Até pouco tempo atrás, o Supremo Tribunal Federal adotava o entendimento de que era constitucional a vedação à progressão de regimes da execução da pena de acordo com o que prescreve a Lei 8.072/90 em seu artigo 2º.
A seguir decisões que comprovam as afirmações acima expostas:
O Supremo Tribunal Federal continua entendendo pela constitucionalidade
do cumprimento integral da pena em regime fechado, no caso dos crimes hediondos” (STF, HC 77.023/5-SP, 2ª T., rel. Min. Maurício Corrêa, j. 12-5- 1998, m.v., DJU, 14 ago. 1998, p. 6). No mesmo sentido: STF, HC 69.657- SP, rel. Min. F. Rezek, RTJ 147/598; HC 69.603-SP, rel. Min. P. Brossard, RTJ 146/611; STF, HC 69.377-MG, rel. Min. C. Velloso, DJ, 16 abr. 1993; HC 75.634/4-SP, 2ª T., j. 4-11-1997, rel. Min. Carlos Velloso; STF, HC 77.562-3-MS, 2ª T., rel., Min. Maurício Corrêa, j. 9-2-1999, DJU, 9-4-1999, RT 766/535.
Entretanto, na atualidade não é mais essa posição que se apresenta, pois devido o julgamento do habeas corpus de nº 82.959 – 7/SP em 23 de fevereiro de 2006, cujo relator é o Ministro Marco Aurélio, referida matéria está sendo objeto de discussão no Pleno do Supremo Tribunal Federal.
O plenário do Supremo Tribunal Federal, no julgamento do HC 82.959, em 23-02-2006, por 6 votos à 5, reconheceu a inconstitucionalidade do paragrafo 1º do artigo 2ºda Lei 8.072/90 sob o argumento de que a proibição da progressão de regime afronta o princípio da individualização da pena, previsto no artigo 5º, XLVI, da CF/88. (BECHARA,2006,p,10).
De acordo com esta decisão o preso pode postular judicialmente a progressão de regime desde que preenchidos alguns requisitos que são o cumprimento de um sexto da pena e boa conduta carcerária.
Para Luis Flávio Gomes, mesmo que a decisão seja para um caso individualmente, como houve um debate sobre a lei em tese, a decisão acaba por produzir efeito em relação a todos e com efeito vinculante:
Observe-se que o Supremo Tribunal Federal não concedeu a pretendida progressão de regime no caso concreto. Apenas removeu o obstáculo legal
que impedia a análise da progressão em crimes hediondos. Ou seja, dentro de um Habeas Corpus, proferiu-se o julgamento da lei em tese, proclamando sua inconstitucionalidade urbi et orbis. Sim, o tema foi debatido e discutido olhando-se para a lei em tese (não se voltou unicamente para o caso concreto). Ademais, houve a preocupação de se definir a extensão dos efeitos da decisão, para disciplinar relações jurídicas pertinentes a todos ( não exclusivamente ao caso concreto). (GOMES, 2006,p.25).
No mais, existe entendimento contrário ao acima apresentado:
No sistema jurídico brasileiro, a declaração incidental de inconstitucionalidade da lei dos crimes hediondos, por exemplo, não extirpa a norma viciada, ela continua em vigor e a produzir efeitos em relação a outras situações concretas, ou seja, seu efeito não é erga omnes.(SILVA,2007,p.180).
Portanto, o que ocorreu na realidade foi a declaração da inconstitucionalidade do artigo 2º, parágrafo 1º da lei dos crimes hediondos, tendo em vista que foi uma lei elaborada as pressas e com imprecisões, acabando por confrontar os princípios constitucionais.
3 Lei nº 11.464/2007
Referida lei não se limitou apenas a tratar dos crimes hediondos definidos na lei 8.072/90, pois ela determina que o artigo 2º da lei dos crimes hediondos disporá da seguinte forma: “Os crimes hediondos, a prática de tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins e o terrorismo são insuscetíveis de:...”
Assim, a lei 11.464/2007 também se refere a prática de tortura, disciplinada pela lei 9.455/97, ao terrorismo que ainda não é conceituado pela legislação e ao tráfico ilícito de entorpecentes previsto na lei 11.343/2006.
A impossibilidade de substituição de penas fixadas por penas restritivas de direitos é reforçada pela nova lei.
A lei 11.464/2007 pode ser encarada como um ponto marcante na legislação no que concerne a alteração da lei dos crimes hediondos (lei 8.072/90).
Um outro ponto inovador da lei 11.464/2007 é a supressão da proibição de concessão de liberdade provisória para crimes hediondos previstos na lei 8.072/90.
De acordo com a redação antiga, era vedada a concessão de fiança e de liberdade provisória, a redação atual determina que se proíba apenas a fiança.
A interpretação dessa nova redação será feita no sentido de que o magistrado poderá conceder liberdade provisória ao condenado que foi preso em flagrante delito pela prática de um crime hediondo, desde que entenda que estão presente os pressupostos legais.
A lei nº 44.464/2007 foi sancionada no dia 29 de março de 2007 e trouxe modificações que já eram aguardadas pela grande parte dos doutrinadores de direito, pois trata sobre o modo da execução de pena nos crimes hediondos e determina que o condenado por crime hediondo, pela prática de tortura, pelo tráfico de entorpecentes e pelo terrorismo, deverá somente iniciar o cumprimento de sua pena em regime fechado não mais ficando integralmente em referido regime conforme pregava a redação original do artigo 2º, parágrafo 1º da Lei 8.072/90.
Assim, referido parágrafo acima mencionado, determinava que a pena seria cumprida integralmente em regime fechado.
A nova lei determina que a pena será executada inicialmente no regime fechado, permitindo assim que ocorra a progressão de regimes em crimes hediondos e seus equiparados.
A nova lei determina que a progressão de regime no caso de crimes hediondos somente será permitida para os condenados que forem primários depois do cumprimento de 2/5 (dois quintos) de sua pena, isto é, 40% (quarenta por cento) de sua pena.
No caso de condenado reincidente, a progressão somente poderá ocorrer após o cumprimento de 3/5 (três quintos) de sua pena, ou seja, no caso de condenação por delito anterior deverá cumprir 60% (sessenta por cento) de sua pena em regime fechado.
Para os demais crimes, continua sendo aplicada a regra prevista no artigo 112 da Lei de Execução Penal, isto é, 1/6 (um sexto) da pena.
Aliás, é dessa maneira que uma grande parcela da justiça brasileira (juízes constitucionalistas) já estava atuando, por força da declaração de inconstitucionalidade do antigo parágrafo 1º do artigo 2º da Lei 8.072/90, levada a cabo pelo pleno do STF, no HC 82.959. Na prática isso significava o seguinte: o parágrafo primeiro citado continuava vigente, mas já não era válido. Os juízes e tribunais constitucionalistas já admitiam a progressão de regime nos crimes hediondos, mesmo antes do advento da Lei nº11.464/2007.(GOMES, 2006,p.45).
No caso dos crimes praticados antes da entrada em vigor da lei nº 11.464/2007 se aplica o sistema anterior de um 1/6 (sexto da pena).
O novo sistema de progressão de regimes por ser mais severo, não retroage, produzindo seus efeitos apenas nos crimes ocorridos a partir de 29 de março de 2007. No mais, a parte benéfica da lei que se refere a progressão de regime retroage, portanto aqueles que praticaram crime antes da lei nº 11464/2007 poderão ser transferidos de regime, sempre devendo ser observada a regra geral de cumprimento de 1/6 (um sexto) da pena.
CONCLUSÃO
Podemos observar que após a pesquisa ser realizada notamos que leis elaboradas de forma inadequada e imprecisa somente dificultam e causam problemas para o sistema jurídico brasileiro.
Sendo assim, a escolha do tema em comento se deu pelo fato de se tentar expor um dispositivo de lei que era contrário a progressão de regimes em casos de crime hediondo.
Tal vedação acarretava a impossibilidade de se cumprir a finalidade da pena, ou seja, a ressocialização do preso, tendo por finalidade apenas o castigo.
A interpretação atual apresentada pelo Supremo Tribunal Federal que permite a progressão de regime no caso de cumprimento de pena proveniente de condenação em crime hediondo ou equiparado não deixa prevalecer na pena somente o caráter punitivo de retribuição, trazendo a tona a possibilidade de ressocialização do indivíduo como dito anteriormente.
Devemos ter em mente, que o entendimento adotado pelo Supremo Tribunal Federal não significa que as portas da cadeia foram abertas para que os criminosos façam o que bem queiram, pois a lei dos crimes hediondos ainda continua valendo e caberá ao magistrado decidir sobre a progressão de acordo com cada caso em concreto. É claro que para isso o juiz necessita de mecanismos que permitam que ele faça a justiça.
Apesar de a Lei 464 de 2007 ter demorado para ser elaborada, ela veio para tornar o sistema de progressão do regime prisional mais justo e adequado.
É claro que sem sombra de dúvidas os crimes hediondos devem ser punidos de maneira mais gravosa, mas não da forma que vinha sendo feito com base na Lei nº 8.072/90.
Quando a lei dos crimes hediondos reduzia a individualização da pena a fase legislativa, no que concerne ao regime prisional ela acabava por desfigurar todo o sistema, modificando-o de um sistema dinâmico para um totalmente padronizado e rígido.
Assim, tal padronização afronta o princípio constitucional da individualização da pena, que pressupõe uma determinada flexibilidade.
A determinação constitucional de que a lei ordinária regulará a individualização da pena não tem nada a ver com a aplicação de um regime integralmente fechado para os crimes hediondos.
Devemos ter em mente que a progressão do regime prisional deferida ao preso é um direito que apenas foi ratificado pela nova lei.
A progressão de regime é válida e eficaz e observa os princípios constitucionais da humanidade e também da individualização da pena a fim de que o sistema penitenciário possa se tornar mais racional.
Assim, a possibilidade de progressão no regime prisional para crimes hediondos e seus assemelhados é uma realidade nos dias atuais que deve ser aplicada na sociedade, uma vez que a pena deve ser aplicada de modo programado, a fim de que o afastamento do apenado vise estimulá-lo , pois um dia ele retornará ao convívio das pessoas e somente com oportunidades neste sentido é que se poderá reduzir os índices de criminalidade existentes no país.
O cumprimento da pena na prática é mais importante do que a sua prolação em sentença condenatória, pois é só por meio da execução que a pena se completa.
Nota-se então a importância da individualização da pena para cada condenado, pois ela permite a ampliação ou a diminuição do prazo de cumprimento da pena de acordo com as condições de cada preso e seguindo os princípios previstos na Constituição Federal de 1988.
A proibição da progressão de regime acarreta uma presunção legal de que o preso nunca se recuperará, causando uma sensação de desanimo quanto a uma futura liberdade.
A Constituição Federal de 1988 determina que o legislador ordinário regule a individualização da pena e não que a suprima, tato de forma expressão como através de uma mutilação da lei.
Portanto se a progressão de regime não pudesse ser aplicada, o preso se sentiria desmotivado e não retornaria a sociedade com nenhum resultado satisfatório e positivo.
Sendo assim, devemos reconhecer que o regime integralmente fechado é inconstitucional, devendo ser aplicado o novo regramento consubstanciado pela lei 11.464/2007
Diante do todo exposto, podemos concluir que a decisão proferida em sede de habeas corpus pelo Supremo Tribunal Federal foi a mais coerente, no que concerne a inconstitucionalidade do parágrafo 1º do artigo 2º da Lei 8.072/90 e que a nova Lei 464/2007 que modifica tal regra determinando um novo lapso temporal para obtenção do benefício da progressão também se mostrou extremamente eficaz para o ordenamento jurídico brasileiro.