CAPÍTULO II – ABORDAGEM COMPREENSIVA DA COMUNICAÇÃO
2.5 O comunitário e a comunidade no campo da comunicação
2.5.1 Entre comunicação comunitária e comunidade
Para Cicilia Peruzzo (2009) a comunicação comunitária pressupõe a existência de uma práxis que vai além do simples estar próximo ou compartilhar das mesmas situações. Pertencer a uma mesma etnia ou morar num mesmo bairro, ou usar o mesmo transporte coletivo, não garante as relações comunitárias. De acordo com Peruzzo (2009, p.57-58):
A comunidade se funda em identidades, ação conjugada, reciprocidade de interesses, cooperação, sentimento de pertença, vínculos duradouros e relações estreitas entre seus membros. Portanto, nem todo meio de comunicação local é comunitário, apenas por se dirigir a uma audiência próxima, usar a mesma linguagem ou falar das coisas do lugar. Este pode simplesmente reproduzir os padrões da mídia comercial privada em termos de interesses econômicos e políticos, além de se basear na mesma lógica de gestão e programação, distanciando-se da perspectiva comunitarista. Assim sendo, à comunicação comunitária são reservadas exigências de vínculos identitários, não possuir finalidades lucrativas e estabelecer relações horizontais entre emissores e receptores com vistas ao empoderamento social progressivo da mídia e ampliação da cidadania.
A comunicação comunitária23 surge da necessidade de dar voz e vez ao sujeito excluído dos processos convencionais de comunicação. Porque a comunicação de massa vista de forma verticalizada tem em sua proposta atingir uma audiência anônima, abrangente e impessoal. E atende, aos interesses mercadológicos, estatais e aos conglomerados de radiodifusão no país, restando pouco – ou quase nenhum – espaço para demandas locais, do ponto de vista dos atores envolvidos. Se de um lado temos a massa, um conjunto heterogêneo de pessoas, por vezes dispersas, por outro temos a comunidade que nos precede, para nos apropriarmos de uma expressão utilizada por Bauman (2011).
Tema clássico da sociologia, a comunidade é vista e estudada em diversos aspectos, como comunicacionais, humanistas, subjetivos e simbólicos que ultrapassam a noção sociológica do termo. Em Ferdinand Tönnies (1995), importante sociólogo alemão do século XIX, o sentido originário de comunidade passa por questões orgânicas como família, terra, laços sanguíneos e a dicotomia entre sociedade e comunidade.
As novas configurações de família, de gênero, de sexualidade emergiram ao longo do tempo, nesse sentido, a assertiva tönnesiana não dá conta de pensar o sujeito dito pós-moderno em sua dimensão simbólica que contempla a cultura, a subjetividade e a experiência comunitária. Todavia, Martin Buber, - contemporâneo de Tönnies, porém com ideias renovadas - Zygmunt Bauman, Muniz Sodré, Manuel Castells, Cicilia Peruzzo, Raquel Paiva, entre outros estudiosos, compõem o arcabouço teórico ao qual debruçamos o entendimento sobre comunidade para a partir daí, tratar de sua relação com a comunicação comunitária, acompanhada da mutação tecnológica promovida pela aceleração do espaço e do tempo, com o advento da internet.
É preponderante nas comunidades o sentido orgânico do compartilhar, das relações pessoais e o convívio com as diferenças na coletividade. Contudo, para que de fato haja a troca comunicativa é necessário o reconhecimento do outro. Situar a relação eu e tu (BUBER, 1974) no âmbito da comunicação comunitária é uma das formas de compreensão da troca comunicativa, oriunda das relações inter-humanas e sociais.
Em Buber (1974), o eu e tu é conformado pelo diálogo, pela palavra, não sentido de descrição das atitudes humanas, mas no sentido do que acontece essencialmente entre os seres humanos e entre o homem e Deus. Em termos buberianos a palavra é dialógica, e o que vai
23 Apesar de respeitarmos e identificarmos as especificidades dos tipos de comunicação que refletem o processo de mudança social empregamos em nossos estudos, o termo comunicação comunitária para nos referirmos aos processos de comunicação desenvolvidos no interior de comunidades e por movimentos sociais.
exprimir a sua dialogicidade é exatamente o entre. Temos nesse ponto uma breve aproximação com o pensamento de Freire (1983, p.45), quando aponta que a comunicação implica uma reciprocidade que não pode ser rompida. Em outras palavras, para ele o que vai caracterizar a comunicação é que ela em si mesma é diálogo.
Buber (1974) entende a palavra para além do seu significado semântico e de sua estrutura, ou seja, atribui a ela o sentido de portadora de ser. Todavia, é pelo intermédio da palavra que o homem é assentado na existência. De acordo com Von Zuben (1974, p.15) tradutor da obra Eu e Tu, no Brasil, a palavra não é conduzida pelo homem, mas é ela que o mantém no ser. Ele afirma que para Buber “a palavra proferida é uma atitude efetiva, eficaz e atualizadora do ser do homem”. Entendemos então, a palavra como princípio norteador e como fundamento da existência humana.
De forma geral, para Martin Buber (1974) a palavra como princípio do ser está atrelada a categoria ontológica do entre e a palavra como diálogo é a fundamentação da relação humana. O que o autor da filosofia do diálogo visa a apresentar é uma ontologia da existência humana, explicitando a existência dialógica ou a vida em diálogo. Segundo Von Zuben (1974) as principais categorias desta vida em diálogo são as seguintes: palavra, relação, diálogo, reciprocidade como ação totalizadora, subjetividade, pessoa, responsabilidade, decisão- liberdade, inter-humano. Acrescentamos às principais categorias citadas, a comunidade, ou o sentido de comunidade, discorrido por Buber (1974, p.52):
a verdadeira comunidade não nasce do fato de que as pessoas têm sentimentos umas para com as outras (embora ela não possa, na verdade, nascer sem isso), ela nasce de duas coisas: de estarem todos em relação viva e mútua com um centro vivo e de estarem unidos uns aos outros em uma relação viva e recíproca. A segunda resulta da primeira; porém não é dada imediatamente com a primeira. A relação viva e recíproca implica sentimentos, mas não provém deles. A comunidade edifica-se sobre a relação viva e recíproca, todavia o verdadeiro construtor é o centro ativo e vivo.
Em outros termos, para Buber (1974) a comunidade deve ser um fim em si mesma e não um instrumento para se chegar em outros lugares ou em outros objetivos. Conforme já apontamos, o homem é livre para fazer suas escolhas e em Buber (1987, p.39) a comunidade também deve ser mantida por meio de escolhas.
Para Muniz Sodré (2002, p.178) a comunidade pressupõe continuidade, e assim como Buber (1974), afirma que seus atributos não são necessariamente derivados de uma entidade ou da propriedade de uma substância comum, como laço de sangue, territorial ou cultural, por exemplo. No entanto, Sodré afirma que:
[...] e, sim da partilha de um munus, que é a luta comum pelo valor, isto é, pelo que obriga cada indivíduo a obrigar-se para o com o outro. Tal é dívida simbólica, transmitida de uma geração para outra por indivíduos imbuídos da consciência de uma obrigação, tanto para com os ancestrais (os pais fundadores) quanto para com os filhos (os descendentes, que perpetuam a existência do grupo) (SODRÉ, 2002, p.178).
Martin Buber (1974) fala de relação para abordar a existência humana, a vida em diálogo. Em contrapartida, Muniz Sodré (2002, p.223) fala em vinculação social, ou seja, a radicalidade da diferenciação e aproximação entre seres humanos. Todavia, relação e vinculação, ambas, estão fundamentadas na força do comum (munus) e motivam o sentido de existência da comunidade. E a comunicação, em última instância, também é fundamentada no comum.
Nesse ínterim, a perspectiva comunitarista é importante para a reflexão sobre o papel do sujeito na sociedade pós-moderna, refletida a partir das contribuições de Zygmunt Bauman (1998). Tal perspectiva não é uma fórmula e nem é tão fácil de ser alcançada, é um processo, é o entre da relação. Embora Bauman não isente de críticas a comunidade de hoje, já que sua mirada tem como pano de fundo o mal-estar pós-moderno, sua leitura está baseada à luz das contribuições de Freud, em O mal-estar na civilização (1929). A sociedade, certamente, produz os seus próprios estranhos e os anula quando não possuem mais serventia. De acordo com Bauman (1998, p.27):
Mas cada espécie de sociedade produz sua própria espécie de estranhos e os produz de sua própria maneira, inimitável. Se os estranhos são as pessoas que não se encaixam no mapa cognitivo, moral ou estético do mundo – num desses mapas, em dois ou em todos três; se eles, portanto, por sua simples presença, deixam turvo o que deve ser transparente, confuso o que deve ser uma coerente receita para ação, e impedem a satisfação de ser totalmente satisfatória; se eles poluem a alegria com a angústia, ao mesmo tempo em que fazem atraente o fruto proibido; se, em outras palavras, eles obscurecem e tornam tênues as linhas de fronteira que devem ser claramente vistas; se, tendo feito tudo isso, geram a incerteza, que por sua vez dá origem ao mal-estar de se sentir perdido - então cada sociedade produz seus estranhos.
A concepção pós-moderna da sociedade é aludida à noção de que é mais importante ter do que ser. Daí a comunicação comunitária. Voltamos a Buber, o filósofo do diálogo, para resgatar a noção do eu e tu como parte do processo de subjetivação. Temos uma dívida simbólica com o outro, para retomamos Sodré (2002), aquele outro que nos afasta, nos aproxima e ao mesmo tempo nos constitui, conformando assim a alteridade, o fio condutor de qualquer vinculação comunitarista.
Iniciar a reflexão sobre comunicação comunitária a partir do referencial de comunidade, aquela que foi pensada por Tönnies e reformulada na atualidade pelas próprias transformações econômicas, sociais, culturais e comunicativas vivenciadas pelo ser humano, é buscar o comum que liga a comunidade à comunicação comunitária e vice-versa. E reconhecer que há no interior do campo, lutas que se travam na busca por hegemonia24 e reconhecimento do saber.