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Gabriela56 declara que:
Se ele (referindo-se ao dono da empresa a qual presta serviço) tivesse um pique de produção maior, seria ótimo, pois daria uns dois mil de salário, (assim conseguiria) tirar as despesas com o pagamento do INPS e a luz. Os gastos com energia elétrica alteram-se muito de acordo com as estações do ano, no verão segundo a mesma, não dá pra ficar sem ar condicionado senão você não tem pique de produção.
Ainda de acordo com Gabriela, sua jornada de trabalho começa as 8h00 e finaliza às 20h00, intercalando intervalos das 11h30 às 13h00 e entre às 17h30 às 18h30, para realizar as refeições e as atividades domésticas, ou seja, na condição de trabalho alienado, a mesma compreende que para qualificar a renda necessita produzir e não lutar por melhores condições de trabalho. Nessa circunstância, “é igualmente do interesse pessoal do trabalhador prolongar a jornada de trabalho, pois assim aumento seu salário diário ou semanal” (MARX, 2013, p. 625)
Como a qualidade e a intensidade do trabalho, são, aqui controladas pela própria forma-salário, esta torna supérflua parte da supervisão do trabalho. Ela constitui assim o fundamento tanto do moderno trabalho domiciliar anteriormente exposto quando de um sistema hierarquicamente concatenado de exploração e opressão. [...] O salário por peça facilita, por um lado, a interposição de parasitas entre o capitalista e o assalariado, o subarrendamento do trabalho. O ganho dos intermediários advém exclusivamente da diferença entre preço do trabalho pago pela capitalista e a parte desse preço que eles deixam de chegar efetivamente ao trabalhador. [...] Por outro lado, o salário por peça permite ao capitalista firmar com o trabalhador principal – na manufatura – [...] um contrato de tanto por peça, a um preço pelo qual o próprio trabalhador principal se encarrega de contratar e pagar auxiliares. A exploração dos trabalhadores pelo capital se efetiva, aqui,
mediante a exploração do trabalhador pelo trabalhador (MARX, 2013, p. 624).
Nas situações de flutuação na produção (redução/ampliação) as entrevistadas relatam realizar “bicos”, ou até mesmo, reproduzirem a cadeia de subcontratação de exploração do trabalho alheio.
Na sociabilidade capitalista a extorsão do tempo de trabalho, na sua forma assalariada como mercadoria, consome o tempo de vida pessoal e familiar, inclusive o tempo de ser criança, ocorrendo a destruição de espaços valiosos de sociabilidade humana e social. Aprendemos que o tempo é o campo de desenvolvimento humano. Por isso, a tarefa de libertá-lo da medida do dinheiro é a nossa luta do presente (PAIVA, 2011, p. 24). Nos períodos de redução da produção, quando não trabalham nas facções, as entrevistadas contam que exercem temporariamente outras atividades profissionais, como: produção de alimentos, auxiliar de serviços gerais (faxinas), costura retalhos, roupa de cachorro e para lojas de 1,99, ou ainda, vendas. Enfim, toda atividade é aceita desde que possibilite certo patamar de renda e garanta condições mínimas de acesso às necessidades básicas.
Referente à diminuição da demanda de trabalho, Daniela sinaliza que durante o ano há um período que é “cruel” (...) os meses de “janeiro e fevereiro”, pois as empresas não repassam trabalho às facções, pois restringem a produção por ser um período de declínio nas vendas no segmento do vestuário e em decorrência de terem disponibilizado 30 dias de férias aos empregados. O que demonstra que o trabalho quarterizado é complementar e intercalado aos processos produtivos nas empresas do ramo do vestuário e a partir dos processos de gerenciamento e gestão dessas confecções define quando, quanto, como, onde, quem e o quê serão produzidos.
No momento que existe a ampliação na produção contratam outras pessoas da vizinhança ou incluem familiares no processo produtivo, a exemplo, o marido, os filhos, os irmãos, inclusive utilizando do trabalho infantil, em alguns momentos, desvalorizando assim sua força de trabalho, consoante Marx.
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O valor da força de trabalho estava determinado pelo tempo de trabalho necessário à manutenção não só do trabalhador adulto individual, mas do núcleo familiar. Ao lançar mão de todos os membros da família do trabalhador a maquinaria reparte o valor da força de trabalho do homem entre a família inteira. (MARX, 2013, p. 468)
Essa situação é agravada, tendo em vista que não estabelecem contratos formais de prestação de serviço, constituindo os acordos feitos “boca a boca”. Daniela57, conta sua experiência e diz que “não pega trabalho de quem não conhece [...] trabalha para uma vizinha e que a sua irmã que também possui facção”, pois não possui contrato formalizado, as negociações são feitas boca a boca. Clara58, sobre o assunto, descreve “não há contrato, a gente não tem, como é que eu vou te dizer” [...] “a empresa a qual trabalho tem uma vinte e poucas facções prestando serviço para ela”.
Como se pode observar, a confiança entre os trabalhadores é construída no dia a dia conforme os envolvidos nas negociações cumprem os acordos firmados de repasse e pagamento pelo serviço. Na relação capital-trabalho, no contexto do respectivo estudo, as subcontratações acabam sendo mediadas pelas relações de parentesco e vizinhança, intimamente ligada à ideia de que as expectativas serão correspondidas. Entretanto, nesse universo de incerteza e insegurança, os quais estão expostos os trabalhadores, a amizade serve como uma maneira de contornar e de legitimar ausência de contratualidade. Assim se cria uma rede informal de proteção, cuja confiança é a garantia das relações e acordos. Cabe mencionar, os referidos vizinhos e parentes também se encontravam em relações de trabalho informais e condições precarizadas, confirmando o entendimento que no contexto de acumulação flexível amplia-se a cadeia de exploração do trabalho alheio e que a única certeza que se tem e de que será explorado.
No modo de produção capitalista, o trabalho visto como um contrato livremente acordado entre capitalistas (possuidores de mercadorias e compradores) e trabalhadores (vendedores da força de trabalho), que se encontram em classes sociais em disputa, encobre “armadilhas”, diante das diferentes condições que estão postas a