modo, desenvolver o entendimento do homem e do meio em que vive;
IV - promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicações ou de outras formas de comunicação;
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Isso porque existem profissões que são regulamentadas por leis e decretos, definindo assim, algumas atividades como privativas (ex. desenvolvimento e aplicação de testes psicológicos por psicólogos; extração de dentes por dentistas, entre outras). Dessa forma, para que um profissional realize determinadas atividades, é necessário que detenha formação específica de nível superior e diploma de graduação que tenha validade em todo território nacional. No Brasil, segundo dados da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) (BRASIL, 2002), existem, atualmente, 68 profissões regulamentadas.
V - suscitar o desejo permanente de aperfeiçoamento cultural e profissional e possibilitar a correspondente concretização, integrando os conhecimentos que vão sendo adquiridos numa estrutura intelectual sistematizadora do conhecimento de cada geração;
VI - estimular o conhecimento dos problemas do mundo presente, em particular os nacionais e regionais, prestar serviços especializados à comunidade e estabelecer com esta uma relação de reciprocidade;
VII - promover a extensão, aberta à participação da população, visando à difusão das conquistas e benefícios resultantes da criação cultural e da pesquisa científica e tecnológica geradas na instituição.
Em síntese, é possível observar que o estudante concluinte do Ensino Superior deve estar apto a produzir, aperfeiçoar e divulgar conhecimento científico, técnico e cultural, além de inserir-se em áreas profissionais para exercer atividades circunscritas a uma profissão específica. Apesar disso, boa parte das pessoas que pretendem ingressar no Ensino Superior o fazem com objetivo de exercer uma profissão regulamentada de nível superior. Segundo dados divulgados pela Comissão Permanente do Vestibular da Universidade Federal de Santa Catarina (COPERVE/UFSC, 2011) coletados por meio do questionário socioeconômico- cultural com candidatos ao Vestibular 2012, 68,16% dos candidatos indicaram que a expectativa principal em relação à graduação era ter uma formação profissional voltada para um futuro emprego. Levando isso em consideração, pode-se perguntar: por qual motivo a educação superior é buscada com o papel de formação profissional? Não seria isso um reducionismo do papel da formação de nível superior?
Teóricos da área de Educação indicam que o desenvolvimento da sociedade "tecnizada", marcada pela substituição da produção realizada por máquinas (modo de produção taylorista-fordista) para produção baseada em aparelhagem eletrônica (modo de produção toyotista), as exigências passam a ser de um trabalhador com posse de maior escolaridade, acompanhada de diversas habilidades (MACHADO, 1992; SANCHIS, 1997), processo denominado de “intelectualização da mão de obra”. Esse processo ocorre porque, segundo Bourdieu (1998a), atingimos um estado em que é grande o capital cultural objetivado nos recursos elétricos, eletrônicos e mecânicos (conhecimentos científicos e tecnológicos incorporados para a operação das máquinas) e, em decorrência disso, exige-se maior capital cultural dos trabalhadores que fazem funcionar as máquinas e o sistema produtivo. Dessa forma, os trabalhadores precisam ter maior grau de conhecimento e habilidades de ordem técnica, cognitiva e comportamental, que são
requeridas no mercado de trabalho (GONDIM, 2002; ECHEVESTE et al.,1999). Dessa forma, criam-se condições para que o trabalhador, para ser competitivo no mercado de trabalho, necessite acompanhar constantemente as inovações técnicas e tecnológicas, qualificando-se9 constantemente.
Além do investimento contínuo na qualificação do trabalhador ser decorrência das constantes inovações realizadas na produção de bens e serviços, há que se considerar também, a redução dos empregos e contratos formais de trabalho. Segundo dados divulgados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT, 2007), o crescimento econômico na última década foi puxado por um aumento de produtividade, não de postos de trabalho. Nessa lógica, o profissional nunca está “pronto”, pois sempre necessita fazer algo diferente, adaptar-se às mudanças e atualizar-se continuamente. Segundo Bock (2009), é preciso que o trabalhador esteja preparado para o desempenho de várias atividades, tenha predisposição atitudinal para o enfrentamento dos problemas que a nova forma de produzir coloca e tenha a capacidade de aprender a todo o momento os conteúdos relativos às atividades que deve exercer.
Nesse contexto, o sistema de ensino formal torna-se a instância dominante de "produção" de trabalhadores, pois as instituições de ensino do nível básico, técnico e superior conferem um diploma ao concluinte. O diploma, tem o sentido de uma
certidão de competência cultural que confere ao seu portador um valor convencional, constante e juridicamente garantido no que diz respeito à cultura, a alquimia social produz uma forma de capital cultural que tem uma autonomia relativa em relação ao seu portador e, até mesmo em relação ao capital cultural que ele possui, efetivamente, em um dado momento histórico (BOURDIEU, 1998a, p.78)
Isso quer dizer que uma instituição de ensino atesta, por meio do diploma, que a pessoa formada possui determinados conhecimentos, determinadas habilidades, ou seja, determinado capital cultural. Nesse sentido, o diploma confere capital cultural de forma institucionalizada aos indivíduos, que institui diferenças de competências entre os que têm e os que não têm diploma, mas não entre as performances das pessoas para as quais concede o documento. Então, um diploma passa a ser um
9 Machado (1992, p.9), explicita que “o conceito de qualificação é tomado enquanto um conjunto de condições físicas e mentais que compõe a capacidade de trabalho ou a força de trabalho despendida em atividades voltadas para a produção de valores de uso em geral".
documento que permite aos trabalhadores a possibilidade de exercer determinadas atividades específicas e concorrer a cargos de determinado estrato profissional. Segundo Sanchis (1997), a ideia é que os empregadores precisam tomar decisões sobre o pessoal a ser contratado e, por isso, recorrem a uma série de indicadores da produtividade potencial dos candidatos, entre eles, o nível educacional. Nessas condições, percebe-se a relação entre o capital cultural do trabalhador e o capital econômico. Bourdieu (1998a) indica que é possível estabelecer taxas de convertibilidade entre o capital cultural e o capital econômico garantindo o valor em dinheiro de determinado capital cultural, assim, o diploma pode ser “trocado” nas relações formais de trabalho. Quão maior o grau de qualificação (de capital cultural agregado) do trabalhador, maiores as possibilidades de obter retorno financeiro.
Apesar dessa relação de correspondência entre formação e atuação profissional, o sistema de ensino e o sistema econômico obedecem a lógicas distintas. Segundo Bourdieu (1998a), há uma defasagem temporal entre a evolução do sistema de ensino e a evolução do aparelho econômico: o sistema de ensino é um aparelho jurídico que garante o capital cultural institucionalizado, que nem sempre está de acordo com as exigências de competências para o exercício profissional em determinadas áreas. Em confluência a essa afirmação, há pesquisas científicas indicando que parte dos alunos concluintes dos cursos de nível superior, não se sentem preparados para lidar com as exigências do mercado de trabalho. De acordo com Melo e Borges (2007), quase metade dos vinte concluintes e recém formados dos cursos de Arquitetura, Ciências da Computação, Fisioterapia, Medicina, Direito e Psicologia entrevistados avaliam sua formação inadequada do ponto de vista da preparação para o mercado de trabalho e deficitária do ponto de vista de integração entre a teoria e a prática e de preparo para a rotina de trabalho. Teixeira e Gomes (2004) indicam que as principais dificuldades percebidas pelos entrevistados para o ingresso no mercado de trabalho, além da escassez de oportunidades, incluíram a falta de habilidades básicas para a própria tarefa de transição (tais como, saber elaborar um currículo e buscar emprego) e para o trabalho autônomo (como, saber cobrar pelo trabalho).
Então, seria papel da formação em nível superior corresponder às demandas do mercado de trabalho? De acordo com Rebelatto e Botomé (1999), o mercado de trabalho diz respeito ao número de vagas disponíveis em áreas de trabalho já estabelecidas na sociedade, que se configura apenas como uma parte do
universo de possibilidades de atuação, pois também existem os campos de atuação, que dizem respeito aos espaços de exercício profissional possíveis e que ainda não foram explorados. Isto é, podem existir possibilidades de atuação (chamados na linguagem comercial de “nichos de mercado”), que ainda não se configuram como vagas de emprego formais, mas que possibilitam a realização de atividades profissionais socialmente relevantes e passíveis de retorno financeiro. Assim, o profissional formado precisa, além de considerar as oportunidades existentes no mercado de trabalho, levar em consideração as possibilidades dos campos de atuação profissional.
Na concepção de Soares e Dias (2009, p. 105) “parece que o Ensino Superior tornou-se instrumento imprescindível dos sujeitos para disputar a inserção no mercado de trabalho, embora a graduação não seja mais ‘garantia’ dessa inserção”. Isso porque, apesar de seu caráter universalizante, o diploma tem um valor simbólico variável que depende da sua raridade, ou seja, ele é mais “precioso” quanto menos pessoas o detiverem. Então, constata-se que a relação entre formação e exercício profissional segue a lógica de mercado10, ao passo em que está pautada na lei da oferta e da procura11. Por isso, existem áreas com carência de profissionais formados (há mais possibilidades de trabalho do que pessoas com formação), nas quais os diplomados são muito valorizados e recebem salários acima da média de mercado. Em contrapartida, há áreas que estão saturadas (existem mais profissionais formados do que oportunidades formais de trabalho), nas quais há um processo de desvalorização dos diplomados, aumentando a probabilidade de que estes consigam empregos abaixo de sua titulação, como descreve Prandi, em seu livro intitulado “Os favoritos degradados”: “já são figuras correntes do anedotário estudantil o taxista-historiador, a telefonista-psicóloga, o garçom-arquiteto, o vendedor-economista, o barman-médico etc.” (PRANDI, 1982, p.15).
Além do impacto social e econômico, deve-se considerar também, o impacto psicológico da obtenção de um diploma de nível superior. De acordo com Teixeira e Gomes (2004), o momento de conclusão do Ensino Superior, envolve
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Segundo o Dicionário Aurélio, mercado é o “conjunto de atividades de compra e venda de determinado bem ou serviço, em certa região; comércio” (FERREIRA, 1999).
11 A “lei da oferta e da procura” descreve a relação entre a demanda de um produto ou serviço (isto é,
o quanto ele é procurado no mercado) e a quantidade em que esse produto ou serviço é oferecido (ou seja, qual é o tamanho da oferta no mercado). Nos períodos em que a oferta é maior que a procura, os preços dos produtos e serviços tendem a cair. Nos períodos em que a demanda excede a oferta, a tendência é que os custos dos produtos e serviços aumentem.
possibilidades de independência do meio familiar; estabelecimento na vida adulta; reavaliação das escolhas realizadas e das experiências vividas e antecipação do que é necessário para a inserção no mercado de trabalho. Além disso, esse processo de transição do Ensino Superior para o exercício profissional implica a perda da condição de aluno, do apoio dos professores, de mediações significativas de colegas (MELO; BORGES, 2007), a necessidade de assunção de responsabilidades profissionais e a atualização da crise vocacional (BOHOSLAVSKY, 1998). Levando em conta que uma profissão congrega diversas