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PERMANÊNCIAS E RUPTURAS: O FIM DE UMA GERAÇÃO

Talvez tão importante quanto perceber os traços culturais próprios de uma determinada geração seja identificar com a maior precisão possível a sucessão de uma geração por outra, e especialmente a mudança de perfil intelectual. Certo é que a precisa delimitação temporal de uma determinada geração é tarefa evidentemente de grande dificuldade, senão em grande medida impossível, isso porque inevitavelmente há momentos em que elementos caracterizadores de uma geração convivem no seio de outra, bem como membros do que se pode considerar como a nova geração podem trazer traços da geração passada.

O que até aqui se pôde argumentar, bem como o conjunto das fontes que foram recolhidas, indicam, entretanto, que o período que se inicia a partir da segunda metade da década de 30 comporta indícios do início (e apenas do início) das condições materiais para uma sucessão de gerações, e com ela uma notável mudança na cultura jurídica em que estavam imersos os agentes históricos na primeira metade do século XX.

Lembre-se de que no início da década de 30, o Regimento Interno da Faculdade de Direito acena para um novo perfil de jurista que a instituição pretendia integrar aos seus quadros. Some-se a isso o fato de que, a partir de 1934, são realizados inúmeros concursos para o preenchimento dos cargos vagos, o que significou uma notável renovação do quadro docente. Até então os professores que compunham o quadro

docente do curso haviam obtido seus estudos jurídicos nas Faculdades de Direito de São Paulo e do Recife, ou então nas Faculdades de Direito fundadas no Rio de Janeiro posteriormente à Reforma do Ensino Livre. Com o início da realização dos concurso passam a integrar o quadro docente professores em sua maioria formados pela própria Universidade do Paraná.

O próprio perfil dos professores que passaram a compor o quadro de professores já não era mais o mesmo: embora alguns ainda se dedicassem a práticas típicas de um outro horizonte cultural, que certamente é consequência da formação obtida no seio da FDUP e da vivência no ambiente cultural curitibano da época, o quadro constante do Apêndice 2 mostra que o conjunto da produção cultural dos professores é marcado por uma determinada modalidade de textos. Com efeito, percebe-se que os textos jurídicos doutrinários passaram a compor a maior parte da produção simbólica desses homens, ao passo que a produção de outros textos (como os de cunho literário, histórico ou poético) ocupam um espaço muito menor, tendendo a desaparecer. A oscilação que se nota do lado direito para o lado esquerdo do quadro é, então, um indício da mudança do perfil da nova geração que vai ocupando os cargos do quadro docente: um perfil marcado por uma atuação acadêmica que se converte em textos escritos, notadamente jurídicos doutrinários.

Também é relevante a intenção desses novos professores de estabelecer laços acadêmicos com outras instituições, inclusive internacionais. Como exemplo dessa postura pode-se citar a conferência apresentada por Athos Moraes de Castro Vellozo na Facultad de Derecho y Ciencias Sociales de Montevideo, representando a Faculade de Direito da Universidade do Paraná nas Jornadas Jurídicas Uruguaio-Brasileiras, no ano de 1961282; ou ainda as comunicações apresentadas por Oscar Martins Gomes no Congresso Internacional de Direito Comparado realizado em Bruxelas, no ano de 1958283. Os Relatórios Anuais da Diretoria da Faculdade de Direito também indicam a

282 Conforme assentamentos funcionais do professor constantes do Arquivo Inativo do Setor de Ciências Jurídicas da UFPR.

283 Cf. Recortes de Jornal. Acervo da Biblioteca Pública do Paraná.

realização de inúmeras conferências, no seio da instituição, proferidas por professores de instituições nacionais e estrangeiras.

Embora as condições materiais para uma renovação do quadro docente tenham começado a estabelecer-se com os concursos iniciados na metade da década de trinta, parece que somente se pode vislumbrar uma sucessão de gerações a partir da segunda metade da década de 40284, processo que se consolida apenas no início da década de 50, quando apenas Manoel de Oliveira Franco segue como professor representante da primeira geração. E com um quadro docente majoritariamente composto, a partir desse momento, por professores cuja produção cultural já estava absolutamente marcada por interesses acadêmicos, é então possível pensar-se em um perfil predominantemente acadêmico dos professores do Curso de Direito.

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E por fim, um segundo e último questionamento conclusivo, que também pode servir de ponto inicial para os argumentos desenvolvidos no último capítulo: como explicar o aparente paradoxo existente entre a assunção de um discurso notadamente científico (como visto, no capítulo anterior, ao tratar do “bando de ideias novas” que marca o último quartel do século XIX) e a permanência de um horizonte cultural ainda permeado por traços de uma tradição oral, cuja forma de produção cultural foi justamente objeto de combate pelo novo horizonte cultural que então pretendia instalar-se? Em outros termos: como explicar a convivência entre o “espirito positivo”

e a tradição cultural do bacharelismo liberal?

Uma possível explicação para essa (aparentemente) insuperável contradição está nas características do processo de incorporação de argumentos próprios ao cientificismo, característico da Europa do século XIX, ao meio intelectual brasileiro.

Esse processo pode ser entendido em duas perspectivas, que ora interessam: primeiro como “munição” à postura crítica que caracterizou os letrados do último quartel do século XIX: o cientificismo, nesse particular, comporta todo um arsenal argumentativo

284 Apêndice 3.

absolutamente compatível com a pretensão de um grupo de ocupar o espaço e a função de classe ilustrada, detentora da receita “verdadeira” a ser aplicada ao processo de desenvolvimento do país, intelectualidade essa que se afirma justamente em contraposição a uma outra, nomeadamente, da classe dos chamados “homens de letras”. Não se pode negar que argumentos científicos (como as ideias naturalistas, o evolucionismo) têm um claro potencial retórico. Esses argumentos dão um notável tom de “verdade” ao discurso, podendo naturalmente ser incorporado ao discurso dos homens de letras, notadamente às estratégias discursivas do bacharel.

Particularmente quanto ao âmbito do direito, é nesse sentido que Nelson Hungria criticava, no seio de suas ponderações a respeito da instituição do Júri, o positivismo criminológico, acusando-o de “colaborar para a perpetuação da retórica enganadora dos advogados do Júri”285.

Por outro lado, a afirmação do ideário científico não parece ter correspondido, desde logo, a uma mudança efetiva nas práticas dos intelectuais daquele tempo, especialmente do bacharel: tal incorporação não significa no campo jurídico a imediata adoção de práticas que possam ser reputadas como essencialmente científicas, notadamente em espaços mais afastados dos grandes centros do país como São Paulo, Recife, ou o Rio de Janeiro. Parece ser esse o caso de Curitiba: apesar de muitos dos primeiros professores que fundaram o Curso de Direito da Universidade do Paraná já terem incluído em seu discurso muitas das ideias cientificas, isso não significou uma correspondente assunção de práticas adequadas a um paradigma científico: não se percebeu uma especialização com relação a determinados ramos do saber jurídico, ou a assunção de uma concepção de saber que deve ser convertido em livros e artigos de revistas especializadas; não se percebeu a formação de comunidades acadêmico- -jurídicas que se encarregassem de organizar revistas especializadas, sendo que nem mesmo a Faculdade de Direito pretendeu fundar uma revista própria até meados do século XX.

285 SONTAG, R. Op. cit., p. 99.

Parece, assim, que esse cientificismo que marcou o discurso da intelectualidade brasileira na virada do século (XIX-XX) cumpriu um duplo papel: serviu de instrumento eficaz à crítica que se fazia a determinados valores ao mesmo tempo em que configurou elemento de legitimação de um discurso que toma outros foros, mas que materialmente não se compatibiliza de pronto com as ideias professadas. A efetiva assunção de práticas científicas constituirá processo que não se desenvolverá da mesma forma em todo o país, e especialmente em Curitiba, no âmbito jurídico, necessitaria ainda ao menos da primeira metade do século XX para estabelecer-se.

Com essas considerações quer-se dizer que aquela aparente insuperável contradição se dissolve desde logo quando se percebem as formas de incorporação desse determinado ideário por uma específica tradição cultural.

Mas é absolutamente necessário perceber, por outro lado, que, apesar de todo o movimento contra os homens de letras e da imagem construída do bacharel como personagem anticientífico, como expoente maior de um perfil intelectual que era abertamente combatido, o direito (enquanto discurso específico) não passou infenso à abertura do país às ideias científicas, no último quartel do século XIX, e início do século XX, mesmo quando um discurso não se tenha convertido em práticas concretas.

É dizer: a inserção do ideário cientificista não se esgota na incorporação sem rupturas, em uma assunção em certo sentido mascarada. Mencionou-se anteriormente como os argumentos de cunho científicos podem ser incorporados em práticas próprias ao bacharelismo do século XIX (como o advogado do júri); viu-se também como o Curso de Direito pôde fazer parte de uma instituição de ensino pensada como centro de saberes especializados, continuando, entretanto, por comportar práticas que encontravam sentido em outro horizonte cultural (como se verá). Mas não é só.

A penetração no campo jurídico de todo o ideário cientificista não se restringiu à utilização estratégica no âmbito da retórica do potencial legitimador das “verdades”

científicas, e tampouco se restringiu a uma assunção sem uma correspondente mudança nas práticas. A atenção voltada ao fato, ao dado concreto (própria ao método positivo) implicará modificações mais profundas no que toca à eleição pelo jurista do seu objeto de trabalho: também ele pretenderá ter como objeto de reflexão a realidade positiva. E o direito penal surge, nesse contexto, como porta de entrada para esse

ideário científico, especialmente (agora sim) do método positivo, notadamente por meio da criminologia. Com efeito, “o discurso criminológico passou a funcionar como uma espécie de símbolo de modernidade, discurso com pretensões modernizadoras no que diz respeito às instituições jurídico-penais locais”286.

O direito penal assume um papel importantíssimo na tentativa de leitura desse processo de “modernização do direito”: isso porque por um lado, “a recepção das ideias da Criminologia no Brasil se colocava no entrecruzamento de diferentes estilos de produção intelectual, o que permitia ao saber jurídico abraçar as ideias cientificistas sem rupturas dramáticas com a tradição do bacharelismo”287; por outro, entretanto, parece que também no direito penal (para além do aspecto de continuidade, de ruptura com certa cultura letrada) o método positivo encontrou fértil campo de trabalho.

Paralelamente, a filosofia do direito é ramo do saber jurídico essencialmente sensível aos fundamentos do pensamento mais em voga em determinado tempo, dando conta da relação que o saber jurídico pôde ter com o influxo das ideias naturalistas. Essas são algumas das orientações que conduzirão os argumentos desenvolvidos no próximo capítulo.

286 ALVARES, Marcos Cezar. A Formação da Modernidade Penal no Brasil: Bacharéis, Juristas e a Criminologia. In: FONSECA, R. M.; SEELAENDER, A. C. L. Op. cit. p. 297.

287 Ibid., p. 300.

3. ENTRE MANUAIS, DISCIPLINAS E PROGRAMAS DE ENSINO: POR