2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 A PREVIDÊNCIA NO BRASIL
2.1.4 Entidades fechadas de previdência complementar
A previdência complementar fechada é um tipo de previdência caracterizada pelo modelo privado e facultativo, sendo destinado a funcionários de empresas ou instituições que patrocinam planos de aposentadoria.
Os planos de benefícios são administrados por Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC). O objetivo é previdenciário, ou seja, a atividade-fim é previdenciária e a atividade-meio é financeira, pois tem que rentabilizar as contribuições arrecadadas (FOLLADOR e ANZOLIN, 2008).
Segundo Martins (2015), nas entidades fechadas, o acesso é exclusivo:
a) aos empregados de uma empresa ou grupo de empresas e aos servidores da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, entes denominados patrocinadores;
b) aos associados ou membros de pessoas jurídicas de caráter profissional, classista ou setorial, denominadas instituidores.
As EFPC´s são organizadas sob a forma de fundação ou sociedade civil, sem fins lucrativos.
AS EFPC´s podem ser qualificadas da seguinte forma:
a) singulares, quando estiverem vinculadas a apenas um patrocinador ou instituidor; b) multipatrocinadas, quando congregarem mais de um patrocinador ou instituidor.
2.1.4.1 A PREVIC
Com a reforma ministerial executada pelo Governo Federal em 2017, a previdência complementar fechada passou fiscalizada e supervisionada pela Superintendência Nacional de Previdência Complementar (PREVIC) e pelo Conselho Nacional de Previdência Complementar (CNPC), vinculados ao Ministério da Fazenda (MF).
A PREVIC, de acordo com o Decreto nº 8.992, de 20 de fevereiro de 2017, é uma autarquia de natureza especial, dotada de autonomia administrativa e financeira e patrimônio próprio, vinculada ao Ministério da Fazenda, com sede e foro no Distrito Federal, com atuação em todo o território nacional como entidade de fiscalização e supervisão das atividades das entidades fechadas de previdência complementar e de execução das políticas para o regime de previdência complementar operado pelas referidas entidades, com as seguintes atribuições.
I - proceder à fiscalização das atividades das entidades fechadas de previdência complementar e das suas operações;
II - apurar e julgar as infrações e aplicar as penalidades cabíveis;
III - expedir instruções e estabelecer procedimentos para a aplicação das normas relativas à sua área de competência;
IV - autorizar: a constituição e o funcionamento das entidades fechadas de previdência complementar e a aplicação dos respectivos estatutos e dos regulamentos de planos de benefícios; as operações de fusão, cisão, incorporação ou qualquer outra forma de reorganização societária, relativas às entidades fechadas de previdência complementar; a celebração de convênios e termos de adesão por patrocinadores e instituidores e as retiradas de patrocinadores e instituidores; e as transferências de patrocínio, grupos de participantes e assistidos, planos de benefícios e reservas entre entidades fechadas de previdência complementar;
V - harmonizar as atividades das entidades fechadas de previdência complementar com as normas e as políticas estabelecidas para o segmento;
VI – decretar intervenção e liquidação extrajudicial das entidades fechadas de previdência complementar e nomear interventor ou liquidante, nos termos da lei;
VII - nomear administrador especial de plano de benefícios específico, podendo atribuir-lhe poderes de intervenção e liquidação extrajudicial, na forma da lei;
VIII - promover a mediação e a conciliação entre entidades fechadas de previdência complementar e entre as entidades e seus participantes, assistidos, patrocinadores ou instituidores, bem como dirimir os litígios que lhe forem submetidos na forma da Lei nº 9.307, de 23 de setembro de 1996;
IX - enviar relatório anual de suas atividades ao Ministério da Fazenda e, por seu intermédio, ao Presidente da República e ao Congresso Nacional; e adotar as providências necessárias ao cumprimento de seus objetivos.
A PREVIC deve assegurar que previdência complementar fechada integra o sistema de previdência social brasileiro e constitui importante instrumento de proteção adicional ao trabalhador e mecanismo de formação de poupança interna de longo prazo, necessário para ampliar a capacidade de investimento do país e diversificar as fontes de financiamento do crescimento econômico.
2.1.4.2 Constituição de planos de previdência complementar
Para a constituição de um plano de benefícios é necessário:
a) Definir o conjunto de benefícios que serão oferecidos aos participantes de acordo com a necessidade identificada pela empresa patrocinadora ou instituidora;
b) Verificar a possibilidade de formação de uma coletividade através do levantamento de dados relativos aos empregados/associados e os respectivos beneficiários que poderão participar do plano (cônjuges, filhos, etc.);
c) Avaliar, atuarialmente, o plano de benefícios objetivando a definição do conjunto de receitas necessárias ao seu funcionamento (plano de custeio);
d) Redigir o regulamento do plano de benefícios; e) Requerer a autorização de funcionamento à PREVIC.
2.1.4.3 Tipos de planos de benefícios
Para Follador e Anzolin (2008), os planos de benefícios administrados pelas EFPC´s são divididos em três categorias:
a) Benefício Definido (BD):
Neste tipo de plano, o valor do benefício do participante é decidido no momento de sua adesão e suas contribuições vão variar à medida de sua vida de trabalho para alcançarem o valor estipulado inicialmente. São planos estruturados como mutualistas e os riscos são da coletividade.
A contribuição do participante e do patrocinador devem ser atuarialmente estabelecidas e tem o custeio estreitamente relacionado à variação do comportamento das características etárias e salariais dos participantes, bem como a rentabilidade obtida na aplicação financeira do patrimônio do plano.
Havendo modificações nas condições do conjunto dos participantes, nos salários ou no plano de benefícios, bem como nas hipóteses atuariais (tábuas de mortalidade, taxas de juros, etc.), o custeio deverá ser majorado ou reduzido para adequação às novas condições. Portanto, o risco é o de ter que majorar a contribuição, uma vez que o nível de benefício é contratualmente garantido.
São necessárias avaliações atuariais periódicas (no mínimo anuais), para determinar se os ativos constituídos somados às contribuições futuras têm capacidade de suportar o pagamento dos benefícios contratados. Se o plano não estiver equilibrado, ajustes deverão ser feitos, aumentando-se ou diminuindo-se a contribuição ou instituindo-se uma contribuição após a aposentadoria.
Esse tipo de benefício é claramente observado na previdência dos servidores públicos brasileiros e o benefício corresponde à integralidade da remuneração.
b) Contribuição definida (CD):
Neste tipo de plano, decide-se o tamanho da contribuição a ser efetuada ao plano, e o benefício do participante é definido no momento da aposentadoria, com base no montante de recursos que o participante tenha contribuído durante o período que trabalhou.
É o plano no qual a contribuição mensal é estabelecida, porém, o valor do benefício não é garantido, pois irá depender do resultado dos investimentos das contribuições no mercado financeiro e do montando acumulado pelo participante. As regras para o cálculo das contribuições do participante e do patrocinador são definidas e estabelecidas nos regulamentos dos planos e permitem um melhor planejamento das despesas futuras por parte dos patrocinadores.
Este tipo de plano não reúne as condições ideais de satisfação dos participantes que fizerem sua adesão próximos da aposentadoria, com pouco tempo para acumular fundos. Por outro lado, é bastante atrativo para as massas mais jovens.
Os planos de contribuição definida são extremamente flexíveis. Os regulamentos podem admitir aumentos, diminuições ou suspensões das contribuições dos participantes. Os patrocinadores podem contribuir paritariamente ou não (1 por 1). As contribuições dos patrocinadores podem ser estabelecidas de forma flexível, podendo variar de acordo com os salários dos colaboradores, tempo de admissão, entre outros aspectos.
Após a fase de acumulação, na fase de recebimento de benefícios, existem, basicamente três opções:
1. Receber as reservas acumuladas e atualizadas em parcela única, denominada de BPU – Benefício em Pagamento Único
2. Receber as reservas acumuladas e atualizadas, mensalmente, por um número definido de parcelas, até a extinção do saldo individual de conta;
3. Receber um percentual das reservas acumuladas e atualizadas, mensalmente, até a extinção do saldo individual de conta;
Não há mutualismo neste tipo de plano, pois a acumulação das reservas é individual. c) Contribuição Variável (CV):
Trata-se de uma combinação entre contribuição definida (na fase de acumulação de recursos) e benefício definidos (na fase de recebimento de benefícios previdenciários). Por exemplo: estruturar os benefícios de risco (auxílio-doença, invalidez e pensão por morte) com as características de benefícios definidos, combinando os benefícios programados (aposentadorias por tempo de contribuição e por idade) com as características de contribuições definidas.
O ambiente institucional da previdência fechada evoluiu bastante nas últimas três décadas. O acesso que antes praticamente se restringia a trabalhadores de grandes empresas (estatais e multinacionais) tem se diversificado de forma significativa, inclusive através da criação de planos instituídos por associações e entidades classistas e da aprovação da previdência fechada dos servidores públicos.
2.1.4.4 Tipos de benefícios de um plano de benefícios
Os planos de benefícios podem conceder os benefícios classificados por:
a) Aposentadoria por invalidez: concedida ao participante que for considerado inválido mediante prova de invalidez ou pela aposentadoria de mesma natureza no RGPS;
b) Aposentadoria programada por tempo de serviço, idade ou contribuição: concedida ao participante que atingir os critérios de concessão definidos no regulamento do plano, como, por exemplo, tempo mínimo de contribuição e idade mínima.
c) Pensão por morte: concedida ao conjunto de beneficiários do participante falecido a partir de sua data de óbito;
d) Auxilio-doença: concedida ao participante que for considerado doente pelo RGPS ou por médicos credenciados pela entidade que administra o plano;
e) Pecúlio por morte: concedido, em pagamento único, ao conjunto de pessoas designadas pelo participante, com importância equivalente a um valor que objetive dar andamento aos projetos da família, como, por exemplo, cobrir despesas de estudo dos filhos, manter moradia, sustento, etc. não cobrindo pensão, caso já esteja prevista no plano.
2.1.4.5 Tipos de rendas de um plano de benefícios
Os planos de benefícios podem ser classificados pelo tipo de renda:
a) Renda vitalícia: o benefício é pago a partir de uma idade pré-definida até o momento do falecimento do participante;
b) Renda temporária: o benefício é pago a partir de uma idade pré-definida e durante por um período pré-definido, encerrando-se no falecimento do participante ou o período estabelecido de gozo do benefício.
2.1.4.6 Desafios da Previdência Complementar Fechada
O sistema de Previdência Complementar brasileiro, nos últimos tempos, tem encarado diversas situações que colocam à prova quase que diariamente sua eficiência, solidez e maturidade. Dentre esses desafios cabe destacar: a proliferação de planos de contribuição definida e de contribuição variável em suas mais diversas variantes; a possibilidade do participante poder optar por perfil de investimento mais conservador ou arrojado para seu plano; o aumento da longevidade da população e demais alterações demográficas; as rotineiras modificações societárias de patrocinadores e de entidades fechadas de previdência; os desafios da gestão de riscos diante das crises financeiras internacionais e muitos outros (ALVES, 2009). Assim, por estarem inseridas num ambiente de alta competição, caracterizado por uma sociedade profundamente afetada pelos paradigmas introduzidos pela "era do conhecimento", as EFPC´s estão cada vez mais dependentes de mecanismos eficazes de administração da
informação, visando à redução do quadro de incerteza em que suas decisões são tomadas. As organizações, a fim de se tornarem competitivas e eficazes, estão adotando um novo modelo de gestão, que alia o uso dos recursos tecnológicos à sua capacidade de inovação, criação e transformação da informação em insumo capaz da alimentar e sustentar seus processos (RODRIGUEZ, 2002).
Para Tafner (2012, p.146), o equilíbrio do sistema previdenciário depende não apenas de suas condições próprias, mas das variáveis que estão fora do sistema. No seu próprio âmbito, depende, por exemplo, das regras de elegibilidade e de concessão dos benefícios, do valor destes, das regras de contribuição e das alíquotas. Fora dele, depende do nível de emprego, do grau de formalidade, do salário real médio e da produtividade – variáveis que são determinadas no mercado de trabalho e estão sujeitas às condições macroeconômicas e institucionais. Depende, ainda, da dinâmica demográfica que, por sua vez, depende das condições sanitárias, de higiene, de saúde e de hábitos da população. Costumes e valores da sociedade que determinam o comportamento das famílias, que são mutáveis no tempo.
Diante deste cenário complexo e dinâmico, aderir ao plano de previdência complementar torna-se uma decisão cada vez mais desafiadora.