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1 INTRODUÇÃO

2.7 ENTRE A TECNOLOGIA E A EXPERIÊNCIA DE ALTERIDADE

Corrêa e Loyola (1999) apontam que, desenvolvidas as pesquisas, os médicos, que transitam

frequentemente entre os setores público e privado, deslocavam a experimentação para as

clínicas privadas especializadas, onde mulheres eram submetidas a procedimentos

viabilizados por médicos brasileiros, mas liderados por médicos estrangeiros, que vinham ao

país com o fito precípuo de participar de palestras em seminários sobre a temática,

aproveitando para desenvolver sua pesquisa, nativa de um país central.

Assim, apesar da abordagem midiática a respeito dos recursos laboratoriais para a

procriação possuir um apelo afetivo, conferindo conotação altruísta a tais procedimentos, toda

a dinâmica que envolve a relação indivíduo-laboratório está gravada de feição econômica. A

própria linguagem que arregimenta a procriação artificial é indicativa deste contexto, tal como

se pode intuir das expressões recorrentes neste âmbito, como as que se assentam na doação de

gametas e de embriões, no contrato de gestação em útero alheio e no congelamento de

embriões dentro de um prazo de validade.

2.7 ENTRE A TECNOLOGIA E A EXPERIÊNCIA DE ALTERIDADE

Consoante reiteradamente apontado no presente capítulo, as últimas décadas foram

responsáveis por descerrar nova vereda rumo à experiência de ter filhos, iluminada pela

biotecnologia. Novas possibilidades são conferidas àqueles que, apesar de seu querer

manifesto, encontram, sobretudo, em sua corporeidade limitações ao cumprimento do

percurso biológico que perpassa pela concepção e pela gestação, culminando com o parto.

A reprodução assistida, todavia, não se afigura como um artifício tecnicamente

infalível, tampouco eticamente incontroverso, como se esboçou neste capítulo. Mesmo assim,

a procriação artificial se instala, cada vez mais, no cenário social da atualidade. Evidenciou-se

que as técnicas de reprodução humana assistida, muito embora recentemente anunciadas, já se

encontram solidificadas em grande parte dos países, gozando de considerável acolhimento

pelas pessoas nas mais diversas sociedades.

Almejando mergulhar no fenômeno hodierno da constituição dos laços entre pais e

filhos, empenhou-se o presente capítulo por apontar elementos da vida social que, conectados,

conferem amplo arcabouço para a guarida da interferência da tecnologia e das ciências

biomédicas sobre o evento tradicionalmente natural em que, historicamente, se constituiu a

geração de filhos. Não há como se compreender, com êxito, em que consiste a procriação

artificial, como evento social, se forem desprezados os traços do pensamento desenvolvido

pelo homem na contemporaneidade. Como discorre Lipovetsky (2014, p.56), “o Estado recua,

a religião e a família privatizam-se, a sociedade de mercado impõe-se: apenas está em jogo o

culto da concorrência económica e democrática, a ambição tecnicista, os direitos do

indivíduo.”.

Medicalização da vida, valorização dos laços biológicos de parentesco, consagração

do individualismo e robustecimento da sociedade de consumo: quatro circunstâncias que,

permeando a existência social do sujeito do presente, não poderiam deixar de ecoar no desejo

de ter filhos e na consideração do laboratório como reduto idôneo à realização de tal intento.

O entrelaçamento dessas quatro circunstâncias sociais tem empanado, entretanto, a

feição daquilo que, essencialmente, se edifica entre os pais e filhos: uma relação. Com efeito,

a experiência em família se afigura como o berço para a experiência elementar da pessoa, que

é a alteridade. É na família que, por primeiro, a pessoa se encontra com o outro, tão diverso de

si, mas de presença irretorquível, que exige um estatuto fundado no reconhecimento de sua

existência.

A maneira como são estabelecidas as relações familiares, portanto, se revela como o

protótipo para as relações que, para além dos lares, o sujeito haverá de empreender com o

outro, durante todo o percurso de sua vida. Apesar de aparentemente paradoxal tal afirmação,

a identidade do indivíduo não se pauta precipuamente em seu mundo particular, em seus

desejos particulares, em seus projetos exclusivamente íntimos. O homem constitui sua

identidade através da relação, do contato com o outro, na experiência da interlocução.

A relação entre pais e filhos não prescinde de tal contexto. Urge, pois, retomar a

reflexão sobre estes laços, transcendendo a percepção assentada no solipsismo, na valorização

das dores e desejos do sujeito que pretende sagrar-se pai e que, perseguindo a realização de

seu propósito, se acerca das tecnologias reprodutivas. Ter pais e ser filhos é uma experiência

relacional – a primeira, para aquele que acabara de ser concebido, sendo também uma das

mais relevantes para aqueles que acabaram de se tornar pais.

Afigura-se, enfim, de relevância inconteste a retomada da reflexão que é aportada

pelos estudos da alteridade, ocupados em decifrar a relação com o outro como a experiência

elementar da pessoa, hábil a traduzir sua condição existencial no mundo.

Constituído o conceito respectivo, convém considerar de que modo ele se espraia no

âmbito familiar, tangenciando as relações entre pais e filhos na contemporaneidade. Assim

situado o raciocínio, será possível, então, se acercar da filiação que é constituída pela

procriação artificial, exorbitando da apreensão individual do fenômeno, que é edificada à luz

da subjetividade exclusiva daqueles que a ela buscam.

Identidade e alteridade, consciência e mundo. A pretensão de aproximar tais

conceitos, aparentemente paradoxais, é que servirá de lastro para a rota a ser trilhada no

capítulo a seguir desenvolvido.

3 O SUJEITO NO MUNDO: RETOMANDO A COMPREENSÃO DA PESSOA À

LUZ DA ALTERIDADE

A considerável frequência com que, hodiernamente, os métodos de reprodução

assistida são utilizados pelos indivíduos não é apenas mais um sinal do avanço da tecnologia

no mundo, a espraiar seus efeitos em diversas esferas sociais, dentre as quais a de índo le

familiar. Esta seria uma visão simplória, que apenas tangenciaria a realidade de modo

superficial.

Como esboçado no capítulo anterior, um olhar mais cuidadoso sobre o assunto leva a

crer que a adesão social às tecnologias reprodutivas é uma representação do entendimento

nutrido pelo indivíduo contemporâneo a respeito do projeto de parentalidade. Trata-se,

portanto, da tradução de uma mentalidade que se edifica na medicalização de sua vida, na

lógica do consumo, no culto ao narcisismo e na valorização dos direitos individuais.

Situar a procriação artificial no contexto acima mencionado não esgota, todavia, o

mister de contribuir com a elaboração do pensamento reflexivo acerca da paternidade de tal

forma constituída. É preciso ir mais além da apreensão do fenômeno sob a perspectiva do

indivíduo que procura as clínicas de fertilização, como se fora um ser isolado, e se seu intento

apenas repercutisse sobre sua existência. O desejo de ter filhos, para cuja concretização acena

a procriação artificial, tem sua culminância com uma relação entre o ser que gera e o ser que

foi gerado, experiência singular do diálogo entre pais e filhos e que se afigura paradigmática

para todas as demais relações que o sujeito desenvolverá, inevitavelmente, no âmago social.

Levando-se em consideração a nota de reciprocidade de que está gravada a

experiência familiar (DONATI, 2008), perfaz-se como bastante apropriada a reflexão acerca

da constituição dos laços entre pais e filhos sob uma perspectiva que ultrapasse os lindes do

raciocínio comumente disseminado, que propõe a preponderância do paradigma individualista

acima referido.

Na rota que conduzirá à apreensão da parentalidade como horizonte essencialmente

relacional, é fundamental ser realizada uma incursão pela Filosofia, celeiro de onde emana a

compreensão intelectual que o homem alcança sobre si mesmo, sua vida e o mundo ao qual

está integrado. Neste percurso, ganha relevo singular a contribuição legada pela

fenomenologia, corrente filosófica ocupada em compreender os acontecimentos que

envolvem o ser humano em sua existência social como representativos de sua consciência

interior.

Partindo do fundamento de que a existência e identidade humanas se esboçam na

relação com o outro, a família se estrutura como espaço de abertura recíproca entre seus entes,

de vidas e interesses que se entremeiam. A relação entre pais e filhos não está privada desta

nota essencial, tampouco o manejo das novas tecnologias reprodutivas.

Ostenta grande relevância, portanto, retomar o percurso teórico-conceitual em que

está assentada a ideia de alteridade, lastro para a satisfatória percepção da condição humana,

exteriorizada através de toda a gama de relações que irá entabular no curso de sua vida,

inclusive (e sobretudo) aquelas de cunho familiar.

Destarte, almeja o presente capítulo retomar a construção da alteridade como

categoria filosófica, à luz do legado tecido pela Fenomenologia constituída especificamente

pelo pensamento de Husserl (2002), elegendo-a como pressuposto indispensável à experiência

humana da constituição das relações familiares.