3. ENTRE MANUAIS, DISCIPLINAS E PROGRAMAS DE ENSINO: POR UMA
3.4. FILOSOFIA DO DIREITO
3.4.2. Entre o Norte e o Sul
Logo no segundo ano (1914) de funcionamento do Curso de Direito, a cadeira de Enciclopédia Jurídica foi, como mencionado, substituída pela Filosofia do Direito.
Vale notar: a Congregação da Universidade optou por mesmo antes da Reforma Maximiliano, que reinseriu a disciplina de Filosofia no currículo, substituir a cadeira de Enciclopédia Jurídica pela de Filosofia do Direito, o que pode mesmo ser lido como uma resistência do professor responsável pela cadeira quanto a um papel assaz restrito, demasiado introdutório e esquemático como aquele estabelecido pela Enciclopédia Jurídica.
À parte dos manuais dedicados ao estudo da Enciclopédia Jurídica, logo no primeiro ano do curso são adquiridas algumas obras que não diziam respeito especificamente a uma introdução geral ao estudo do direito, e que iriam servir de textos de apoio à disciplina de Filosofia do Direito. Destaque inicial para A Evolução do Direito388 e A Luta pelo Direito, ambas de Rudolf von Ihering, obras que parecem bem indicar as influências sofridas pelo autor dos programas de ensino. Por outro lado,
387 O programa de ensino elaborado para o ano de 1913 era dividido em duas partes: uma destinada à Enciclopédia Jurídica e outro à Filosofia do Direito.
388 IHERING, Rudolf von. A Evolução do Direito. Lisboa: Bertrand, s/d.
conforme se pôde notar da análise do livro de consultantes, os Estudos de Filosofia do Direito, de Pedro Lessa, e os Ensaios de Filosofia do Direito, de Silvio Romero, o Tratado elementar de Filosofia, de Paul Janet, bem como os Estudos de Filosofia do Direito, de Laurindo Leão, foram reiteradamente o foco de interesse dos alunos do primeiro ano.
Antes de iniciar-se a análise da configuração que os estudos de Filosofia do Direito tiveram ao longo dos primeiros anos de ensino, deve-se sublinhar um fato absolutamente notável e relevante: a cadeira de Filosofia do Direito teve um mesmo professor encarregado pela disciplina por aproximadamente 30 anos. Trata-se, com efeito, do advogado Benjamin Lins de Albuquerque, personalidade integrante do grupo de fundadores da Universidade do Paraná, um dos cinco formados na Faculdade de Direito do Recife389, que, assumindo a referida cadeira já em 1913, deixará o quadro docente do Curso de Direito somente no ano de 1943, quando se aposenta. Certo é que ao longo desses quase 30 anos de docência, o professor Benjamin Lins de Albuquerque foi por diversas vezes substituído, em razão das licenças requeridas. A sua presença à frente da cadeira de Filosofia do Direito dará, entretanto, o perfil dos estudos jurídicos atinentes a essa cadeira.
Os pontos dos primeiros programas de ensino de Filosofia do Direito, aqueles elaborados para os anos de 1913 (2.ª parte, sendo a primeira dedicada à Enciclopédia Jurídica390) e 1915391, revelam uma disciplina marcada pelo naturalismo próprio do período. Desenvolvem-se, por um lado, dentro da discussão, própria do século XIX, a respeito da filosofia positiva (o que o autor chama de “filosofia moderna”, à qual corresponde a Filosofia do Direito) e todas as implicações que o determinado método que lhe é correlato traz aos estudos científicos da realidade e, em especial, ao estudo do Direito.
389 Recebeu de Clóvis Beviláqua as seguintes considerações: “Advogado no Paraná. Reúne em sua individualidade predicados excelentes: talento, amor ao estudo e firmeza de caráter” (cf.
BEVILÁQUA, C. História da Faculdade de Direito do Recife., p. 253).
390 UNIVERSIDADE DO PARANÁ. Programas do Curso de Sciencias Juridicas e Sociaes. 1º ano.
Curityba: Typ. Max Roesner, 1913.
391 UNIVERSIDADE DO PARANÁ. Programas do Curso de Sciencias Juridicas e Sociaes. 1º ano.
Curityba: Typ. Max Roesner, 1915.
O estudo da humanidade (realizado por uma ciência determinada e por métodos próprios) passa pela análise da organização cerebral do homem, das leis da transmissão hereditária no homem, da luta pela existência e pela conservação da espécie, o que atesta um notável biologismo que parece bem indicar uma inequívoca e esperada filiação de Lins de Albuquerque a uma determinada tradição: aquela da Escola do Recife (em cujo ambiente intelectual o nosso professor se formou), notadamente ao que diz respeito ao darwinismo jurídico de Rudolf von Ihering.
Por outro lado, Lins de Albuquerque aparentemente se espelha nos programas de ensino concebidos por Pedro Lessa para o ensino da filosofia do direito na Faculdade de Direito de São Paulo (como aquele elaborado para o ano de 1909) ao diferenciar arte, ciência e filosofia do direito; ao apontar esquematicamente as principais escolas de filosofia do direito, quais sejam, a chamada “Idealista Transcendental”, de Kant, a “Histórica”, de Savigny, e a “Evolucionista de Ihering”.
Certamente por força da influência do ambiente intelectual (aquele da Escola do Recife) em que se formou Benjamin Lins, os programas de ensino revelam a adoção de várias passagens do pensamento de Rudolf von Ihering: além dos pontos a que já foi feito referência, parece mesmo que o núcleo do programa era retirado das obras A luta pelo direito e a Evolução do Direito: a noção de direito força; o salário e a coação como motores egoístas do movimento social, o sentimento do direito (figura passível de aperfeiçoamento). Assim, se por um lado muitos dos pontos parecem diretamente inspirados nos programas de ensino de Pedro Lessa, como mencionado, por outro parece claro que Benjamin Lins mostra-se pensador imerso nas questões postas pelo segundo Ihering.
É interessante perceber que das primeiras aquisições da biblioteca da Universidade do Paraná não constaram livros de Tobias Barreto, porém sim a obra Ensaios de Filosofia do Direito de Silvio Romero, autor que, como visto, não compartilhava com Tobias aquela posição de delação dos defeitos da sociologia positivista; ao contrário, a respeito dela mantinha uma consideração otimista. Assim, parece que paralelamente ao evidente didatismo da obra de Pedro Lessa, outra questão pode ter influenciado a aproximação de Benjamin Lins do seu manual de Filosofia do Direito: o sociologismo de Lessa. Nesse particular, também sobressai dos programas
de Benjamin Lins a inclusão de pontos destinados ao estudo das leis de formação das sociedades, das leis fundamentais da dinâmica e da estática (no homem e na sociedade;
clara influência comteana), das forças que nela atuam, bem como das relações do direito com a Sociologia, com a Antropologia, com a Economia Política e com a Política (todas questões pontualmente abordadas por Pedro Lessa).
Aceitação da sociologia que, entretanto, não apaga a marca fundamental do ensino, que era o biologismo próprio à Escola do Recife e a darwinização do direito proposto por Ihering. Já no programa de 1913 Benjamin indicava expressamente a dependência do direito em relação à biologia. É interessante consignar, como um atestado do ensino que era ministrado na cadeira de Filosofia do Direito, o que dizia Plácido e Silva em artigo publicado na Revista Acadêmica, lembrando que uma das declaradas funções desse periódico, como visto, era o de justamente servir de instrumento ao ensino:
A necessidade que se tem de subordinar os estudos sociais a todos os outros, é decorrente da complicação superior da Sociologia, exigindo um preparo fundado no exame das categorias de fenômenos menos complexos que os seus. E, dentre todos, a sua dependência aos biológicos e de tal forma incontestável, que pessoa alguma jamais ousa desconhecê-la, decorrendo essa subordinação da própria imperfeição desta ciência, principalmente em sua parte transcendente, onde se estuda os fenômenos intelectuais e morais, os mais conexos com os sociais, e onde se verifica constantes pontos de contato.
Spencer, o formidável filósofo inglês, chegou mesmo a assimilar a Sociologia à Biologia. Esta é a ciência das funções vitais, aquela a ciência das funções sociais. As células das entidades biológicas, têm o homem como seu representante no organismo social. O comércio é o sistema circulatório, conduzindo as mercadorias diversas às diferentes partes do país para a sua alimentação. A administração e a política constituem o sistema nervoso. O poder central, donde emana a vontade da nação constituída, é o encéfalo. O músculo é representado pela armada e pelo exército. As demais organizações sociais secundárias afinal, subordinadas às grandes cidades, são vasos capilares, subordinados às artérias.392.
392 SILVA, Oscar Joseph de Plácido e. Complexidade e Conexidade dos Phenomenos Sociaes. In:
Revista Acadêmica. Ano II, nº 2, fevereiro de 1918, p. 40-43.
Benjamins Lins imprimiu aos estudos de filosofia do direito esse perfil naturalístico, amparado basicamente nas concepções de Ihering, mas se valendo também do sociologismo de Pedro Lessa e Silvio Romero. Essas concepções iam mesmo muito além da cátedra, norteando aquele professor em sua atuação profissional. Em consulta feita ao Instituto da Ordem dos Advogados do Brasil, no ano de 1932, sobre “as garantias do funcionalismo público em face da legislação constitucional anterior à Revolução e das leis do Governo Provisório”, uma comissão daquele instituto formada por Joaquim Miró, Manoel de Oliveira Franco e Benjamin Lins de Albuquerque elaborou parecer favorável, por maioria de votos, às ditas garantias do funcionalismo. O voto vencido coube a Benjamin Lins, que entendeu pela possibilidade de demissão ad nutum do funcionário “com mais de dez anos de bons e reais serviços ao Estado”:
O direito é uma formação social, disciplinada pelo Estado; para sua existência e efetividade depende do reconhecimento pelo Estado que se manifesta pelos seus órgãos. O Estado é um composto do território, povo e força orgânica social. A força que organiza é a mesma que orienta e faz funcionar. O direito é força, e dirige quer sob o ponto de vista estático quer dinâmico. Não há direito anterior ao Estado. É consequente e simples de se perceber que sendo o direito uma força orgânica do Estado, o Estado mesmo pode modifica-la plácida ou violentamente. Não há direitos do homem, abstratamente considerado, como membro ou unidade da espécie; todo o direito é contingente. Há direito normais de conduta, reconhecidos e praticados pelo Estado, e há direito reconhecidos e atribuídos pelo Estado aos indivíduos, ou grupos de indivíduos, como tais. Daí se deduz que o Estado pode em qualquer tempo, plácida ou violentamente, modificar, transformar ou retirar esses direitos, ou deixar de reconhece-los. Não há direitos naturais e absolutos, todos os direitos são sociais e relativos. (...) O direito é um conjunto de normas práticas, coativamente asseguradas para cada povo, pelas sanções que o Estado estabelece. Todos os atos do Governo Revolucionário constituem direitos vigentes. Ninguém deve, nem os juristas podem confundir direito com aspirações. O chamado direito natural é um corpo de aspirações; supõe uma sociedade abstrata, sem posição no tempo e no espaço, homens iguais entre si. É coisa diversa do direito positivo que é sempre particular a um povo ou a um grupo de povos393.
393 ALBUQUERQUE, Benjamin Lins de. Voto vencido apresentado como resposta à consulta formulada, em 29 de abril de 1932, ao Instituto da Ordem dos Advogados do Brasil. In: Revista Paraná Judiciário. Ano VIII, abril de 1932, Vol. XV, Fasc. IV, p. XXII-XXIV.