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Entrevista a Nuno Vaz, Director adjunto de programas

No documento Relatório de Mestrado parte II (páginas 69-74)

Praça da Alegria

ANEXO 6: Entrevista a Nuno Vaz, Director adjunto de programas

Qual o motivo de terminarem com os dois programas de daytime, Praça da Alegria e

Portugal no Coração, e começarem o Agora Nós ao mesmo tempo que o Há Tarde? O facto de fazermos dois programas novos tem a ver com o meio em que estamos envolvidos, a televisão. É um meio com uma evolução que se dá em menores períodos de tempo e nós tínhamos dois programas com uma certa longevidade, o Praça da Alegria existia há quase 19 anos e o Portugal no Coração, também já com uma década. Apercebemo-nos que dali já não podíamos tirar mais nada daqueles formatos, tornando-se redundantes em si próprios. Ou seja, tudo à volta das mesmas temáticas e houve uma necessidade de “romper” com aquilo que vinha a ser a linha habitual quer os conteúdos quer a produção desses programas e tentar uma estratégia nova. Essa estratégia nova levou a acabar com esses dois títulos [Praça da Alegria e Portugal no Coração] que havia anteriormente, criar dois de raiz, reformatando os horários. Essa é a principal medida, não só termos novos programas com novos títulos, novos apresentadores, novos cenários, novos ambientes, novos decores, novas equipas, mas sobretudo reformatar os programas. O segredo dos programas, normalmente, está no seu formato. Primeiro, nós quisemos ter dois conteúdos diferenciadores, entre si e os concorrentes. Um dos problemas que tínhamos era que o Praça da Alegria e o Portugal no Coração tinham muitos pontos em comum e acabavam por se confundir na sua essência. Uma das nossas principais preocupações quando começámos a desenvolver estes dois programas era que estes fossem diferenciadores, que não se confundisse o Agora Nós com o Há tarde, e que cada um deles tivesse uma identidade muito própria.

Pode falar um pouco do entretenimento na RTP ao longo dos tempos? Que programas de entretimento (em género de talk show) marcaram a história da RTP? Qual é a aposta da empresa neste sector?

No último ano a aposto no entretenimento foi enorme. Nós temos de ter uma diferença do que era a RTP em 2012 e o que é em 2015. Em 2012 estávamos a sair de uma fase muito complicada em que havia uma intenção de alienarmos os canais e

estávamos a trabalhar para um canal hibrido durante muito tempo o que levou a um divórcio com o público e a uma queda de audiência muito grande. Ora para voltar a conquistar esse público percebemos duas coisas: que tínhamos de voltar em força à ficção diária e que teríamos de apostar em entretenimento de alta qualidade. Medidas que utilizamos nesse sentido foi abrimos faixas de ficção diárias quer à hora de almoço quer no prime-time, neste caso com os “Nossos dias” e “Bem-vindos a Beirais”, e em simultâneo começamos a preparar e a adquirir quer formatos originais quer formatos do estrangeiro que nos permitiram reforçar os horários de Sábado e Domingo à noite (aposta no entretenimento). Outro factor diferenciador é termos programas no prime- time que é coisa que os nossos concorrentes não têm: eles têm ficção, nós temos o Quem Quer Ser Milionário (teremos outros, e já tivemos outros também). Isso para nós é uma linha de extrema importância de segunda à sexta-feira porque há (e os números não metem) um grande auditório ávido deste tipo de conteúdos. Fizemos duas coisas, tendo em conta a nossa gestão de grelhas e de finanças, fomos encontrar produtos de custo relativamente mais baixo à noite, e nesse sentido desenvolvemos o Chef’s Academy feito em Portugal entre a RTP, a Shine Iberia e o Continente, um formato com imenso sucesso que já teve duas edições. Adquirimos os direitos do Sabe ou Não Sabe que é um formato israelita, mas fizemos em Portugal com o Vasco Palmeirim, aos Sábados à noite, e apostamos também ao Domingo à noite no grande entretenimento com o The Voice e o Got talent (duas marcas importantes a nível mundial). Fazemos um investimento muito sério do ponto de vista financeiro e de promoção. Nós acreditamos que esse investimento no grande entretenimento e na ficção foram absolutamente fulcrais para reconciliarmo-nos com o público, termos melhores resultados e chegarmos a um número de espectadores que nos permitem ter quer beneficio do ponto de vista da entrada da publicidade quer do “good viel” das pessoas que nos vêem. Faltava acrescentar isso no daytime e em Setembro de 2014 acrescentamos esses dois formatos Agora Nós e Há Tarde. A SIC recentemente investiu nos programas de daytime, a TVI é líder.

A televisão generalista tendeu a afunilar os géneros. Os canais assemelharam-se, programando noticiário contra noticiário, talk-show contra talk show, novela contra novela… O Agora Nós é uma forma de entrar nessa guerra das audiências? O que tem achado desta subida recente do programa?

Eu não chamaria guerra de audiências, mas competitividade e disputa, porque nós tivemos a partir do ano de 2012/ 2013, mas sobretudo a partir de 2014 uma atitude bastante agressiva nessa disputa. A RTP precisava desse tipo de entrada de público e de publicidade para a sua sobrevivência. Agora, obviamente que estamos atentos ao que os nossos concorrentes fazem, a TVI é líder há oito anos, mas a SIC tinha sido durante quinze anos. – Uma tendência que se inverteu. Nós achamos que não tínhamos de ser sempre os terceiros, nem estar no fim da fila, pois temos aqui quer ideias quer pessoas com possibilidade de recorrer a serviços que nos permitiam ter um conteúdo muito mais competitivo com os outros.

Qual é aqui a grande questão? A nível europeu os programas de daytime são uma inevitabilidade. Tendo um tipo de tom ou outro, em Espanha os programas de daytime são só sociais, é praticamente social, social, social, em França são mais à volta das regiões e coisas típicas deles. O que nós quisemos fazer foi: ok, é inevitável termos programas de daytime, porque esses programas fazem-nos um rácio ora custo, ora outras coisas, porque são programas que duram três horas. Onde é que poderíamos fazer a diferença? No que está lá dentro e o que está lá dentro é realmente diferenciador dos outros.

O Agora Nós tem sido tão surpreendente como o Há Tarde. Pela GFK, no horário da manhã e da tarde, fomos terceiros até Setembro de 2014. Hoje conseguimos, não só, subir as audiências nos dois programas, reforçar esses dois “slots”, como muitas vezes ficamos em segundo lugar, o que não acontecia há muito tempo. É muito difícil destronar a TVI - mesmo para a SIC -, mas conseguimos ficar à frente da SIC, algumas vezes.

O que torna o talk-show diferenciador dos talk-shows matinais dos outros canais?

Os conteúdos e, principalmente, o tom do programa. É uma coisa que é muito desvalorizada, e que para mim é muito importante enquanto produtor, o tom que se imprime nos programas. Eu acho que nós conseguimos uma dupla que funciona muito

bem, o José Pedro Vasconcelos e a Tânia Ribas de Oliveira. Não foi uma tentativa de imitar ninguém, as duplas são uma tradição. Aliás, a RTP é que começou com as duplas, [Manuel Luís Goucha e Anabela Mota Ribeiro], os outros é que seguiram o modelo. Mas… eu acho que os temas abordados aqui na RTP têm um cunho muito próprio: o mesmo tema tratado na SIC na segunda-feira, na TVI na quarta-feira e na RTP na sexta… Nós temos uma abordagem muito menos exploratória, sensacionalista, muito mais carinhosa, muito mais de ouvir, muito mais próxima e isso faz a diferença. As pessoas reconhecem que a RTP tem uma abordagem que não é aquela de estar sempre a tentar conseguir audiências a qualquer preço. Depois, o programa é muito variado, cumpre uma função social porque tem um determinado número de itens e rubricas com o médico, com os concelhos fiscais, com os concelhos financeiros, etc, que é muito importante para aquele público e para aquela faixa que esteja informado, e aí a RTP cumpre a sua função de SP, mas depois é muito divertido também porque traz gente muito interessante e engraçada, às vezes, para conversas que são absolutamente coloquiais e que funcionam bem, histórias que são bem pesquisadas e que as pessoas que gostam de ver.

Como é o perfil do público do Agora Nós comparativamente ao da Praça da Alegria?

Em termos de faixa etária, o grosso do público da manhã é mais ou menos o mesmo para os outros canais: pessoas com mais de 45 anos, que estão em casa, desempregadas. Conseguiu-se rejuvenescer o público da manhã, mas muito pouco. Esse tipo de números são quase sempre residuais, porque a maior parte dessas pessoas estão numa fase activa da vida, quer como estudantes quer como trabalhadores, etc. O que nós conseguimos foi recuperar o público que tínhamos perdido para os outros canais, quando começamos a baixar as audiências.

As pessoas adoram coisas novas. Se assim não fosse, as grelhas não se renovavam e os programas não se alteravam. O caso do Preço Certo é um caso único. Mas é um caso único, não na RTP, mas a nível mundial. O Preço Certo em nenhum local do mundo teve doze anos consecutivos no ar. Aliás, é um “case-study” e a própria freemantle internacional se surpreende com os números que faz. Tem muito a ver com o facto de ter um apresentador chamado Fernando Mendes [Portugal é o país em que o Preço Certo está há mais anos].

A televisão vive dessa renovação. É evidente que há marcas e conteúdos que são esticados no tempo enquanto forem vencedores. Eu se fosse director de programas da RTP não mexeria no programa Você na TV, com o Goucha e a Cristina, durante muitos anos, enquanto aquilo ainda funcionar. Como, nós aqui, programadores e gestores de conteúdos, lançamos o Bem-vindo a Beirais que foi um sucesso, está no ar há dois anos e pretendemos que dure até ao final deste ano. Isto é uma questão de equilíbrios. Agora é claro que isso não se compara com programas que têm 18/19 anos e já não têm mais para oferecer e aí mais vale haver uma quebra. Os grandes fenómenos de resultados na televisão têm sempre a ver com quebras, novidades e introdução de conteúdos novos. As pessoas que andam nos mercados internacionais, como eu, estamos sempre à espera da “next big thing”. Ninguém anda muito à volta do passado: “Ai o passado foi tão bom”, “aquilo funcionou tão bem”… as coisas funcionam até quando tiverem que funcionar. As pessoas estão à espera já do próximo The Voice, Got Talent ou Chefs Academy, da tendência que vem a seguir… Eu trabalho nisto há 20 anos, e há 10 anos nunca diria que conteúdos de cozinha fossem conteúdos prémio em prime-time pelo mundo inteiro e a verdade é que isso provou que era possível, como os programas de talentos que sofreram uma grande alteração até serem aquilo que são hoje… Agora andamos todos à procura do que poderá ser a próxima tendência.

ANEXO 7: Entrevista a Tânia Ribas de Oliveira, apresentadora do Agora Nós (e

No documento Relatório de Mestrado parte II (páginas 69-74)

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