4. Uma antologia do protagonismo negro no esporte: entre pioneirismos e lutas contra o
4.2 Melânia Luz
4.2.2 Poder e contra-poder nas narrativas biográficas de atletas negras
A resistência institucional (e cultural) à presença da mulher no esporte se referia ao gênero feminino de um modo geral. Contudo, no caso das mulheres negras esse processo é acompanhado por modalidades de preconceito e discriminação baseada na cor (FARIAS, 2011;
BONZAGNI, 2017). Semelhante discriminação ocorre na própria historiografia do esporte, tendo em vista a quantidade de investigações e análises dedicas às trajetórias negras masculinas em comparação às trajetórias negras femininas. Em todo caso, a história da presença das mulheres negras ao plano olímpico só pode ser entendida a partir dos seus anos de ausência e das razões sócio-históricas do que podemos chamar de “inscrição tardia” no cenário esportivo.
Em pesquisa intitulada Politics of Exclusion: An Analysis of the Intersections of Marginalized Identities and the Olympic Industry, Emily Bonzagni (2017) demonstra que as inscrições negras no esporte, especialmente durante a primeira metade do século XX nos Estados Unidos, são atravessadas por modalidades de discriminação ora advindas das instituições, na figura de dirigentes e treinadores, ora da relação com os atletas. O ódio racial que marcava o cotidiano da sociabilidade estadunidense não só era transferido como intensificado em função de um regime concorrencial que anulava a solidariedade entre as atletas brancas, vítimas da opressão de gênero. A infrapolítica de solidariedade positiva, por isso mesmo, se limitava aos negros e
a um forte apego à moral meritocrática, única chance que o grupo tinha de escapar às arbitrariedades racistas.
Analisando diferentes trajetórias de atletas olímpicas estadunidenses da época, Bonzagni (2017) confere especial destaque às biografias das velocistas Tidye Pickett (1914-1986) e Louise Stokes (1913-1978). Durante os anos 1920 e 1930, elas despontavam entre as principais velocistas do país, figurando entre as primeiras atletas negras a integrar a delegação olímpica norte-americana. Contemporâneas de Melânia Luz, as trajetórias de Picketty e Stokes nos oferecem pistas, ainda que deslocadas do contexto, sobre como mulheres como Melânia conseguiram participar de um projeto marcado por tantas disputas em torno do corpo feminino e da representação racial da nação.
Conforme Du Bois (1998) advertia, por volta de 1900, ser negro nos Estados Unidos implicava deparar-se e, invariavelmente, decepcionar-se com o conjunto de representações e imagens que em nada dialogavam com a cor de sua pele, cultura e história desse grupo. Isso significa dizer que a inscrição negra no esporte não encerra a questão da opressão. Pelo contrário, ela agrava e não raro traz à superfície tensões até então latentes ou reguladas conforme o distanciamento entre negros e brancos no regime hierárquico-racial estabelecido pelas democracias formais do pós-abolição.
Bonzagni (2017) descreve que a presença de Pickett e Stokes na seleção olímpica de atletismo não era marcada “apenas” pela violência racial, mas pela rejeição às formas de seus rostos e modo de ser. O próprio atletismo compreendia uma primeira referência para a reprodução de toda sorte de insultos contra as atletas negras, condenadas por gostarem de
“modalidades viris”. Impedidas de treinar junto com as colegas de equipe brancas, Pickett Stokes faziam suas sessões de treinamento em um parque público.
As atletas também se valeram de programas esportivos comunitários negros, onde encontravam condições de treinamento, bem como o acolhimento que lhes permitia, ainda que provisoriamente, escapar à violência racial do esporte olímpico. Pickett e Stokes contavam ainda com a solidariedade dos colegas negros de seleção, aos quais Pickett se refere como sendo fundamentais a sua permanência no selecionado norte-americano, a qual já não podia contar somente com o talento. Ser atleta negra, segundo Pickett e Stokes, significava não ter
“...as oportunidades e o capital financeiro que lhe permitiam chegar às Olimpíadas sozinhas”
(BONZAGNI, 2017, p. 23). A ajuda dos colegas de modalidade, no entanto, não as protegia do racismo e sexismo que estruturavam as relações de preparação olímpica. Os traços e jeito de ser de Pickett e Stokes sempre voltavam à baila como referências primeiras da política de desumanização. Como que em situação de asfixia, as atletas eram criticadas por praticarem
atletismo, ao mesmo tempo em que eram impedidas de praticar as modalidades então recomendadas para as mulheres: o golfe e o tênis (BONZAGNI, 2017).
Qualificada para disputar a edição Olímpica de Los Angeles (1932) após obter a melhor classificação nas provas de 100 metros rasos e de revezamento 4x100, Pickett passou frequentar as instalações da delegação. Ali, conheceria Babe Didrikson, uma das atletas brancas mais prestigiadas da época e quem, ironicamente, mais se mostrava contrária à presença dos negros na seleção olímpica. As memórias do cotidiano de treinamento Pickett e Stokes são recheadas de injúrias e humilhações racistas, não só por parte das autoridades do esporte, descontentes com a insistência da dupla, mas também por parte das atletas brancas. Pickett e Stokes contam que durante a viagem de trem a caminho de Los Angeles, elas eram obrigadas a fazer suas refeições e a viajar em vagão separado para negros. Pickett lembra que “todas as outras garotas tinham quartos particulares, participavam do banquete de arrecadação de fundos e eram entrevistadas pelos jornalistas”, enquanto ela e Stokes eram deixadas em sótãos, longe das vistas dos possíveis patrocinadores da campanha olímpica (BONZAGNI, 2017, p. 22).
Legalizada, a segregação racial estadunidense conseguiu naturalizar situações como esta. Embora Coubertin tenha sido testemunhasse ocular de situação semelhante durante a excursão que fez pelo Sul dos Estados Unidos no final do século XIX, nada fez a respeito, se é que poderia, uma vez que um dos motivos da viagem era buscar patrocínios para o seu empreendimento esportivo. Paul Tulane, filantropo e filho de pais escravistas que fugiam de barco para os Estados Unidos durante o estouro da revolução haitiana, encontra-se entre os ilustres doadores da campanha olímpica. “Em sua ata de doação”, registrou Coubertin (2015, p. 85), “o Sr. Paul Tulane estipulou que seu objetivo era a educação dos brancos. Nem é preciso dizer isso: os jovens negros que tivessem a audácia de se inscrever teriam passado por maus bocados”. Diria ainda que:
No Norte, brancos e negros estão em pé de igualdade; há cada vez mais escolas mistas, e diminui cada vez mais rapidamente o preconceito racial. Mas aqui [no Sul] ainda subsiste com toda sua força. Os negros têm seus cafés, seus vagões reservados no trem, suas posições no teatro. Em todo lugar devem dar passagem aos brancos, até na igreja! São maioria e, se quisessem, poderiam terminar com estas vergonhosas distinções; porém estão desunidos e são despreocupados e muito tímidos. A escravidão os deixou submetidos aos seus antigos senhores, e sem dúvida será necessário tempo para que o sentimento de igualdade chegue a uns e a outros (COUBERTIN, 2015, p. 85).
Coubertin, no entanto, falava sobre o Norte e as relações raciais estadunidenses a partir de uma visão bastante precária, para não dizer equivocada. Pickett e Stokes, por exemplo, nos
falam desde Chicago e Boston. Falam da texana Babe Didrikson, que embora fosse alvo de violência de gênero, não poupava insultos contra Pickett e Stokes, “fazia brincadeiras com frequência e até jogava água com gelo enquanto dormiam” (BONZAGNI, 2017, p. 23). A condição paradoxal de Didrickson estabelecido pelo próprio sistema esportivo que a abarcava juntamente com a dupla afro-americana. Multiatleta e campeã olímpica, Didrickson desafiava o regime patriarcal de seu tempo, conquistando o reconhecimento do próprio movimento feminista e sendo por isso mesmo associada a ele. Essa condição a tornava um alvo fácil do sexismo, o que a fazia buscar na branquitude e no exercício de poder sobre as atletas negras a desvinculação com a classe oprimida. “Aquela menina grande do Texas, ganhadora de tantas medalhas, simplesmente não gostou de mim, não me queria na equipe… era preconceito, puro e simples”, lembra Pickett (BONZAGNI, 2017, p. 22-23).
Bonzagni (2017) concebe as experiências do racismo e da misoginia institucionais vivenciadas Pickett e Stokes, Didrickson e outras, como sendo parte constitutiva do que ela chama de indústria olímpica. Em tempos de intensa segregação, atletas não brancos, não homens e que não pertencessem à burguesia, dificilmente escapavam dessas engrenagens, as quais se associavam a imprensa com sua capacidade de construir/produzir peças difamatórias sobre atletas negros e negras.
A trajetória de Tidye Pickett e Louise Stokes trata de uma questão crucial à reflexão sobre a relação esporte e mulher negra, demonstrando quão importantes são os relatos biográficos para a compreensão não só da forma como as relações raciais, de gênero e de classe se distinguem, mas como são instrumentalizadas no e pelo esporte. Embora mais rápidas e capazes que suas adversárias, Pickett e Stokes não experimentar a promessa meritocrática do esporte. Assim como Melânia Luz, suas histórias têm sido estudadas e celebradas no presente, talvez porque o passado dessas atletas esteja carregado de futuro, ou porque sejam portadoras de sua chave de acesso: a luta.
4.2.4 “Eu fiquei na história. Eu também competi. Não é que me deixaram”
Melânia acabava de completar 20 anos de idade quando tomou o avião rumo aos Jogos Olímpicos de Londres. Sua experiência no atletismo não tinha mais que cinco anos. Começou sua trajetória no Clube de Regatas Tietê, mas se transferiu logo depois para o São Paulo Futebol
Clube, que à época ficava no Canindé, no centro da capital paulista, onde, a poucos quilômetros dali, vivia com a família. Especialista das provas de salto e velocidade, esbanjava talento nas competições estaduais, nacionais, sul e panamericanas (RUBIO, 2015). Seu encontro com o atletismo sugere um processo distinto e aparentemente “menos turbulento”, se comparado as trajetórias de Pickett e Stokes. Contudo, a dimensão da solidariedade negra está fortemente presente na fala de Melânia.
A equipe a qual Melânia integrou no São Paulo Futebol Clube, conforme ela mesmo recorda, apresentava uma formação multiétnica e fortemente alinhada à justiça pelo mérito, não pelo privilégio de cor. Este, se apresentava amalgamado à cultura classista do clube, presente nos regimentos, mas também na paisagem de ocupação da área social dos Clubes. Melânia se inscrevia entre os chamados “atletas militantes” ou “atletas associados”, grupo cuja presença no clube se justificava pelo talento116, isto é, pelo “fim precípuo de aumentar o quórum para treinamento de qualquer modalidade”. Embora representassem o brasão do clube, os atletas associados só podiam “frequentar as dependências sociais durante os treinamentos e as competições de sua modalidade, não possuindo qualquer outro direito dos Associados”, conforme estipulam os artigos 15 e 16 do Estatuto e Regimento da instituição117 (FERREIRA JÚNIOR, 2021).
Até meados dos anos 1950, o discurso da superioridade/inferioridade negra transitava com distinta liberdade pelo imaginário brasileiro, protegido pela sombra da democracia racial e da cordialidade (FERNANDES, 1972a), ser mulher, negra e atleta, bem como a primeira a compor o quadro olímpico (SHUMAHER e VITAL BRASIL, 2006), não era só incomum, como também uma condição de visibilidade bastante sensível. Conforme Goellner (2005, p.
214) explica, a crescente ocupação da cena pública e do esporte pelas mulheres a partir da primeira metade de século XX não era apenas recebida com estranhamento, mas como uma onda de desestabilização da sociedade, posto que “colocava em suspeição uma representação de mulher arraigada aos valores da família, do recato e da honra”. Os conflitos decorrentes desse novo momento, fazia emergir saudosismos associados ao passado colonial recente, à crença nos destinos opostos entre negros e brancos, muito embora a celebração da mestiçagem como um “dado objetivo” da ausência de racismo no Brasil também circulava sem maiores
116 SÃO PAULO. São Paulo Futebol Clube. Ata da Assembleia Geral e Estatutos Sociais, Artigo 4º, Parágrafo 2, p. de 25 a 27 de janeiro de 1930. Arquivo Histórico. Inciso 2. Disponível em:
http://www.spfcpedia.com.br/ebooks/2019-02-14_ata-e-estatutos-1930.pdf, acessado em 29 de setembro de 2019.
117 SÃO PAULO. São Paulo Futebol Clube. Estatuto Social, de 17 de janeiro de 2017. Disponível em http://www.saopaulofc.net/o-clube/estatuto-e-regimento, acessado em 29 de setembro de 2019.
contestações (FERNANDES, 1972a). Proibido de se converter em ato político118, o pioneirismo de Melânia Luz permaneceria em silêncio, não podendo celebrar a si mesmo. Fazer algo do tipo, representaria romper com o contrato de cordialidade preestabelecido (SALES Jr, 2006).
Mas quando não era o racismo a principal dinâmica de produção da invisibilidade, o patriarcado é que orientava a resistência à presença da mulher no esporte, conquistando inclusive status de lei. 1941 foi o ano em que um general chamado Newton Cavalcanti encaminhou ao Conselho Nacional de Desportos (CND) uma solicitação de suspensão das práticas de futebol, lutas, boxe, além de salto com vara, salto triplo, decatlo e pentatlo. Com base em antigos pressupostos biológicos e morais, o documento recomendava que às mulheres cabia a prática de qualquer outra modalidade que não exigisse grande esforço (GOELLNER, 2005).
Curiosamente, a configuração da equipe de atletismo do São Paulo à década de 1940 parecia ignorar a recomendação. Melânia se lembra que nessa época “não era fácil fazer atletismo, era difícil quem ia fazer atletismo porque o Gerner também não era fácil. Ele fazia a gente treinar mesmo, dar resultado. E sempre foi assim”.119 Dietrich Gerner, era o treinador responsável pelas equipes masculina e feminina de atletismo do São Paulo. Foi fundamental ao processo de aprimoramento técnico de Melânia, garantindo a sua participação nos Jogos Olímpicos. Sob os seus ensinamentos também lograram sucesso atletas como Wanda dos Santos, José Bento de Assis Junior e Adhemar Ferreira da Silva.120
Em sua narrativa biográfica, Melânia faz questão de reconstruir esse cenário para dizer que não estava sozinha em sua jornada esportiva. O seu ingresso no atletismo do São Paulo também contou com os incentivos da mãe e principalmente do pai, que segundo Melânia
“sempre gostou do esporte porque também gostava do São Paulo e ia na assistência e tudo”.121 Junto com ela “...tinha outros, tinha Adhemar Ferreira da Silva, eu, a Wanda também. Todos
118 São Paulo. São Paulo Futebol Clube. Ata Geral e Estatutos Sociais, Artigo 17º, estipulava que “os sócios no seio do clube não poderão cultivar jogos de azar nem fomentar discussões políticas ou religiosas visto que o São Paulo Futebol Clube é inteiramente extranho a quaesquer movimentos que não se relacionem extrictamente com os fins para que foi creado”. Disponível em:
http://www.spfcpedia.com.br/ebooks/2019-02-14_ata-e-estatutos-1930.pdf, acessado em 29 de setembro de 2019.
119 Trechos de transcrição de entrevista realizada no ano de 2012, disponível em acervo digital das Memórias Olímpicas por Atletas Olímpicos Brasileiros, administrado pelo Grupo de Estudos Olímpicos com sede na Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo.
120 Não encontra datas de nascimento e morte do treinador.
121 Trechos de transcrição de entrevista realizada no ano de 2012, disponível em acervo digital das Memórias Olímpicas por Atletas Olímpicos Brasileiros, administrado pelo Grupo de Estudos Olímpicos com sede na Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo.
daquele tempo em pista de carvão”.122 A trajetória desses atletas estava atravessada por um
“espírito patriótico” e, para nós que olhamos de longe, suficientemente romântico para lidar com o regime voluntarista e espartano da modalidade (RUBIO, 2004; RUBIO e FERREIRA JUNIOR, 2012). O único recurso que Melânia e seus companheiros recebiam, mesmo durante preparação olímpica, era o destinado aos custos de viagem, hospedagem e alimentação durante os dias de competição. Não raro associado aos estudos, o trabalho remunerado que exerciam sustentava os treinamentos, noturnos durante a semana, matutinos aos fins de semana. “...Eu já trabalhava também, eu ajudava [aos pais]. Eu tinha que trabalhar... Na época era até o meio-dia [o expediente], e quando era à noite a gente já saia pra ir treinar”.123