3 A RESPONSABILIDADE PENAL DA PESSOA JURÍDICA NOS CRIMES
4.4 ENTENDIMENTO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA
O Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina também vem
reproduzindo o entendimento dos demais entes jurídicos supracitados, ou seja,
admitindo expressamente a possibilidade da responsabilização penal das pessoas
coletivas nos delitos ambientais.
Entretanto, tal entendimento não é unânime entre os desembargadores,
conforme se verifica no julgamento do recurso criminal nº 2004.037168-8, relatado
pelo desembargador Torres Marques
117.
O referido julgado trata da denúncia oferecida pelo Ministério Público
contra Luis Vanderlei de Castilhos, Castilhos Prestação de Serviços Ltda. e Ricardo
Garcia, sendo os dois primeiros incursos nos art. 54, §2º, V (lançamento de resíduos
sólidos, líquidos ou gasosos, ou detritos, óleos ou substâncias oleosas na flora) e 60
(construção de obras ou serviços potencialmente poluidores, sem licença), ambos da
Lei nº. 9.605/98 e o último como incurso também no art. 54, §2º, V da mesma lei.
Todavia, a denúncia foi recebida apenas com relação às pessoas físicas,
tendo a magistrada a quo afastado a pessoa jurídica por considerar sua
responsabilização penal inviável.
Diante do afastamento da responsabilidade penal da pessoa jurídica o
Ministério Público interpôs recurso em sentido estrito, alegando, em síntese, que a
responsabilidade penal da pessoa jurídica é permitida por força do art. 225, §3º da
Constituição Federal de 1988 e do art. 3º da Lei n.º 9.605/98.
Ao julgar o recurso do Ministério Público a Segunda Câmara Criminal, por
unanimidade de votos, negou provimento ao recurso, sob fundamento de que
117
SANTA CATARINA. Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Recurso em sentido estrito n. 2004.037168-8. Relator: Torres Marques. Disponível em: http://tjsc6.tj.sc.gov.br. Acesso em 27 out. 2009.
responsabilidade da pessoa jurídica depende da manifestação de vontade de seus
representantes e por este motivo, às pessoas físicas aplicam-se a norma penal, e às
pessoas jurídicas as sanções civis e administrativas
118:
Este dispositivo constitucional gerou grande polêmica tendo em vista o fato do Brasil ter adotado o princípio societas delinquere non potest.
O artigo 3º da Lei n. 9.605/98, ao declarar que as pessoas jurídicas respondem penalmente, objetiva dar aplicabilidade ao que dispõe o artigo 225, §3º, da Constituição da República. Resta saber se o constituinte, por meio do referido dispositivo, pretendia alcançar esta finalidade.
Não nos parece que a responsabilidade penal da pessoa jurídica tenha lugar no ordenamento jurídico pátrio. Neste sentido a doutrina de Luiz Regis Prado:
"[...] o legislador de 1998, de forma simplista, nada mais fez do que enunciar a responsabilidade penal da pessoa jurídica, cominando-lhe penas, sem lograr, contudo, instituí-la completamente. Isso significa não ser ela passível de aplicação concreta e imediata, pois faltam-lhe instrumentos hábeis e indispensáveis para a consecução de tal desiderato. Não há como, em termos lógico-jurídicos, romper princípio fundamental como o da irresponsabilidade criminal da pessoa jurídica, ancorado solidamente no sistema de responsabilidade de pessoa natural, sem fornecer, em contrapartida, elementos básicos e específicos conformadores de um subsistema ou microssistema de responsabilidade penal, restrito e especial, inclusive com regras processuais próprias" (Crimes contra o Ambiente. São Paulo: RT, 1998, p. 21-2).
É sabido que o meio ambiente necessita cada vez mais de proteção, exigindo normas eficazes. Mas para que se alcance a desejada eficácia será necessário que ocorra a responsabilização criminal da pessoa jurídica? E se assim for, qual seria a medida de sua culpabilidade?
Selma Pereira Santana, Promotora da Justiça Militar da Bahia, em matéria escrita para a revista Consulex sobre o tema elucida:
"[...] Quase a totalidade da doutrina nacional compreende, ainda, que somente o ser humano tem capacidade de realizar condutas. E, por força deste princípio fundamental, arrematam que os tipos penais não passam de meras descrições abstratas das mesmas, valoradas pelo legislador, concluindo-se ser inconciliável a existência de delito sem a conduta, sendo reclamada para esta, sempre, a voluntariedade [...]" (in Revista Consulex, de 30/04/98, ano II, n. 16, pp. 44/46).
[...]
Disto conclui-se que a responsabilidade da pessoa jurídica depende da manifestação de vontade de seus representantes (pessoas físicas). Portanto, a estes aplica-se a norma penal, e àquelas as sanções civis e administrativas.
Trazemos ainda, a respeito, o entendimento de Paulo de Bessa Antunes, membro do Ministério Público Federal e um dos maiores estudiosos da área de Direito Ambiental:
"Veja-se que a condenação criminal de uma empresa, certamente, implica a
imposição indireta de penas a diferentes pessoas naturais e jurídicas que não aquela condenada judicialmente. Não se desconhece que a condenação criminal de uma sociedade anônima, provavelmente, terá reflexo na cotação de suas ações em bolsa, acarretando penas econômicas118
SANTA CATARINA. Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Recurso em sentido estrito n. 2004.037168-8. Relator: Torres Marques. Disponível em: http://tjsc6.tj.sc.gov.br. Acesso em 27 out. 2009.
- desvalorização de capital - para simples titulares de ações preferenciais (sem direito a voto), ou qualquer poder de decisão sobre as atividades da empresa. Igualmente, a pena produzirá reflexos junto ao quadro de empregados que serão estigmatizados como funcionários de uma empresa condenada. Tais repercussões serão capazes de afrontar o princípio constitucional da pessoalidade da pena?[...]
[...]
Em síntese, a admissão da responsabilidade penal da pessoa jurídica - prevista em lei no ordenamento jurídico pátrio, conforme dicção do art. 3º da Lei de Crimes Ambientais - surge de uma interpretação deturpada do art. 225, §3º, da CF. Este não permite, em absoluto, que se responsabilize penalmente uma pessoa jurídica, o que se pode confirmar com uma nada complexa interpretação sistemática dos dispositivos penais da Lei Maior - além de jogar fora séculos e mais séculos de civilização e de evolução da ciência penal - que culminaram com a proscrição da responsabilização penal objetiva, ou seja, aquela imputada sem a possibilidade de aferição da culpabilidade do sujeito que infringe à norma penal incriminadora -, tampouco apresenta qualquer utilidade prática - ou alguém seria capaz de sustentar que uma multa pecuniária, a suspensão das atividades ou fechamento de estabelecimento, aplicados no juízo penal, são substancialmente diferentes destas mesmas medidas quando aplicadas na esfera administrativa.
[...]
Isto posto, mantém-se a decisão que rejeitou a denúncia oferecida contra a pessoa jurídica, reservando a esta a aplicação das sanções civis e administrativas cabíveis.
Outro julgado desfavorável à responsabilização da pessoa jurídica nos
crimes ambientais no Tribunal de Justiça de Santa Catarina é o nº 2006.030339-9,
relatado pelo Desembargador Sérgio Paladino, na data de 27/02/2007
119.
Trata-se da denúncia oferecida pelo Ministério Público na comarca de
Campo Erê, contra Élio Kettermann, Dirceu Demartini e Dirceu Demartini ME, dando
o primeiro como incurso nas sanções do art. 39 (cortar árvores em floresta
considerada de preservação permanente, sem permissão da autoridade
competente), combinado com o art. 2º, da Lei nº. 9.605/98.
Dirceu Demartini foi incurso nas penas dos arts. 39, 46 (receber ou
adquirir, para fins comerciais ou industriais, madeira, lenha, carvão e outros produtos
de origem vegetal, sem exigir a exibição de licença do vendedor, outorgada pela
autoridade competente, e sem munir-se da via que deverá acompanhar o produto
até final beneficiamento), por duas vezes, 51 (comercializar motosserra ou utilizá-la
em florestas e nas demais formas de vegetação) e 60, combinados com o art. 2º, do
mesmo diploma legal, e com o art. 70 do Código Penal.
119
SANTA CATARINA. Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Apelação criminal n. 2006.030339-9. Relator: Sérgio Paladino. Disponível em: http://tjsc6.tj.sc.gov.br. Acesso em 27 out. 2009.
Dirceu Demartini ME foi incurso nas penalidades dos arts. 39, 46, por
duas vezes, 51 e 60, combinados com os arts. 2º e 3º, parágrafo único, da Lei nº.
9.605/98 e com o art. 70 do Código Penal.
A denúncia foi aceita e a sentença foi proferida condenando Dirceu
Demartini às penas de 2 (dois) anos e 2 (dois) meses de detenção e 40 (quarenta)
dias-multa, no valor unitário de um trigésimo do salário mínimo vigente à época do
evento, e Dirceu Demartini ME à 26 (vinte e seis) contribuições mensais
equivalentes a meio salário mínimo e 40 (quarenta) dias-multa, cada qual no
montante correspondente ao mínimo previsto em lei, ambos pelo cometimento dos
delitos definidos nos arts. 39, 46, parágrafo único, e 51, da Lei nº. 9.605/98.
A pena relativa a Dirceu Demartini foi substituída por duas restritivas de
direitos, consistentes em prestação de serviços à comunidade e prestação
pecuniária, e no tocante aos delitos capitulados nos arts. 51 e 46, parágrafo único,
da Lei nº. 9.605/98, o magistrado declarou extinta a punibilidade tanto de Dirceu
Demartini como de Dirceu Demartini ME.
Após apelação por parte da empresa ré, almejando a anulação do feito
sob a alegação de inexistência da responsabilidade penal da pessoa jurídica, a
Segunda Câmara Criminal, por maioria de votos, deu provimento ao recurso para
anular o processo e rejeitar a denúncia oferecida contra Dirceu Demartini ME, sob o
fundamento de que a pessoa jurídica é incapaz de possuir culpabilidade
120:
Com efeito, considerando-se que as pessoas jurídicas de direito privado não agem por si, os crimes praticados em proveito da atividade que desenvolvem só podem ser imputados às pessoas naturais que as administram.
[...]
Contrariando a repetida frase de Franz von Liszt, embora as pessoas jurídicas possam realizar contratos, não parece convincente que possam de per si realizar uma ação ou omissão típica. Como bem se elucida, 'não é a pessoa jurídica que 'conclui' por si mesma contratos, mas sim fica vinculada pelos contratos que celebram em seu nome as pessoas individuais que atuam como seus órgãos. Mas o fenômeno da representação não tem cabimento em relação aos sujeitos ativos do delito. Para que alguém pratique delito é necessários que tenha realizado pessoalmente a ação penalmente cominada'.
É necessário, pois, distinguir entre sujeito da ação e sujeito da imputação, que não são coincidentes no caso de pessoas jurídicas, visto que estas 'só podem atuar através de seus órgãos e representantes, isto é, de pessoas físicas (sujeito da ação)'. Então, os efeitos jurídicos imputados à pessoa coletiva são aqueles decorrentes da conduta de seu representante, sendo
120
SANTA CATARINA. Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Apelação criminal n. 2006.030339-9. Relator: Sérgio Paladino. Disponível em: http://tjsc6.tj.sc.gov.br. Acesso em 27 out. 2009.
sua atividade unicamente uma atividade juridicamente imputada. É dizer: não se trata de uma autoria da própria pessoa jurídica.
De conseguinte, falta ao ente coletivo o primeiro elemento do delito: capacidade de ação ou omissão (típica).
Na seqüência do assunto ora examinado, assinala-se que a pessoa jurídica também é incapaz de culpabilidade e de sanção penal.
A culpabilidade penal como juízo de censura pessoal pela realização do injusto típico só pode ser endereçada a um indivíduo (culpabilidade da vontade). Como juízo ético-jurídico de reprovação, ou mesmo de motivação normal pela norma, somente pode ter como objeto a conduta humana livre. Esse elemento do delito - como fundamento e limite da pena - é sempre reprovabilidade pessoal e se decompõe em: imputabilidade (capacidade de culpa); consciência potencial da ilicitude e exigibilidade de conduta diversa. [...]
Em nosso Direito, tem esse princípio (responsabilidade penal subjetiva) agasalho constitucional implícito no art. 1º, III (dignidade da pessoa humana), corroborado pelos arts. 4º, II (prevalência dos direitos humanos); 5º, caput (inviolabilidade do direito à liberdade); e no art. 5º, XLVI (individualização da pena), da Constituição Federal do Brasil de 1988. De sua vez, a responsabilidade penal subjetiva se encontra presente na legislação pátria desde o advento do Código Criminal do Império de 1830 (arts. 2º, § 1º; e 3º), até o diploma em vigor que estabelece expressamente não haver delito sem dolo ou culpa (arts. 18 e 19 do CP).
A respeito da pena, as idéias de prevenção geral, prevenção especial, reafirmação do ordenamento jurídico e ressocialização não teriam sentido em relação às pessoas jurídicas. 'A pena não pode ser dirigida, em sentido estrito, às pessoas jurídicas no lugar das pessoas físicas que atrás delas se encontram, porque conceitualmente implica uma ameaça psicológica de imposição de um mal para o caso de quem delinqüir e não se pode imaginar que a pessoa jurídica possa sentir o efeito de cominação psicológica alguma'.
[...]
Assim, apesar da interpretação gramatical do art. 225, § 3º, da Constituição Federal e do art. 3º da Lei n. 9.605/98 autorizar a responsabilização criminal das pessoas jurídicas, o novel instituto não se harmoniza com os princípios que informam o Direito Penal brasileiro, igualmente recepcionados pelo texto constitucional.
[...]
Ante o exposto, anulou-se o processo e se rejeitou a denúncia oferecida contra Dirceu Demartini ME, adequou-se a reprimenda substituta da corporal infligida a Dirceu Demartini e promoveu-se o arbitramento dos honorários advocatícios.
Percebe-se que em momento algum o julgador negou a existência da
previsão constitucional a respeito da responsabilização penal da pessoa jurídica, no
entanto possui o entendimento de que tal questão vai de encontro aos princípios do
ordenamento penal brasileiro.
Em 13 de março de 2001, três anos após a implantação da Lei n.º
9.605/98, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina teve seu primeiro julgado
favorável à questão responsabilização penal do ente coletivo, no julgamento do
recurso em sentido estrito n.º 2000.020968-6, de São Miguel do Oeste
121.
O representante do Ministério Público da comarca de São Miguel do
Oeste ofereceu denúncia contra Edmundo Afonso Bracht, Érica Spies Bracht,
Simone Maria Bracht e Agropastoril Bandeirante Ltda. por infração ao artigo 54
(causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam
resultar em danos à saúde humana, ou que provoquem a mortandade de animais ou
a destruição significativa da flora), § 2º, V (dificultar ou impedir o uso público das
praias) e art. 60 da Lei n. 9.605/98, na forma dos arts. 29 e 71 do Código Penal.
Ocorre que o Magistrado entendeu ser inadmissível a responsabilidade
penal da pessoa jurídica e não recebeu a denúncia em relação à ré Agropastoril
Bandeirante Ltda., embasando-se no art. 43, inciso III, do Código de Processo
Penal, aduzindo a falta de legitimidade passiva.
Assim, o representante do Ministério Público interpôs recurso em sentido
estrito, visando ao recebimento da peça acusatória da empresa Agropastoril
Bandeirante Ltda., alegando que com o advento da Lei nº. 9.605/98 as pessoas
jurídicas passaram a ser responsabilizada criminalmente, previsão esta já enunciada
na Constituição Federal de 1988.
Ao julgar a questão, a Primeira Câmara Criminal, por votação unânime,
deu provimento ao recurso do Ministério Público, utilizando como fundamento a
doutrina já existente à época
122:
RECURSO CRIMINAL - RECURSO EM SENTIDO ESTRITO - CRIME AMBIENTAL - DENÚNCIA REJEITADA - RECONHECIMENTO DA RESPONSABILIDADE PENAL DAS PESSOAS JURÍDICAS - POSSIBILIDADE ANTE O ADVENTO DA LEI N. 9.605/98 - AUSÊNCIA DE PRECEDENTES JURISPRUDENCIAIS - ORIENTAÇÃO DOUTRINÁRIA - RECURSO PROVIDO
Completamente cabível a pessoa jurídica figurar no pólo passivo da ação penal que tenta apurar a responsabilidade criminal por ela praticada contra o meio ambiente.
[...]
Concernente à possibilidade da pessoa jurídica vir a ser responsabilizada, embora sejam escassas as decisões sobre a matéria, encontro subsídio na doutrina; diga-se que há infindáveis obras dando conta de que a pessoa
121
SANTA CATARINA. Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Recurso criminal n. 2000.020968-6. Relator: Solon D´Eça Neves. Disponível em: http://tjsc6.tj.sc.gov.br. Acesso em 27 out. 2009.
122
SANTA CATARINA. Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Recurso criminal n. 2000.020968-6. Relator: Solon D´Eça Neves. Disponível em: http://tjsc6.tj.sc.gov.br. Acesso em 27 out. 2009.
jurídica pode ser responsabilizada penalmente quando vem praticar agressões ao meio ambiente.
A LCA prevê no art. 3º a responsabilidade da pessoa jurídica, se a infração for cometida por decisão de seu representante legal ou contratual, ou de órgão colegiado no interesse ou benefício da sua entidade. Esta expressão pressupõe que do ato advirá vantagem para a pessoa jurídica, sendo válida a crítica de Luiz Regis Prado que condiciona a condenação ao 'interesse (vantagem de qualquer natureza - política, moral, etc.) ou benefício (favor, ganho, proveito econômico)'.
"Realmente cabe reconhecer que a LCA não foi bastante clara sobre que crimes poderiam ser cometidos pela pessoa jurídica, ficando patente que sempre que houver a condenação da pessoa jurídica, esta acontecerá na forma de concurso de agentes, consoante o disposto no parágrafo único do mencionado artigo, determinando que a responsabilidade da pessoa jurídica não exclua a das pessoas físicas, autoras, co-autoras ou partícipes do fato. "A responsabilidade penal, dos dez anos que intermediaram a promulgação da CFR e a vinda a lume da LCA, foi motivo de crítica dos doutrinadores, fundamentada nos princípios da individualização da pena, da responsabilidade pessoal e da culpabilidade, todos também com sede constitucional. No entanto, vale consignar que a responsabilidade penal da pessoa jurídica é tendência internacional, posto que já vigente em outros ordenamentos jurídicos, em diversas legislações penais européias, certamente em decorrência da 'Convenção da União Européia para os países membros, com determinação expressa sobre as condenações das pessoas jurídicas pela pena de multa'.
"(..)
"Favorável a que o Brasil siga a tendência internacional de punir penalmente os seres morais, Roque de Brito Alves sustenta que:
'Não se justifica mais tal negativa da responsabilidade penal da pessoa jurídica, o que permite uma evidente distinção entre a responsabilidade penal pessoal, individual e a responsabilidade penal da pessoa jurídica que não se confunde com a responsabilidade criminal dos seus membros ou componentes. Distinção também, por outra parte, entre as sanções administrativas ou civis das sanções penais dos crimes pela pessoa jurídica'. "Concordamos com a assertiva supra, entendendo perfeitamente admissível ao sistema legal brasileiro a responsabilidade da pessoa jurídica de direito privado" (in Lei dos Crimes Ambientais, São Paulo, ADCOAS, 1999, págs.91/93).
[...]
Desta espreita, creio que a controvérsia gerada pela possibilidade de responsabilizar a pessoa jurídica pelas violações cometidas ao meio ambiente já restou dirimida, pelo menos na esfera doutrinária.
Não poderia deixar de consignar o brilhante trabalho apresentado pelo insigne Procurador de Justiça, Dr. Vilmar José Loef que, em homenagem, adoto como forma de consubstanciar o posicionamento, verbis:
[...]
"Não podemos, com isso, negar que a Lei de Crimes Ambientais inovou no sistema jurídico nacional, na medida que introduziu a responsabilidade penal da pessoa jurídica (art. 3º da Lei Ambiental). Portanto, não pode a aludida Lei ser tratada como sendo inconstitucional.
[...]
"Diante desse quadro, é clara a intenção do legislador pátrio em acompanhar a preocupação mundial na proteção e preservação do meio ambiente, adotando a tese da responsabilização penal da pessoa jurídica, e rompendo com os princípios norteadores do Direito Penal tradicional". [...]
Por fim, cabe ressaltar que o recebimento da denúncia em nada prejudicará os denunciados, pois terão eles condições de apresentarem suas defesas, podendo assim detalhar no transcurso da instrução processual as inverdades que por ora acharem existentes.
Assim, diante do exposto, dá-se provimento ao recurso para que seja recebida a denúncia nos moldes lá contidos.
Após esse julgamento, muitos outros vieram corroborar a idéia de que a
pessoa jurídica é um ente real, passível de ser responsabilizado penalmente, como
por exemplo, o acórdão referente ao Recurso Criminal nº. 2008.035801-5, de
Joinville
123.
O representante do Ministério Público da Comarca de Joinville ofereceu
denúncia contra Malhajoi Ltda. Malhajoi Ltda. e Ewaldo Rieper Neto, por infração ao
art. 60 e, por três vezes, ao art. 54, § 2º, inciso V, ambos da Lei n. 9.605/98,
consistentes na prática de poluição hídrica, a qual restou rejeitada sob o
entendimento de que pessoa jurídica não pode ser sujeito ativo de crime, posto que
desprovida de vontade própria.
Não se conformando com a sentença, o representante do Ministério
Público apelou, objetivando a condenação da ré Madeireira Biazus Ltda. ME.
No julgamento do feito, a Primeira Câmara Criminal, por votação unânime,
conheceu do recurso e deu provimento para condenar a pessoa jurídica pelo crime
descrito na denúncia, sob os seguintes termos
124:
O cerne da questão resume-se na possibilidade de responsabilizar-se a pessoa jurídica por crimes causados ao meio ambiente.
A promulgação da Constituição Federal de 1988, admitindo expressamente a responsabilização da pessoa jurídica em crimes contra a ordem econômica e em crimes de dano ambiental, reservando um capítulo especial para tratar da matéria ambiental, foi uma grande inovação legislativa neste país, uma vez que essas são na sua grande maioria as maiores degradadoras do meio ambiente.
[...]
"Concordamos com a assertiva supra, entendendo perfeitamente admissível ao sistema legal brasileiro a responsabilidade da pessoa jurídica de direito privado" (in Lei dos Crimes Ambientais, São Paulo, ADCOAS, 1999, p.91 a 93).
[...]
É também a orientação da jurisprudência pátria:
O Juiz não pode rejeitar uma denúncia que já foi recebida, pois tal procedimento acarreta instabilidade incompatível com o objetivo do processo, que é a prestação jurisdicional, a ser alcançada através de uma