Após a qualificação do projeto de tese, que aconteceu em 27 de abril de 2009, senti-me mais segura para adentrar no campo de pesquisa. Num primeiro momento, era necessário identificar esses ex-reitores e ex-pró-reitores que voltaram para a sala de aula. Das conversas com o professor orientador Cristiano Cunha, surgiu o nome do professor Darcy Laske, secretário executivo do Sistema ACAFE (Associação
Catarinense das Fundações Educacionais), como uma pessoa que pudesse indicar professores que viveram essa transição.
Após um primeiro agendamento de horário, o professor Darcy me recebeu com uma postura de acolhimento e de reciprocidade profissional. Foi uma conversa muito amistosa e produtiva. A partir daí, eu tinha uma lista de dezesseis professores, que, após terem deixado seus cargos de reitores e pró-reitores em universidades do Sistema ACAFE, voltaram para a sala de aula, para atuarem como docentes.
De forma aleatória, comecei a estabelecer contato com esses professores, iniciando pelo primeiro nome destacado pelo professor Darcy. Dos oito primeiros nomes da lista, consegui contato com quatro, sendo que os demais, ou não estavam mais trabalhando na universidade indicada ou não tinham voltado para a sala de aula após terem deixado o cargo de reitor ou pró-reitor. Após ter realizado a entrevista com esses quatro, senti a necessidade de conhecer outras experiências vividas e, nesse momento, acatei outros dois nomes, indicados por um dos professores já entrevistados, mas que também estavam presentes em minha lista inicial.
Escolhi os seis sujeitos significativos deste estudo de acordo com o método de saturação de dados. O fechamento amostral por saturação teórica é compreendido como a suspensão de inclusão de novos sujeitos quando os dados obtidos apresentam, na avaliação do pesquisador, uma certa redundância ou repetição, não sendo considerado relevante persistir na coleta de dados. Isto quer dizer que as informações fornecidas pelos novos participantes do estudo pouco acrescentariam ao material já obtido, não mais contribuindo significativamente para o aperfeiçoamento da reflexão fundamentada nos dados que estão sendo coletados (GLASER; STRAUSS, 1967).
As informações cedidas pelo quinto entrevistado começaram a se repetir, mesmo assim escolhi mais um professor para entrevistar, o que acabou confirmando, para mim, a repetição. Ao final da transcrição das entrevistas realizadas com a Beatriz, que foi a sexta professora entrevistada, decidi não acrescentar mais nenhum sujeito à minha pesquisa.
Inicialmente, fiquei ansiosa, por acreditar que talvez os sujeitos não aceitassem participar da pesquisa, pelo tempo de que teriam que dispor e, sobretudo, por exporem seus sentimentos, suas intimidades, suas experiências pessoais.
Consolidei a primeira aproximação dos sujeitos via contato telefônico, no qual eu falava resumidamente sobre o meu projeto e
tentava marcar uma conversa presencial. Antes mesmo dessa primeira conversa, os sujeitos já solicitavam que eu lhes enviasse, via e-mail, o roteiro das três entrevistas (Apêndice A) e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (Apêndice B). Nesse primeiro contato, percebi que meu medo era infundado, já que todos os professores escolhidos aceitaram fazer parte da minha pesquisa e se mostraram interessados no estudo e nos possíveis resultados. Essa recepção, por parte de todos, não poderia ser mais carinhosa e gentil.
Colocar-se numa posição de escuta e perceber a presença do outro como fundamental para o desenvolvimento da pesquisa é a essência da pesquisa qualitativa. Nessa perspectiva, utilizei a entrevista em três tempos semiestruturada, preconizada por Seidman (1998). Essa técnica reúne e explora as falas dos entrevistados, permitindo ao pesquisador compreender profundamente o significado do fenômeno humano. Esse tipo de coleta de dados procura estimular a pessoa entrevistada a descrever e, sobretudo, refletir sobre a sua experiência no contexto de sua vivência (SEIDMAN, 1998).
Na primeira entrevista, estabeleci o contexto da experiência do participante, realizando perguntas abertas, com o objetivo de obter o maior número de informações a respeito do sujeito. Por meio desse primeiro contato pessoal, pude resgatar os fatos mais marcantes das histórias de vida dos participantes.
Na segunda entrevista, os entrevistados reconstituíram os detalhes de sua experiência dentro do contexto em que ocorreu. As questões que nortearam essa entrevista foram: “descreva sua experiência vivida como gerente”, “descreva a experiência da transição”, “descreva a sua experiência vivida como contribuidor individual”.
No terceiro encontro, solicitei aos participantes uma reflexão sobre o significado da experiência vivida. A questão que norteou essa etapa foi: “qual o significado da experiência vivida por você no processo de transição de líder para contribuidor individual?”. Além disso, nesta entrevista pude ratificar algumas informações obtidas nas entrevistas anteriores.
Um quarto encontro aconteceu com três entrevistados pelo fato de eu não ter alcançado o objetivo proposto no terceiro encontro. Transcrevendo as entrevistas anteriores, antes de partir para a próxima, percebi a necessidade de aprofundar com esses três sujeitos alguns temas que não estavam esclarecidos para mim. Essa experiência foi interessante, pois pude enriquecer os dados. Na verdade, a possibilidade do quarto encontro já estava prevista, e foi interessante eu ter destacado
isso no TCLE, o que me garantiu, junto aos participantes, uma imagem de pesquisa planejada.
No período entre maio de 2009 e março de 2010, realizei vinte e uma entrevistas, ao todo, com os seis professores, sendo que, ao final, eu tinha um pouco mais de vinte e seis horas de entrevistas gravadas. As falas transcritas totalizaram aproximadamente 300 páginas impressas.
Entendo que as entrevistas funcionaram, acima de tudo, como uma oportunidade de conversação, já que o objetivo desta proposta foi o de compreender um fenômeno pela perspectiva do indivíduo, mais do que obter informações sobre sua experiência (EVANS, 1999).
Estar em campo, vivendo uma pesquisa fenomenológico- hermenêutica, permitiu que me aproximasse de histórias encantadoras, embora me sentisse também cansada pelos deslocamentos necessários para colher as falas dos professores e fazer as consequentes transcrições. Nessa fase da pesquisa, vivi um misto de sentimentos.
Aparentemente desprovidos de cuidados, os professores ficaram à minha disposição durante a fase de coleta e análise de dados. Alguns se interessaram tanto pela pesquisa, ao ponto de encaminhar mensagens querendo saber sobre o seu andamento. Isso me estimulou, afinal os entrevistados manifestaram interesse no estudo e entenderam a importância da minha pesquisa.