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4 O PT: DO PENSAMENTO PLURAL A HEGEMONIA DO “CAMPO

4.2. Entre o passado e o futuro: a sorte estava lançada

As elaborações com as quais o PT se deparou no 5º. Encontro expôs questões que muitos militantes já davam por superadas desde a fundação do partido ao negarem idéias e práticas dos partidos comunistas. Certamente o advento do novo contexto político e econômico propiciado pela reorganização do capital e pela débâcle do Leste Europeu, aliado ao aumento da inserção do partido na institucionalidade favoreceu a explicitação dessas ‘novas’ formulações.

O novo quadro conceitual com o qual o PT passou a conviver destacava o socialismo pretendido e os caminhos que deveriam ser percorridos para construí-lo. Concretamente, a questão do socialismo foi o ponto nodal dos debates desse

230 As chapas concorrentes pela ordem: 1) O PT pela Base, com Eduardo Jorge (46 votos); 2) Por um

PT de Massas, por Olívio Dutra (212 votos) (; 3) Em defesa da Democracia, com Arlete Sampaio à frente (13 votos); 4) Luta Socialista encabeçada por José Genoíno (86 votos). Votos brancos: 10 e votos nulos: 01 voto. (Idem)

encontro ao ‘obrigar’ a definição programática dos diversos grupos que compunham o partido.

As

Resoluções Políticas

aprovadas, inicialmente analisavam a conjuntura do país naquele ano e apontavam as tarefas que cabiam ao PT. Expunha as manobras do governo Sarney e dos diversos grupos dominantes para garantir a transição burguesa de modo seguro, evitando a todo custo abrir espaços à participação popular. (RESOLUÇÕES POLÍTICAS DO PT, 1987, p. 01)

Explicitava ainda os porquês do PT ser contra a ampliação do mandato do Presidente, a mudança de regime para o parlamentarismo, a política econômica determinada pelo Plano Bresser 231 o retorno ao FMI após a suspensão da moratória

da dívida externa232 e o conseqüente aumento da internacionalização da economia

brasileira e da dependência ao capital estrangeiro; a escalada inflacionária, a reforma ministerial, as manobras no Congresso Constituinte para barrar conquistas sociais etc. (Ibidem)

Em tal contexto, o PT manifestava a intenção de aglutinar diversos setores sociais através da mobilização e da apresentação de

uma alternativa socialista e

revolucionária

, como se observa no seguinte trecho:

Do ponto de vista do PT, a redução do mandato de Sarney, com a realização de eleições diretas em 1988, significa a possibilidade de aglutinar, em torno de um Programa de Governo, com candidato próprio (o Lula), os trabalhadores, os setores populares e parcelas do pequeno empresariado urbano e rural, em contradição com a política econômica do

231 Sobre a política econômica do Governo Sarney: “Antipopular e submetida às exigências do

pagamento da dívida externa, a política econômica em vigor acentua o processo de concentração de renda: hoje, 70% da população economicamente ativa detêm apenas 12,9% da renda nacional; o piso salarial equivale a pouco mais de 50 dólares (o mais baixo de toda a América Latina) e apenas 7,5 milhões de trabalhadores – de um total de 50 milhões – ganham mais de cinco salários mínimos. É bem verdade que, embora ferisse mais fundo o conjunto dos trabalhadores, a gestão do ex-ministro Bresser Pereira atritou-se até mesmo com setores oligopolizados, como a indústria automobilística, e de marcante presença do capital estrangeiro, como a indústria farmacêutica. Além disso, a política de reserva de mercado tem levado os Estados Unidos a ameaçarem com retaliações as exportações brasileiras. Ainda que de pouca monta, relativamente, elas prenunciam o comportamento dos americanos e da economia capitalista diante do Brasil; elevação das taxas de juros (o que aumenta o valor da dívida e dos compromissos aí embutidos); restrições protecionistas a exportações; redução das possibilidades de exportação de mercadorias brasileiras, ou pela via do estreitamento do mercado ou pela perda de competição diante do dólar, com encarecimento das importações”.

232 Sobre isso afirmavam: “No plano econômico, a interrupção da moratória e a retomada das

negociações com o FMI, justamente num momento em que o sistema capitalista internacional atravessa uma crise de grandes proporções, indicam que deverá prosseguir a política econômica de arrocho salarial e de recessão, apertando ainda mais o torniquete sobre as condições de vida dos trabalhadores. Não está afastada a possibilidade de reedição do congelamento, cujas conseqüências, para os trabalhadores, se materializaram numa perda real de salários da ordem de 60%, até outubro de 1987, em relação a fevereiro de 1986”. (Ibidem)

governo e os interesses do grande capital, para acabar com a transição conservadora. Trata-se, para nós, de retomar a mobilização, acumular forças e, ao nos apresentarmos como uma alternativa socialista e revolucionária, apontar para os trabalhadores o horizonte de um novo sistema econômico, político e social: o socialismo (Ibidem, p. 02)

Em tal realidade eram patentes as contradições entre os vários grupos dominantes sobre os rumos da economia e do controle do aparelho estatal. Evidenciava-se também por um lado, a força da ‘grande burguesia monopolista’e de outro, a resistência da classe trabalhadora e dos setores médios representados pelos micros, pequenos e médios empresários, produtores rurais e urbanos. (Idem)

Mesmo admitindo não ter muita inserção nos setores médios, o PT mostrava a espoliação que os grandes grupos dominantes exerciam sobre os mesmos. Por isso, o partido deveria interferir nesse conflito construindo uma correta política de alianças que tivesse a mobilização popular como tática central para reverter tal quadro. 233

Nesse momento da discussão o PT apropriou-se do conceito de mobilização ou participação popular, já trabalhado em resoluções anteriores, no qual as mobilizações populares desembocariam na “pressão sobre deputados e senadores”. O texto afirmava:

Assim é que

somente com significativas mobilizações da população e uma

constante pressão sobre os deputados e senadores

(grifo meu) se tornará possível assegurar direitos como o da estabilidade no emprego, da redução de jornada de trabalho e da aposentadoria pelo último salário – para não falar da reforma agrária, remetida para uma futura e duvidosa definição pela lei ordinária (Ibidem, p. 03 - 04)

Conforme críticos petistas, a tática da pressão parlamentar alterava e/ou invertia de certo modo o sentido de pressão popular. Oriundo das mobilizações populares, o PT não podia descredenciar essa forma de luta, porém a pressão popular (via direta) ao ser ‘canalizada’ para o campo institucional parlamentar acarretava esforços redobrados da militância e dos setores organizados. Fato esse gerador de expectativas e ‘ilusões’ sobre as decisões (ou o exercício do poder)

233 Sobre essa tática afirmavam: “Uma tática particular, que seja capaz de atrair micro e pequenos

empresários urbanos e rurais para o pólo dos trabalhadores, deve compreender uma plataforma (incorporando suas principais reivindicações), um plano de ação, que defina linhas práticas e as compatibilize com o plano de luta dos trabalhadores, e uma política de intervenção do PT, que oriente o Partido sobre quando, como e onde agir para implementar essa tática”. (Ibidem)

tomadas na sociedade, isto é, as decisões só se efetivam através das instituições estatais desconsiderando a perspectiva da democracia direta.

Nas resoluções políticas do 5º. Encontro afirmava-se que caberia ao PT, e nesse momento já indicava a disputa pela Presidência da República, “convocar as forças progressistas, democráticas e socialistas, para assegurar as conquistas dos trabalhadores na Constituinte”. Nesse ponto, mais uma vez o PT retomava o discurso dos PC’ s através do conceito de

forças progressistas e democráticas,

subentendidas no texto como àquelas parcelas da população que se oporiam aos grupos capitalistas hegemônicos.

Ora, tal compreensão desvelava uma vertente ideológica e política muito clara, isto é, que a dita burguesia nacional ou parte dela, por exemplo, tinha contradições profundas com o capital internacional e por isso, podia aliar-se ao PT.

No intuito de esclarecer melhor suas posições, as resoluções chamavam atenção para a existência de uma crise no capitalismo. Porém, afirmava que determinadas tarefas não estavam colocadas na ordem do dia para a classe trabalhadora234 como se vê neste trecho:

A situação de crise de governo, de recessão e de ameaça às bandeiras populares na Constituinte impõe uma série de tarefas ao PT, que – embora reconheça não estarem colocadas na ordem do dia para a classe trabalhadora, nem a luta pela tomada do poder, nem a luta direta pelo socialismo – combate por uma alternativa democrática e popular (RESOLUÇÕES POLÍTICAS DO PT, 1987, p. 05).

A

Alternativa Democrática e Popular

se constituiu em outro conceito chave, pois prenunciava o futuro

Governo Democrático e Popular

do PT. Ora, se as tarefas as quais a citação anterior se referia ainda não estavam colocadas, o partido considerava existir uma conjuntura de acumulação de forças em que as atividades centrais da política partidária seriam as seguintes:

a) a consolidação das diretas em 1988, com eleições gerais e presidencialismo, e a ocupação de espaços institucionais nas eleições, para as quais devemos lançar o maior número possível de candidatos. A candidatura do companheiro Lula à Presidência da República, ao mesmo tempo que encarna a posição de independência de classe defendida pelo Partido, dará aos trabalhadores maior consciência e organicidade política nesta fase de acúmulo de forças. [...]; b) a organização do PT, como força

234 Mais uma vez o PT retornava a essa tese, pois já havia feito tal consideração nas Resoluções do

política socialista, independente e de massas; c) a construção da CUT, por meio de um movimento sindical classista, de massas e combativo, e a organização do movimento popular independente (Ibidem, p. 05).

Essas tarefas, na realidade, faziam parte da tática para a construção de

um

governo democrático e popular,

o qual não negava o objetivo estratégico petista que era o socialismo. Ao contrário, afirmava o texto, se articulava com a construção desse sistema e com a negação da ordem capitalista. O conjunto de tais concepções se fundamentava na idéia defendida pelo PT de que:

A crise da transição conservadora é a crise específica de uma certa forma de dominação burguesa, e não a crise geral do Estado ou do regime, uma crise de tipo revolucionário. O que está em questão é a possibilidade de conquista de um governo democrático e popular, com tarefas eminentemente antimonopolistas, antiimperialistas, antilatifundiárias, de democratização radical do espaço e da sociedade – tarefas estas que se articulam com a negação da ordem capitalista e com a construção do socialismo (Ibidem, p. 01).235

Se a crise não era do

tipo revolucionário,

o PT supunha que a tática apropriada era acumular forças, ganhar espaços, aumentar a organização e a consciência dos trabalhadores e, para dar conseqüência a tudo isso, defendia a construção de um programa democrático e popular que contemplasse mudanças e reformas econômico-sociais com garantia de liberdades políticas e sindicais. Construindo assim, um amplo movimento sindical e socialista de trabalhadores. Essa seria a resposta do PT para àquele momento da luta de classes no Brasil. (Ibidem)236

235 Sobre a candidatura Lula afirmavam: “A candidatura Lula, que cresce nas pesquisas de opinião

antes mesmo de as diretas estarem asseguradas, estará apoiada num programa que será mais que um simples rol de exigências e medidas isoladas: deverá sintetizar um novo discurso político e servir de instrumento de politização, de disputa ampla com outros setores e de atuação junto ao povo. O programa não se resume a um conjunto de reformas democráticas e populares pelas quais lutamos: envolve também uma crítica e uma disputa a partir de uma visão anticapitalista e socialista, em relação à ordem vigente e aos valores políticos e ideológicos dominantes na sociedade. Além do que, a candidatura Lula e nosso programa, de acordo com as exigências da tática eleitoral e as realidades locais, ajudarão a puxar as campanhas municipais em todo o País.” (Ibidem)

236 Conferir nos anexos deste trabalho a íntegra do

Programa Democrático e Popular

. Mas aqui

destaco os pontos que considerei mais significativos: “Diretas-Já para presidente da República, acompanhadas de eleições gerais em todos os níveis; Reforma administrativa, saneando os serviços públicos, aumentando sua eficiência através de concurso público e de um plano de carreira e escala de vencimentos; Pelo rompimento com o FMI; pela realização de auditoria interna e contra o pagamento da dívida externa; Sistema eleitoral proporcional, que garanta igualdade na proporção dos eleitos por Estado; controle do poder econômico; igualdade de acesso aos meios de comunicação; Controle das remessas de lucros ao Exterior; Desvalorização da dívida interna, criando assim uma nova fonte de investimentos em áreas sociais; Reforma tributária como instrumento para aumentar a arrecadação de impostos e distribuir a renda, gravando o capital, a grande propriedade territorial, as heranças e as doações; estatização da indústria farmacêutica; Estatização dos serviços de

A exposição do conceito de socialismo nas teses do 5º. Encontro veio antecedido pela distinção de dois momentos fundamentais, estreitamente relacionados, mas de naturezas distintas conforme dizia o texto: o primeiro dizia respeito

à tomada do poder político (sic!)

. O segundo seria a construção da sociedade socialista sobre as condições materiais, políticas etc. deixadas pelo capitalismo. (RESOLUÇÕES POLÍTICAS DO PT: o Programa Democrático-Popular, 1987, p. 08).

A superação do capitalismo e a construção do socialismo pressupõem primeiramente, de acordo com o PT, “uma mudança política radical”, e isso significava que “os trabalhadores precisam transformar-se em classe hegemônica e dominante no poder de Estado

,

acabando com o domínio político exercido pela burguesia”. Porém, era necessário reconhecer que o socialismo e o poder se construiriam através de muitas das formas econômicas, sociais e políticas existentes no capitalismo. 237Dentre elas, se destacavam as que eram consideradas como

formas embrionárias de poder proletário nascidas da auto-organização e participação política dos trabalhadores ainda no capitalismo. (Ibidem)

Somente assim, se construiria um socialismo efetivamente democrático, no qual o poder seria exercido pelos trabalhadores. Ora, o conceito de ‘socialismo’ estava, nessa parte da reflexão, umbilicalmente relacionada com o de ‘democracia’ o que em si já configurava uma alteração na concepção esboçada em documentos anteriores. 238 Contudo, em minha compreensão, a questão do socialismo

apresentada se configurava mais como explicitação das táticas petistas para construí-lo do que o entendimento do partido sobre esse conceito. 239

transportes coletivos; Estatização da indústria do cimento, para viabilizar um vasto programa de construção de habitações populares; Estatização do sistema financeiro, garantindo crédito ao pequeno e médio produtor agrícola e industrial; Reforma agrária sob controle dos trabalhadores, com fixação de módulo máximo da propriedade rural regional e definição de planos agrícolas com a participação dos trabalhadores; Prioridade na destinação de recursos dos fundos sociais para o Nordeste, combate à indústria da seca e aos privilégios concedidos aos grandes proprietários e aplicação de investimentos capazes de gerar emprego na área”.(Ibidem)

237 Afirmavam assim: “Muitas dessas formas que hoje não conseguem desenvolver-se em virtude da

opressão capitalista, como as pequenas cooperativas, as compras comunitárias, as comunidades locais, os conselhos populares etc., provavelmente encontrarão um campo fértil para crescer nas novas condições socialistas”. (Ibidem)

238 No entanto, é interessante observar que o PT nesse texto explicitava mais o que ‘não seria o

socialismo’, do que de fato mostrasse em que ele consistia.

239 Isso se concretizava nesses termos: “Por isso, no enfrentamento cotidiano contra as táticas

repressivas e/ou de concessões da burguesia, os trabalhadores terão que empregar táticas que retirem as massas da influência da burguesia e as levem a conquistar o poder. Nesse sentido, é preciso distinguir as atividades que partem da situação existente em cada momento e procuram fazer

A idéia da construção do socialismo se constituiu sem dúvida, no eixo ordenador do percurso teórico petista nesse encontro. Mas é interessante não desconsiderar as afirmações anteriores sobre a questão do poder ainda não estar colocada. Daí era imprescindível compreender algumas questões que perpassavam o antes e o depois da conquista do poder. Uma dessas questões era “[...] conhecer a capacidade do Estado em atender às reais necessidades sociais e adaptar uma política econômica que complemente, de forma integral, aquela capacidade para isso”

.

(Ibidem)

Tal conhecimento permitiria construir uma política de desenvolvimento da capacidade produtiva da sociedade, utilizando todas as forças econômicas e, por isso, ela era “[...] a base da aliança dos trabalhadores assalariados com a pequena burguesia urbana e rural”

.

Tal política se constituiria em uma questão estratégica, referente tanto à destruição do capitalismo quanto à construção do socialismo. (Ibidem)

Feitas as considerações iniciais, a relação entre o socialismo e a democracia é apresentada como questão estratégica. O argumento petista centrou-se na visão de que a sociedade igualitária almejada conviveria por algum tempo com desigualdades herdadas do capitalismo e com diferentes posições sobre a condução do socialismo. Certamente isso causaria conflitos obrigando ao novo poder tomar decisões no terreno da política. Assim, havia a necessidade de se refletir sobre a relação necessária do socialismo com a democracia. (RESOLUÇÕES POLÍTICAS DO PT: o Programa Democrático-Popular, 1987, p. 12).

Mesmo não deixando claras as experiências históricas onde a relação entre

socialismo e democracia

não tinha sido profícua, o PT afirmava que “a ausência de democracia, do direito à livre organização dos trabalhadores”

,

seria contrária com o socialismo pelo qual lutava. Desse modo o PT rejeitava

com que os trabalhadores tomem consciência da necessidade de conquista do poder das atividades que se destinam à conquista imediata do próprio poder.” [...] “Por outro lado, companheiros que consideram inevitável a adoção de uma via revolucionária para a conquista do poder contrapõem essa escolha à tática dos movimentos sociais que lutam por reformas. Reforma e revolução são consideradas por eles como termos e práticas antagônicas. Entretanto, nenhum país que tenha feito revolução deixou de combinar essas lutas, dando maior ênfase a uma ou outra de acordo com a situação política concreta. A luta por reformas só se torna um erro quando ela acaba em si mesma. Nesse sentido, para definir uma estratégia de luta pelo socialismo, não basta definir a via principal de luta, nem as táticas para a conquista do poder. É preciso, em especial, ter clareza sobre o inimigo ou inimigos principais contra quem nossa luta se dirige, as alianças de classes (estratégicas) para derrotar tais inimigos e o programa de transformações a ser implantado (que serve de base à mobilização popular e às alianças)”. (Ibidem)

A concepção burocrática do socialismo, a visão do partido único, por considerar incorreta a idéia de que cada classe social é representada por um único partido, e que outros partidos existentes na sociedade que emergir de uma revolução serão necessariamente partidos que representarão interesses de classes diferentes dos da classe trabalhadora (Ibidem, p. 12).

O possível contexto de construção do Estado socialista teria que estabelecer uma nova legalidade, democraticamente construída e válida para todos, como manter e/ou criar mecanismos de participação e consulta populares nos diferentes níveis de suas relações. Todavia, a questão-chave apontada pelo PT, da relação entre democracia e socialismo não se resumia à participação na gestão por parte dos trabalhadores, ou seja, a uma extensa democracia de base. Mas nas relações que se dariam entre os mecanismos democráticos de participação e consulta na base com os de participação e consulta nos níveis intermediários e superiores do poder. (Ibidem, p. 13)

Alem disso, a construção do socialismo não podia ignorar as perspectivas políticas, ideológicas, culturais e ambientais de vários movimentos sociais contrários ao capitalismo. 240Em síntese, os canais de participação das classes trabalhadoras

no poder socialista deveriam manter-se abertos, bem como, a garantia dos direitos individuais se constituiriam em decisões políticas fundamentais para o futuro da sociedade socialista. (Idem)

Como observadora das análises petistas sobre o assunto em foco, detectei que a questão do socialismo desde os primeiros anos não chegou a ser sua discussão central. Na realidade a ênfase recaía na questão da democracia, e o socialismo aparecia apenas tangencialmente. 241Entretanto, com o crescimento

orgânico e ideológico do partido, a necessidade de explicar seus conceitos e bandeiras políticas à sociedade em geral se colocou como elemento central. Além

240 Como afirmavam: “Deve, também, integrar movimentos de âmbitos culturais nacionais ou

ambientais, que procuram responder às agressões que o capitalismo realiza contra a população e o meio ambiente, movimentos anticapitalistas e progressistas, que sensibilizam parcelas crescentes do povo. Deve, ainda, incorporar o questionamento de outros mecanismos vitais para a reprodução da dominação de classe. A incorporação dessas lutas no projeto político proletário, desde hoje, permite barrar o avanço da burguesia, que procura esvaziá-las do seu conteúdo crítico e questionador de instituições e valores da ordem burguesa”. (Ibidem)

241 Inclusive nos discursos de seus principais lideres essa questão não era muito clara, como no caso

de Lula. Durante a 1ª. Convenção Nacional do PT realizada em 27 de setembro de 1981, Lula em seu discurso afirmava: “[...] uma sociedade que, como diz o nosso programa, terá que ser uma sociedade