Download/Open
Texto
(2) 1. UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E HUMANIDADES Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. SUELEN DE AGUIAR SILVA. COMUNICAÇÃO, MOVIMENTOS SOCIAIS E REDES: POR UM PROJETO BIOPOLÍTICO E COMUNITÁRIO DA MULTIDÃO. Tese apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), para obtenção do grau de Doutora. Orientadora: Profa. Dra. Cicilia Maria Krohling Peruzzo. São Bernardo do Campo - SP, 2018.
(3) 2. FICHA CATALOGRÁFICA Si38c. Silva, Suelen de Aguiar Comunicação, movimentos sociais e redes: por um projeto biopolítico e comunitário da multidão / Suelen de Aguiar Silva. 2018. 209 p. Tese (Doutorado em Comunicação Social) --Escola de Comunicação, Educação e Humanidades da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2018. Orientação de: Cicilia Maria Krohling Peruzzo. 1. Movimentos sociais - Brasil 2. Internet (Redes de computadores) - Comunicação 3. Internet (Redes de computadores ) - Aspectos sociais 4. Comunicação comunitária I. Título. CDD 302.2.
(4) 3. A tese de doutorado sob o título “COMUNICAÇÃO, MOVIMENTOS SOCIAIS E REDES: Por um projeto biopolítico da multidão”, elaborada por SUELEN DE AGUIAR SILVA foi apresentada e aprovada com louvor (Summa Cum Laude) em 18 de abril de 2018, perante banca examinadora composta por Prof. Dr. José Marques de Melo (Presidente/UMESP), Profa. Dra. Sônia Maria Ribeiro Jaconi (Titular/UMESP), Profa. Dra. Camila Escudero (Titular/UMESP), Profa. Dra. Luzia Deliberador Yamashita (Titular/UEL), Prof. Dr. Giovandro Marcus Ferreira (Titular/UFBA) e Prof. Dr. Marcelo Monteiro Gabbay (Titular/ FIAM-FAAM).. ________________________________________________ Profa. Dra. Cicilia Maria Krohling Peruzzo Orientadora. ________________________________________________ Prof. Dr. José Marques de Melo Presidente da Banca Examinadora. ________________________________________________ Prof. Dr. Luiz Alberto de Farias Coordenador do Programa de Pós-Graduação. Programa: Pós-Graduação em Comunicação Social Área de concentração: Processos Comunicacionais Linha de Pesquisa: Comunicação comunitária, territórios de cidadania e desenvolvimento social.
(5) 4. No ano de 2010 vi pela primeira vez a cor esverdeada dos seus infinitos olhos, que logo fitaram os meus, parecendo entender cada motivo, cada desejo, cada aflição e emoção em estar ali, em sua sala para a entrevista, e num gesto de pura significância, fez o que poucos nesse mundo da vida fazem: que é escutar e reconhecer o outro. Sim, me senti acolhida, mas muito mais do que isso, me senti capaz, especial, me reinventei. Sim, você me pegou pelas mãos e me ensinou que a comunicação é o elo mais comum e mais singular que nos une, que nos afeta. Você me ensinou a acreditar em mim, em minha capacidade intelectual, me conduziu tão perfeitamente que chego a achar que eu não merecia tanto. Mulher firme, de fibra e com um coração manso e um jeito carinhoso que poucos têm a oportunidade de conhecer, como sou privilegiada! Durante todos esses anos você me ensinou o sentido da resiliência, do limite. Você me compreendeu, me deixou livre para alcançar diversos voos teóricos, ao mesmo tempo em que me trazia de volta para a realidade concreta. Você conheceu o que há de melhor em mim e, principalmente, me ajudou a elaborar sentimentos e anseios que estavam escondidos, mas que me faziam padecer. Para além das orientações acadêmicas, o que eu recebi durante todo esse tempo de mestrado e doutorado, foram orientações de vida. Você me ajudou a enfrentar a face mais cruel do diagnóstico de autismo, do meu amado filho, me compreendeu em todo o tempo, silenciou e respeitou o meu momento. Sinceramente, seria muito difícil passar por esse luto, se eu não tivesse você para me orientar, para segurar minhas mãos. Gratidão por você ser sempre tão generosa e amável comigo. Gratidão. Hoje, mais uma vez, me reinvento e sigo em frente na certeza de que você estará sempre comigo, na minha formação intelectual e acadêmica, na militância por uma sociedade mais justa e igualitária, e, sobretudo, na busca por espaços dialógicos de comunicação, longe deste aqui, que nos separou. Da Universidade Metodista de São Paulo para a vida. Avante.. À Cicilia M. Krohling Peruzzo, minha orientadora..
(6) 5. en la lucha de clases todas las armas son buenas piedras noches poemas. Leminski.
(7) 6. AGRADECIMENTOS Ao Mestre dos mestres, dono de toda ciência, sabedoria e poder. Toda honra, toda glória, todo louvor e toda minha gratidão. Ao meu querido pai na fé, Luiz Fernando Andrade Alves, por seus ensinamentos, pela acolhida, por me encorajar e acreditar no meu potencial. Todo o meu respeito, carinho e admiração. À minha família, em especial, à minha mãe, que embora sempre “interrompesse” minhas elaborações, trazia junto com a pausa risadas, cafés e apoio. Aos amigos que conquistei ao longo da vida, os verdadeiros, saberão. Com carinho agradeço a Lavínia Amaral. Singularmente, agradeço a Elza Bastos Pessoa, meu porto seguro. As companheiras e companheiros da Cei Comuni, fontes de luta, luz, inspiração e reflexão sobre uma outra comunicação. Agradeço aos professores do antigo Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social (1978–2017) da UMESP, pelos ensinamentos, pela amizade e principalmente, pelas lições de cidadania e vida. In memorian (2000-2017), agradeço ao meu gato Nenén, meu grande felino de todas as horas. Agradeço ao CNPq por viabilizar financeiramente minha pesquisa. Agradeço à minha querida amiga “cabrita”, Clarissa Josgrilberg Pereira, pela lealdade, pelo compartilhamento de saberes e sabores e estímulo, recíproco. Dos estudos, artigos, do ombro, do alojamento, dos motéis e congressos para à vida, todo meu orgulho e admiração. Agradeço infinitamente à minha orientadora, Cicilia Maria Krohling Peruzzo. Com carinho, também agradeço, ao professor José Marques de Melo. Agradeço ao Éric, meu amado filho, por me ensinar diariamente o valor da paciência, da vinculação e do amor incondicional. Entre livros e escritos, muitas paradas, muitas... nas quais, cada puxão valia mais do que mil palavras. Ao Paulinho..
(8) 7. RESUMO. A compreensão dos usos coletivos que os movimentos sociais brasileiros estão fazendo das tecnologias de informação e comunicação é tão importante quanto descobrir se eles alteraram suas formas de organização política e dinâmicas de comunicar devido à participação no espaço híbrido da internet e é neste sentido que a pesquisa caminha. Assim, os objetivos deste estudo são mapear os movimentos sociais presentes na internet, cartografar as práticas comunicativas e as imbricações destes com o uso das tecnologias de informação e comunicação. E, em última instância, a partir da leitura biopolítica da multidão apontar como a ação dos movimentos sociais pode, por meio da internet, reverberar traços para a construção da democracia. O método de abordagem conceitual segue a trilha do materialismo histórico-dialético. Já o método de procedimento será o cartográfico viabilizado pela pesquisa bibliográfica, pesquisa documental, observação participante netnográfica e técnicas da teoria fundamentada em dados. A partir do levantamento de dez movimentos sociais mapeamos seus processos comunicacionais desenvolvidos na internet. Na sequência, realizamos a análise da comunicação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST e do Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB e identificamos que para esses movimentos a internet ao representar um campo de micropoderes, também se apresenta como espaço privilegiado no que tange às lutas sociais em torno da democracia.. Palavras-chave: movimentos sociais. Redes. Multidão. Comunicação Comunitária. Internet..
(9) 8. ABSTRACT The comprehension of the collective use that the Brazilian social movements are making of the communication and information technologies is as important as finding if altered their forms of political organization and communication dynamics due to participation on the hybrid internet space and it is in this way that the research moves. Thus, the objectives of this study are to map the social movements present on the web, map the communicative practices and their imbrications with the use of communication and information technologies. And, ultimately, from the biopolitical reading of the crowd point how the social movements can, by the web, reverberate traces to build democracy. The conceptual approach method follows the trail of historical-dialectical materialism. And the procedure method will be the cartographic enabled by the bibliographic research, documentary research, netnography participant observation and grounded theory technic. From the survey of ten social movements we mapped their communicational processes developed on the internet. In the aftermath, we analyzed the communication of the landless workers movement (MST), and the Brazilian Movement of Dam Affected People (MAB) and it was identified that although the web (internet) represent a micro-power field, it also present itself as a privileged space in regard to the social struggle around democracy.. Keywords: Social movements. Network. Crowd. Community Communication. Internet.
(10) 9. RÉSUMÉ. La compréhension des utilisations collectives que les Mouvements Sociaux brésiliens font des technologies d'informations et de communication est aussi importante que découvrir s'ils ont changé leurs formes d'organisation politique et leurs dynamiques de communiquer en raison de la participation dans l'espace hybride d'Internet et c'est dans ce sens que la recherche se développe. Ainsi, les objectifs de cette étude sont de cartographier les Mouvements Sociaux présents sur Internet, de cartographier les pratiques communicatives et leurs imbrications avec l'utilisation des technologies de l'information et de la communication. Et, en fin de compte, à partir de la lecture biopolitique de la foule, indiquer comment l'action des Mouvements Sociaux peut, via Internet, réverbérer des traces pour la construction de la démocratie. La méthode de l'approche conceptuelle suit la voie du matérialisme dialectique et historique. D’autre part, la méthode de procédure sera cartographique rendue possible par la recherche bibliographique, par la recherche documentaire, par l'observation participante netnographique et par des techniques de la théorie basée sur les données. À partir de l'enquête sur dix mouvements sociaux, nous avons cartographié leurs processus de communication développés à travers l’ Internet. Ensuite, nous avons accompli l'analyse de la communication du Mouvement des travailleurs sans terre - MST et le Mouvement des personnes affectées par la chûte de barrages – MAB et nous avons identifié que l’Internet, bien qu'il représente un champ de micro pouvoirs, se présente également comme un espace privilégié lorsqu'il s'agit de luttes sociales autour de la démocratie.. Mots-clés: Mouvements sociaux. Réseaux. Foule. Communication communautaire. Internet..
(11) 10. LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Tela inicial do site MTST ...................................................................................... 148 Figura 2 - Canal no Youtube MTST....................................................................................... 149 Figura 3 - Rede Social Facebook ............................................................................................ 149 Figura 4 - Aplicativo para dispositivos móveis – App MTS .................................................. 150 Figura 5 - Tela inicial do site MAB........................................................................................ 151 Figura 6 - Microblog Twitter MAB........................................................................................ 151 Figura 7 - Rede social Facebook MAB .................................................................................. 152 Figura 8 - Canal no Youtube MAB ........................................................................................ 152 Figura 9 - Instagram MAB ..................................................................................................... 153 Figura 10 - Tela inicial do site ABGLT ................................................................................. 154 Figura 11 - Rede social Facebook ABGLT ............................................................................ 154 Figura 12 - Tela do site MNU ................................................................................................ 155 Figura 13 - Rede social Facebook MNU ................................................................................ 156 Figura 14 - Tela inicial do site Levante .................................................................................. 157 Figura 15 - Rede social Facebook Levante ............................................................................ 157 Figura 16 - Canal no Youtube Levante .................................................................................. 158 Figura 17 - Tela do site Ação da Cidadania ........................................................................... 159 Figura 18 - Rede social Facebook Ação da Cidadania ........................................................... 159 Figura 19 - Rede social Facebook MTD e MOTU/Brasil ...................................................... 161 Figura 20 - Tela do site Grito dos Excluídos .......................................................................... 162 Figura 21 - Rede social Facebook Grito dos Excluídos ......................................................... 162 Figura 22 - Tela do site MST ................................................................................................. 163 Figura 23 - Rede social Facebook MST ................................................................................. 163 Figura 24 - Microblog Twitter MST ...................................................................................... 164 Figura 25 - Canal do Youtube ................................................................................................ 164 Figura 26 - Instagram MST .................................................................................................... 165 Figura 27 - Tela do Site Via Campesina ................................................................................ 165 Figura 28 - Rede social Facebook Via Campesina ................................................................. 166 Figura 29 - Post do MST com mais compartilhamento e reações .......................................... 173 Figura 30 - Segunda postagem do MST com mais compartilhamentos e comentários .......... 174 Figura 31 - Post do MAB com mais curtida, compartilhamento e reações ............................ 177 Figura 32 - Segunda postagem do MAB com mais reações e compartilhamentos ................ 177.
(12) 11. Figura 33 - Comentários sobre a postagem do MAB ............................................................. 178 Figura 34 - Publicidade nas páginas do MAB e do MST ....................................................... 184.
(13) 12. LISTA DE QUADROS. Quadro 1 - Diário de Campo Virtual.........................................................................................41 Quadro 2 - Mapa de Observação OPN......................................................................................42 Quadro 3 - Esquema de Observação Participante Netnográfica................................................46 Quadro 4 - Eixos temáticos dos movimentos sociais................................................................98 Quadro 5 - Observação do diário de campo.............................................................................180 Quadro 6 - Codificação aberta.................................................................................................181 Quadro 7 - Exemplo de codificação........................................................................................182 Quadro 8 - Categorias..............................................................................................................182.
(14) 13. LISTA DE GRÁFICOS. Gráfico 1 - Movimentos sociais presentes nos conteúdos dos portais ................................... 167 Gráfico 2 - Assuntos explorados pelos conteúdos dos portais ............................................... 168 Gráfico 3 - Conteúdos dos portais que davam voz aos movimentos ..................................... .168 Gráfico 4 - Formatos presentes nos posts do Facebook do MST ....................................... ....171 Gráfico 5 - Temas presentes nas publicações do Facebook do MST ..................................... 172 Gráfico 6 - Formatos presentes nos posts do Facebook do MST ........................................... 175 Gráfico 7 - Temas presentes nas publicações do Facebook do MAB .................................... 176.
(15) 14. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................... 17 CAPÍTULO I - O MÉTODO EM DISPERSÃO..................................................................22 1 Pistas do método: na trilha do materialismo histórico-dialético............................................24 1.1 Procedimentos metodológicos............................................................................................30 1.2 Cartografia...........................................................................................................................31 1.2.1 Pesquisa bibliográfica - Primeira etapa.............................................................................33 1.2.2 Pesquisa documental - Segunda etapa...............................................................................34 1.2.3 Netnografia.......................................................................................................................35 1.3 Observação e Coleta de dados - Primeira e segunda rodada de coleta................................40 1.4 Observação participante netnográfica e Coleta de dados - Terceira rodada de coleta........41 1.5 Observação participante netnográfica e Coleta de dados - Quarta rodada de coleta...........42 CAPÍTULO II – ABORDAGEM COMPREENSIVA DA COMUNICAÇÃO................. 47 2 “Afinal”, o que é comunicação? .......... ..................................................................................48 2.1 Brevíssimo panorama dos meios.........................................................................................49 2.2 Algumas (in)definições de comunicação ............................................................................ 52 2.2.1 A comunicação por ela mesma........................................................................................54 2.3 A noção de autonomia no campo comunicacional ............................................................. 56 2.4 O comum da comunicação ................................................................................................. 60 2.5 O comunitário e a comunidade no campo da comunicação................................................62 2.5.1 Entre comunicação comunitária e comunidade............................................................... 63 2.5.2 A comunicação comunitária floresce............................................................................... 67 2.5.3 (Des)apropriações............................................................................................................ 69 2.5.4 Meios comunitários.......................................................................................................... 70 2.5.5 Processos comunicacionais comunitários........................................................................ 71 2.6 É popular, é comunitária, é alternativa, é comunicação........................................................72.
(16) 15. CAPÍTULO III – MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL E SEUS DESDOBRAMENTOS........................................................................................................... 81 3 Dos clássicos aos contemporâneos: um breve histórico.......................................................84 3.1 Conceituando movimento social........................................................................................ .87 3.2 Movimentos sociais no Brasil.............................................................................................87 3.2.1 Movimentos de luta pela terra..........................................................................................87 3.2.2 Movimentos de resistência à ditadura e redemocratização do Brasil..............................89 3.3 Tipos de movimento social.................................................................................................90 3.4 Cronologia dos movimentos sociais brasileiros...................................................................94 3.4.1 Eixos temáticos dos movimentos sociais brasileiros ....................................................... 96 3.5 Categorias de análise dos movimentos sociais ................................................................. 100 3.5.1 Redes.............................................................................................................................. 104 3.5.2 Redes de autocomunicação e autonomia.........................................................................105 3.6 Multidão multicolorida.....................................................................................................107 CAPÍTULO IV - COMUNICAÇÃO E INTERNET NO CONTEXTO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS...................................................................................................113 4 Contexto da internet ......................................................................................................... ...113 4.1 A emergência da técnica ................................................................................................... 116 4.2 Desconstruir ou reinventar? .............................................................................................. 117 4.2.1 Sociedade em rede?........................................................................................................117 4.3 Virtual...............................................................................................................................121 4.3.1 Espaço intemporal ......................................................................................................... 123 4.4 Comunidade virtualizada..................................................................................................124 4.4.1 O comum, da comunidade ............................................................................................ .125 4.5 Entre nós, as redes.............................................................................................................127 4.5.1 Interação Online ............................................................................................................ 128 4.5.2 Interação ou representação?........................................................................................... 129 4.6 Comunicação organizativa ............................................................................................... 131.
(17) 16. 4.7 A prática da comunicação nos movimentos sociais ......................................................... 134 4.8 Publicidade social, sim!....................................................................................................135 4.9 Movimentos sociais na internet........................................................................................135 4.9.1 Armações.......................................................................................................................142 4.9.2 Cidadania com um pé na rede, é possível? .................................................................... 144 4.10 Rizomas...........................................................................................................................145 CAPÍTULO V - AS MÚLTIPLAS VOZES DA MULTIDÃO..........................................147 5 Mapeamento dos movimentos sociais..................................................................................147 5.1 Os MS nos portais jornalísticos ........................................................................................ 166 5.2 Observação participante netnográfica - OPN....................................................................169 5.2.1 OPN - MST.....................................................................................................................169 5.2.2 OPN - MAB....................................................................................................................169 5.3 (Des)amarrando os conceitos............................................................................................ 170 CONCLUSÃO....................................................................................................................... 189 REFERÊNCIAS.................................................................................................................... 195 APÊNDICE A - Termo de Consentimento Informado Online .........................................201 APÊNDICE B - Roteiro de entrevista semiestruturada online ........................................204 ANEXO - Parecer consubstanciado do CEP.......................................................................206.
(18) 17. 1 INTRODUÇÃO. Estamos imersos numa suposta tecnologização da vida, com todos os sentidos que a palavra tecnologia carrega, surge aí, nosso interesse em aprofundar os estudos sobre a relação dos processos comunicacionais desenvolvidos pelos movimentos sociais com a internet. No entanto, não é a técnica, technê, como condição material da história que nos interessa, mas sim as transformações que ocorrem na estrutura social em decorrência do uso ou não de determinadas tecnologias, especialmente a internet. Nesse tempo hodierno compreender os usos coletivos que os movimentos sociais brasileiros estão fazendo das Tecnologias de Informação e Comunicação - TICCS1 é tão importante quanto descobrir se eles alteraram suas formas de organização política e dinâmicas de comunicar devido à participação no espaço híbrido2 da internet. Afinal, o fato de estar e de participar da rede não diz muito, quando esse muito precisa ainda ser estudado e mapeado. Dessa forma, objetivamos mapear os movimentos sociais brasileiros presentes na internet e suas práticas comunicacionais, partir de 10 eixos temáticos, com base nos estudos de Peruzzo (2004) e Gohn (2013) apontados e reformulados nesta pesquisa. A saber: 1) Movimentos sociais ao redor da questão urbana; 2) Movimentos em torno da questão do meio ambiente: urbano e rural; 3) Movimentos identitários e culturais: gênero; 4) Movimentos identitários e culturais: etnia; 5) Movimentos identitários e culturais: gerações; 6) Movimentos de demandas na área do direito; 7) Movimentos ao redor da questão da fome; 8) Movimentos sociais na área do trabalho; 9) Movimentos decorrentes de questões religiosas; 10) Movimentos rurais e movimentos sociais globais. Após identificarmos como a mídia hegemônica aborda os movimentos sociais e após desenvolvermos um mapeamento sobre a comunicação deles, selecionamos dois movimentos para terem seus processos comunicacionais analisados de forma mais contextualizada, incluindo-se aí a realização de entrevistas com seus representantes. O Movimento dos. 1. A utilização de mais um c na sigla faz referência ao conhecimento que está associado ao processo. Para saber mais sobre o assunto ver trabalhos de Cicilia Peruzzo e Jorge González (2011). 2 A territorialidade física e simbólica dos movimentos sociais na sociedade é formada pelo espaço híbrido, entre o espaço urbano ocupado e as redes sociais digitais na internet (CASTELLS, 2013)..
(19) 18. Trabalhadores Sem Terra (MST) e o movimentos dos Atingidos por Barragens (MAB) foram os selecionados, o primeiro devido à alta visibilidade na mídia e o segundo pela invisibilidade que tem nela. Além disso, as suas bandeiras de lutas e o modo como atuam comunicacionalmente também nos levaram a definir estes dois movimentos. Para alcançarmos o objetivo proposto foi preciso descobrir se os movimentos sociais mapeados utilizavam a comunicação mediada por computador como um dos seus princípios organizativos no que tange à comunicação. E, ainda, foi necessário debater o conceito de multidão (HARDT; NEGRI, 2014; VIRNO, 2013), como categoria teórico-metodológica a partir dos movimentos sociais mapeados e descrever seus processos comunicacionais na internet, apontando as principais plataformas digitais utilizadas. Além disso, foi preciso cartografar as práticas comunicativas cotidianas dos movimentos sociais frente às tecnologias de informação e comunicação; bem como relatar a atuação dos movimentos sociais na criação de dispositivos de resistência e as redes de poder que se formam na luta pelo espaço virtual. Os movimentos sociais podem usar a internet como um instrumento privilegiado para comunicar, informar, atuar, recrutar, resistir, organizar ou, simplesmente, para ocupar. Com isso, a pergunta que norteia a pesquisa é a seguinte: como os movimentos sociais brasileiros mapeados nesta pesquisa usam as tecnologias de informação, comunicação e conhecimento como espaço de luta para suas práticas cotidianas com vistas à construção da democracia? Para nos nortear na busca da resposta da questão acima elaborada nos direcionamos pelas seguintes hipóteses de trabalho: os processos comunicacionais desenvolvidos pelos movimentos sociais na internet fomentam um espaço de comunicação autônoma na medida em que forjam dispositivos de resistência para auxiliar na construção da cidadania. Os movimentos sociais mediante os processos de comunicação também lutam pelos e nos espaços sociais concretos da internet em busca de novas formas de democracia. A internet não é o meio exclusivo, mas potencializa o processo comunicacional dos movimentos sociais presentes nesse espaço. Realizar tal pesquisa é de extrema importância uma vez que os movimentos sociais entram em cena como objeto de estudo, porque são sujeitos distintos da história, e muitos deles, carregam em sua trajetória a própria comunicação como artifício primordial para a manutenção do seu status quo. A decisão de efetuar um mapeamento justifica-se com a construção do próprio marco teórico sobre a comunicação dos movimentos sociais na internet. Assim, a pesquisa pode contribuir para o debate, na medida em que traz para a discussão um.
(20) 19. aprofundamento teórico sobre as mudanças nos processos comunicacionais desenvolvidos pelos movimentos sociais brasileiros e ainda, como eles estão ocupando o espaço da internet. Tendo em vista essas argumentações, acredita-se ser de suma importância incluir nas pesquisas do corpo acadêmico estudos que acompanhem a transformação dos processos comunicacionais no âmbito dos movimentos sociais populares brasileiros. E que também possam contribuir para solucionar problemas de ordem prática, advindos de uma parcela significativa da sociedade vilipendiada dos seus direitos básicos. O direito à comunicação é um deles. Transformar a tese em uma fonte de dados inteligível e de fácil acesso é fundamental para contribuir com o campo da comunicação, ao mesmo tempo em que se torna importante para o processo político dos movimentos sociais. Muniz Sodré (2012, p.177) afirma que qualquer tentativa de descrição definitiva das tecnologias digitais está condenada à rápida obsolescência, porque essas tecnologias são continuamente emergentes. Ciente dessa assertiva, realizamos um estudo sobre a relação entre os movimentos e o uso que fazem das tecnologias de informação e comunicação, captando justamente o movimento. Além de mapearmos o cenário atual da comunicação nos movimentos sociais, iremos contribuir com o debate fornecendo um arcabouço teórico que será construído na medida em que tratarmos das práticas e especificidades comunicativas dos movimentos sociais brasileiros na internet. Para a viabilização deste trabalho propomos o que denominamos de cartografia comunicacional apoiada na teoria fundamentada em dados. A tese está estruturada em cinco capítulos, sendo o primeiro teórico-metodológico, os três seguintes teóricos e o último que apresenta os resultados da pesquisa em conjunto com as teorias empregadas nos capítulos anteriores. Sendo assim: O objetivo do primeiro capítulo é explicitar os aportes teórico-metodológicos utilizados nesta pesquisa. A explicação e fundamentação do método de abordagem conceitual, ancorado no materialismo histórico-dialético, torna-se tão importante quanto descrever as técnicas e estratégias utilizadas para alcançar os objetivos propostos, bem como explicar como estas foram utilizadas. Sendo assim, a cartografia comunicacional foi viabilizada com a utilização dos seguintes procedimentos: pesquisa bibliográfica, revisão de literatura, pesquisa documental, observação participante netnográfica e realização de entrevistas semiestruturadas. Para a análise e interpretação dos dados apresentados nos apoiamos nas técnicas da teoria fundamentada em dados..
(21) 20. O segundo capítulo apresenta uma abordagem compreensiva da comunicação e delimita nosso entendimento sobre os processos comunicacionais em pauta, no âmbito dos movimentos sociais. Ou seja, antes de iniciar a contextualização sobre eles é preciso sistematizar nosso conhecimento e entendimento sobre a comunicação, especialmente, sobre os processos comunicacionais comunitários, fincando nossas bases teóricas em abordagens centradas nas dimensões críticas e vinculativas da Comunicação Social. Este capítulo é importante porque nos dará a base para a construção dos demais e, especialmente, para o último, no qual propomos uma teoria fundamentada em dados. Nosso olhar para a comunicação se dará a partir deste arsenal, aqui traçado. Acreditamos que, desta forma, munidos de teoria, poderemos ousar na potência da comunicação em processo na internet. O terceiro capítulo apresenta uma revisão de bibliografia pertinente e focada cuja fundamentação teórica sustenta, inicialmente, a abordagem conceitual da pesquisa. Traçamos um breve panorama sobre os movimentos sociais, dos clássicos aos contemporâneos, passando pelas abordagens que têm sido aplicadas aos estudos desta temática, para destacarmos as configurações atuais no contexto das tecnologias de informação e comunicação. Logo, alguns aspectos da comunicação nos movimentos sociais serão destacados, a partir das redes de autocomunicação e autonomia, bem como a categoria teórica multidão é utilizada para refletir sobre o objeto de estudo. Sobre a pesquisa de teoria fundamentada em dados, ela vem sendo discutida há muito tempo. Os pioneiros Glaser e Strauss (1967) defendem que a revisão bibliográfica deve ser adiada até que a análise dos dados seja completada. Essa postura diz respeito a uma suposta contaminação dos dados construídos por teorias empreendidas anteriormente. Nossa postura coaduna com a orientação de Charmaz (2009, p.227) de que a teoria fundamentada empreendida na pesquisa poderá refinar, ampliar e/ou contestar os conceitos existentes. O quarto capítulo contextualiza a comunicação desenvolvida pelos movimentos sociais na internet. A saber, como os processos comunicacionais foram se alterando devido às transformações das tecnologias de informação e comunicação. Além de destacar a internet como espaço híbrido de interlocução dos movimentos sociais, discute as possibilidades da luta democrática em torno das formas tecnológicas de cidadania. O quinto e último capítulo está baseado em trabalho de campo online e visa a sistematizar a tese por meio da confrontação e comparação dos capítulos teóricos às análises de dados obtidas. A composição da presente metodologia descrita e aprofundada no capítulo primeiro será aqui resgatada para demostrar como os resultados foram alcançados. A construção.
(22) 21. dos dados empreendidos poderá refinar, ampliar, contestar ou suplantar os conceitos existentes e teorizados nos capítulos anteriores..
(23) 22. CAPÍTULO I - O MÉTODO EM DISPERSÃO. “Alice - Eu só queria saber que caminho tomar. Mestre Gato - Isso depende do lugar onde quer ir[...]” (Alice no País das Maravilhas, 1951). A palavra método vem do grego methodos e significa seguir um caminho. Apesar do significado de sua tradução ser de fácil entendimento, a acepção dada pelo pesquisador causa muitas distorções nas pesquisas científicas de nível acadêmico. Para Cecilia Minayo (2009, p.22) “a metodologia inclui as concepções teóricas de abordagem, o conjunto de técnicas que possibilitam a apreensão da realidade e também o potencial criativo do pesquisador”. Sumariamente, método de abordagem diz respeito aos fundamentos teóricos e epistemológicos que vão embasar cientificamente o estudo, as linhas de pensamentos adotadas, ou seja, o modo de obtenção do conhecimento. Já o método de procedimento ou procedimentos metodológicos são, especificamente, as etapas procedimentais do trabalho de investigação e de procura dos resultados. Para o desenvolvimento desta pesquisa trabalhamos com algumas especificidades de três métodos, o materialismo histórico dialético, o cartográfico e a grounded theory (teoria fundamentada em dados), como veremos mais adiante. Gaston Bachelard (1971, p.136) diz que, na realidade, o método é “uma astúcia de aquisição, um novo e útil estratagema na fronteira do saber”. Em outras palavras, o método científico é aquele que procura o risco, pois a dúvida está à frente e não atrás como na via cartesiana. Para Minayo (2009, p.11-12) o labor científico caminha em duas direções, “numa, elabora suas teorias, seus métodos, seus princípios e estabelece seus resultados; noutra, inventa, ratifica seu caminho, abandona certas vias e encaminha-se para certas direções privilegiadas”. A atual concepção do método pode ganhar variadas matizes se pensarmos nas diversas áreas do conhecimento. As ciências sociais, especialmente as aplicadas, estão entre aquelas áreas que têm se empenhado no desenvolvimento de métodos eficazes para a apreensão do conhecimento. Porquanto, durante muito tempo tais áreas das ciências eram vistas como “menores”, ineficazes e, quiçá, fontes de conhecimentos plausíveis e palpáveis, sendo este o papel das ciências exatas. O quadro hoje parece ser outro, na medida em que as ciências humanas passam a se valer de métodos consistentes para o desenvolvimento de trabalhos críticos e críveis, com.
(24) 23. menos intuito de estabelecer uma verdade e mais com o de colocar em dispersão vários pontos de vista e até mesmo várias verdades sobre um mesmo assunto. As pesquisas em comunicação ganham corpo, forma, produzem saber e comunicam. Mas alguns pesquisadores afirmam que existe certa carência na área, pois tais pesquisas não conversam entre si e por esse motivo não avançam, como aponta Muniz Sodré (2013)3. Quiçá, essa carência ocorra devido ao próprio entendimento de qual seria o objeto4 da comunicação, senão ela mesma. Para Cecilia Minayo (2009, p.16) a pesquisa é a “atividade básica da ciência na sua indagação e construção da realidade”. Para a autora a pesquisa é um constructo teórico, mas que é orientada do pensamento à ação. De um problema de ordem prática, da vida cotidiana, emerge um problema de ordem intelectual. Sendo assim, pesquisamos porque temos dúvidas e inquietações sobre temas que são frutos da realidade concreta. Pesquisamos porque avançar no processo do conhecimento e poder comunicá-lo é tão importante quanto desfrutar de descobertas científicas. Talvez não consigamos alterar determinados processos, mas suscitar questões e apontar alternativas por meio de pesquisas e estudos teórico-empíricos já é em si um grande passo. Neste universo da pesquisa insere-se o termo pesquisa social, o qual para Minayo (2009) tem uma carga histórica e, assim como as teorias sociais, reflete posições frente à realidade. A pesquisa social revelada em seu contexto histórico pode contribuir para a compreensão das contradições e conflitos que permeiam seu caminho. Para Gil (2014, p.26) a pesquisa social pode ser definida como um processo que, “utilizando a metodologia científica, permite a obtenção de novos conhecimentos no campo da realidade social”. Sobre a pesquisa qualitativa para Minayo (2009, p.21) ela responde a questões muito particulares, pois as Ciências Sociais se ocupa com um nível de realidade que não pode ou não deveria ser quantificado.. Ou seja, ela trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes. Esse conjunto de fenômenos humanos é entendido aqui como parte da realidade social, pois o ser humano se distingue não só por agir, mas por pensar sobre o que faz e por interpretar suas ações dentro e a partir da realidade vivida e partilhada com seus semelhantes. O universo da produção humana que pode ser resumido no mundo das relações, das representações e da intencionalidade e é objeto da 3. Informação verbal obtida em aula inaugural no programa de Pós-Graduação em Comunicação, realizada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) no ano de 2013. 4 Para Vera Veiga França (2010, p.42) “o objeto da comunicação não são os objetos comunicativos do mundo, mas uma forma de identificá-los, de falar deles – ou de construí-los conceitualmente”..
(25) 24. pesquisa qualitativa dificilmente pode ser traduzido em números e indicadores quantitativos (MINAYO, 2009, p.21).. Para Jorge González (2011)5, a pesquisa não é uma invenção idealista do pesquisador e tampouco deveria ser tachada como qualitativa ou quantitativa. Sendo assim, mais do que categorizar esta pesquisa como qualitativa ou quantitativa, pretendemos com o estudo produzir, metodologicamente, “observáveis”6. Apoiamo-nos em González (2011) quando afirma que toda pesquisa precisa ter boas descrições, cujas explicações vêm desde os processos.. 1 Pistas do método: na trilha do materialismo histórico-dialético. Tomando como ponto de partida o pensamento de Marques de Melo, o qual afirma que é o objeto quem faz o método7 (nunca o contrário), indicamos que, guiados por essa visão, nosso objeto de estudo foi constituído como sujeito integrante e fundamental para o desenvolvimento da tese, desde a primeira linha. Destarte, propomos um estudo teóricoempírico com abordagem materialista histórico-dialética. Alguns aspectos depreendidos do método materialista histórico-dialético nortearam a pesquisa. Mais à frente detalharemos como o método foi empregado e em quais aspectos nos baseamos. E para delinear o conjunto de procedimentos mais gerais para a investigação, viabilizado pelo intermédio de técnicas, tivemos o respaldo do método cartográfico, que também será detalhado posteriormente. A história da dialética em suas primeiras versões surgiu na Grécia Antiga com o filósofo Sócrates. Definida como a arte do diálogo, a arte de conversar, a dialética foi amplamente utilizada por esse filósofo em suas discussões. O mesmo fazia Platão, que utilizava a dialética para a composição de seus diálogos. Porém, é com Hegel, importante filósofo alemão do século XIX, que a dialética se torna uma grande preocupação e objeto de estudo da filosofia. Para o filósofo, a dialética fundava-se na contradição, na negação, a partir da tríade – tese – antítese – síntese. Com Karl Max a dialética passa a ser uma tentativa de superar a separação entre sujeito e objeto (MARCONDES, 2001).. 5. Informação verbal durante curso de Culturas Populares: dos Métodos aos Conceitos e das Motivações à Metodologia, ministrado pelo prof. Jorge A. González, no dia 28 de março de 2011. Durante a primeira estada do professor González na Universidade Metodista de São Paulo, como professor visitante. 6 O observável é o dado mais a interpretação, ou ainda, é o conjunto de relações que estabelecemos com o objeto estudado. 7 Informação verbal durante aula ministrada na disciplina Processos Comunicacionais, no primeiro semestre de 2011..
(26) 25. De acordo com Leandro Konder (1998) a dialética marxista superou o pensamento idealista hegeliano no sentido de avançar as proposições aventadas por Hegel, conferindo um sentido material e histórico ao conceito. Para Marx, Hegel tratava a dialética no plano do espírito, no mundo das ideias. Enquanto o mundo dos homens requer a sua materialização. O sentido material diz respeito a como os homens se organizam na sociedade, já o sentido histórico diz respeito a como esses homens se organizam por meio da construção da sua história.8 Nesse sentido, a base dialética foi de fundamental importância para compreender a complexidade, as contradições, as superações e as mediações históricas que foram reveladas no interior e no entorno do sujeito-objeto estudado. Uma visão que abarcou não apenas uma posição, mas várias constituintes do sujeito-objeto, que é formado por pessoas, que por sua vez são passíveis de contradições e alteridades. Introduzir a reflexão filosófica nesta discussão, entretanto, é importante na medida em que ela fornece base conceitual para entender as transformações do método e o que se entende por método científico neste trabalho. Outrossim, permite a leitura mais atenta e ao mesmo tempo dinâmica, própria do pensamento dialético. No entanto, três preocupações pertinentes caminharam com a discussão. A primeira foi a de não aprofundar nos problemas filosóficos, a segunda foi de não introduzir apressadamente a temática sem recorrer a seus fundadores e a terceira preocupação foi de não aprisionar o método, mas de liberá-lo seguindo as pistas da historicidade do seu próprio conceito adaptando-o a realidade concreta. Com base em Marcondes (2001, p.27) o caráter crítico parece ser basilar na perspectiva da produção do conhecimento. O caráter crítico na produção do saber era um dos aspectos que constituía as primeiras escolas de pensamento filosófico. Daí reside a noção de não apenas refutar o pensamento mítico, substituindo um sistema de pensamento por outro. Mas de colocálo como uma vertente de pensamento que não busca o dogmatismo de doutrinas, como pensamento único, de caráter sobrenatural, mas justamente de colocar em discussão e debate as verdades estabelecidas, justificadas pela teoria tradicional do mito. Todavia, a exigência era a de que os filósofos justificassem suas propostas, sendo estas, submetidas à crítica. No decurso da história os conhecimentos científicos dos homens progrediram. Na antiguidade grega, os conhecimentos científicos quase não existiam e os sábios e ao mesmo tempo filósofos, viam andar de mãos dadas a filosofia e a ciência, sendo uma extensão da outra.. 8 Ver Marcondes, Danilo. Iniciação à História da Filosofia. Dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001..
(27) 26. Ao passo que a ciência buscava explicações sobre os fenômenos do mundo, entrava em contradição com dogmas da filosofia idealista criando assim um conflito entre a filosofia da época e a ciência, suficiente para que se separassem. No entanto, a razão humana surge como divisora de águas entre a ciência antiga e a nova. Ganha, então, centralidade a partir do filósofo francês René Descartes no século XVII, quando apresenta entre outros tratados, o Discurso do Método9. Todavia, seu pensamento tem como pano de fundo as transformações na Europa entre os séculos XVI e XVII. A razão é palco para que as ideias sobre o conhecimento científico pudessem ser sistematizadas. A contribuição cartesiana do ponto de vista do método e da fundamentação científica reside na atitude crítica, introduzida pela dúvida, que fornece assunto para longas reflexões acerca dos limites do conhecimento humano e também sobre o questionamento da ciência tradicional que permeou a filosofia moderna. Em contrapartida, o materialismo progrediu juntamente com o progresso da civilização, com a escrita, a urbanização, as leis etc. Nas palavras de Politzer (1979, p.21) “para chegar, com o materialismo moderno, o de Marx e Engels, a reunir, de novo, a ciência e a filosofia no materialismo dialético”, assunto que veremos mais adiante. Para nossa explanação importa saber quais as bases fundantes do materialismo e também da dialética. E, ainda, como esses dois sistemas de pensamento se entrelaçaram e foram renovados para tornar-se a base do que temos hoje. Logo, se apontarmos a filosofia como uma grande diligência de explicar/interpretar o mundo, podemos situar duas vertentes para tal explicação. Temos o idealismo e o materialismo, de um lado os filósofos idealistas calcados na força do sobrenatural, na força de um ou mais espíritos, a anticiência. De outro lado, os filósofos materialistas apoiados na força da experiência e dos fatos, a ciência. Para Politzer (1979, p.21) “se o idealismo nasceu da ignorância dos homens [...] o materialismo nasceu da luta das ciências contra a ignorância ou obscurantismo”. A este respeito Politzer vai demostrar que a ignorância foi mantida e sustentada na história das sociedades por forças culturais e políticas que partilhavam as concepções idealistas e justamente por esses motivos não fazia sentido difundir a concepção moderna do materialismo, tampouco em seu viés dialético. O materialismo dialético, a partir de Marx e Engels, é um método de interpretação da realidade fundamentado em três grandes princípios (GIL, 2014; POLITZER, 1979; TRIVIÑOS,. 9. Descartes, René. Discurso do Método. São Paulo-Brasília: Ática/Ed. UnB, 1989..
(28) 27. 1987), a saber: a) unidade dos opostos - todos os objetos/fenômenos sociais se constituem por aspectos contraditórios; b) quantidade e qualidade - são características intrínsecas aos objetos / fenômenos e estão relacionados; c) negação da negação – conduz a um desenvolvimento e não um retorno ao que era anteriormente. Para o entendimento e análise destes três princípios ou categorias, de maneira geral é preciso um ponto de partida, que pode ser compreendido segundo Triviños (1987, p.55) pelas categorias básicas do materialismo dialético, a consciência, a matéria e a prática social. A grande propriedade da consciência é refletir a realidade objetiva. Dessa maneira, surgem percepções, sentidos, juízos de valor, conceitos etc., no entanto, ela vai se transformando ao longo do tempo. Em outras palavras, quando surge o ser humano surge também a sua consciência, em constante transformação. A matéria pode ser compreendida num sistema concreto de estruturas objetivas e jamais isolada no universo, o sistema socialmente organizado (a sociedade e o homem), o sistema biológico (desde o microrganismo ao homem), são exemplos de matéria, esta é anterior a própria noção de consciência. A prática social de forma ampla é a atividade material com vistas à transformação da natureza e da vida social. Hardt e Negri (2014, p.188) alertam que “a chave do método marxista do materialismo histórico é que a teoria social deve ser modelada segundo os contornos da realidade social contemporânea”. Os autores, ao traçar seu sistema de pensamento, apontam os elementos que consideram fundantes do materialismo histórico marxista, renovando-os: a tendência histórica, a abstração real, o antagonismo e a constituição da subjetividade. Hardt e Negri (2014) são enfáticos ao dizer que é preciso ultrapassar o método, na medida em que a própria história avança e a realidade se transforma. Na ideia de tendência reside a noção de periodização histórica. Constantemente ocorre mudanças no interior da sociedade e existe também muitos paradigmas que vão colaborar com nossas formas de pensamento, nossas estruturas de conhecimento, a própria ideia daquilo que é normal ou não. Uma série de acontecimentos históricos vão marcar a criação de novos paradigmas e consequentemente a passagem entre esses períodos é a mudança de uma tendência. Um bom exemplo é a passagem da hegemonia do trabalho industrial à do trabalho imaterial. O capital cria uma forma de produção colaborativa e interligada na qual o trabalho não é individual, mas produzido em colaboração com outros, apontam Hardt e Negri (2014, p. 192193). Na produção capitalista os tipos de trabalhos específicos têm algo em comum, o trabalho.
(29) 28. abstrato, aquele independente de sua especificidade. No entanto, se o trabalho é a fonte de toda a riqueza, o trabalho abstrato é a fonte do valor. A abstração real tem início com a produção, elemento fundamental na análise de Marx, e pode ser entendida como a própria noção de trabalho. No entanto, o novo paradigma nas relações de trabalho prejudica a divisão entre tempo de trabalho e tempo de vida, colaborando com a criação não dos meios da vida social, mas com a própria vida social. Para Hardt e Negri (2014, p.193) hoje não faz sentido falar em unidade temporal de trabalho como medida básica de valor, pois o “trabalho efetivamente continua a ser a fonte essencial de valor na produção capitalista, isto não muda, mas precisamos investigar de que tipo de trabalho estamos tratando e quais são as suas temporalidades” (HARDT; NEGRI, 2014, p.193). Essa visão permite aos autores lançar uma nova perspectiva para a transformação da produção capitalista, lembrando que o capital sempre esteve voltado para a produção, reprodução e o controle da vida social. Agora ele investe a própria vida - máquina produtiva - numa produção biopolítica. Seguindo a linha dos autores (2014, p.198) a palavra exploração remete “à constante experiência de antagonismo dos trabalhadores”, pois a exploração revela uma violência estrutural cotidiana do capital contra esses trabalhadores. No entanto, os autores indicam que não cabe mais mensurar a teoria do valor em termos quantitativos, tampouco a exploração deveria ser pensada assim. O entendimento parte do pressuposto de que a produção de valor deve ser entendida em termos de produção do comum e de igual forma devemos pensar a exploração como a expropriação do comum. Nesse segundo aspecto, aquilo que é feito em comum passa a ser privado, daí a expropriação do comum, que pode ser aplicada à produção de linguagens, conhecimentos etc. “Os lucros do capital financeiro são provavelmente a expropriação do comum em sua forma mais pura” (HARDT; NEGRI, 2014, p.198). O último elemento fala sobre a produção de subjetividade, aquela gestada nas práticas materiais de produção. Para Hardt e Negri (2014, p.200) “a subjetividade dos trabalhadores também é criada no antagonismo da experiência da exploração” e seguem a trilha de Marx ao afirmar que ele reconhece “a pobreza como estaca zero da atividade humana, como a figura da possibilidade real e, portanto, fonte de toda a riqueza” (HARDT; NEGRI, 2014, p.201). Tal afirmativa define a subjetividade do trabalhador no que concerne à própria produção imaterial. Em outras palavras, a riqueza produzida pelo trabalhador é expropriada, mas ele preserva a sua capacidade de produzir nova riqueza, resultado da sua força. No entanto, como todo método e teoria de abordagem, existem críticas a respeito. Cecilia Minayo (2009, p.24) se posiciona sobre as críticas relacionadas ao marxismo, afirmando.
(30) 29. que elas enfatizam a dificuldade para a criação de instrumentos compreensivos, porque a tendência dos autores clássicos e de seus seguidores é importar respostas prontas baseadas na exegese teórica, perdendo a realidade empírica. Para Minayo, (2009, p.24): A dialética trabalha com a valorização das quantidades e da qualidade, com as contradições intrínsecas às ações e realizações humanas, e com o movimento perene entre parte e todo e interioridade e exterioridade dos fenômenos. Porém, as análises marxistas voltadas para a consideração dos valores, crenças, significados e subjetividade são quase inexistentes porque a prática marxista hegemônica de análise da realidade tem sido macrossocial ou mesmo positivista.. A autora também cita a questão da subjetividade como um componente quase inexistente nas análises com base no marxismo. E é justamente o que pretendemos, incluir em nossas análises, a subjetividade. Como vimos anteriormente, em Hardt e Negri (2014) a constituição da subjetividade é um dos principais elementos do método revisitados. Sobre as críticas ao método marxista, Asti Vera (1983, p.59-60) aponta que “para Marx, a variável independente é a economia; para Weber, a religião. Ambos incorrem no mesmo erro, que consiste em condicionar todo o sistema a uma de suas partes”. Hardt e Negri (2014) divergem desse pensamento quando afirmam não ter como separar economia, política de outras instâncias da sociedade, demonstrando o caráter biopolítico dessa relação. Talvez aí resida uma das próprias críticas dos autores quando propõem uma revisão e releitura do método marxista. Temos ciência de que o debate teórico sobre o método em questão é importante, inclusive, torna-se fundamental o como aplicá-lo. Triviños (1987, p.73-74) apresenta de forma esclarecedora algumas orientações para o desenvolvimento de pesquisa com cunho materialista dialético, cujos procedimentos orientam o conhecimento do objeto, tais como: a). A observação do fenômeno em sua fase inicial, partindo do princípio de que. nenhum fenômeno é igual a outro. É a singularidade de cada fenômeno/objeto estudado. O objeto sendo captado em sua qualidade geral. b). Análise do fenômeno, estabelecimento de suas relações históricas, sociais, e. acrescentamos, biopolítica. c). A realidade concreta do fenômeno, suas possibilidades, potencialidades, sua. forma, conteúdo, a descrição, análise, síntese etc. Para o desenvolvimento desta pesquisa, seguimos os procedimentos acima descritos, os quais nos conduzem ao método de abordagem e nos orientam a construção dos capítulos teóricos com utilização de autores que comungam com este tipo de abordagem. Nossa intenção.
(31) 30. no estudo foi a de seguir o próprio devir dos movimentos, desde sua história à dinamicidade (PERUZZO, 2005, p.130) pela qual passam. Além disso, pautamo-nos nas categorias revisitadas por Hardt e Negri (2014): a tendência histórica, a abstração real, o antagonismo e a constituição da subjetividade. A apropriação dos elementos constituintes do materialismo histórico visa a captar como as relações sociais se constroem dentro de um sistema hegemônico estabelecido e entender como essa realidade social concreta é construída a partir das relações de poder. Passar pelas condições de possibilidade dessas relações sob o ponto de vista das categorias estudadas por Hardt e Negri (2014) e Triviños (1987) é dialogar com Foucault (2006), com a desconstrução de verdades estabelecidas, com o fato da própria teoria ser uma prática e, especialmente, com a produção de subjetividades e a questão do biopoder. Adotar a perspectiva foucaultiana é imprimir um estilo de pensamento que ao refletir sobre o presente inevitavelmente iremos ao passado, tendo em vista relações históricas de poder.. 1.1 Procedimentos metodológicos. Para alcançar os objetivos propostos nesta pesquisa e para compor o quadro teóricometodológico o procedimento de abordagem metodológica consistirá no método cartográfico. O desígnio da cartografia na pesquisa é que ela busca acompanhar o processo. E foi exatamente o que buscamos com o mapeamento - o processo - aquilo que estava entre o que estava por vir, ou seja, um mapa aberto. A pesquisa bibliográfica, a revisão de literatura, a pesquisa documental e a observação participante netnográfica aliada às técnicas da teoria fundamentada em dados compõem a presente metodologia. A junção dos procedimentos citados tem como base uma teoria de abordagem centrada nas contradições próprias dos movimentos sociais, de sua realidade concreta e suas transformações na atualidade. Inicialmente apresentaremos as abordagens conceituais sobre a cartografia e como ela pôde ser utilizada no campo da comunicação social. Em seguida, trataremos do detalhamento dos procedimentos, técnicas e estratégias metodológicas utilizadas nesta pesquisa, ousadamente, baseada na teoria fundamentada em dados..
(32) 31. 1.2 Cartografia Comunicacional Na introdução de “Mil Platôs”, Gilles Deleuze e Félix Guattari (1995a, p.10-11) dizem que escrever nada tem a ver com significar, mas com cartografar, mesmo que sejam regiões ainda por vir. O princípio da cartografia, em “Mil Platôs”, diz respeito ao rizoma, o qual na botânica é um tipo de haste subterrânea, que permite ramificar-se em qualquer ponto. Conforme aponta Deleuze e Guattari (1995a, p.14), em si mesmo o rizoma tem formas muito diversas, pois ele não cessaria de conectar cadeias semióticas, organizações de poder, ocorrências que remetem às artes, às ciências, às lutas sociais. O rizoma refere-se “a um mapa que deve ser produzido, construído, sempre desmontável, conectável, reversível, modificável, com múltiplas entradas e saídas, com suas linhas de fuga” (DELEUZE; GUATTARI, 1995a, p.32). A cartografia é um mapa aberto, móvel, conectável e pode ser modificado constantemente em todas as suas dimensões. Na perspectiva do campo comunicacional destaca-se os estudos cartográficos empreendidos por Jesús Martin-Barbero (2004), Néstor García Canclini (2009) e Nísia do Rosário. Em 1980 Martín-Barbero traça seu primeiro mapa de investigação em comunicação e a partir desse ofício artesanal que guiou a longa investigação fruto da obra Dos meios às mediações. Nela, Martin-Barbero (2002, p.18) sintetiza o que entende por mapa noturno, aquele que serve para indagar a dominação, a produção e o trabalho, no entanto, a partir das brechas. Com a proposta de mapa noturno a intencionalidade do autor é recolocar o estudo dos meios a partir da investigação das matrizes culturais e dos processos comunicacionais que envolvem diferentes atores sociais. Um mapa não para a fuga, mas para o reconhecimento da situação desde as mediações e os sujeitos, para mudar o lugar a partir do qual se formulam as perguntas, para assumir as margens não como tema, mas como enzima. Porque os tempos não estão para síntese, e são muitas as zonas da realidade cotidiana que estão ainda por explorar, zonas em cuja exploração não podemos avançar se não apalpando, ou só com um mapa noturno (MARTÍN-BARBERO, 2002, p.18).. A própria trajetória intelectual de Martín-Barbero pode ser comparada a um mapa aberto, diferente daquele inaugurado pela geografia tradicional, com delimitações territoriais e acabado. Na introdução de Ofício de Cartógrafo, o autor (2002, p.17) faz um apanhado sobre o seu ofício na cartografia, cuja aspiração é renovar o mapeamento dos estudos de comunicação na América Latina. Martín-Barbero (2002, p.15) situa também o trabalho de García Canclini.
Outline
Documentos relacionados
O enfermeiro, como integrante da equipe multidisciplinar em saúde, possui respaldo ético legal e técnico cientifico para atuar junto ao paciente portador de feridas, da avaliação
Apothéloz (2003) também aponta concepção semelhante ao afirmar que a anáfora associativa é constituída, em geral, por sintagmas nominais definidos dotados de certa
A abertura de inscrições para o Processo Seletivo de provas e títulos para contratação e/ou formação de cadastro de reserva para PROFESSORES DE ENSINO SUPERIOR
• O material a seguir consiste de adaptações e extensões dos originais gentilmente cedidos pelo
iv. Desenvolvimento de soluções de big data aplicadas à gestão preditiva dos fluxos de movimentação portuária de mercadorias e passageiros. d) Robótica oceânica: criação
A Variação dos Custos em Saúde nos Estados Unidos: Diferença entre os índices gerais de preços e índices de custos exclusivos da saúde; 3.. A variação dos Preços em
1595 A caracterização do repertório de habilidades sociais dos alunos do Grupo com Baixo Desempenho Acadêmico (GBD) e do Grupo com Alto Desempenho Acadêmico (GAD),
Os métodos estatísticos para análise de dados podem ser classificados como métodos descritivos (Estatística descritiva) e métodos inferenciais (Estatística