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Os entendimentos jurisprudenciais no sentido de responsabilizar o Estado pelos danos causados a pacientes que necessitavam de tratamento de saúde ou medicação e que, mesmo após decisão judicial favorável para a concessão destes, sobreveio inércia da Administração Pública ante a necessidade do paciente, tem como base para a não responsabilização o nexo causal.

A Administração Pública responde de forma objetiva por suas e ações e também por suas omissões. (PIVA, 2018, p. 190)

Gagliano e Pamplona Filho (2019, p. 66), lecionam que, na responsabilidade civil objetiva, que é a modalidade de responsabilidade por qual o Estado é submetido:

[...] o dolo ou culpa na conduta do agente causador do dano é irrelevante juridicamente, haja vista que somente será necessária a existência do elo de causalidade entre o dano e a conduta do agente responsável para que surja o dever de indenizar.

Colhe-se da jurisprudência do Tribunal de Justiça do Distrito Federal o referido julgado que trata da caracterização da responsabilidade civil do Estado visto que este descumpriu ordem judicial para a concessão de medicamento para tratamento de saúde e que, sobreveio o falecimento do paciente durante a espera para que a Administração Pública realizasse o fornecimento do referido fármaco:

ADMINISTRATIVO - CONSTITUCIONAL - PROCESSO CIVIL - RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO - DANOS MORAIS - DESCUMPRIMENTO DE ORDEM JUDICIAL DE FORNECIMENTO DE MEDICAMENTO - DOENÇA GRAVE - MORTE DO PACIENTE - NEXO DE CAUSALIDADE CONFIGURADO - 1- O conjunto fático-probatório contido nos autos levam a conclusão de que é dever do Estado indenizar a autora pelo óbito precoce de seu marido, decorrente da omissão em fornecer assistência farmacológica imprescindível ao tratamento de câncer. Presente na hipótese, o nexo de causalidade entre o não fornecimento do medicamento (fato) e a morte precoce do paciente esposo da apelada (dano).2. Apesar do resultado morte ser inevitável, pois, poderia ocorrer em razão da própria doença, o não fornecimento do medicamento, determinado, inclusive, por decisão judicial em outros autos, acabou por abreviar o resultado fatídico, dando ensejo aos alegados danos morais, uma vez que o paciente estava aguardando o medicamento desde o diagnóstico da doença, vindo a falecer um ano depois, sem o tratamento preconizado como de 1ª linha, apesar das decisões judiciais que determinaram o fornecimento do tratamento indicado pela equipe médica da Secretaria de Saúde. 3- O valor arbitrado como indenização mostra-se adequado à satisfação da justa proporcionalidade entre a conduta do Estado, consistente na omissão em fornecer o tratamento, e o dano moral sofrido pela autora, bem como atende ao caráter compensatório e ao mesmo tempo inibidor a que se propõe a reparação por danos morais, nos moldes estabelecidos na Constituição Federal , suficiente para representar um desestímulo à prática de novas condutas pelo agente causador do dano. 4- O índice a ser adotado para fins de correção monetária do montante devido pela Fazenda Pública, na fase de conhecimento, deve observar o regramento vigente antes da declaração de inconstitucionalidade proferida nas ADI's 4.357 e 4.425, pelo Supremo Tribunal Federal, ou seja, índice oficial de remuneração básica da caderneta de poupança (TR) até a inscrição do precatório, data após a qual os débitos deverão ser corrigidos pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo Especial (IPCA-E) (RCL 20.611 e 21.147).5. Agravo retido não conhecido. Apelo da autora improvido. Apelo do réu parcialmente provido. (DISTRITO FEDERAL, 2016)

O julgado em questão considera que há responsabilidade civil do Estado na omissão de fornecer medicamento ao tratamento de saúde a paciente que já havia tido seu direito de ter o medicamento fornecido em via judicial e pela demora em conceder o medicamento, sobreveio

o óbito do doente e, o consequentemente, o magistrado em questão reconheceu o dever do Estado em indenizar a família do referido paciente.

O Tribunal de Justiça do Distrito Federal julgou caso semelhante em que, com o descumprimento de decisão judicial para o fornecimento de medicação, sobreveio a morte do paciente, no entanto, julgou improcedente os pedidos autorais, sob a fundamentação de que não restou comprovado o nexo de causalidade entre a omissão do ente estatal e a morte do paciente:

ADMINISTRATIVO E CONSTITUCIONAL - AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS - RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO -

INEXISTÊNCIA - FORNECIMENTO DE MEDICAMENTO -

DESCUMPRIMENTO DE DECISÃO JUDICIAL - PERDA DE UMA CHANCE - NÃO OCORRÊNCIA - SENTENÇA MANTIDA - 1- Uma vez que não se verifica que o falecimento da mãe da Autora tenha decorrido do não cumprimento, em tempo hábil, da decisão judicial em que se determinou que o medicamento fosse fornecido, e não se podendo dizer que o cumprimento imediato da liminar teria melhorado sensivelmente a qualidade de vida da paciente ou impedido seu óbito, mostra-se inviável o reconhecimento da responsabilidade civil do Estado. 2- Constatando-se que o falecimento decorreu dos fatores relacionados ao quadro clínico da paciente, e não da falta ou má qualidade dos serviços de saúde prestados pelo DF, e não sendo plausível que as possibilidades de recuperação ou de efetiva melhora da qualidade de vida fossem reais no exíguo intervalo de tempo entre o deferimento da liminar e a morte (aproximadamente três meses), não há que se falar em indenização por danos morais em razão da perda de uma chance. Precedentes. Apelação Cível desprovida. Maioria qualificada. (DISTRITO FEDERAL, 2019)

No julgado acima, ainda é possível extrair que o julgador levou em conta que, mesmo com o fornecimento da medicação já concedida por ordem judicial, não se saberia se seria eficaz para a paciente ou que o fornecimento deste impediria seu óbito, sendo assim, não se pode caracterizar a responsabilidade civil do Estado.

Extrai-se ainda, da jurisprudência do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, outro julgado que considera a omissão do Estado no fornecimento de medicamento quando há ordem judicial em fazer da concessão, suficiente para condenar o Estado à reparação de danos, devido ao nexo de causalidade evidente:

AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS - RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO - FORNECIMENTO DE MEDICAMENTO - CONDUTA OMISSIVA - NEXO DE CAUSALIDADE EVIDENCIADO - DEVER DE INDENIZAR - Hipótese de responsabilidade civil do Estado por ato omissivo. Suspensão do fornecimento de medicamento de uso contínuo da autora, portadora de 'esclerose múltipla' - Interferon Beta 1ª - , que redundou na progressão da doença. Prova constante dos autos, em especial a pericial, que atesta a necessidade constante do medicamento pleiteado e concedido às custas do Estado, que deixou de fornecê-lo

por 06 (seis) meses, sem indicação médica nesse sentido, e que acabou agravando o estado de saúde da autora. Nexo causal entre a dor, assim também a progressão da doença da autora, e a falta de medicamento que deveria ter sido prestado pelo ente público, que dá suporte ao pleito indenizatório. Indenização não deve ser em valor ínfimo, nem tão elevada que torne desinteressante a própria inexistência do fato. Ausência de recurso da parte autora em relação ao quantum. Indenização fixada na sentença mantida [R$ 10.000,00]. Verba honorária atribuída ao Estado demandado que se mostra indevida no caso. Incidência do disposto na Súmula 421 do STJ. DERAM PROVIMENTO EM PARTE À APELAÇÃO. DECISÃO UNÂNIME. (RIO GRANDE DO SUL, 2013)

O Tribunal de Justiça de São Paulo também já decidiu no sentido de que, havendo elementos suficientes para comprovar o nexo causal entre a conduta do agente e o dano sofrido pelo paciente, deve o Estado fazer a reparação dos danos materiais e do abalo moral sofrido:

RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO - AÇÃO DE INDENIZAÇÃO - DANOS MATERIAIS E MORAIS - FALECIMENTO DE FILHO MENOR DOS AUTORES - DEMORA NO FORNECIMENTO DE MEDICAMENTO - Conduta omissiva do Município diante do dever jurídico de agir. Agentes públicos que atuaram de forma negligente. Robusto conteúdo probatório que demonstra a existência dos elementos da responsabilidade civil. Perícia indireta conclusiva. Dano, nexo causal e conduta negligente devidamente caracterizados. Dever de indenizar incontroverso. Redução do valor. Percentual dos juros de mora que deve obedecer ao disposto na Lei nº 11.960/09. Sentença parcialmente reformada. Recursos parcialmente providos. (SÃO PAULO, 2015)

A decisão judicial em questão apresenta elementos e que, para melhor entendimento da responsabilização do Estado no caso do não fornecimento de medicação que, em tese, poderia impedir a morte do paciente ou seu demasiado sofrimento e ainda, nos casos em concreto, havia decisões judiciais positivas para a concessão das medicações necessárias para cada caso.

A jurisprudência admite a caracterização do dever do Estado em indenizar família de paciente que sofreu danos, diante da omissão da Administração Pública em casos de não fornecimento de medicamento ou tratamento de saúde quando há decisão judicial em favor da referida concessão.

Um dos elementos encontrados no julgado que considera a Administração Pública responsável pela morte de paciente que aguardava medicamento para tratamento de câncer e que, por este motivo, tem dever de indenizar a família do referido paciente, é o nexo de causalidade.

O Tribunal de Justiça do Distrito Federal vem decidindo com base no nexo de causalidade:

CIVEL - APELAÇÃO - ADMINISTRATIVO - SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE DO DISTRITO FEDERAL - MEDICAMENTO - AUSÊNCIA DE AQUISIÇÃO E FORNECIMENTO DE MEDICAÇÃO PRESCRITA - LUCENTIS - NÃO REALIZAÇÃO PELO DISTRITO FEDERAL - CEGUEIRA - DIREITO À VIDA E À SAÚDE - DEVER DO ESTADO - RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA - OMISSÃO ATRIBUÍVEL AO ESTADO - NEXO DE CAUSALIDADE - DANOS MORAIS CONFIGURADOS SENTENÇA MANTIDA. 1 – A Administração Pública tem o dever constitucional de assegurar aos cidadãos o direito à saúde, conforme se depreende dos artigos 6º e 196 da Constituição Federal de 1988 e, dos artigos 204, inciso II, e 205, inciso I, ambos da Lei Orgânica do Distrito Federal. 2- A legislação é uniforme ao confiar ao Poder Público a obrigação de dar atendimento médico à população, oferecendo àqueles que não possuem condições financeiras o acesso efetivo à saúde. 3- Pessoas jurídicas de direito público respondem objetivamente pelos danos que causarem a terceiros, tanto por atos comissivos quanto por omissivos, desde que demonstrado o nexo causal entre o dano e a omissão do Poder Público, não se perquirindo sobre a qualificação da conduta, se culposa ou dolosa, pois é suficiente que tenha existido uma ação ou omissão lesiva.4.Ademora injustificada na realização do procedimento para aquisição e fornecimento do remédio prescrito por médico assistente constitui grave falha na prestação do serviço público de saúde e evidencia, ao contrário do alegado pelo apelante, a existência do nexo de causalidade apto a gerar ao ente público o dever de indenizar o autor. 5- Recurso conhecido e desprovido. (DISTRITO FEDERAL, 2016) (Sem grifos no original)

O nexo de causalidade é o encontro entre o comportamento do ser humano, seja ele comissivo ou omissivo, e o prejuízo que é causado a outrem. O nexo causal tem de ser provado por aquele que busca a reparação dos danos, ou seja, o prejudicado. (PIVA, 2018, p. 181)

Para Rizzardo (2019, p. 33), o nexo causal trata-se de um conjunto entre a violação de norma e o dano e, sem a ligação destes dois elementos, não há que se falar entre nexo de causalidade entre a ação e o dano:

O nexo causal, revelado na relação entre a violação da norma e o dano. O desrespeito ao dever traz o prejuízo, vindo este elemento no verbo ‘causar’ que está no mesmo dispositivo acima. Não se perfectibiliza a responsabilidade se o resultado negativo não decorre daquela violação específica da norma. [...], embora certo grau de perigo que oferece a atividade, a obediência a uma série de cuidados e cautelas importa em não ocorrer o dano.

Sem a caracterização do nexo causal, inexiste a obrigação do Ente Público em indenizar, isso porque [...] se houve o dano mas sua causa não está relacionada com o

comportamento do agente, inexiste a relação de causalidade e, também, a obrigação de indenizar.” (GONÇALVES, 2018, p. 28)

A jurisprudência, mesmo em casos de omissão do Estado, trata a responsabilidade deste como sendo subjetiva, devendo-se comprovar a o nexo causal entre a conduta do agente e os danos sofridos pelo que objetiva a reparação de danos.

A VI Jornada de Direito Civil (BRASIL, 2011), no Enunciado 446, dispõe ainda que: “a responsabilidade civil prevista na segunda parte do parágrafo único do art. 927 do Código Civil deve levar em consideração não apenas a proteção da vítima e a atividade do ofensor, mas também a prevenção e o interesse da sociedade”.

Assim, nota-se que o julgador considerou o Estado responsável ao ser omisso quando não forneceu medicamento para a mantença da saúde do paciente que, veio a falecer, para desestimular esse tipo de comportamento vindo da Administração Pública, com base no nexo de causalidade.

Os julgados vêm decidindo, seja para considerar a responsabilidade civil do Estado ou para descaracterizar a referida responsabilidade, em grande parte com base no nexo causal. Para que haja a caracterização da responsabilidade civil do Estado na omissão do fornecimento de medicamento ou tratamento de saúde já concedido judicialmente, basta haver o dano, a conduta omissa do agente e ainda, o nexo de causalidade.

4.2 ENTENDIMENTO JURISPRUDENCIAL ACERCA DA NÃO RESPONSABILIDADE

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