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CAPÍTULO 2 – TRABALHO E TRABALHADOR

34 Ah, Eu acordo prá trabalhar/ 35 Eu durmo prá trabalhar/

5.5 Percepção dos autores

5.5.3 Entrevista com Herbert Vianna

- Trabalho e música

Música e vida são uma coisa só para Herbert Vianna. O trabalho com música representa “ter ganhos práticos com um sonho, com uma viagem idealizada, onde você pode ter o melhor canal de descarga emocional possível”, o que se completa por tocar com seus melhores amigos e com a “alegria de virar o mapa do país do avesso”. O trabalho do conjunto

Os Paralamas do Sucesso é “fruto de conjunção entre pessoas que são muito amigas e que

têm muito sonho de se comunicar através da música, de celebrar isso em todos os lugares possíveis. E tem o fato de que a gente há tanto tempo vem tendo uma resposta tão bonita”.

Herbert considera que a composição musical é “um grito, quando, de alguma maneira, você consegue rasgar o peito e dizer aquilo”. Mais do que veículo de expressão, ela opera como análise e catarse. Mesmo nos períodos mais difíceis depois de seu acidente, ao longo do processo de recuperação, a música foi elemento essencial e com múltiplos sentidos e finalidades. Existem canções “especialmente coisas da nossa geração69, que fazem toda a diferença, que são uma trilha muito, muito acolchoada para determinados momentos da vida, da busca, do aprendizado e tal. Um exemplo prático disso é... do meu estágio ali pós-coma, quando eu cantava o tempo inteiro eu vejo a vida melhor no futuro”. Ele fala emocionado. “Eu toco muito, praticamente todo meu tempo em que eu não tenha algo extra que fazer, alguma tarefa prática do dia a dia, eu tenho sempre um instrumento à mão e fico viajando nas coisas que eu já escrevi, nas coisas que adoraria ter escrito”.

- Processo criativo

Ao longo da carreira Herbert mudou sua forma de compor, mas ele não tem uma sensação clara da mudança de processo, pois não é articulado mentalmente, mas “acontece naturalmente. É com o passar do tempo, com a abertura de canais de sensibilidade, de alcance de comunicação e tal, que ele vai se auto-operando de uma maneira levemente diferente”.

Em 82 era muito intuitivo, “a coisa vinha e eu fazia, era uma geração espontânea, por pura observação do que acontece em volta”, às vezes com toques de humor. Ele diz que a música tinha um cunho político, englobando a preocupação dos adolescentes, da pessoa envolvida no contexto social. Segundo França (2003, p. 102), quando compunham o álbum

Passo do Lui, em 1985, Gilberto Gil aconselhou a banda: “Liguem suas antenas naquilo que

vocês estão vivendo agora”. O resultado, sob o ponto de vista dos Paralamas, é que nesse

álbum as letras foram mais fortes, com momentos de filosofia, mas sem uma poesia panfletária. Em 1988, quando lançou Bora Bora, Herbert anunciou um novo e marcante estilo de compor, com borrões que depois assumem um significado: “Eu diria que meu processo é muito de borrões impressionistas mesmo, arremesso de cores e profundidade, amplitude do que eu esteja eventualmente sentindo e não tenha é... articulado num discurso prático [...] e eventualmente de canções de constatações sociais práticas do dia a dia, da vida moderna [...] pondo em sequência várias coisas que venham. Mas é, basicamente, nada articulado em termos intelectuais”. A canção “abre janela pra sonoridade das palavras, pra métrica e aquilo possa gerar de sequência pra mim, pra alcançar o tamanho do verso e o tipo de impressão que eu esteja tentando causar, mas é basicamente isso, borrões impressionistas mesmo”.

Ao longo da carreira, houve, ainda, um momento no qual a composição estava relacionada à sonoridade das palavras e ao som da música, cuja expressão maior é Uma

Brasileira. Recorremos a França (2003, p. 213) para uma explicação dessa outra inovação:

Uma Brasileira é uma primorosa canção pop em ritmo de reggae que foi testada em

shows na temporada de Severino e imediatamente assimilada pelo público, o que se confirmou quando ela chegou às rádios. A letra foi feita na novilígua de Carlinhos Brown ao melhor estilo Chacrinha do eu-vim-para-confundir-e-não-para-explicar. Herbert e meia MPB se renderam ao carisma do inquietante filho do bairro do Candeal, em Salvador, que parece movido à energia nuclear. Seu estilo é buscar palavras que se ajustem à melodia da canção que está compondo, pouco importa se fazem sentido ou não. Assim, ele e Herbert cometeram esse primor de letra que brinca com o som das palavras como “Tatibi-tate/ Trate-me trate”, proclama que “Somos do interior do milho” e diz que “esse ão de são / hei de cantar naquela canção”. E o Brasil inteiro foi atrás.

Além de temas relacionados a questões sociais, Herbert se orgulha de compor para mulheres, com visões femininas nas letras. “Eu dou canções pra mulheres, por uma sintonia de amizade, de contato que eu sempre tive com algumas cantoras e pelo entusiasmo que eu percebo nelas de eu ter realmente pontos de vista femininos, mais amplos e não o clichê machista mais rasteiro.” Seus três filhos às vezes são inspiração para uma canção, “mas eles não participam de nenhuma outra forma que não seja a forma natural, pai e filho”. E completa: “Tudo que me causa qualquer tipo de impressão, sensação, alegria, tristeza, o que quer que seja, eu acabo levando um tempo maior para digerir e tentar entender, ver todos os ângulos. Eventualmente algumas dessas sensações, desses momentos, se tornam uma canção”.

- O público

Herbert Vianna não fica imaginando a reação ou o entendimento do público acerca de suas composições. Depois de selecionadas e gravadas em um novo álbum é que o grupo avalia qual canção é melhor “pra abrir em termos radiofônicos”. Mas, antes disso, ele

“tenta buscar cem por cento de autenticidade no quadro impressionista que esta produzindo” e “é uma alegria gigantesca ver tanta sintonia com coisas absolutamente autênticas que eu tenha escrito numa canção!”. Mas isso não o influencia operacionalmente em próximas criações.

Para ele, a arte tem um aspecto muito peculiar e que o faz pensar: a diversidade de leituras que possibilita. “No fundo, isso é um dos aspectos de mais riqueza da arte, seja pintura, seja cinema, seja qualquer tipo de texto... é a leitura que cada um passa a ter e quanto aquilo pode servir como ferramenta para impressões e sentimentos diferentes”.

Desde que retomou a vida artística em shows após seu grave acidente, Herbert Vianna considera que passou a ter um lugar privilegiado no palco vendo a plateia e suas reações: “A possibilidade de ter esse tipo de leitura é, eu diria, um privilégio acima das palavras. Antes eu não tinha de nenhuma maneira, era um rio de suor, uma perda de peso gigantesca e a completa invisibilidade da expressão das pessoas. Eu só via a plateia como uma massa, dançando, fazendo, enfim, sincronias de gesto e de reação.” Fazer o show sentado em uma cadeira de rodas alterou, inclusive, a incidência da luz sobre ele, permitindo a melhor visualização de detalhes do público e uma proximidade maior com este: “Eu tenho ali um grau de leitura a respeito da expressão, da determinação e da autenticidade com que as pessoas adotam aquele grito como uma ferramenta de vida ou, eventualmente, de diálogos de olhares entre pessoas na plateia quando eu digo coisas com uma música. Isso sempre ocorre. Eu acendo mais uma janela de atenção quando eu estou cantando, [como] numa canção que eu escrevi há muito tempo trás, em que eu digo às vezes te odeio por quase um segundo,

depois de amo mais...” E completa:

Observar os olhares das pessoas, como elas se expressam na interpretação de cada canção, como aquilo pode representar algo pra uma pessoa que, por exemplo, não era nascida ainda na época que a gente lançou aquela canção, ou que viveu determinadas experiências que a gente retratou em uma música... Esse ponto de vista é um privilégio absolutamente acima das palavras mesmo... com ene pontos de exclamação!

- Capitão de Indústria

Quando eu falei de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle e que tínhamos escolhido uma canção para “estudar” em detalhe, imediatamente ele mesmo citou Capitão de Indústria, já falando sobre a época do lançamento da versão original em 72: “Essa é uma música que me marcou muito na época, porque, especialmente Brasília, onde a gente vivia, era uma cidade com quase zero de atividade cultural e com uma conexão obsessiva com meios de comunicação. Eu era bem moleque, assistia muita televisão e numa certa novela na época, essa música me chamou atenção.” Anos depois, já amigo de Paulo Valle, Herbert sempre