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CAPÍTULO 1 - NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS

1.5 APROXIMAÇÃO ENTRE JUSTIÇA ESTATAL E ARBITRAGEM

1.5.1 Entre o procedimento estatal rígido e a arbitragem. Campo

Verificada a aproximação entre justiça estatal e arbitragem, impõe-se a análise do fato de que os processos judiciais de uma forma geral emprestam soluções dos temas arbitrais, na intenção de desenvolver espaços onde se trabalhe ao mesmo tempo com procedimentos rígidos e mecanismos de autocomposição.

Passa a existir, assim, uma margem ou um espaço146 para que os negócios jurídicos processuais se realizem de modo adequado. É nesse espaço que se poderão trabalhar e se desenvolver os acordos processuais, visando à sua correta aplicação. Destacando o papel da arbitragem relacionado à jurisdição, ensina Tarcísio Araújo Kroetz que:

A lei, ao facultar aos jurisdicionados a opção da arbitragem como forma de composição de sues litígios sem a intervenção do Estado, atribui-lhe o caráter jurisdicional que ordinariamente compete a este último. O exercício da arbitragem, enquanto respeite os limites estabelecidos pela lei, realiza função jurisdicional, que ela própria preconiza. A escolha da arbitragem implica a submissão da decisão proferida pelos sujeitos indicados pela lei, na forma estabelecida, para concluir sua tarefa. Somente os árbitros é que poderão realizar esta função, que por natureza é de caráter jurisdicional.147

Nessas condições, tendo como critério inicial a margem conferida aos sujeitos da causa para entabularem convenções processuais, pode-se indagar: se os sujeitos da causa podem contratar a arbitragem e também realizar acordos extrajudiciais, por

       

146Comenta, em sentido similar, Antonio Barletta destaca sobre a dificuldade de se identificar problemas sobre direitos disponíveis, inclusive em matéria arbitral: "Tuttavia, i maggiori problemi interpretativi nell'identificazione della nozione di ‹‹disponibilità›› in materia arbitrale si pongono, ancor oggi, dopo l'introduzione di una specifica previsione sull'arbitrabilità, soprattutto in relazione.all ambito dell'autonomia negoziale". Tradução livre: "Todavia, os maiores problemas interpretativos na identificação da noção de 'disponibilidade' em matéria arbitral se propõem, ainda hoje, após a introdução de uma específica previsão sobre a arbitrariedade, principalmente em relação ao campo da autonomia de negociação". (BARLETTA, Antonino. La disponibilità dei diritti nel processo di cognizione e nell"arbitrato. Rivista di Diritto Processuale, v.63, n.4, p.997, 2008).

147KROETZ, Tarcísio Araújo. Arbitragem: conceito e pressupostos de validade. São Paulo: RT, 1997. p.23.

que eles não poderiam contratar o desenvolvimento de uma decisão, pactuado por meio das convenções processuais? Certamente que essa realização se daria nesse espaço, fortalecido como se viu pela aproximação entre justiça estatal e arbitragem, sem prejuízo de nenhum dos institutos referidos, adequando-se uma expansão das convenções, segundo o autorregramento das partes.

Se existe estímulo a temas como a autocomposição e a própria autonomia das partes, valorizando-se as possibilidades de acordo, sobre modelos de como resolver litígios, em especial de forma amigável, fica evidente que os ganhos advindos desses acordos vão fortalecer o campo em que as partes disciplinam suas intenções.

Daí porque é adequado pensar que, de certa forma, as convenções processuais diminuem o poder do órgão jurisdicional.148

É inegável que existe, desse modo, uma tendência à contratualização das relações jurídicas, com a expansão da própria arbitragem149 em si, e da consolidação e eficácia da cláusula compromissória.150 Os fatos da equiparação da sentença arbitral com a sentença judicial, qualificando aquela como título, bem como as matérias que podem ser discutidas na via arbitral, consolidam a relação forte dos temas, na celebração de acordo, que, na margem conferida às partes, compete a elas regulamentar.

Dessa forma, é interessante que se potencialize o instrumento do contrato ou acordo, enfocados na perspectiva do próprio direito processual civil, como instrumento atrativo e eficiente na solução de casos em que as partes não optam por um procedimento rígido e, ao mesmo tempo, entendem como não adequada a via da arbitragem.151 Os dois instrumentos a respeito disso não competem, apenas fortalecem opções no sentido de conferir ao interesse uma margem adequada para que realizem seus acordos processuais.

       

148DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil. 10.ed. Salvador: Juspodivm, 2015. v.2. p.521.

149BARLETTA, Antonino. La disponibilità dei diritti nel processo di cognizione e nell"arbitrato. Rivista di Diritto Processuale, v.63, n.4, p.999, 2008.

150MAZZEI, Rodrigo; CHAGAS, Bárbara Seccato Ruis Chagas. Breve diálogo entre os negócios jurídicos processuais e a arbitragem. Repro, São Paulo, v.39, n.237, p.223, nov. 2014.

151CABRAL, Antonio do Passo. Convenções processuais. Salvador: Juspodivm, 2016. p.209.

Ponto a ser destacado ainda a respeito disso versa sobre a celeridade da arbitragem sobre a forma da via judicial. Comentando o tema, Ricardo Soares Stersi dos Santos observa que:

No que tange à celeridade, normalmente a arbitragem tende a ser mas rápida do que a forma judicial, na resolução dos conflitos. Essa rapidez está diretamente vinculada à possibilidade de escolha do procedimento pelas partes. É que estas acabam optando por um procedimento mais célere e flexível, com regras mais simples e, via de regra sem a previsão de recursos quanto às decisões do árbitro. Outro fator que pode contribuir para a aceleração da decisão é a possibilidade de escolha do julgador.152

Por outro lado, existem certas desvantagens acerca do procedimento arbitral, como "os custos econômicos das arbitragens submetidas aos órgãos institucionais usualmente altos".153 Esse ponto financeiro, de uma forma ou de outra, acaba afetando a busca pela solução arbitral, de maneira que, em certos casos, pode desestimular essa via, tornando-se mais adequada a respeito disso a tradicional via das ações judiciais.

Não se trata, é bom reforçar, de privatizar o processo ou até eliminar o Estado da relação jurídica processual.154 Objetiva-se, sim, contextualizar e potencializar ganhos por meio das convenções processuais, fortalecendo mais um caminho, para se adequarem litígios judicias. Até porque, como ressalta Alexandre Freitas Câmara,

"sendo grande o número de causas submetidas ao crivo, dos árbitros, haverá uma proporcional diminuição da quantidade de trabalho que tem hoje o judiciário brasileiro".155

Nem tanto ao procedimento rígido, nem tanto a via da arbitragem. Essa parece ser uma coerente solução para se adotar nessa linha de atuação, o que competirá aos sujeitos da causa sobre a realização de seus acordos processuais e a medida estabelecida entre as convenções processuais e a própria arbitragem.

       

152SANTOS, Ricardo Soares Stersi dos. Noções gerais da arbitragem. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2004. p.30.

153Ibid., p.31.

154Comenta sobre a crise do monopólio estatal e a via contratual da arbitragem: PUNZI, Carmine.

Dalla crisi del monopólio statale dela giurisdizione al superamento dell"alternativa contrattualità-giurisdizionalità dell"arbitrato. Rivista di Diritto Processuale, v.69, Seconda Serie, n.1, p.2, 2014.

155CÂMARA, Alexandre Freitas. Arbitragem: Lei n.o 9.307/96. 4.ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2005. p.2.

1.6 DIFERENTES NOMENCLATURAS DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS