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Entrevista a Eduardo Avelar da marca Profession: Bottier

PRODUTO

1. Porque considera a Profession Bottier uma marca de luxo? Esta é vista como tal em mercados internacionais ou apenas em Portugal?

Primeiro tem a ver com os anos de atividade da própria empresa que é detentora da marca, que está quase há 70 anos no mercado. Até meados dos anos 60 a nossa empresa fabricava os produtos manualmente, o que por si só já demonstrava que era extremamente customizado. Era feito par a par, as pessoas escolhiam o que queriam, não se trabalhava muito em série. Depois com os anos 70, 80 e 90 começou-se mais a produzir em série. Para além dos anos de experiência tem os próprios materiais, muito nobres, o cuidado que temos nas escolhas, nas formas, no estilo, sempre na vanguarda. E depois com preços elevados. Esta é uma marca que não é de moda, é mesmo de sapatos.

2. Vários autores referem que a um produto de luxo está sempre associado um serviço. Quais os serviços que a Profession Bottier oferece a nível internacional?

Sim, sim. Primeiro, temos um conhecimento direto de quem comercializa o nosso produto nas suas vitrines, qualquer problema estamos sempre pronto para ajudar porque são nossos parceiros, a maior forma que temos de promover os nossos produtos é através das vitrines. Por vezes o cliente final envia-nos o seu feedback a dizer que gosta muito da marca, ou que surgiu um problema, recebemos sempre e-mails, o que é ótimo.

3. Como caracteriza o universo competitivo da Profession Bottier no âmbito internacional? Alguma vez se uniu a outras marcas de luxo para a realização de ações conjuntas?

Estamos a falar de marcas de luxo, imaginemos uma Gucci, o nosso produto é igual, ou similar, com os mesmos cuidados ou até muito mais. Nós somos extremamente competitivos. Em termos de preço, de produto, somos competitivos. Agora se haverá marcas com preços mais competitivos que os nossos que possam ter um lucro muito parecido, mas não acredito que a nobreza dos materiais seja melhor.

Antes de sermos esta marca, somos uma empresa. Produzimos para outras marcas e o know-how dessas marcas acaba por passar um pouco também para nós, e o nosso para eles. Com esta troca de parcerias e experiências evoluímos como produtores, como vendedores. Vamos adquirindo esse conhecimento, e isso reflete-se. Mas associarmo-nos a uma marca para realização de eventos ou criação de produto em conjunto não, nós só produzimos para essas marcas.

4. Existe lista de espera para algum dos seus produtos?

Nós não vendemos ao cliente final, não trabalhamos para stock, temos imensos produtos, uma média de 200 referências por época, e não fazemos stock. As lojas fazem as suas encomendas e depois é o tempo normal de espera, entre 3 a 6 meses.

5. De que forma é limitado o número de produtos oferecidos pela marca internacionalmente?

Os produtos oferecidos são os mesmos em todos os mercados. Agora com esta questão da globalização, hoje em dia está tudo muito mais próximo. Se alguém publica no Intagram uns sapatos no Japão toda a gente de outros cantos do mundo vê, é natural que as pessoas queiram um tipo de forma, de pele, de acabamento que sejam mais similares nos diferentes mercados. Depois também temos a questão ergonómica, há países que têm os pés mais fortes, outros os pés mais magros... Mas em questões de estilo é muito próximo.

6. Existem produtos com características especiais que lhes conferem personalidade, como nomes próprios ou cores e materiais específicos?

Sim, fazemos questão de referenciar o próprio produto por nomes como geralmente fazemos, até em nome de alguém especial. Já tivemos campanhas, até havia o website, onde fazíamos vendas privadas, há uns anos, onde podiam personalizar o sapato.

7. Existem produtos com preços mais acessíveis, de forma a atrair novos clientes?

Sim existem extensões. Normalmente associamos sempre o cinto que é um acessório muito importante, cada vez mais o homem tem esse cuidado de escolher o cinto, um acessório em pele, e também a carteira, já temos essa ideia de poder desenvolver uma linha de carteiras, espécie porta-cartões.

8. Relativamente à produção, esta é realizada em Portugal? De forma estandardizada ou personalizada? Existe recurso à mão humana, ou são utilizados equipamentos modernos de produção?

158 Toda a produção é realizada em Portugal e toda aqui na empresa. Há certos produtos que até por uma questão de competitividade ou por uma questão de preço ou da própria construção do sapato nos é possível fazer aqui, mas podia ser feita por subcontratação, por outras empresas, mas neste caso tentamos sempre associar a marca à nossa mão, ao nosso handwork. De forma estandardizada, mas o toque acaba sempre por ser diferente, cada par é diferente. O tipo de pele que nós trabalhamos e o tipo de acabamentos faz com que não possamos dizer que não há handwork, porque tem de haver. Há um standard na produção, todos os processos são estandardizados desde o corte, costura, etc. Mas o acabamento, cada par tem o seu toque. Temos a melhor tecnologia do mundo, mas toda a produção é intensiva, todo o processo precisa de mão-de-obra.

9. A Profession Bottier pertence a algum grupo ou associação de marcas de luxo?

Não. Só estamos associados à APICCAPS.

10. Existe algum produto que seja considerado um ícone da marca a nível internacional?

Sim. Temos uma forma ou outras que eu diria que são um clássico. Vamos criando alguns ícones, há sempre alguma referência que se torna um ícone e vai ficando.

PREÇO

1. O preço dos produtos aumenta gradualmente? Como é que esse aumento afeta a procura internacional?

Geralmente o preço de venda ao público não altera. O que pode ser mais reduzido é o preço a que as lojas adquirem os produtos, mas não por uma questão de estratégia. Tentamos adquirir as matérias-primas sempre com o melhor preço, mas gradualmente acho que tem a ver com o nível de inflação ou com os materiais que usamos. Mas muitas vezes até fazemos esforços para manter os preços.

2. De que forma são determinados os preços dos produtos? Esses preços variam consoante o mercado onde estão a ser vendidos, ou são iguais para todos?

Nós tentamos que sejam homogéneos, mas isso também depende da distribuição, um produto num mercado extracomunitário terá certamente preços mais elevados de aquisição, por isso os distribuidores tentam adquirir os produtos a um preço mais baixo para que depois o p.v.p. seja similar ao de outros mercados.

3. Existem produtos vendidos em conjunto, numa espécie de pack? Como são os seus preços?

Não. O produto é vendido é sempre com um acessório de calçadeira, um saco para transporte, somente isso.

4. A Profession Bottier pratica saldos internacionalmente? E reduções especiais de preço para certos clientes ou em ocasiões especiais?

Não.

5. Quando, como e a quem são comunicados os preços dos produtos?

Não estão no website. Nas lojas os vendedores é que colocam o preço final nos produtos. Nós gostamos sempre de saber qual o p.v.p. dos produtos nas diferentes lojas, pois queremos homogeneizar os preços.

DISTRIBUIÇÃO

1. Quais as formas de distribuição da Profession Bottier em mercados internacionais?

Nós temos um contacto muito direto com os clientes, temos uma equipa de comerciais até aqui na empresa, somos quatro. Por exemplo, no mercado japonês temos um agente que trabalha connosco há muitos anos, e mesmo que apareça um cliente novo que nos contacte diretamente, tentamos sempre incluir esse agente no negócio, também por uma questão de respeito e para questões de tradução, conhecimento do mercado. Agora no mercado europeu geralmente temos agentes diretos. Temos um showroom em Paris, para fazer de meio de apoio aos clientes e aos agentes. Temos na Alemanha um bom agente, na Bélgica também. Nos restantes mercados acedem-nos geralmente através das feiras internacionais, principalmente em Milão, que é uma feira muito mais concorrida.

Lojas próprias não temos. Penso que uma empresa que também está ligada a outras produções ter loja própria não tem bons efeitos para venda direta. Uma coisa seria uma empresa associada à própria marca que comercializasse a marca e trata-se da venda direta. Temos parcerias, fizemos em Paris com uma empresa que quis comercializar os nossos sapatos, a nossa marca. Foi fantástico, um corner fantástico com um grande sucesso. Estamos a falar de um dos melhores departmentstores de Paris. Onde estamos mais presentes é em lojas multimarca, mas infelizmente é um cliente que tem vindo a desaparecer. Em Portugal ainda vai continuando a funcionar, mas por exemplo no mercado francês já começa a desaparecer. Em Paris funciona muito mais o monomarca, pret-à-porter, marcas muito pequeninas que estão a surgir e depois distribuem-se por si só. Na Alemanha o multimarca também já desapareceu.

159 Mas o negócio é sem dúvida maioritariamente multimarca, ou no caso de um investidor, como aconteceu em Paris, que queira abrir um croner e investir na marca.

Loja online não temos porque também não temos stocks. Poderá às vezes surgir uma situação ou outra em que podemos decidir criar uma edição especial com um modelo especial que tenhamos em stock e vender online, mas é uma coisa muito excecional.

2. Que tipo de formação e acompanhamento são dados aos vendedores das lojas?

Nós temos alguns clientes, por exemplo no mercado alemão que é extremamente evoluído, onde os vendedores muitas vezes levam formação sobre como vender os produtos, quais os produtos que devem vender mais, quais os produtos que têm mais margem, etc. Comunicamos sempre com os clientes para saber qual o tipo de formação que dão, depois uns dão, outros não dão, muitas vezes é o próprio dono a dar formação, porque também estamos a falar de boutiques, coisas mais pequeninas, às vezes nem há espaço para muitos vendedores. Agora quando são grandes sapatarias com muito movimento, mas muito requintadas, nota-se que as pessoas têm formação de vendas. Não por nós, nós tentamos apoiar no que for preciso, estamos sempre disponíveis para dizer o que é necessário para comunicar os nossos produtos, procedimentos técnicos, o porquê dos nossos sapatos, a questão do preço, que é sempre muito importante, principalmente para os homens, o que é que estão a comprar, qual a mais-valia de comprarem os nossos produtos... isso tentamos sempre comunicar.

3. Os vendedores recebem comissões de venda?

Connosco não. Poderá haver estímulos, mas isso é a loja que decide.

4. A Profession Bottier possui algum sistema de CRM?

Não. Quem lida com o cliente final tem o seu próprio CRM, e a pessoa que depois trata da encomenda tem acesso a esses dados. Aqui temos CRM para controlar os clientes distribuidores.

5. Por favor, descreva o ambiente das lojas da marca. De que forma é projetado o universo da mesma?

Não somos nós que escolhemos o espaço em sapatarias. E os corners funcionam mais em department stores. A nível estético nos corners tentamos sempre respeitar as cores da marca, o nosso packaging é um bordeaux com prata, uma coisa muito minimalista, que tem de realçar principalmente os sapatos. Normalmente quando é um corner têm sempre de ter a nossa aprovação para o desenvolvimento da parte do mobiliário. Depois também depende do tamanho do espaço disponível.

6. Quantas lojas nacionais e internacionais da marca existem? Onde se situam e o que motivou essa localização?

Gostamos de saber a que lojas vamos vender, ver se tem ou não vitrine, tentamos selecionar um pouco os clientes, tal como eles também nos selecionam. Por isso o número de lojas é muito flutuante. No nosso site também temos disponíveis algumas lojas, tentamos comunicar isso, as lojas também agradecem e pedimos que eles nos forneçam dados da loja, muitas vezes quando temos oportunidade de ir à loja tiramos uma fotografia, e tentamos incorporar isso no nosso site.

7. Qual o mercado com maior volume de vendas?

Em termos da marca, Alemanha e França são os mercados principais.

8. A Profession Bottier possui loja online?

Não.

9. Na sua opinião, qual o impacto da atual tendência de distribuição online por parte das marcas de luxo?

É um mercado pouco regulado em termos de preço, agora não há dúvida que há grupos que em termos do website tentamos controlar o preço porque temos clientes que têm custos elevadíssimos com lojas em ruas fantásticas e por isso tentamos controlar, não pode ter mais regalias por vender online. Agora é um mercado que não vai voltar atrás. Também em termos de devolução, muito rápida. A tecnologia devia estar ao nosso serviço para podermos desfrutar entre as pessoas. A tecnologia neste momento está ao serviço das pessoas para produzirem mais em menos tempo ou no mesmo tempo, para terem mais rentabilidade de trabalho. Mas eu acho que a pessoa ainda quer desfrutar do charme dos produtos, poder experimentar, usar, o que é ótimo... a imaginação, entrarmos numa loja, calçar uns sapatos, pensar "Fantástico! Vai ficar bem numa festa.", imaginar os cenários, faz parte. Mas vai-se perdendo, agora com a banalização, hoje em dia banaliza-se tudo, os produtos são banalizados. Mas pode ser que haja uma inversão, quer dizer, se calhar agora as lojas vão ter espaços para as pessoas poderem experimentar, um feeting room por exemplo. O problema é que cada vez mais as pessoas querem produtos personalizados, tem que haver produtos mais diferenciados, que é contrário a uma estandardização. É o que está a acontecer no online, por exemplo eu posso

160 comprar uma forma 42 pois calço o 42, mas esse 42 pode não me servir. E muitas vezes nos homens acontece, as coisas começam a não bater certo e desistem da marca. Eu acho que os homens são mais renitentes em relação a vendas online do que as mulheres.

11. A marca possui alguma flagship store? Onde?

Não.

COMUNICAÇÃO

1. A Profession Bottier faz publicidade internacionalmente? De que forma?

Temos algumas revistas da especialidade. Normalmente quando estamos nas feiras há muitas revistas a que conseguimos aceder, muitas vezes até conseguimos publicidades gratuitas. Também aqui em Portugal fazemos publicidade através do Futebol Clube do Porto. Depois mesmo a própria APICCAPS promove às vezes na Vogue, na GQ, muitas vezes conseguir diretamente aceder, sempre que é possível tentamos fazê-lo. E as feiras também.

2. A nível de relações públicas e com a imprensa e eventos, o que costuma ser feito para divulgar a marca no exterior?

Temos na África do Sul um corner com a nossa marca, eu diria que é uma loja temporária, que está muito na moda agora. Participamos e aquilo estava também muito associado ao department store. Tentamos sempre colaborar. Lembro-me também através de um website francês onde tínhamos uma verba para publicidade, para promover os nossos produtos.

3. A Profession Bottier costuma patrocinar algum evento? Qual?

Já, mas não sei precisar agora.

4. De que forma é incentivado o passa-a-palavra?

Muito importante. Sempre foi e continua a ser muito importante. Traz outro tipo de confiança e de segurança.

5. Costumam utilizar celebridades em campanhas publicitárias? E como embaixadoras da marca a nível internacional?

Já fomos contactados, sobretudo em termos culturais, atores principalmente perguntam se podem ter um par de sapatos nossos, para promover. Às vezes até porque não têm acesso, por exemplo nos EUA a nossa marca não está a ser vendida, e as pessoas contactam porque viram os sapatos no website e querem saber se é possível adquirir uns, até promovem os sapatos, usam-os, oferecem um par. Mas não são embaixadores da marca. Algumas figuras públicas internacionais podem estar um bocadinho associadas à marca, mas não são contratados por nós como embaixadores.

6. A estratégia de comunicação é elaborada na sede da marca, ou existe autonomia nos diferentes mercados?

Sim, toda ela na sede, de forma arcaica, discutindo, debatendo...

7. De que forma é utilizada a internet na estratégia de comunicação internacional da marca?

Primeiro, através das redes sociais, estamos a tentar contratar uma empresa para gerir principalmente o Facebook, Instagram. Não temos muito tempo para o fazer, mas acho o Instagram sobretudo muito importante, em termos de imagem até. A internet também é utilizada na própria comunicação com os clientes, envio e troca de e-mails, informação, imagens. Mesmo aceder a novos clientes, que não conhecemos, tentamos fazer uma procura de novos clientes e novos mercados, como comunicar com eles. Acho que sem dúvida a internet é uma ferramenta fantástica.

8. Existem elementos característicos dos seus produtos que façam com que a maior parte das pessoas identifique imediatamente a sua marca?

Poderá haver. Primeiro temos um detalhe ou outro, principalmente nos canos, mas não somos como uma Prada, em que a pessoa olha e tal associam logo. Mas poderá haver algum toque nas formas, a cor das solas, por aí.

9. As estratégias de marketing são iguais para todos os mercados?

Sim, sim. Variam muito. A nível da comunicação é preciso comunicar de formas diferentes, por exemplo a língua, e até por questões culturais. Um espanhol pode aceder com um "tu" mais informal, com um alemão já não, demora a ganhar confiança- Com um francês temos de ter cuidado porque são pessoas muito orgulhosas de si próprias e do próprio país. O problema de aceder a uma certa população como se passa em grandes países como por exemplo na China há o Norte e o Sul, nos EUA costa este e oeste, há uma questão cultural muito próxima apesar das diferenças. Os japonese por exemplo são muito complexos e desconfiados, têm sempre muitas dúvidas, e medo de receber algo que não tenha sido aquilo que foi contratado. Temos de ter muito cuidado com a questão cultural.

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