CAPÍTULO 2 – TRABALHO E TRABALHADOR
3.3 Música, trabalho e o malandro
Ao discorrer sobre a história da música propositalmente destacamos alguns aspectos sociopolíticos que servem de conexões para os temas trabalho e trabalhador, mas identificamos poucas menções específicas sobre tais assuntos. Encontramos, sim, a malandragem, que amplamente abordada na antropologia e na sociologia também é recorrente quando na música popular brasileira. Vasconcellos (apud OLIVEN, 1982, p. 32) 52 a descreve:
Enquanto a maioria da população é obrigada a ingressar na produção e viver de um trabalho mais ou menos regular, submetendo-se às exigências da labuta em conformidade com o código ideológico dominante, o malando – sublinha nosso cancioneiro popular – parece ter um destino social mais brando, dando aqui e ali um jeitinho no aperto, através da sua irresistível picardia e da sua visagem sedutora. Embora seja a cama uma „folha de jornal‟; o cortinado, um vasto céu de anil‟; o despertador, um „guarda civil‟, ele sempre arruma uma saída para a penúria, como sugerem Noel e Kid Pepe em O orvalho vem caindo.
Adorado ou rechaçado, mas amplamente cantado e mencionado em diferentes enfoques, o malandro aparece mais como um personagem reverenciado pela cultura brasileira, um mito, do que como uma análise da extensão do trabalho ou do não-trabalho, decorrente das discrepâncias da sociedade urbano-industrial. Existem pesquisas específicas sobre o malandro na música53, o que não é o nosso foco. O corpus dessa pesquisa não inclui músicas
52VASCONCELLOS, Gilberto. Yes, nós temos malandro. In: Música popular: de olho na fresta. Rio de Janeiro:
Graal, 1977, p. 104.
53Citamos como exemplo O fio da navalha, malandragem na literatura e no samba, de Dealtry (2009); ou ainda
sobre a malandragem quando a aborda por outros aspectos que não a menção explícita da
atividade de trabalho ou do personagem trabalhador. Neste referencial teórico abordaremos
brevemente essa conceituação do malandro para também situar as análises posteriores.
Para DaMatta (1997, p. 42), o mito, assim como o ritual, “são dramatizações ou maneiras cruciais de chamar atenção para certos aspectos da realidade social, facetas que, normalmente, estão submersas pelas rotinas, interesses e complicações do cotidiano”. O malandro brasileiro é um desses mitos. Ele é um ser deslocado das regras formais, com jeito de andar, falar e se vestir individualizados, completamente avesso ao trabalho, fatalmente excluído desse mercado. O oposto dele é o ator das paradas militares e dos rituais da ordem, no qual o importante é o exterior, a hierarquização e a conduta. O malandro vive nos interstícios do sistema, pois, ao contrário do herói, se tentar dominar a estrutura do poder, sobrepondo-se a ela, acaba por ser por ela reabsorvido. “No universo da malandragem, o que conta é a voz, o sentimento e a improvisação: aquilo que, em nossa sociedade, é definido como pertencente ao „coração‟ e ao „sentimento‟. [...] é o coração que inventa as regras” (Ibidem, p. 265). DaMatta ainda apresenta gradações da malandragem, que vão desde um estágio no qual é socialmente aceita, sendo vista como esperteza e vivacidade, até o extremo do desonesto, passando a viver de golpes, tornando-se um bandido.
Na música, o malando e a malandragem surgiram a partir de 1920. Segundo Oliven (1982), na década de 30 a malandragem foi retratada como estratégia de sobrevivência e concepção de mundo, pois o trabalho representava sofrimento, sendo inútil para as classes subalternas. Nas letras, o trabalho aparecia como destino, sendo que a salvação se dava pela malandragem e não pelo trabalho. O malandro era valente e esperto para sempre escapar das confusões nas quais se metia, tinha categoria e estilo e sempre achava um otário para dar um golpe. Faziam parte de sua realidade o jogo, a aposta e a sorte. Ele era um herói sem caráter, orgulho da raça brasileira, mas que, por vezes, se tornava perigoso com sua navalha. Os pares antitéticos malandro/otário eram constantemente mencionados, o trabalho representava uma instituição da qual se devia fugir e o prazer era encontrado com as mulheres.
O Bairro do Estácio, espécie de limite da expansão do velho centro da cidade na direção da zona norte do Rio, tendo surgido na segunda metade do século XIX [...] foi abrigo desde o início de uma população proletária e de pequeno comércio e atividades artesanais. A proximidade com a zona de prostituição do Mangue, porém, atraía para os seus muitos bares nas vizinhanças do Largo do Estácio os bambas da zona, isto é, os tipos especiais de empresários que viviam – graças a seus dotes de esperteza ou valentia – da exploração do jogo ou das mulheres. Esse tipo de personagem, à época também conhecido por bam-bam-bam – e na linguagem da imprensa chamado de malandro –, constituía na realidade produto da estrutura econômica incapaz de absorver toda a mão de obra que nessa área urbana crítica se acumulava. (TINHORÃO, 1998, p. 291).
Para Wisnik (2006), nos anos 20 e 30 havia uma negação moral do trabalho e da conduta exemplar que surgiu no ethos do samba, mas que segundo o autor, seria mais um antiethos. E a negativa ética viria acompanhada de entrega ao prazer da dança, do sexo e da bebida, com um orgulho da vadiagem, correspondendo a uma ética oculta, “uma vez que a afirmação do ócio é para o negro a conquista de um intervalo mínimo entre a escravidão e a nova e precária condição de mão de obra desqualificada e flutuante” (Ibidem, p. 119). Wisnik afirma que a esfera do trabalho não estava ausente, como poderia parecer, mas projetava-se na música como uma imagem invertida, pois o principal personagem – o operário – era ofuscado pelo malandro, com sua rítmica sincopada, buscando uma identidade no quadro da sociedade de classes que estava se formando.
Com a instauração do Estado Novo e a apologia ao trabalho feita por Getúlio Vargas, a figura do malando passou a ser non grata, devido às recomendações de exaltação ao trabalho. A sua “regeneração” se dava principalmente por influência da família ou de uma figura feminina. Do fim deste regime até a segunda metade da década de 60 – início de nova ditadura – a classe média incorporou o tema e, segundo Oliven (1977, p. 59-60), Chico Buarque assinou o atestado de óbito do autêntico malandro. Com Homenagem ao Malandro, cantou “a falência do „malando pra valer‟ que teve que se inserir nas malhas do processo produtivo: aposentou a navalha, tem mulher e filho e, pasmem, até trabalha tendo de se sujeitar aos trens da Central”. Mas, apesar do reduzido espaço social que ainda restava à vadiagem, a malandragem permaneceu como um dos polos de identidade nacional (OLIVEN, 1977).
O malandro adquiriu outro perfil – o regular oficial – que já não era mais das classes exploradas, tornando-se figura a ser combatida por ser um sinônimo de corrupção institucionalizada (contando com o aparelhamento institucional a seu lado), de lucros abusivos e da certeza que os trabalhadores continuariam a ser explorados, conforme explica Dealtry (2009). Oliven (1977, p. 73), então, constata:
O que parece caracterizar o Brasil é justamente o fato de ser uma sociedade de imensas diferenças sociais e econômicas, na qual se verifica uma tendência de transformar manifestações culturais em símbolos de coesão social, que são manipulados como formas de identidade nacional.