Parte III – Uma análise da implementação de novos dispositivos na rede de
Capítulo 4 – Apresentação e discussão dos resultados
4.2 Concepção dos atores sobre a Lei nº 13.431/2017 e seus dispositivos
4.2.3 Entendimento sobre a Lei nº 13.431/2017: potencialidades e desafios
Sobre a Lei nº 13.431/2017, as entrevistadas representantes da saúde e da assistência social relatam não ter conhecimento suficiente, e que só acompanharam algumas discussões emergentes, mas não se detiveram a estudá-la. A entrevistada 6, por ter participado das reuniões de elaboração do fluxograma, explana ter um contato maior, mas que ainda assim considera a temática confusa e não se sente apropriada para discuti-la. Os(as) entrevistados do Sistema de Justiça e da Segurança Pública mencionaram a importância da aproximação com a Lei, e que estão inteirados das discussões sobre ela, inclusive, formaram grupos de estudo para esmiuçá- la e poder ter melhor embasamento para sua implementação no estado.
Ao serem perguntados sobre o entendimento que os entrevistados tinham de forma geral pela Lei, logo foi percebido, a partir da codificação identificada neste estudo, a segmentação em seus discursos sobre as potencialidades e desafios da Lei. Como será apresentado a seguir, a maioria dos atores do Sistema de Justiça sentem dificuldade de encontrar desafios que possam atingir a proteção da criança, sendo a estruturação física das salas apropriadas para a operacionalização do DE o elemento de maior preocupação, enquanto os(as) entrevistados(as) dos demais órgãos apresentam uma visão para além das estruturas físicas. Em comum entre os(as) profissionais, destaca-se um alto índice de queixas no que tange o funcionamento da rede sobre a articulação dos serviços e dos profissionais.
A tabela a seguir apresenta a frequência de códigos identificados na categoria de potencialidades e desafios da Lei 13.431/2017.
Tabela 6
Desafios e potencialidades da implementação da Lei nº 13.431
N Desafios Articulação de rede Recursos Humanos Capacitação Estruturação
Autonomia dos profissionais
14 9 8 6 4
Potencialidades Evitar revitimização Ambiente acolhedor
7 5
a) Desafios
Os Tribunais de Justiça, a partir da promulgação da Lei nº 13.431/2017 e das recomendações emitidas pelo CNJ, envidam esforços para adequação da escuta de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência no contexto do ambiente jurídico. Para isso, por dispêndios públicos, os Tribunais de Justiça estão apostando em alto investimento tecnológico para a implementação de salas com a finalidade de atender a proposta do Depoimento Especial (Ramos, 2015). Embora haja esse esforço, a crítica aos instrumentos tecnológicos foi a principal queixa das entrevistadas que atuam com o Depoimento Especial.
A única coisa que realmente incomoda como eu disse, é a falta de estrutura que não são adequados, microfones que não são adequados, isso realmente prejudica. A criança fala, a gente não escuta, tem que repetir, o sistema trava, tem que parar a audiência... eu acho que isso gera um transtorno maior. Uma escuta, um interrogatório que era pra durar meia hora, acaba durando uma manhã inteira. Isso é ruim, mas acredito que é só uma fase de adaptação (Entrevistada 2 – Defensoria Pública).
Enxergo limitações da própria execução né? de aplicá-la, de estruturar os órgãos para que seja feita esse serviço, porque nem sempre os órgãos têm estrutura, principalmente a Polícia Civil. O judiciário tá tendo essas dificuldades, então acho que é muito mais
de estruturar. O próprio poder judiciário né? tem mais condições, mais estrutura do que a polícia, está com dificuldade em aplicar, por exemplo de cobrir esse depoimento em todas as comarcas, então existe essa dificuldade para polícia também de logística de treinamento, a gente precisa treinar as pessoas para conseguir fazer, então é gradual (Entrevistada 1 - Segurança Pública).
Ainda que o judiciário do Rio Grande do Norte tenha investido em capacitações para mais de 40 servidores(as), segundo os dados registrados nas reuniões de fluxograma, e também em altos recursos tecnológicos para implementação das salas de Depoimento Especial, a questão estrutural ainda é pauta das limitações apontadas pelos entrevistados tanto do Sistema de Justiça como da Segurança Pública. Embora esteja em momento de implementação e adaptação, a forma precária de se realizar o Depoimento Especial pode gerar ainda mais danos para a vítima, e resultar na violência institucional, pois as falhas nos sistemas tecnológicos resultam na necessidade de repetição dos fatos narrados pela vítima, perdendo a espontaneidade do discurso, como manifestaram as entrevistadas.
O entrevistado 8 relata os desafios inerentes aos recursos humanos. Apesar do número significativo de servidores capacitados nos protocolos, o entrevistado diz reconhecer que nem todos apresentam afinidade com a complexidade da matéria, portanto, há uma evasão de técnicos capacitados para aplicação dos protocolos. Além disso, a rotatividade dos capacitados é outro desafio encontrado, tendo em vista a escassez de servidores efetivos do órgão, e a contratação de servidores por outras vias, o que não garante a estabilidade do profissional. Outrossim, da primeira turma formada apenas três profissionais estão exercendo o papel de entrevistadores(as). O entrevistado aponta também sua insatisfação com as exigências normativas sem um projeto que desse suporte para a efetiva implementação.
O que trouxe foram desafios, porque a Lei determinou que a partir daquele momento todos os órgãos da rede instalassem os programas e tá lá, a Lei já é lei. É tanto que o CNJ publicou uma resolução definindo prazos para que os tribunais se adequassem e aí tá lá os prazos, mas orçamento nada. Estamos com muito jogo de cintura para nos adequarmos (Entrevistado 8 – Judiciário).
Sobre a estruturação física e instrumental das salas, o entrevistado 8 que é figura competente para a implementação das salas no TJRN, diz que já foram adquiridos novos instrumentos necessários para o pleno funcionamento, além de que está em andamento o projeto das salas atendendo a expectativa de ambiente acolhedor, com projeto realizado pela equipe de engenharia e arquitetura do próprio órgão. As salas, por sua vez, serão implementadas não só em Natal, mas em outras comarcas de terceira entrância do estado. Faz parte do projeto também a implementação de salas móveis (em ônibus que possam se deslocar por todo estado) para que possam atender a demandas de comarcas com menores demandas. A expectativa é que ainda em 2020 as salas estejam instaladas, e mais turmas de servidores sejam formadas.
A entrevistada 2 fala sobre a idealização da metodologia do Depoimento Especial nas delegacias, e comenta sobre sua importância:
Eu acho que seria excelente se a criança pudesse ser ouvida uma única vez, justamente para evitar essa revitimização, e a lembrança do trauma o tempo inteiro. Mas, para que isso seja possível é necessário você criar toda uma estrutura na fase do inquérito policial perante as delegacias de polícia. Tem que ter esse apoio psicossocial na delegacia, tem que ter a presença de um órgão acusador, o ministério público, e da defesa do réu. Atualmente isso não existe. Então, para acontecer essa prova antecipada, digamos assim, que não vai se repetir em juízo, e para observar as garantias que estão na constituição, é necessário criar toda essa estrutura, de vários profissionais para que eles comecem a atuar no inquérito policial, o que não ocorre atualmente. Eu acho bastante complicado que ocorra, falando de um modo sincero e real (Entrevistada 2- Defensoria Pública).
A entrevistada 1 trata da implementação do sistema nas delegacias. De acordo com a lei, crianças abaixo de sete (7) anos vítimas de qualquer violência, e qualquer criança ou adolescente vítima de violência sexual (art. 11) deverão sempre que possível ser escutados uma única vez, inclusive em sede de antecipação de prova, garantindo a ampla defesa do(a) acusado(a). Ou seja, nesses casos mencionados em lei, a vítima iria depor apenas uma vez, se possível, na delegacia, por exemplo, desde que houvesse a presença do(a) defensor(a) ou advogado(a) do(a) acusado(a), bem como a do Ministério Público. Entretanto, as sedes de
delegacias de Natal, ainda que especializadas na temática da infância não dispõem de estrutura para abarcar esse procedimento.
A entrevistada 1 em seu discurso mostra que a Segurança Pública é um órgão com menos disponibilidade de recursos do que os órgãos do Judiciário, por exemplo, e que esse investimento de estruturação está atingindo a todos(as), pois não há recursos. Dessa forma, os depoimentos estão ocorrendo em Natal-RN, minimamente duas vezes, em sua maioria dos casos. Um primeiro na Delegacia, e um outro na audiência judicial. O procedimento do Depoimento Especial pode ser menos constrangedor que a forma de atuação tradicional dos tribunais, entretanto, a promulgação da Lei não previu orçamento, nem outros aspectos necessários para que houvesse uma implementação de um sistema que violasse menos a vítima.
Outro desafio que sobressaiu nas entrevistas diz respeito à formação dos atores da rede na temática proposta na Lei nº 13.431/2017. A entrevistada 3 discorre sobre:
Os desafios são vários, entrando no que há de controversa na Lei, eu acho precisa se capacitar, e não só os(as) profissionais que aplicam a técnica em si, mas toda uma rede, não só em DE e EE, mas toda uma rede, todos os serviços, todos os(as) profissionais que atuam com isso. No sentido de que eles precisam entender o que é que é a Lei, do que é que ela trata. De forma geral, como se olha para crianças e adolescentes que se configuram como vítimas de violência. O outro seria articular essa rede, porque ela está muito segregada, para que ela funcione, então na hora que eu estou ali na escola e eu identifico um caso e eu não sou uma profissional capacitada, que eu não tenho a capacitação na escuta especializada, eu tenho que saber, ter esse entendimento, né? Do que trata a Lei, de toda a dinâmica do abuso, etc. e entender que eu não sou uma profissional que devo me meter nisso, mas eu tenho que saber quem eu devo procurar, e aí eu tenho que ir lá e ter uma rede articulada, então se eu vou lá buscar um profissional que é capacitado em escuta no CREAS, por exemplo, então eu preciso saber disso, e eu preciso que esse CREAS também entenda que isso é uma responsabilidade dele, e que ele tenha um profissional capacitado que isso é uma demanda dele, então enfim, precisa ver toda essa articulação dessa rede, e para além dessa capacitação também na escuta e no depoimento, né? Que acho também que isso é outra coisa muito difícil, porque a gente vive todo um desmonte da saúde, da assistência, da educação, então é muito difícil proporcionar tudo isso (Entrevistada 3 – Judiciário).
A representante da Assistência Social reforça a necessidade de formação dos atores da rede e comenta a falta de prioridade do Governo em investir nos(as) servidores(as) que a
integram. Para que consigam atuar de forma técnica e ética, os(as) profissionais da Assistência Social buscam por meios próprios sua formação:
Não temos formação alguma fornecida pelo Governo! E principalmente para os servidores novos. O que a gente tem é a bagagem que os profissionais trazem da sua própria formação, como a gente tem aqui pedagogos, assistentes sociais, psicólogos...vai aprendendo com a experiência (Entrevistada 5 – Assistência Social).
Há uma grande preocupação em formar servidores(as) para atuar como entrevistadores(as) no procedimento do DE, até mesmo para atender a uma das exigências da Lei que seria a atuação baseada em protocolos. Entretanto, a formação é necessária para todos(as) os(as) integrantes da rede, inclusive para juízes, advogados(as)/defensores, promotores(as) que não atuam como entrevistadores(as), porém precisam entender a dinâmica do procedimento, que difere do que já era realizado comumente. Além disso, para a escuta especializada nos demais órgãos, os(as) profissionais precisam também de formação específica tanto pelo fato da escuta, quanto por saber que ao se tratar de sujeito em formação, há peculiaridades no atendimento, portanto, a formação continuada é imprescindível.
Diante disso, foi proporcionada à rede um curso de formação para os(as) profissionais dos órgãos de saúde municipais, e solicitado à gestão pública a adequação dos settings de atendimento para que as crianças e os(as) adolescentes vítimas de violência tivessem acesso ao acompanhamento psicoterápico. Para surpresa do entrevistado 7, o curso teve uma adesão significativa dos (as) profissionais, que recebeu cerca de 18 participantes do município de Natal-RN, e 16 das demais cidades do estado.
Nesse sentido, compreende-se que a mobilização das autoridades competentes a partir das discussões da Lei nº 13.431/2017 os convocou a refletirem sobre a atenção direcionada às crianças e aos(às) adolescentes vítimas de violência. Isso, por sua vez, é uma das potencialidades proporcionadas pela Lei, que vem mobilizando a discussão não só das novas metodologias, mas impactado na percepção dos atores sobre as práticas antagônicas que eram
realizadas, e impulsionado para novas perspectivas teóricas, éticas e técnicas.
b) Potencialidades
Quanto aos benefícios, percebe-se nos dados coletados maior incidência sobre a “evitação da revitimização” através de um ambiente mais acolhedor e humanizado.
Acho que a contribuição é isso... quando já houve a violação, de no sistema de justiça tentar evitar novas violações. Porque, entrando na minha própria experiência, eu já acompanhei audiências no formato tradicional, passei por situações onde a criança e o adolescente foram violados pelo próprio sistema de justiça dentro da audiência tradicional, então acho que uma das contribuições seria muito nesse sentido, minimizar violações por parte do sistema de justiça. E a outra contribuição seria da própria escuta especializada, de evitar essa revitimização a partir do momento que a C/A se torna vítima dessa violência, de ter que ficar recontando isso diversas vezes, ter que ficar entrando em detalhes que algum profissional está ali perguntando muito mais por curiosidade do que algum entendimento ou o que fazer com aquela informação. Então de facilitar no próprio fluxo mesmo, da proteção nesses casos (Entrevistada 3 - Judiciário).
Agora, por outro lado, eu acho válido, que se esteja pensando nisso, que por exemplo há 15 anos atrás quando eu entrei na assistência e comecei a trabalhar com isso, isso não era uma preocupação. Não se falava no cuidado que tem que ter quando você está escutando uma criança que foi vítima de violência. Então, essa discussão ser lançada, eu já acho um ponto muito positivo (Entrevistada 5 – Assistência Social).
A Lei apresenta algumas lacunas em sua disposição. Deixa abertura para interpretações diversas sobre a autonomia dos profissionais da rede de proteção; não aborda algumas tipologias de violência que são de fundamental importância para a proteção da criança e do(a) adolescente, por exemplo os casos de negligência, exploração do trabalho infantil (CFP, 2018); não apresenta punição para as violências tipificadas em Lei, por exemplo, no caso da vítima ser violentada institucionalmente, embora caracterize a violência não há tipificação do crime; há mais menções sobre o DE do que a EE (CFP, 2018); não deixa nítido de que forma a Lei respalda a proteção infantojuvenil. Porém, há que se perceber que foi a partir do Projeto de Lei
que houve a efervescência das discussões sobre a escuta de crianças ou adolescentes vítimas ou testemunha de violência que há muito tempo estava silenciada.
A discussão sobre a Lei está direcionada mais precisamente para o DE, isso porque a forma que foi imposta implicou na autonomia dos(as) profissionais e estudiosos da área, além da preocupação com o fato da proteção em si da vítima. Entretanto, a discussão sobre a proteção infantojuvenil deveria contestar o sistema, retrógrado, penal de justiça. Por determinação do Código Penal, a vítima sempre que possível será escutada em audiência, e ainda deve ser garantido o direito constitucional da ampla defesa do acusado (Decreto-Lei nº 2.848, 1940). Portanto, as contestações ao DE, não podem desconsiderar a audiência tradicional que será realizada nos casos em que não houver disponibilidade da metodologia DE.
É unânime entre os(as) entrevistados(as) a discussão de que o DE é menos danoso à vítima do que a audiência tradicional caracterizada pelas perguntas diretivas, ambiente hostil e intimidador. A discussão sobre a vítima, em fase de desenvolvimento peculiar e formação, ter que produzir provas para sua própria defesa deve ser ainda tensionada com os poderes legislativo e judiciário. Proporcionar ambiente acolhedor e profissional capacitado para inquirição não é garantia de proteção, essa alternativa pode remeter a subutilização da vítima como fonte de informação para produção de prova processual de forma menos danosa (Gomes & Pereira, 2018).
4.3 Os desdobramentos da implementação da Lei nº 13.431/2017 no município de Natal-