CAPÍTULO 2. AS GUARRAS DA ÁGUIA: a política norte-americana para o
2.2. Da ilha de Hispaniola à República Dominicana
2.2.1. A entrada dos Estados Unidos: a crise se aprofunda
A rapidez com que a situação dominicana mudou de rumo explica, em parte, as contradições da política norte-americana naqueles últimos dias de abril de 1965. As sucessivas reviravoltas civis e militares, as contradições entre as ações do Departamento de Estado, tentando não se comprometer ostensivamente no conflito e moderar a crise (como prova, a negativa de Mann de fornecer inicialmente equipamentos de telecomunicações, armas e munições a qualquer um dos dois grupos), aliadas à própria ação do embaixador Bennett, claramente favorável à “Junta” vão, finalmente, desembocar na intervenção.
Diante do telegrama de Bennett, de 28 de abril, no qual este concluía com simplicidade: “A hora de enviar os marines chegou”138, Johnson reuniu seus assessores (Rusk, McNamara, Ball, Mac Bundy e Bill Moyers) e decidiu: “Eu disse aos meus conselheiros que não ficaria sentado assistindo a perda de vidas Americanas, nesta situação. Se as autoridades locais não podem prover proteção, nos não temos outra escolha a não ser providenciarmos nós mesmos a proteção necessária”139.
137 LOWENTHAL, Op.Cit., p.101.
138JOHNSON, Lyndon B. The Vantage Point. Nova York, Holt Rinehart and Winston, 1971, p.194. 139Ibidem., JOHNSON, Op.Cit., p.195.
O governo norte-americano, em nome da preservação de vidas de cidadãos dos Estados Unidos, rompeu de vez com 32 anos de política de "boa vizinhança” na América Latina. São Domingos marcou a 20ª intervenção norte-americana no Hemisfério no século XX e a 65ª desde 1806140, numa revitalização da Doutrina Monroe nas suas relações com a América Latina. O pretexto inicial de salvar vidas norte-americanas cedeu lugar ao perigo comunista. A dupla Johnson-Mann vai tentar aproveitar a situação dominicana para implementar uma nova política interamericana.141 Nesta, os países-chave (onde se concentram as maiores riquezas, território, população e, naturalmente, os maiores investimentos norte-americanos) seriam considerados "aliados preferenciais” e desempenhariam, no nível regional, o papel de coadjuvante nas intervenções diretas dos Estados Unidos. Nesse contexto, o Brasil desempenharia o principal papel coadjuvante em S. Domingos. Era, supostamente, o prólogo para um entendimento muito mais forte, incluindo Vietnã e América Central.
Johnson tinha plena consciência das implicações de sua decisão. Mas o “staff” norte-americano conhecia a fundo os problemas dominicanos e não ia se deixar enganar por alarmismos, e decidiu agir, também, para “dar um exemplo” a outros possíveis movimentos reformistas no Continente. Os argumentos de salvar vidas e de conter a ameaça comunista não devem ser considerados exclusivos para a intervenção142. Tratava-se, também, de mandar um recado a todos aqueles latino-americanos que interpretavam Cuba como um sinal de fraqueza dos EUA. Nesse sentido, os Estados Unidos estavam fortes e alertas.
Na mesma ocasião, Johnson pediu a Rusk que comunicasse sua decisão a todos os embaixadores latino-americanos e à OEA, solicitando a esta que se reunisse de imediato.143 Logo após, reuniram-se na Casa Branca os principais líderes do Congresso para a sessão de informação, pois a decisão de intervir já havia sido tomada. Aliás, quando Johnson autorizou formalmente a intervenção dos fuzileiros navais, estes já haviam desembarcado.
140 “EUA intervieram 65 vezes no Hemisfério”. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 30/4/65, cad.1., p,2. Vide
também tabela sobre intervenções norte-americanas nos anexos.
141DRAFER, Theodore. “The Dominican Crisis”. Commentary 40 (6): 33-6S. Dec. 1965. p.34-6
142Para uma proposta destinada a eliminar o pretexto da intervenção com fins humanitários ALEIXO,
Op.Cit., p.19.
A escalada intervencionista iría prosseguir. Os primeiros soldados da 82ª divisão aerotransportada do exército dos Estados Unidos, baseada em Fort Bragg, Carolina do Norte, desembarcaram na noite de 29 de abril na base de San Isidro, chegando a um total de 18.000 soldados, nos três primeiros dias, representando esse desembarque de tropas uma violação da Carta da OEA e um “atropelo” do princípio básico do sistema interamericano, o de não-intervenção. Descartados os motivos invocados para justificar a ilegalidade da ação, restam demonstrar os reais motivos que levaram à intervenção.
Para os EUA, assim como para o Brasil, a República Dominicana foi um pretexto para implantar uma nova política interamericana, baseada na ameaça internacional contida em certos conflitos internos. Na dimensão local, os EUA intervieram para conservar o status quo, pois tinham investido pesadamente em Reid. Diante da evidência da derrota deste, apoiaram os que mais garantia lhes ofereciam para seus investimentos: a “Junta Militar”. Esta, por sua vez, terá sido descartada sem escrúpulos assim que surgiu um governo mais aceitável, formado por Imbert Barreras, que por sua vez seria também descartado assim que aparecesse o governo provisório de Garcia Godoy. Todos eles, porém, eram frágeis, e deviam a sua existência aos Estados Unidos.
Os principais formuladores no executivo da política externa dos EUA concordaram com a intervenção, pois desejavam implantar um novo sistema interamericano. Ficariam assim com maior liberdade de ação no sudeste asiático (o tema principal do governo de Johnson), contando com a colaboração mais intensa e planejada dos “aliados preferenciais” para manter o Hemisfério em ordem.
O presidente Johnson encarregou-se de dar um conteúdo doutrinário às novas bases da política dos EUA para a América Latina em seu discurso de 28 de maio de 1965. Proferido na Universidade de Baylor, em Waco, Texas, a fala presidencial definiu o que veio a ser chamado de "Doutrina Johnson" em relação ao Hemisfério144. No discurso, Johnson enfatizou a importância da FIP e citou-a como exemplo das novas relações interamericanas.
Os norte-americanos chegaram a ter 22.000 homens na República Dominicana em 2 de maio de 1965. Nesta data, a OEA já atuava, desempenhando um papel de grande relevância.
144JOHNSON, Lyndon B. Discurso de 28/5/65. In: Política Externa Independente I (2); 273-7. ago. 1965.