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Entrevista a Leandro Ribeiro, arquiteto e cenógrafo;

Antes de mais, muito obrigado por esta entrevista. Estou a desenvolver uma Dissertação de conclusão do grau de Mestre em Arquitetura, com o tema: 'A Profissão do Arquiteto: Competências e aptidões fora da Arquitetura', onde exploro as capacidades que um arquiteto tem para ser bem-sucedido noutras áreas. Para começar, gostaria de lhe questionar: como é que um arquiteto ganha paixão pelo teatro? LR: O teatro veio ao meu encontro quando frequentava o 12º ano numa escola secundária, de ensino

artístico (Soares dos Reis - Porto). Durante a faculdade de arquitetura, mantive-me num grupo de teatro amador e o gosto pela arte foi evoluindo, ao ponto de nos dias de hoje, viver desta atividade. Se bem, que desde miúdo gostava de ser arquiteto, em paralelo com a arte de representar.

2. Porque motivo decidiu seguir a área de teatro e, mais especificamente, de cenografia? LR: O teatro, sempre apareceu na minha vida sem que eu o procurasse. E durante muito tempo, o exerci

em regime de voluntariado. No entanto, ao instalar-se a crise económica, eu que tinha bastante trabalho na arquitetura, mesmo trabalhando por conta própria, vi todas as minhas obras pararem... Os projetos que estavam em papel, ficaram todos na gaveta... Trabalhos que não chegaram a ser pagos... Nessa altura, decidi mudar de estratégia e e procurei formação em teatro e comecei a ser remunerado pelos serviços prestados enquanto encenador. Mas na verdade, a mudança foi tão positiva, que nada me custou em deixar de exercer a profissão de arquitetura, em prol de algo que me faz ainda mais feliz. A cenografia, de facto, fica sempre ao meu cargo, em todos os trabalhos que enceno, fruto da formação académica.

3. Que capacidades adquiriu da formação de arquiteto para conseguir ter sucesso na sua atual função? LR: Para além da cenografia, que pode ser explorada por uma visão artística, acho que as outras duas

situações mais significativas da influencia da arquitetura no teatro seja o uso da luz artificial para criar ambientes distintos e as noções espaciais para encontrar o "equilíbrio da cena". Por outro lado, a arquitetura, mais propriamente o acompanhamento das obras, deu-me noções essenciais para o trabalho em "equipa" com os técnicos de palco e a resolução de conflitos, sempre no sentido de encontrar a melhor solução no mais curto espaço de tempo possível.

4. Teve alguma formação adicional para ser bem-sucedido nesta área? .

LR: Sem dúvida. Procurei cursos livres de interpretação e participei em workshops de voz, movimento, etc. Recentemente (outubro 2016) vou iniciar as aulas de Mestrado em Teatro. .

5. Alguma vez pensou em voltar à função integral de arquiteto e, mais especificamente, de trabalho de projeto em atelier? .

LR: Penso que um dia, poderei ter de voltar à função de arquiteto de uma forma integral, porque a cultura no nosso país é muito oscilante... Muito embora eu goste de exercer esta profissão, é no teatro que me identifico mais e por este motivo, não tenciono voltar a trocar os papéis. .

6. Vê a área de cenografia como uma das possíveis áreas de atuação de um arquiteto? LR: É um caminho, muito embora pouco acessível, dado que o teatro não tem meios financeiros para pagar um arquiteto. Mas há arquitetos portugueses da nossa praça, com trabalhos na área. Ex: João Mendes Ribeiro. .

7. Aquando da sua formação enquanto arquiteto, houve alguma área que gostaria de ter aprofundado mais? Acrescentaria algo à sua formação enquanto arquiteto? .

LR: Há sempre muito a acrescentar. Assim, sem pensar muito, três situações bem claras e em nada vivenciadas durante a minha licenciatura (na ESAP – Escola Superior Artística do Porto): Acompanhamento de obras; saber preparar um licenciamento e o domínio / conhecimento de materiais. O curso prepara-nos para sermos “artistas”, “escultores”, o que quiser chamar… Quando na verdade, temos tanto ou mais de “técnico”... …

8. A crise económica que afetou Portugal foi uma das razões para a área da construção ser das mais fustigadas pelo desemprego. Por ano, são formados cerca de dois mil novos arquitetos nas universidades portuguesas e muitos deles não chegam a exercer a profissão. Na sua opinião enquanto arquiteto, qual deverá ser o caminho a seguir para alterar esta situação?

LR: Talvez um estudo a médio/longo prazo, por parte do Estado e de quem tutela e representa as licenciaturas, no sentido de limitar o numero de vagas de acesso ao curso, por forma a minimizar o desemprego nesta área. Por outro lado, criar mais e melhores apoios à recuperação de imóveis antigos dos centros históricos, obrigando a intervenção de um arquiteto; aplicar a lei existente das multas por edifícios devolutos e terrenos baldios; abrir concursos de ideias para as obras publicas; impedir que projetos de arquitetura sejam assinados por outros técnicos. No fundo, manter o que já existe, mas aplica-lo com verdade e justiça! .

9. Na sua opinião pessoal, quais são as funções que um arquiteto pode desenvolver? LR: Projeto, acompanhamento de obra, direção técnica, formador técnico, etc. .

10. Um docente do ISCTE-IUL dizia que 'a melhor característica de um arquiteto é saber pensar'. É isto que nos distingue de todas as outras profissões? .

LR: Concordo que uma das características do arquiteto seja o “saber pensar”, mas não quero acreditar que seja essa a distinção em relação às outras profissões. Saber pensar é transversal a qualquer profissão. A característica que na minha opinião é mais reveladora de um bom arquiteto, seja o “antever” o futuro. (Desde projetar uma moradia para uma família que não conhece, mas que tem de ir de encontro às suas necessidades e planos futuros; ou projetar uma praça para uma cidade, dando-lhe um uso apropriado; deixar uma linguagem arquitetónica para as próximas gerações; deixar o lugar, melhor do que o encontrou!