5. Os rebeldes e seus saberes de resistência ao racismo no e do esporte
5.1 Soraia André
5.1.3 Entre a “nipo-negritude” e a “afro-niponicidade”
O caso de Soraia não é trivial ou apenas “distinto”. Constituiu-se em grande medida como um desdobramento de um processo histórico que inevitavelmente culminou na andarilhagem de uma jovem atleta negra, que mesmo despida dos próprios signos culturais de ancestralidade pôde construir sua identidade e inserção no mundo através da incorporação de
141 Trecho de narrativa biográfica disponível no acervo de Memórias Olímpicas por Atletas Olímpicos Brasileiros, gerido pelo Grupo de Estudos - USP.
outras matrizes culturais, o que está longe de ser uma tarefa simples. Segundo Glissant (2005, p. 18), enquanto o processo de imigração para as Américas de povos como os escoceses, irlandeses, italianos, alemães, franceses, dentre outros, permitiu com que “chegassem com suas canções, suas tradições de família, seus instrumentos, a imagem de seus deuses, etc., os africanos chegam despidos de tudo, de toda e qualquer possibilidade que não construída à força.
Soraia nos aparece como herdeira dessa condição diaspórica, participante ativa de um processo de transculturação que beneficiou não só a própria identidade, mas a história de uma modalidade. A expressão Japo-Negra, no caso, significa muito mais que um apelido adquirido no tatame. Representa a síntese de um profundo, complexo e irredutível processo de busca e de enfrentamento às traiçoeiras forças de negação do ser (FREIRE, 1997).
Logo nas primeiras páginas de sua autobiografia, a judoca indica que esse processo de busca não implicou o esquecimento de suas raízes. Pelo contrário, ele a levou diretamente para elas. A procura de si, Soraia encontra no nome composto (André), significados que a aproximam das palavras “bravo” e “guerreiro” (ANDRÉ, 2016). A etimologia da palavra André refere-se justamente a essa imagem da virilidade e da valentia. Deriva “do grego Άνδρέας (Ándreas), formado por άνήρ (aner), que significa “homem”, e άνδρός (ándros), relativo ao homem, másculo, varonil, bem como à mesma família léxica de aner (anér), que significa “homem valoroso”, e de andreia (andréia), que significa valentia” (NEVES, 2003, p.
36). O pastor, sensei de judô e ex-secretário de Esportes do Estado de São Paulo, Jean Madeira, a descreve como uma mulher negra periférica, “que mesmo tendo enfrentado comentários racistas e xenófobos no decorrer de sua vida, jamais aceitou o futuro que queriam lhe impor.
Lutou, mas lutou muito para se transformar na Japonegra” (ANDRÉ, 2016).
A atleta reitera que sua integração à comunidade judoística não foi lá um mar de rosas.
Foi marcada por muitos conflitos culturais. Das principais contradições relacionadas à preservação da tradição nipônica, destacava-se o reforço à diferença e humilhação decorrente do modo pejorativo com que, à princípio, o apelido “japonegra” se opularizou. A ressignificação do nome contou em grande medida com a veia poética de Soraia ironia, hábil em capturar ironias e repelir feitiços. O alisamento do cabelo, nesse sentido, não pode ser visto apenas como submissão à ordem. Havia nessa relação algo de disfarce e dissimulação. A luta visível se dava apenas no tatame. A adaptação à hierarquia judoística também compreendia uma forma de disfarce, ao mesmo tempo que consiste um princípio valorizado pela comunidade, e assumido honesta e integralmente por Soraia.
Um segundo aspecto dessa trajetória se refere à paulatina aceitação que da comunidade judoística à presença de Soraia, que consegue identificar no valor pejorativo do apelido
recebido também um “processo iniciático”, algo muito comum entre as subculturas urbanas, instituições totais, grupos de capoeira e tribos indígenas, salvo as variações de significados e papeis distintos que cada rito ou tradição representa para a identidade grupal. A isto cabe acrescentar o fato de que a comunidade da qual Soraia participava também é herdeira de uma diáspora atlântica própria, iniciada a partir da segunda metade do século XX, e caracterizada por uma história de luta por sobrevivência e pertencimento a uma terra assombrada por uma política do branqueamento que guardava preconceito não só aos povos africanos, mas asiáticos.
A relativização da relação que Soraia estabeleceu com a comunidade nipo-brasileira não nos permite minorar os desdobramentos da violência racial que sofreu. Apenas nos ajuda a entender que esta experiência não se permite reduzir à relação opressor/oprimido. Dentro desse contexto, havia espaço para um processo paulatino – e não menos conflituoso – de reconhecimento, talvez celebrado na expressão híbrida “Japonegra”.
Uma vez obrigados a conviver e lidar com um conjunto de posições de identidade e suas especificidades (HALL, 2003), os herdeiros da diáspora negra inevitavelmente encontram-se em situação de conflito, disputa, relações de poder e busca por pertencimento.
Processo que se distingue quando o negro se torna o outro do outro. Ainda quanto ao processo de hibridação experimentado por Soraia, encontramos em Hall (2003, p. 66) a noção de que nenhuma identidade cultural é portadora de tradições imutáveis e puras. “Assim como ocorre na maioria das diásporas, as tradições variam de acordo com a pessoa, ou mesmo dentro de uma mesma pessoa, e constantemente são revisadas e transformadas em resposta às experiências migratórias”. Com isto, podemos deduzir que Soraia se “beneficiou” das porosidades constitutivas de identidades culturais em trânsito e, em alguma medida, permeáveis.
Ao se deparar com uma cultura, corpos e formas de ser diferentes, Soraia constrói a si mesma, imagina a própria cultura de origem e, com base nisso, edifica a sua “nipo-negritude”.
Alvo constante de preconceito, ela não celebra sua negritude à princípio, sob pena de ter sua trajetória esportiva interrompida por alguma arbitrariedade. Estrategicamente, opta pela
“mimese”, pela plasticidade, pelo respeito à cultura alheia, ainda que o gesto não implicasse reciprocidade. Em que pese as feridas legadas por esse duro jogo, no fim das contas, a própria Associação de Judô Imirim foi quem se tornou “um pouco negra”, uma vez elevada à condição de celeiro da primeira mulher negra a integrar a seleção olímpica de judô.
Tive que fazer uns “transformismos”, se este for o termo correto. Eu alisava o cabelo, por isso que tinha o apelido de japonegra. Então foi muito difícil.
Tudo que é do negro, na nossa cultura, é que não presta. Até o samba não presta. Eu tive que desaprender. Era o ritual do “esqueça mesmo o quê você é e adentre a nossa cultura”. E não só do japonês, eu falo do preconceito mais instaurado, algo mais social. É difícil, porque você fica sem referência. Então, quando fui cortada, fui pro divã. Tive que me olhar no espelho e me deparar com uma pessoa que eu tinha esquecido quem era. E eu vi: meu nariz é ondulado, tenho um beição, tenho cabelo duro. E aí ter que responder pra si mesma quem é essa pessoa... Eu era japonegra, mas sou negra, e não sou mais a japonegra. É a figura, acabada. Isso é muito difícil. Difícil porque você tem que negar sua cultura, tem que negar seus valores. E eu só fui quem eu fui no judô, só aprendi, porque é muita ginga. Essa malemolência me ajudou e muito no judô. Talvez, se eu não tivesse isso da minha cultura, talvez eu não conseguisse fazer essa associação muito rápida, muito, muito solta.142
Retomando a análise do substantivo Negro, desenvolvida por Mbembe (2017, p. 255-256), podemos identificar a construção colonial do termo e a forma como esse construto circula no campo da linguagem e das identidades, numa relação não apenas interna, mas externa ao sujeito ao qual se atribui o nome. Para o autor, “negro é, antes de mais, uma palavra” que, por sua vez, remete a um ou uma centena de significados, o que lhe dá “espessura e densidade próprias”, contra a qual não é possível resistir. Não por muito tempo. O uso pejorativo do nome Negro tem por objetivo transmitir à consciência daquele a quem a palavra é atribuída um conjunto de significados. Quanto mais significante for a palavra, mais sensações ela provoca.
A ofensa, nesse sentido, será um dentre os elementos que conferem negativo à palavra.
Segundo a razão colonial, “negro” será a palavra certa para a designação de um “suposto ser”, cujo destino é irreversivelmente diferente dos não negros. Ao mesmo tempo, a palavra serve à identificação de uma forma subumana ou inacabamento. Nesse sentido, negro permanece sendo um nome que foi dado por alguém a alguém; como se a pessoa que o recebe não o tivesse escolhido, mas apenas o tivesse herdado como marca da posição geográfica, social e simbólica que ocupa no mundo. Contudo – e isto é o mais importante a se reiterar à luz da experiência de Soraia – “aquele que está marcado com o nome negro não se deixa enganar por esta providência externa”. Em algum momento de sua trajetória – e aqui se deduz ser o momento mais crítico da dominação racial – Soraia escolhe ser e perseguir um caminho autodeterminado, transformando o próprio desejo de ser e estar num antagonismo anticolonial e antirracista.
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Seu encontro com a branquitude e o preconceito desencadeou processos de reflexão e questionamento acerca do que vem a ser ser negra, e é do interior desse processo de reflexão que o nome negra, posto em evidência com a assimilação da forma “Japonegra”, emerge como identidade ressignificada e potente. Anonimamente, Soraia dava forma ao seu movimento de resistência particular contra as forças visíveis e invisíveis de dominação do seu ser e destino, escapando e/ou equilibrando-se entre a sociabilidade metropolitana e colonial (SANTOS, 2019), recorrendo àquilo que considerou ser um repertório cultural e corporal próprio à negritude: a ginga e malemolência.
Em entrevista cedida à pesquisadora Claudia Farias (FARIAS, 2012, p. 224), a judoca compartilha um pouco mais dos significados desse processo de resistência e ressignificação da identidade, compreendendo que pagou um preço muito alto por tudo:
porque eu tinha que ter comportamentos ditos normais. Não podia gostar de samba, não podia ter meu cabelo ao natural, então foi um preço muito alto, mas eu vi que era uma luz; eu tinha certeza muito grande que através daquilo ia conseguir sair da margem e ter acesso pelo menos à educação, à cultura.
Foi um preço que acabei pagando. Imagina você estar num lugar e as pessoas começarem a olhar para o seu cabelo e comentar alguma coisa, a querer tocar seu cabelo como se você fosse um bicho ou uma pessoa estranha? Ficava mais parecida com o tipo que queriam que eu fosse. No começo eu era negona,
Fonte: Acervo Pessoal.
Figura 4 - Soraia André almoça em restaurante no Japão.
depois passei a ser neguinha, mulata e de cor. Então, a sociedade acabou me embranquecendo. Ou você é branca e faz judô ou se for negra, não tem acesso... Então, eu tive que aprender. Eu falava japonês, tinha que me comportar como uma gueixa. Meu apelido era ‘japonegra’, e até gosto. Eu gostava muito disso, me custou alguns anos de terapia depois, mas isso é outro capítulo que você não deve me perguntar. Então, era um significado mesmo, uma luz no fim do túnel, você abraça isso e ponto final! (FARIAS, 2012, p.
224).
As elaborações de identidade e deslocamentos temporais constitutivos da narrativa de Soraia indicam a forma como, no presente, a atleta constrói a própria memória e dá sentido à própria história. Suas lembranças se misturam a reflexões sobre os problemas e questões que enfrentou durante a prática do judô, principalmente aqueles relacionados às disputas que travou pelo cultivo da identidade negra apesar dos preconceitos. Ao invés de reduzir sua passagem pelo esporte aos resultados e conquistas, ela alarga o campo de visão e nos conduz pelo caminho dos processos, do périplo (RUBIO, 2001), iluminando do esporte a sua face cotidiana e visceralidade constituinte.
Nesta leitura sobre o passado a partir do presente, a atleta reinterpreta sua imersão na comunidade judoística nipo-brasileira também como um processo formativo e de realização.
Conforme ensina a filosofia pedagógica do judô, Soraia teria aprendido – não sem dificuldades – a usar a força dos adversários a seu favor.
Fui gostando do assunto. A filosofia do judô é muito bonita. O progresso e a prosperidade de todos, muito diferente da nossa cultura [brasileira]. Junto com o esporte vem uma cultura muito rica, muito bonita, não só de filosofia de vida, mas algo de pessoal mesmo, de você aprender a cair, levantar, independente de onde você cai. E além do mais, judô significa caminho suave.
Pra mim, era muito parecido com dança, então, estava muito próximo do gravador, da música, da arte, do que eu queria fazer de fato.143
Soraia nos oferece um exemplo prático de como a história da inserção dos afro-brasileiros no esporte é um processo paradoxal, marcado por avanços e recuos, ambiguidades muito pouco compreendidas. As memórias da judoca sugerem que o contexto esportivo compreende uma extensão das estruturas de opressão de raça, gênero e classe, contra as quais os herdeiros da diáspora negra são obrigados a imprimir força contrária. Essa resistência comporta tanto processos de saída da condição de adaptação como processos de inserção no contexto ao qual se pertence. Enquanto a adaptação se refere ao momento de ajuste do corpo as determinações históricas e institucionais, a inserção se refere, dentre outras coisas, à
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possibilidade de o sujeito histórico interferir e/ou alterar a realidade que o oprime (FREIRE, 1997). A biografia de Soraia parece dar corpo a esse processo, uma vez que, em momento oportuno, ela parte da condição de ajustamento às condições dadas para a adoção de posturas rebeldes, não contra a Associação judoística necessariamente, mas contra as regras de interdição à participação da mulher no esporte e contra o regime autocrático que vigorava na confederação da modalidade a qual passou a pertencer e ser fiel representante.