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Entre imagem afrorreligiosa e monumento público: reflexões

sobre sagrado e modernidade

Fernanda Heberle

INtrodução

Como notaram os autores de uma coletânea recente sobre o tema da presença da religião no espaço público (ORO et al., 2012), abordar questões referentes à participação da religião na política, na mídia, nas instituições e políticas públicas ou nas discussões acerca de te- mas de conteúdo moral, implica considerar os debates teóricos sobre religião e modernidade, tendo em vista as restrições impostas à sua presença e atuação na vida pública pelo princípio moderno de sepa- ração entre Estado e igrejas.

Neste texto, gostaria de tecer algumas considerações sobre o tema, explorando episódios de uma controvérsia envolvendo os deslocamentos de uma imagem de referência afrorreligiosa origi- nalmente instalada às margens do lago Guaíba, na cidade de mesmo nome, situada na região metropolitana de Porto Alegre. A “Gruta da mãe Oxum”, como ficou conhecido o altar construído na década de 1970 para abrigar uma imagem dedicada à divindade das águas doces

— a partir da iniciativa de uma mãe de santo da cidade — passou a ser objeto de uma controvérsia pública em 2008, quando, em função do deterioramento da gruta, a imagem foi transferida das margens do lago para as dependências de um terreiro e, posteriormente, para um museu municipal até retornar à orla da praia em 2013.

O objetivo principal da reconstituição de alguns episódios dessa controvérsia é atentar para aquilo que o caso nos revela e sugere, por um lado, acerca dos efeitos de convivência entre religião e moder- nidade e, por outro, sobre a produção de “sagrados” em contextos e instituições seculares. Mais especificamente, gostaria de explorar a ideia, sugerida, por exemplo, por Giumbelli (2002, 2004) de que se trata de uma relação inerentemente ambígua essa configurada pela convivência entre religião e modernidade.

Ao lado do texto de Lígia Évora publicado nesta mesma seção, este trabalho oferece ainda elementos para uma reflexão sobre modos de presença do afrorreligioso no espaço público no Brasil na atualida- de. As polêmicas envolvendo as formas de produzir e comercializar o tradicional bolinho de acarajé em Salvador, na Bahia, e a controvér- sia envolvendo a imagem e a gruta de Oxum em Guaíba, no Rio Gran- de do Sul, revelam que os símbolos e práticas de referência afror- religiosa no espaço público, longe de serem uma presença invisível e naturalizada, são frequentemente objeto de muita reverberação e múltiplas ressignificações de sentidos. Mais do que isso, os casos apontam para a importância da categoria “patrimônio” na intera- ção entre religiões afro e Estado, evidenciado a centralidade que a associação com a ideia de “cultura” assume no reconhecimento da presença do afrorreligioso no espaço público.

O texto está dividido em três partes. Na primeira delas apresento alguns excertos etnográficos que visam a reconstituir os argumen- tos e elementos-chave envolvidos nos episódios de deslocamento da imagem de Oxum. Na segunda, esboço uma breve reflexão sobre o estatuto das imagens e do sagrado na modernidade, procurando oferecer uma interpretação sobre as reações desencadeadas pelo

Entre imagem afrorreligiosa e monumento público | 55 ato inicial de retirada da imagem da orla da praia e sua ida para um templo religioso. Por fim, analiso os efeitos da presença da imagem religiosa no museu, atentando para o paradoxo configurado pela convivência entre o sagrado religioso e o sagrado encarnado pelo pa- trimônio público no âmbito da instituição museal.

CENaS da trajEtórIa do oBjEto

No final daquela tarde de sábado, depois de fazer as homenagens à divindade na “Pedra de Xangô”, situada próxima à praia da Alegria, o grupo de religiosos afro umbandistas caminhou até a outra extremi- dade da praia para saudar a Oxum. Qual não foi a surpresa do grupo em, ao se aproximar da gruta, ver a grade que protegia a parte frontal do altar tombada sobre a imagem religiosa? Concordaram que não ha- via mais condições de a “mãe Oxum” permanecer no local. Sob can- tos de Ogum a Oxalá e toques de tambor, a imagem da divindade foi transportada, no banco traseiro de um automóvel, até a sede de um terreiro situado na periferia da cidade de Guaíba, onde foi instalada ao lado de outras imagens da casa “com todas as honrarias possíveis”. Procurando evitar uma possível acusação de furto do objeto, os religiosos registraram um boletim de ocorrência na delegacia de po- lícia civil da cidade em que uma das mães de santo declarava fazer a transferência da imagem para a sede de seu terreiro. O motivo de- clarado era evitar que o objeto fosse furtado ou depredado, dadas as condições de insegurança do local. Horas mais tarde e depois de al- guns telefonemas, o secretário de cultura e o secretário de meio am- biente do município reuniram-se com os religiosos diante da gruta na praia da Alegria, providos de um termo de fiel depositário a ser assinado pela religiosa, o qual foi elaborado nos seguintes termos:

Aos 23 dias do mês de agosto de 2008, fica a Assobecaty, com sede neste município de Guaíba, representada pela sua Direto- ra Espiritual e Presidenta, Sra. Carmen Lucia Silva de Oliveira,

constituída fiel depositária da Estátua da Mãe Oxum, pertencen- te ao Município de Guaíba, que se encontra em próprio público, localizado na Travessa da Alegria, s/nº. Este termo é firmado em razão da depredação ocorrida no local onde a mesma está assen- tada. Declara, sob penas da lei, que: 1) Responsabiliza-se pela boa guarda, do bem acima descrito, pelo prazo necessário aos reparos do local, conforme determinação do Sr. Prefeito Mu- nicipal. 2) Está ciente de que, nos casos de extravio sem causa justificável do bem sob a sua guarda, será tida como infiel depo- sitária sujeito à prisão civil nos termos do inciso LXVII do artigo 5º da Constituição Federal. (GUAÍBA, 2008)

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Aos sete dias do mês de agosto do ano de dois mil e doze, nesta cidade de Guaíba, Estado do Rio Grande do Sul, em cumprimen- to ao Mandado de Busca e Apreensão [...] eu, Oficial de Justiça abaixo assinado, às 10h30, no endereço indicado e após as for- malidades legais, procedi a APREENSÃO da Estátua em madeira da Imagem da Mãe Oxum, com altura de 1m35cm, na sua base com a inscrição ‘Oxum Doação de mãe Dalila a Cidade de Guaí- ba’, em ótimo estado de conservação. (GUAÍBA, 2012a)

Os rituais religiosos já haviam sido realizados no fim de sema- na anterior, de modo que não houve resistência quando o oficial de justiça, acompanhado de um auxiliar, chegou ao terreiro de mãe Carmen para cumprir o mandado de busca e apreensão da imagem na manhã daquela quarta-feira. Depois de quase quatro anos, mãe e filhos do terreiro despediram-se da imagem religiosa, enquanto a “estátua de titularidade do município” era carregada até o carro com inscrições da prefeitura.

No museu municipal, o salão contíguo ao hall de entrada já estava preparado para sua recepção. Na semana anterior, duas funcionárias haviam usado tecido na cor atribuída à divindade, o amarelo, para cobrir a superfície externa de um cofre, que fazia parte do acervo em exposição no local, a fim de que servisse como base para sustentar

Entre imagem afrorreligiosa e monumento público | 57 a imagem. As pontas do mesmo tecido, saindo das laterais do cofre e unindo-se, à altura do teto, formaram uma espécie de “gruta” no centro da qual a imagem em madeira, de cerca de um metro e meio de altura, foi disposta. Por fim, uma flor, também amarela, dentro de um pequeno recipiente de vidro, foi depositada sobre a base, aos pés da imagem, completando a ornamentação do espaço.

Textos explicativos, pouco frequentes nas exposições desse mu- seu, não foram incorporados nessa ocasião. A legenda descritiva, essa sim comum a todos os objetos expostos, pareceu, dessa vez, dis- pensável. A inscrição entalhada na base da própria imagem — um baú de madeira sobre o qual erguia-se a figura da divindade — foi considerada autoexplicativa: Oxum. Homenagem de mãe Dalila à ci- dade de Guaíba.

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Os dois episódios narrados reconstituem momentos da trajetória de deslocamentos da imagem de Oxum. As cenas, separadas tempo- ralmente por quase quatro anos, funcionam como uma espécie de síntese que pretende enfatizar o modo pelo qual, nesses deslocamen- tos, a existência do objeto é marcada por uma dupla produção: como imagem religiosa e como monumento público.

Muitas outras cenas poderiam ter sido descritas, tendo em vista que, durante os quase quatro anos em que a imagem ficou sob a tu- tela do terreiro, — também denominado como uma associação cul- tural1 — diversas foram as situações em que o estatuto religioso e pú- blico do objeto estiveram em questão. Isso porque, nesse período, a imagem e a gruta passaram não apenas a serem objetos de uma cam- panha pelo seu restauro e reconhecimento como patrimônio cultural afrorreligioso do município — avançada, sobretudo, pela liderança

1 Associação Cultural Africana Templo de Yemanjá (ASSOBECATY). Para mais infor- mações sobre as ações sociais do terreiro/associação cultural. (MÚSCARI, 2014)

do terreiro onde a primeira encontrava-se disposta —, como pro- tagonistas de uma festa em homenagem a Oxum que passou a ser promovida anualmente na praia da Alegria com a presença da ima- gem.2 Outras cenas, referentes ainda a episódios anteriores à reti- rada do objeto do interior da gruta em ruínas, poderiam evidenciar os tensionamentos entre esses estatutos. Entre elas, os pedidos de restauro da gruta encaminhados por religiosos ao executivo e ao le- gislativo municipal nos anos de 2003, 2006 e 2008. Ocasiões essas em que a intervenção sobre o monumento foi adiada ou ignorada, tendo em vista, entre outras coisas, a dúvida levantada pela administração municipal acerca de sua responsabilidade e poder de atuação sobre o monumento considerado religioso. Os dois episódios narrados no início desta seção, diferentemente, são marcados não apenas pelo reconhecimento por parte da prefeitura do caráter público da ima- gem de Oxum, como pela reivindicação desse estatuto para justificar um segundo deslocamento do objeto — sua retirada do terreiro e sua transferência para as dependências do museu municipal.

Na seção que segue gostaria de elaborar algumas reflexões sobre a relação entre imagens e modernidade que, sugiro, oferecem uma in- terpretação para a mudança de interesse do poder público pelo objeto depois que esse é retirado da orla da praia. O objetivo, na sequência, é explorar o que ocorre com a imagem de Oxum quando ela é transfe- rida para a instituição museal.

2 Não será possível explorar aqui mais detalhes da controvérsia inaugurada quando a imagem é retirada da orla da praia e transferida para as dependên- cias do terreiro. Vale apenas mencionar que o caso foi objeto de uma polêmica envolvendo uma série de agentes — entre eles religiosos, políticos e juristas — além de uma infinidade de dispositivos — como processos jurídicos, denúncias ao Ministério Público Estadual e Federal, laudos de instituições universitárias, Organizações Não Governamentais (ONGs) e institutos de patrimônio estadual e nacional — que tinha como questão central não apenas a discussão sobre o local mais adequado de disposição do objeto, mas também os termos de re- construção da gruta e de seu reconhecimento como patrimônio histórico e cul- tural. Uma versão mais detalhada dessa controvérsia foi explorada e descrita em minha dissertação de mestrado em Antropologia Social. (HEBERLE, 2014)

Entre imagem afrorreligiosa e monumento público | 59 Antes de prosseguir com a narrativa, contudo, é importante mencionar rapidamente os argumentos que foram mobilizados pela Prefeitura de Guaíba para justificar a retirada da imagem do terreiro e sua transferência para o museu municipal. Um deles estava relacio- nado com o próprio estatuto de propriedade do objeto. No processo jurídico de busca e apreensão da imagem, movido no âmbito do po- der Judiciário Estadual, a simples reivindicação da “estátua” como um “bem de propriedade do município”, tal como reconhecido no termo de fiel depositário firmado quatro anos antes, garantira a sua retirada do terreiro. Em outro plano de interpelação jurídica, no en- tanto, é o próprio estatuto religioso do objeto que é acionado como justificativa para a ação. Em resposta a um pedido de esclarecimento solicitado pelo Ministério Público Federal, a administração munici- pal justificou o recolhimento da imagem em função de um abaixo- -assinado protocolado por religiosos afro umbandistas da cidade, no qual esses manifestavam seu descontentamento com a manutenção da imagem de Oxum “em recinto particular” e solicitavam seu enca- minhamento provisório ao Museu Municipal para que essa voltasse “a ser visitada e louvada por todos”. (GUAÍBA, 2012a)