1 INTRODUÇÃO
4.2 EM BUSCA DA ESSÊNCIA DA EXPERIÊNCIA FAMILIAR: ALTERIDADE E
4.2.2. Da condição dramática à experiência da dádiva
4.2.2.1 O legado etnográfico sobre as relações de dádiva
constituído pelo casal e, na esfera da parentalidade, são envidados esforços para a
quantificação da obrigação paterna destinada à subsistência da prole, corporificada na pensão
alimentícia.
O pensamento estritamente econômico e a consequente correspondência matemática
das prestações reciprocamente assumidas pelas pessoas em relação não conseguem, todavia,
dar conta da realidade vivenciada pela família. A experiência cotidiana que se vai delineando
da vida em comum neste reduto não consegue ser traduzida, senão com muito esforço, à luz
dos parâmetros idoneamente aplicáveis às práticas mercantis. Ao revés, como ainda aponta
Godbout (1999), se apenas com o divórcio se torna visível um cálculo fundado no raciocínio
utilitarista entre aqueles que foram um casal, é porque, antes, vigorava um outro paradigma a
iluminar as relações familiares.
Assim é que se pode asseverar que a condição dramática da vida familiar não
legitima, necessariamente, a consagração da efemeridade dos laços ali desenvolvidos, tal
como estabelece por premissa o raciocínio utilitarista. O drama inevitavelmente vivido pela
família pode proporcionar, outrossim, a consideração de que a vida em comum neste reduto
tem por pressuposta a diversidade de horizontes axiológicos, e que sua preservação passará,
fundamentalmente, pela submissão a tal realidade, inapreensível pela lógica de um cálculo
utilitário que conduza à equivalência econômica de prestações reciprocamente consideradas.
Em uma perspectiva inteiramente diversa, surge, portanto, nova alternativa para a
compreensão da exata densidade das relações familiares e do drama que lhe é inerente.
Superando o paradigma moderno utilitarista, vai-se constituindo uma tradução da experiência
familiar sob os lineamentos de uma “antropologia da dádiva”, que tem como celeiro os
estudos etnográficos realizados por Marcel Mauss e publicados originariamente em 1923, em
obra intitulada “Ensaio sobre a dádiva”. (MAUSS, 2001).
4.2.2.1 O legado etnográfico sobre as relações de dádiva
Assentado em pesquisas etnográficas sobre povos da Polinésia, Melanésia e Noroeste
Americano, Mauss traz a lume o fenômeno das relações de troca antes mesmo do
estabelecimento do mercantilismo moderno. Emana de seus estudos a conclusão segundo a
qual não é exclusividade do período pós-industrial a existência do fenômeno econômico. Ao
revés, já se afigurava existente um comércio, assentado nas relações de troca existentes em
períodos mais remotos, entretanto sob outros contornos:
Nas economias e nos direitos que precederam os nossos, não se observam
nunca, por assim dizer, simples trocas de bens, de riquezas e de produtos no
decurso de um mercado passado entre os indivíduos. Em primeiro lugar, não
se trata de indivíduos, trata-se de colectividades que se obrigam
mutuamente, trocam e contratam; as pessoas presentes ao contrato são
pessoas morais: clãs, tribos, famílias, que se atacam e se opõem quer em
grupos desafiando-se diretamente, quer por intermédio dos seus chefes, quer
de ambas estas duas maneiras simultaneamente. Além disso, o que eles
trocam não são exclusivamente bens e riquezas, móveis e imóveis, coisas
úteis economicamente. São, antes de mais, amabilidades, festins, ritos,
serviços militares, mulheres, crianças, danças, festas, feiras cujo mercado
não é senão um dos seus momentos e em que a circulação das riquezas mais
não é do que um dos termos de um contrato muito mais geral e muito mais
permanente. (MAUSS, 2001, p.55).
Depreende-se, portanto, que as relações socioeconômicas já eram orgânicas nas
sociedades antigas, mas pressupunham outra base para a reciprocidade instaurada, tanto em
termos subjetivos, quanto em termos objetivos, diversa daquela que passou a vicejar com o
mercantilismo moderno e que goza de primazia nas relações econômicas contemporâneas.
Em termos subjetivos, as trocas estabelecidas não jungiam apenas os indivíduos que
a entabulavam diretamente, como também suas tribos e povos, que tinham nutridos
permanentemente seus laços de convivência sempre que os eventos de troca eram
concretizados. Por esta razão, em termos objetivos, aquilo que era dado e recebido guarnecia,
em si, um significado peculiar, que não se esgotava na entrega recíproca dos bens, mas
apontava para uma vida em comum, nutrida permanentemente pelos ciclos de troca
estabelecidos.
As relações assim constituídas foram chamadas por Marcel Mauss de “relações de
dádiva”, e se expressavam através de um “sistema de prestações totais”, que conferia às
relações de troca uma dimensão subjetivamente coletiva e objetivamente superior ao bem
material transmitido. (MAUSS, 2001).
A observação dos povos acima referidos permitiu que Mauss identificasse que as
relações de troca por eles entabuladas eram sustentadas pela tríade dar/receber/retribuir,
renovável perenemente. Como apontou Lanna (2000), a obra “Ensaio sobre a
dádiva”evidencia que as agremiações das quais se acercou Mauss, de modo razoavelmente
similar, faziam a experiência de extrair, das relações aparentemente individuais de troca,
verdadeiras relações de aliança - nas dimensões política, econômica, religiosa e jurídica -
entre as comunidades, povos e tribos nelas envolvidos.
Assim, o ato de dar não se exauria na mera transferência do bem material. A prenda
entregue por alguém a pessoa de agrupamento diverso superava sua corporeidade, sua
existência física. Levava consigo o espírito do lugar de onde provinham e das pessoas com as
quais jazia originariamente, de modo que “mesmo abandonada pelo doador, é ainda qualquer
coisa dele.” (MAUSS, 2001, p.64).
Sendo mais que a translação de um bem para novo dono, a dádiva concretizada entre
os povos polinésios suscitava, por outro lado, a responsabilidade moral da manifestação de
receber. Cultivava-se, portanto, a sensibilidade de se reconhecer o proveito com que fora
agraciado certo indivíduo, membro de determinada instituição social, por pessoa integrante de
comunidade díspar. O ato de dar não haveria de ser seguido por um comportamento
automático, algo como que óbvio, de receber a prenda. Impunha-se o cultivo da gratidão, não
como experiência intimista, mas como manifestação socialmente concreta, sinal da
consciência, nutrida pelo donatário, de sua exata posição em uma rede irrigada por trocas
relacionais. A convivência entre os povos estava de tamanha sorte atrelada à conjuntura
relacional da dádiva que “recusar-se a dar, negligenciar o convite, como recusar a receber,
equivale a declarar a guerra: é recusar a aliança e a comunhão.” (MAUSS, 2001, p.68).
Encerrando o ciclo desenvolvido por tais relações, aquele que recebera a dádiva
passava a se localizar no polo diametralmente contrário, assumindo a condição de doador em
face de quem lhe doara, quem, por sua vez, migrava para a condição de donatário. Se a coisa
dada guardava em si algo de quem a doou, a ligação estabelecida através do bem transferido
se perfazia em uma ligação de almas. Por tal razão, as relações movidas pela dádiva eram
alimentadas pela bilateralidade, traduzida na iniciativa de retribuição da dádiva recebida. Para
os povos de que ora se cuida, tão importante quanto os atos de dar e receber é aquele
consistente no de retribuir. Para além da transmissão de bens, a dádiva tinha como esteio o
propósito de estabelecer relações de natureza espiritual, de modo que “seja necessário
retribuir a outrem aquilo que é, na realidade, parcela da sua natureza e substância; porque
aceitar qualquer coisa de alguém é aceitar qualquer coisa da sua essência espiritual, da sua
alma.” (MAUSS, 2001, p.55).
Eis, então, a consistência das relações que giravam em torna da dádiva entre
comunidades sobre as quais se curvou a etnografia desenvolvida por Mauss. Segundo se pôde
observar, a tríade dar/receber/retribuir, infinda por sua própria natureza, tinha o condão de
protrair as relações entabuladas entre os povos, tornando potencialmente mais pacífica a
coexistência de comunidades diversas em um mesmo raio geográfico.